O Sola Scriptura e as Escrituras
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| "A doutrina dos Apóstolos e dos Profetas é recebida na Igreja como fundamento; mas cabe ao Magistério interpretá-la autenticamente, e à Tradição transmiti-la fielmente." (São Tomas de Aquino) |
I- O Que é Sola Scriptura
Primeiramente, precisamos definir o que é sola scriptura, dentro dos paradigmas que os próprios reformadores apresentavam, para não incorrermos no erro de atacar um conceito distorcido. Para isso, vamos analisar dentro dos documentos protestantes, o que de fato é o conceito. O primeiro documento da reforma, que se tem notícia, são as 95 teses de Lutero. Em pelo menos, três momentos no documento, Lutero cita as escrituras. Em uma (tese 18), ele menciona ela como fonte de doutrina, mas não a única fonte, vejamos:
18ª - "Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas do purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor."
A priori, a declaração de Lutero nessa tese, parece indicar, que ele não via contradição entre a crença no purgatório e as escrituras. O que Lutero parece discordar, é de que nada que se faça em vida, pode mudar o destino das almas no purgatório. A tese 29, reforça isso, quando ele cita dois personagens: Santo Severino e Pascoal, que parecem terem tido experiências místicas com o purgatório, e que Lutero usou como argumento contra a venda das indulgências. O que transparece na declaração de Lutero nessa tese, é que não havia ainda nele, uma sólida convicção no sola scriptura, já que ele fala em "boas razões" e "as escrituras," na sua argumentação. Não se sabe, o que ele exatamente quis dizer com boas razões, mas pelo que citamos da tese 29, não seria exagero dizer que ele está se referindo a tradição da igreja. Em duas outras teses, ele fala da palavra de Deus:
52ª - Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
53ª - São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.
A palavra de Deus, que Lutero menciona, pode estar se referindo a palavra escrita; mas também tem haver com a pregação; ou a catequese em cima do texto. O que temos, é que ele ali não define uma exclusividade das escrituras, mas sim, ele critica que outras praticas estavam substituindo o lugar que elas tem no culto. Lutero vai se posicionar mais fortemente a favor do sola scriptura, na dieta de Worms, no debate contra o Dr. Johann Eck:
" A não ser que eu esteja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pela razão clara (pois não confio nem no Papa ou em concílios por si sós, pois é bem sabido que eles frequentemente erraram e se contradisseram) sou obrigado pelas Escrituras que citei e minha consciência é prisioneira da palavra de Deus. Não posso e não irei renegar nada, pois não é sem seguro e nem correto agir contra a consciência. Que Deus me ajude. Amém." (Brecht, Martin. Martin Luther. Tr. James L. Schaaf, Philadelphia: Fortress Press, 1985-1993, 1:460).
Nessa declaração, Lutero assume uma posição que se tornaria a pedra fundamental da reforma. Acredito que o primeiro movimento de Lutero, na critica ao abuso das vendas de indulgências, tinha suas razões, porém, ele extrapolou a razão que tinha, e transformou isso em um principio desastroso para o cristianismo. A resposta do Dr. Eck a ele, resume bem o que de fato o sola scriptura causou e causa na historia cristã:
"Martinho, não há nenhuma das heresias em particular que tenha despedaçado o seio da igreja, que não seja derivada em sua origem das várias interpretações das Escrituras. A própria Bíblia é o arsenal no qual cada inovador se baseou para seus argumentos enganadores. Foi com textos bíblicos que Pelágio e Ário defenderam suas doutrinas. Ário, por exemplo, encontrou a negação da eternidade do Verbo, uma eternidade que você admite." (Martin Luther." (Life of Martin Luther; Luther by Martin Luther).
Outro reformador bem conhecido, foi o suiço, Ulrico Zuínglio, ele obviamente, também abraçou o principio do sola scriptura. Com obviamente, quero dizer, que as criticas dos reformadores, só se sustentavam, à medida que era conveniente afirmar que tal e tal coisa não estava na escrituras, e com isso, desqualificar o ensino da igreja. Zuìnglio em um dos seus 67 artigos, apresenta sua opinião:
"...Ninguém aqui empreenda publicações com sofismas ou com insensatez humana, mas venha às Escrituras e as aceite como juízas (pois as Escrituras exalam o Espírito de Deus), para que a verdade seja encontrada, ou, se já encontrada, como eu almejo, seja retida. Amém. Assim possa Deus reinar." (Zwingli's 67 Articles - World History Encyclopedia).
Outro documento importante de fé protestante é a Formula de Concórdia, escrita 31 anos depois da morte de Lutero. Junto com outros documentos, a Formula de Concórdia faz parte do Livro de Concórdia, e abarca tudo o que a Igreja Luterana professa em questão de doutrina e prática. O documento deixa bem explicito a questão do sola scriptura:
"Sola Scriptura é um lema, um guia de ação, para todo verdadeiro luterano, pastor ou leigo. Essa era a posição e a prática de Lutero e de nossas Confissões Luteranas. A Palavra de Deus é e deve permanecer a única regra e norma de toda doutrina." (Formula de Concórdia; regra e norma, 9).
Não poderia faltar a Confissão de Fé de Westminster, documento professado pelas igrejas presbiterianas:
" O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura." (C. F. Westminster; Cap I, § X).
Existem muitos outros documentos e profissões de Fé adotadas pelas igrejas que se originaram da reforma protestante, incluindo às de linha pentecostal, como a Assembleia de Deus (aqui). Mas basicamente, todos vão dizer a mesma coisa em relação ao conceito do sola scriptura:
- No caso de doutrinas, ou seja, naquilo que o crente acredita em relação a Deus, salvação, pecado, igreja, vida no porvir etc., Tudo tem que estar nas escrituras, de maneira explícita ou implícita.
- As Escrituras estão acima de todas as instâncias: como concílios, escritos patrísticos e qualquer outra fonte de conhecimento.
- As Escrituras para os protestantes, está circunscrita aos 66 livros que compõe o cânon; 39 no Velho Testamento e 27 no Novo.
II- O Sola Scriptura é Confiável?
Sabedores do conceito, podemos agora partir para analisar os problemas resultantes de se depender do sola scriptura, e também, perceber que ele não funciona. Voltando lá atrás, no início da reforma, com Lutero e Zuínglio, já conseguimos ver a primeira discordância e o primeiro resultado da nova regra criada pelos reformadores. Lutero e Zuínglio não conseguem superar a primeira discordância que surge usando o princípio do sola scriptura. O primeiro, defendendo a presença real de Cristo na ceia; e o outro, entendendo apenas que a ordenança é simbólica; Lutero, interpretando 1 Co 11.24: " isto é o meu corpo..." como sendo literal, e Zuínglio, usando uma lógica mais racionalista, interpreta metaforicamente a expressão. O grande clímax do debate deles se deu no Colóquio de Marburgo, que ocorreu em 1529, ou seja, um pouco mais de uma década depois do início da reforma. Mas antes disso, já ocorreria o surgimento dos anabatistas, que também discordaram dos outros reformadores em relação ao batismo. Isso era algo previsível, o que a reforma fez, foi tirar a autoridade do magistério da igreja e fazer que qualquer leitor da bíblia se tornasse o seu próprio magistério. Normalmente o contra argumento a isso, é dizer que na igreja católica também há discordâncias, e que portanto, a metodologia católica também falha. A grande diferença entre as discordâncias protestante e católica, é que no protestantismo as divergências normalmente levam a formação de outra igreja. Na Igreja Católica, os divergentes permanecem católicos, muitas vezes censurados pela igreja, mas normalmente continuavam na comunhão. Podemos citar dois exemplos disso, Teilhard de Chardin e o Frei Leonardo Boff. Ambos tiveram seus escritos e obras muito criticados pela igreja. Leonardo Boff por exemplo, perdeu sua condição de Frei e virou um leigo, mas, permanece até hoje católico. Mesmo aqueles que são excomungados, por não quererem mudar suas posturas contra a doutrina da igreja, muitos permanecem católicos, mas não comungam mais, até que haja arrependimento.
No caso protestante, por causa do sola scriptura, a solução e sair de um grupo e formar outro; e assim sucessivamente. Ou seja, quando a interpretação não bate mais com o grupo principal, os interpretes da nova perspectiva rompem e partem para fundar uma outra denominação. Também havia o caso da excomunhão, quando a própria igreja excluía o grupo divergente, e esses então, não aceitando a exclusão, acabavam fundando outra igreja. Um exemplo, foi a origem da Assembleia de Deus nos EUA e Brasil. No Brasil, missionários vindo dos EUA e que foram influenciados pelo movimento pentecostal ocorrido na rua Azusa, Los Angeles, começaram a interpretar as passagens de Atos dos Apóstolos, que falavam do recebimento do Espirito Santo, como sendo uma experiencia distinta da conversão. Um grupo então se formou, especialmente oriundos da Igreja batista, que por sua vez, convidou o grupo a abandonar suas novas perspectivas, sob pena de exclusão, o que acabou ocorrendo. O grupo então excluído, acabou formando a Assembleia de Deus. (AD origem). Esses vislumbres na historia protestante, mostram no que deu o sola scriptura, cada grupo divergente, ao romper ou ser expulso do grupo maior, alegava ter uma melhor interpretação das escrituras em relação a algum ponto específico. Mesmo concordando em diversos pontos, muitas vezes, uma opinião diferente levava ao rompimento, para que na visão do grupo sectário, a verdade ficasse mais completa, ou mais próxima da interpretação correta do texto sagrado. Podemos dizer então que o sola scriptura não é confiável pelas seguintes razões:
1) Tira a autoridade da Igreja e entrega para o individuo;
2) Compromete a unidade dos cristãos;
3) Impõe a subjetividade do interprete na interpretação do texto sagrado.
Vamos detalhar mais cada ponto. No ponto 1 queremos dizer que o sola scriptura tira a autoridade do magistério e entrega ao individuo. Na prática as igrejas protestantes tem seus respectivos magistérios, e quando um individuo daquela denominação propõe uma doutrina que não esteja de acordo com o entendimento dela, normalmente a opinião do magistério é imposta sobre a do individuo. Nesse ponto, o processo é semelhante com a Igreja Católica, porém, no caso protestante, um magistério da denominação tal, é oriunda de outro, que por sua vez, vem de um terceiro e assim recuando, voltaremos a igreja original. Ou seja, primeiramente, um ou mais indivíduos, por causa do principio do sola scriptura, discordam de algum ponto doutrinário especifico e rompem com o grupo, criando uma nova denominação, com um novo magistério. Um exemplo, foi o citado anteriormente da Igreja Assembleia de Deus, em relação à Igreja Batista. Cada igreja passa a sofrer do mesmo principio que usou para contestar a igreja anterior. No final das contas, o sola scriptura vira um: "sola mea interpretatio," somente minha interpretação.
A segunda razão é consequência da primeira. Quando o principio do sola scriptura é adotado como regra, o individuo passa a ser o que chamamos de dono da verdade. O segundo passo é inevitável, que é o caminho da separação. No pensamento de quem defende o sola scriptura, não é possível conviver com quem está distante da verdade da escritura, verdade, que o separatista acredita estar vivendo; ao contrario da igreja da qual ele saiu. Segundo o site Lausane, em 2023 existia 43.000 denominações protestantes. Segundo o mesmo site, haverá até 2050 cerca de 64.000 (lausane). Não tem como dizer que existe unidade em um movimento que gera mais de 40.000 denominações. Mesmo que possamos encontrar fatos positivos em relação a essa variedade de denominações, como por exemplo, a propagação do evangelho, especialmente na grande força missionário que surgiu pós reforma. Todavia, essa multiplicidade de igrejas gera um contraevangelismo, pois quem nunca ouviu de um não cristão a seguinte pergunta: por que existem tantas igrejas se o evangelho é o mesmo? Uma resposta sincera a essa pergunta seria dizer que é por causa das diferentes interpretações que se dá a essa ou aquela passagem bíblica. Muitos protestantes afirmam que a diferenças entre uma igreja e outra, não são em questões essenciais e sim periféricas. Mas isso não corresponde totalmente com a verdade, já que, se as diferenças realmente são periféricas, não haveria necessidade de separação. Ou seja, aqueles que se separaram de um grupo, consideram que o motivo foi importante o suficiente para não mais estar junto com o outro grupo. Sendo assim, diferenças teológicas não são tão desprezíveis como apologetas protestantes afirmam. Ser calvinista ou arminiano, é motivo de grandes debates e divisões no protestantismo. Um pregador calvinista não prega em igreja arminiana e vice versa. Comparando à Igreja Católica, guardadas as devidas proporções, ela também tem diferenças parecidas com calvinismo e arminianismo, são os molinistas e os tomistas. O molinismo, normalmente defendido pelos jesuítas, e o tomismo, defendido pelos dominicanos, são diferenças encontrado na Igreja, porém essa diferença é perfeitamente conciliada, prova disso, que todos estão em perfeita comunhão com a Igreja.
O terceiro ponto é a imposição da subjetividade do interprete na hora da interpretação do texto, e por conseguinte na elaboração da doutrina. Mesmo o melhor exegeta protestante, com todos os recursos hermenêuticos disponíveis, vai usar de sua subjetividade e de idiossincrasias na hora de definir o significado do texto. Obvio que um exegeta católico também o fará; porém, diferente do protestante, esse fará de acordo com o magistério e com a tradição da igreja. Usando uma analogia, podemos comparar com um esporte que depende de jurados para se definir o vencedor. Por exemplo, no salto ornamental. Ele é definido por sete jurados que usam critérios objetivos, mas também subjetivos. Um jurado pode interpretar, baseada na sua subjetividade, que determinado atleta realizou um salto melhor do que outro. Se o resultado final da disputa dependesse só da subjetividade de cada jurado, haveria uma grande possibilidade de haver uma injustiça no resultado. Mas, existem critérios objetivos que os jurados usam na hora da avaliação, também há mais de um jurado julgando, além da nota que vai de zero a dez pontos. Todos esses critérios diminuem a subjetividade dos jurados, fazendo com que, o resultado seja mais justo. Aplicado isso a nossa questão, a Igreja Católica não baseia seus dogmas só em dados subjetivos de seus interpretes, ela usa sim as escrituras, mas conjuntamente com a tradição apostólica, como fonte de ensino e ainda tem o magistério, que é o guardião do deposito da fé. Um dogma da igreja passa pelas escrituras, mas passa também pela tradição apostólica, que é rastreável na historia. Por exemplo, no caso da virgindade perpetua de Nossa Senhora, não basta pegar textos bíblicos que falam nos irmão de Jesus é chegar a conclusão que Ela não permaneceu virgem. Esse é um exemplo claro sobre a falacia do sola scriptura. Um protestante interpreta que os irmãos de Jesus são necessariamente filhos biológicos de Maria, porém ignora que os pais da igreja diziam que Ela permaneceu virgem. Ora, os pais da igreja, conheciam os textos que falavam dos irmãos de Jesus, mas não interpretavam como os protestantes interpretam. Logo, não podemos ignorar essa informação, os pais da igreja não acordaram de manhã e concluíram que Nossa Senhora era virgem perpetuamente, sem nenhum critério. Eles diziam que Ela permaneceu virgem, por alguma informação que eles receberam de alguém. Essa informação chama-se tradição apostólica. Os pais da igreja receberam a informação de que Ela permaneceu virgem de pessoas anteriores a eles. Baseado nisso, podemos entender que os irmãos de Jesus, não são filhos de Maria, e sim, tem um outro grau de parentesco, talvez filhos de José de um primeiro casamento, conforme os ortodoxos defendem. Exatamente isso que torna a doutrina católica tão consistente; os dogmas não nascem de entendimento particular dentro de um quarto ou sala, é algo que é vivo, começa como um riacho e cresce até se tornar um rio.
III- O Sola Scriptura está nas Escrituras?
Entramos agora na questão central para a nossa discussão. Se o princípio do sola scriptura, tão caro para o protestantismo, está nas escrituras. Para isso, teremos que analisar os textos que eles usam, incluindo os que eu usava, nos tempos de evangélico. De início, a primeira coisa que podemos dizer, é que não há nenhum versículo ou texto que diga que as escrituras é a única regra de fé. Um dos textos mais usado por protestantes para provar o principio é 2 Tm 3.16-17: "Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja plenamente preparado para toda a boa obra." De largada, o texto não fala de exclusividade da escritura, ele fala da inspiração e da importância na formação moral e espiritual do crente. A pergunta que se levanta então é: se a escritura tem essa importância, e é capaz de preparar plenamente, por que precisamos de outra fonte? Primeiro, precisamos entender que a outra fonte que nos referimos, é a tradição apostólica. Essa, é o que os Apóstolos que Nosso Senhor escolheu, ensinaram no curso de suas vidas. Jesus escolheu 12 Apóstolos, um deles; judas, se perdeu, mas foi substituído por Matias. A esses, se juntou São Paulo; autor de 13 livros (14 caso Hebreus seja dele) do Novo Testamento. Além desse grupo, ainda temos, São Marcos e São Lucas que não eram do grupo dos doze, mas que escreveram evangelhos, certamente assistidos pelos apóstolos. Tudo o que esses homens escreveram (escrituras), e falaram (Tradição oral); é o que chamamos de deposito da fé. Muitos ensinamentos dos apóstolos não foram escritos, mas foram passados adiante aos que os sucederam. Esse princípio é claramente ensinado por São Paulo: "O que de mim ouviste, por meio de muitas testemunhas, isso confia a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros." (2 Tm 2.2). Esse texto é muito esclarecedor ao outro citado anteriormente. Nele, o Apóstolo não se preocupa em mostrar que o que está escrito é melhor em relação ao que é falado. Tanto um como outro, é palavra de Deus. Paulo NÃO diz: "aquilo que você aprendeu do que escrevi"; mas sim, "o que de mim ouviste". E ainda acrescenta: "por meio de muitas testemunhas." Por que para São Paulo é importante citar as testemunhas? Justamente, porque muitas coisas ensinadas por ele a Timóteo, não foram escritas, mas foram ouvidas por testemunhas, que confirmavam os ensinamentos.
Paulo também pede que Timóteo faça o mesmo, que transmita os ensinamentos a outros é assim por diante. Agora pensem o seguinte: muitos dessas instruções Paulinas a Timóteo não foram registradas, e por conseguinte, as de Timóteo aos outros discípulos, também não. Prova disso, que não temos nenhum livro ou epístola conhecida, escrita por Timóteo. No caso de 2 Tm 3.16, Paulo diz que as escrituras é inspirada e importante para realizar diversas coisas. É consenso que as escrituras mencionadas por Paulo, sejam os escritos do Velho Testamento (conf. R. N. Champlin; N. T. Interpretado; vol 5 pg 395), já que, Paulo diz que Timóteo conhecia elas desde à infância 2 Tm 3.15. Na infância de Timóteo, certamente, as únicas escrituras eram às do Velho Testamento. Não vamos tratar aqui quais livros do V.T. Paulo considera inspirados. O importante por hora, é dizer a quais escrituras o Apóstolo se refere. E no que isso tem haver com o sola scriptura? Se São Paulo realmente estivesse defendendo uma exclusividade das escrituras, teríamos que afirmar necessariamente também, que a exclusividade seria das escrituras que ele está considerando naquele momento. Porém, já vimos por 2 Tm 2.2 que ele também considera como fonte de ensino, o que ele transmitiu oralmente. Mas mesmo concedendo que Paulo está considerando como escrituras, os livros do Novo Testamento, incluindo os seus próprios; todos esses livros foram reconhecidos como Escrituras pela igreja nos séculos que se seguiram. Dessa maneira, não há escapatória, pois mesmo as Escrituras, são produto da Tradição, que precisou reconhecer os livros que seriam propriamente Escrituras.
Outro texto muito citado, que os defensores do sola scriptura usam, é o de Atos 17.11, sobre os bereanos. O versículo diz o seguinte:
"Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo."
Tem que se fazer uma ginastica grande para ver sola scriptura nesse texto. O elogio que Lucas demonstra aos bereanos é muito mais por causa da atitude deles em ouvir a pregação de Paulo, do que o exame da escrituras. E mesmo que o exame das escrituras por parte deles esteja dentro do elogio. no que isso provaria o sola scriptura? Vamos considerar que o exame esteja dentro do elogio. Voltamos ao problema anterior, as escrituras que os bereanos examinavam, eram os textos do Velho Testamento, isso me parece obvio, já que, se no caso de Timóteo, escrito muito tempo depois, vimos que as escrituras citadas; são os textos velho testamentários, muito mais nesse de Atos. Isso é importante na analise do texto, pois mesmo que considerarmos os bereanos como sola scripturas em um primeiro momento, a sequencia do texto mostra que eles se renderam à tradição apostólica, pelo fato deles compararem o que estava escrito, com que Paulo está falando. Um fato importante também que não podemos desconsiderar, é que a passagem narra um processo de conversão dos bereanos, isso está demonstrado no versículo 12, que mostra judeus e gregos se convertendo á Fé. Ora, Paulo está usando as escrituras do Velho Testamento como ponto de contato, já que o texto mostra muitos judeus em Bereia ouvindo a pregação. Isso é reforçado com a sequência do texto que relata Paulo em Atenas pregando aos filósofos (At 17. 16-34). Em Atenas o ponto de contato foi a filosofia e a religião grega (At 17.23;28), e não as escrituras, até porque, os ouvintes; muito provavelmente, nem conheciam as escrituras judaicas. Um outro ponto, é que, se os bereanos eram de fato, adeptos do sola scriptura, eles eram antes de se converter, o que depõe contra o princípio.
Só por essa perspectiva, já conseguimos refutar o sola scriptura no texto de Atos. Mas precisamos também colocar a outra possível e mais provável interpretação do texto. O elogio de Lucas aos bereanos foi pela boa vontade deles em ouvir o que Paulo estava pregando. E como conseguimos provar isso? Pelo contexto anterior da passagem. Lucas escreve que os bereanos foram mais nobres que os de Tessalônica. Os tessalonicenses também usavam as Escrituras como os bereanos:
"Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras." (At 17.2).
Se o ser nobre para os bereanos, era examinar as escrituras, então os tessalonicenses também foram. Mas isso colocaria Lucas em contradição, já que ele próprio disse que os bereanos eram mais nobre do que os tessalonicenses. Portanto, a nobreza dos bereanos não era por examinar as escrituras, mas sim por permitir que Paulo pregasse livremente. O método de São Paulo em Tessalônica também era usar as escrituras como referência, e as pessoas lá, por suas vez, também consultavam as escrituras. porém, a falta de nobreza deles foi pela perseguição que os mesmos empreenderam contra o Apóstolo.
Um outro texto citado por protestantes é o de Marcos 7.13; (tb Mt 15.6), semelhante a 1 Co 4.6). Nosso Senhor nesse texto parece não só defender as escrituras, mas também rejeitar a tradição. Porém, se atentarmos para o texto de forma honesta, vamos entender, que na verdade, Nosso Senhor não está criando uma tensão entre Escritura e Tradição, mas sim, entre Mandamentos de Deus e mandamentos de homem. É verdade, que o mandamento de Deus (honrar pai e mãe) está nas escrituras, e o mandamento de homem (lavar as mãos antes de comer) está na tradição. Parece obvio, que honrar pai e mãe é muito mais importante do que lavar as mãos, mesmo que não existisse um mandamento escrito, honrar pai e mãe é algo da moral inata do ser humano. um exemplo bíblico, que demonstra isso, foi o episódio de Noé, que se sentiu desonrado pelo filho no episódio da vinha (Gn 9.18-27). Portanto, parece bem claro, que Jesus não estava criticando toda e qualquer tradição, mas sim aquela específica dos fariseus que exaltavam uma regra insignificante em detrimento ao mandamento de honrar os pais. Um detalhe que não podemos esquecer de mencionar, é que esse texto pode ser um tiro no pé para quem acredita que Jesus está defendendo o sola scriptura, aos moldes do que muitos protestantes defendem. As escrituras judaicas, isto é, os livros do Velho Testamento, tanto quanto o Novo testamento, são frutos de uma tradição. No caso do Velho Testamento, uma tradição judaica. Frutos no sentido de que a escolha dos livros que formariam o cânon, foi feita por critérios usadas pela tradição judaica. Se a critica de Jesus aos fariseus não for filtrada como fizemos, então teríamos que concluir que, ao criticar a tradição, Jesus estaria, incluindo a tradição que definiu qual seriam os livros que formariam, o que o próprio Jesus chamou de Escrituras.
Com respeito ao texto de 1 Co 4.6, do dito Paulino: "não ir além do que está escrito," muito usado também, por evangélicos, ele cai muito no que já discutimos até aqui. Mas é preciso colocar alguns pontos: o contexto da fala de São Paulo está na ideia de divisões na Igreja daquela cidade (1 Co 1.12; 3.4). No próprio texto de 1 Co 4.6, após falar a frase em discussão, ele diz: "...ninguém se orgulhe em favor de um homem em detrimento de outro." Portanto, o ir além do que está escrito, está relacionado ao fato de alguns corintios, em nome de uma grupo específico; "Sou de Cristo, sou de Paulo etc," estavam indo além da regra da unidade, para promover divisões na igreja. Esse texto é terrível para a visão protestante, pois a regra paulina é justamente para que ninguém em nome de uma ideia ou nome individual promova sedições no seio do corpo de Cristo, o que evidentemente foi tudo o que aconteceu no protestantismo. Um outro detalhe, é que entre os grupos, havia os de Cristo (1 Co 1.12), o que é curioso, pois o Apóstolo coloca eles no mesmo pacote de pessoas problemáticas da igreja. Agora o porquê disso? O fato deles se dizerem de Cristo, não os isentou de receber a repreensão apostólica. O que pode estar por trás desse partido de Cristo, era que eles se achavam melhores interpretes das palavras de Cristo, e por causa disso, estavam rejeitando a interpretação dos outros grupos. O importante, é que essa interpretação particular desse grupo, não podia ficar acima do magistério apostólico, e isso valia, inclusive para o grupo: "dos de Paulo," pelos mesmos motivos de qualquer dos outros grupos. Uma última questão do texto, é o significado da expressão "está escrito" no texto, mas assumindo que ele está falando das escrituras em geral, mas em particular do Velho Testamento, voltamos ao mesmo problema abordado em 2 Tm 3.16. Se São Paulo está falando de uma suficiência das escrituras, teríamos problema para defender o Novo Testamento em geral, como algo que não vai além do que está escrito.
Esses são alguns dos textos mais usados por defensores do sola scriptura para respaldar sua perspectiva. Agora vamos ver textos que apoiam a ideia católica, de que o deposito da fé compreende: as Escrituras; a Tradição e tendo o Magistério como interprete dessas fontes. Na realidade, nos precisamos provar apenas que a Tradição está contemplada nas escrituras, pois as próprias escrituras já são aceitas pelos protestantes como fonte de fé. E no caso do Magistério, os protestantes também concordam que a igreja precisa de lideres e mestres que ensinem e interpretem as escrituras, a discussão nesse caso, seria em provar que o magistério da Igreja católica é o verdadeiro e oficial. Se conseguirmos provar a Tradição como fonte de Fé, automaticamente o magistério católico, será confirmado como aquele que vem da época apostólica. Podemos usar três critérios para confirmar a Tradição: evidência interna, evidência externa e a infabilidade da igreja. A evidência interna está relacionado ao que a própria escritura fala sobre a Tradição, confirmando que não só o que está escrito, mas o que foi transmitido oralmente também é fonte de doutrina e fé. A evidência externa, é o testemunho dos que sucederam os Apóstolos, validando a tradição.
" Que não se deixem abalar nem alarmar tão facilmente, que por profecia, quer por palavra, quer por carta supostamente vinda de nós..." (2 Ts 2.2).
O contexto dessa passagem fala do ensino apostólico sobre a volta de Cristo, e acontecimentos ligados ao evento. Para nosso assunto, porém, o especifico versículo citado mostra como a igreja do primeiro século entendia os meios pelo qual a verdade se propagava. A igreja daquela cidade estava abalada por alguma informação que dizia que a vinda de Cristo já tinha chegado. O interessante, é que quem propagou essa mentira, a fez por um dos meios que Paulo cita. E por que esses falsos mestre fizeram assim? Porque eles sabiam que fazia parte dos métodos da igreja, transmitir a verdade pelos meios citados pelo Apostolo. A propósito, se algum tipo de sola scriptura estivesse no pensamento de Paulo, seria um bom momento para ensinar à igreja, já que, se essa revelação veio por um dos meios não autorizados, Paulo teria orientado a igreja de Tessalônica a não dar atenção, a não ser, ao que estivesse escrito. Contudo, São Paulo não ataca os meios que a suposta revelação foi propagada na Igreja, mas sim o conteúdo da mesma. A saída dos protestantes para responder a esse texto, é dizer que depois que o Cânon foi completo, não foi mais necessário esses outros meios de revelação. De certa forma a Igreja Católica concorda com isso, pois a revelação cessou depois da morte do último Apóstolo. Contudo, essa resposta, se vier por parte dos protestantes, não resolve a questão, pois o que está em discussão, não é se a revelação cessou ou não, mas como ela se espalhou. E o texto citado, mostra que os Santos Apóstolos não comunicavam a verdade só por escrito, mas também por pregação e ensino, conforme o próprio Apóstolo confirma no versículo 15 do mesmo capitulo:
“Então, irmãos, estai firmes retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Ts 2.15).
Só por esses textos, já temos motivos suficientes para confirmar a doutrina da Igreja sobre a forma com que a verdade do evangelho era transmitida pelo colégio apostólico. Existem outros, vamos analisa-los.
"Se alguém estiver com fome, coma em casa, para que, quando vocês se reunirem, isso não resulte em condenação. Quanto ao mais, quando eu for darei instruções a vocês." (1 Co 11.34).
Esse Texto é muito importante, pois São Paulo escreve que novas instruções, muito provavelmente sobre a Eucaristia, seria dada por ele pessoalmente aos irmãos em Corinto. Não temos essas instruções dadas na segunda carta, e talvez em nenhuma outra, pois Paulo diz que daria quando fosse até à igreja. Se fosse importante que tudo tivesse escrito, essas instruções teriam que estar em algum lugar. O mais interessante de tudo, é que essas instruções de São Paulo sobre a Eucaristia aparecem na tradição posterior, mostrando que o que ele ensinou aos corintios foi transmitido as gerações seguintes de forma oral. Por exemplo, o problema de Corintio, era que a ceia no principio era uma refeição completa 1 Co 11.21; ele fala em alguns que ficavam com fome, logo ele só pode estar falando de uma refeição completa. Posteriormente, porém, os cristãos adotaram o jejum eucarístico antes de comungar, o que evitava os excessos apontados por Paulo na carta. Santo Agostinho fala sobre isso:
"Pois aprouve ao Espírito Santo que, em honra de tão grande sacramento, o corpo do Senhor entrasse na boca do cristão antes de outros alimentos." ( Santo Agostinho, Carta 54 a Januário; Ch 6). Na mesma carta, Santo Agostinho cita a passagem de 1 Co 11.34:
"Mas quando o apóstolo, falando deste sacramento, diz: «Portanto, meus irmãos, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros; e se alguém tem fome, coma em casa, para que não vos reunis para condenação», ele imediatamente acrescenta: «Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for» (1Cor 11,33-34). Donde somos levados a entender que, como era demasiado para ele prescrever completamente numa epístola o método observado pela Igreja universal em todo o mundo, este foi uma das coisas por ele ordenadas pessoalmente, pois encontramos sua observância uniforme em meio a toda a variedade de outros costumes." (Santo Agostinho; ibidem).
Essas citações de Santo Agostinho conectam as Escrituras com a Tradição, e são evidência interna e externa sobre a Tradição, que mostra que o ensino apostólico, não era necessariamente escrito, mas também era transmitido de forma oral. Essa regra do jejum eucarístico ainda é praticado pela igreja, inclusive é considerado um pecado venial não observa-lo.
“Para se preparar devidamente para receber este sacramento, os fiéis devem observar o jejum prescrito pela Igreja. A atitude corporal (gestos, roupas) traduz o respeito, a solenidade, o amor alegre e a fé na presença de Cristo na Eucaristia." (CIC § 1387).
Podemos ver por esses exemplos que as Escrituras mostram uma realidade diferente daquela apresentada por quem defende o sola scriptura. Mas encontramos outros ao longo do registro bíblico.
"Tenho muito que lhes escrever, mas não é meu propósito fazê-lo com papel e tinta. Em vez disso, espero visitá-los e falar com vocês face a face, para que a nossa alegria seja completa." (2 Jo 12; tb. 3 Jo 13).
O texto em questão é outro que mostra o modus operandi apostólico. Não é necessário grandes elucubrações exegéticas para entender o que São João está querendo dizer. Ele afirma que havia outras coisas para transmitir à igreja, mas não faria por escrito. A primeira coisa que salta do texto, é que São João não faz diferença entre o que é escrito e o que é falado. Um defensor do sola scriptura pode afirmar que as coisas que João falou posteriormente, não eram relevantes, e por isso não foram escritas. Todavia, para João não existia essa diferença, pois ele afirma que tinha muitas coisas para dizer, mas ele preferia fazer pessoalmente, Se para ele fosse importante que tudo fosse escrito, ele naturalmente se preocuparia em registrar tudo. Alguém ainda poderia dizer que essas coisas são o que ele escreveu na terceira carta, porém, na própria terceira carta ele fala a mesma coisa (3 Jo 13), e não temos uma quarta carta. Além do mais, ele fala que havia muitas coisas a se falar, e obviamente, a pequena terceira carta não parece conter todos esses ensinos. Agora a pergunta é: quais eram esses ensinos? Não temos uma evidência tão grande como a que mostramos anteriormente sobre São Paulo e Santo Agostinho, mas podemos deduzir. Por exemplo, o ensino sobre a Nova Eva, que Santo Irineu de Lyon trata na obra contra heresias (aqui), com um grau muito alto de certeza, pode ser uma desses ensinos. Lembrando que Santo Irineu foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez foi discípulo de São João. Os ensinos do Apóstolo do amor, incluindo o da Nova Eva, foram transmitidos, e chegaram até Irineu; que então na hora certa explicitou ele. Sempre é bom também lembrar, que Nossa Senhora passou a morar com São João a pedido de Jesus (Jo 19.26-27). Não é exagero dizer, que São João foi o primeiro Mariologista da Igreja, muito pela convivência que ele passou a ter com a Virgem Santíssima.
Para resumir esse capitulo: vimos que não existe sola scriptura nas escrituras, nenhum dos texto que os protestantes usam, afirmam que só o que foi escrito deve ser levado em consideração. Afirmam sim, a origem sobrenatural das escrituras, o que a Santa Igreja concorda. Por outro lado, mostramos textos que declaram o contrario, que o deposito da fé é a soma do que está escrito com que foi ensinado oralmente pelos Apóstolos. Esse deposito de fé foi transmitido as gerações posteriores, passando pelos Pais da Igreja (p.e. Justino de Roma, Policarpo etc), pelos doutores da Igreja (p.e. São Tomas de Aquino), e por todos os mestres, até chegar até nos. A lenda de que a Igreja católica acrescentou dogmas ao deposito original da fé consiste justamente em não perceber como esse deposito era transmitido. A igreja primitiva, sob a liderança apostólica, ensinou muitas coisas que não estão escritas nos 27 livros do Novo Testamento, mas que foram ensinadas de forma oral. Esses ensinos não escritos, são rastreáveis ao longo da historia da Igreja, conforme demonstramos através de alguns exemplos. São Vicente de Lérins disse algo que resume muito bem tudo isso "devemos crer no que foi crido em todo lugar, sempre e por todos." (S.V. Lerins; Communitorium).
Sobre a infabilidade da igreja, temos a promessa de Jesus de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja (Mt 16.18). Desse modo, a Tradição é confirmada, visto que sendo a Igreja infalível, e tendo sido ela que estabeleceu o principio, concluímos que a tradição é correta, pois foi a infalível igreja que a estabeleceu, que é a coluna e o sustentáculo da verdade (1 Tm 3.15). Esse ponto é interessante, pois para o protestante, a igreja se corrompeu ao longo do tempo, voltando á pratica da verdade somente na reforma. Inevitavelmente, a conclusão logica, é que durante muitos séculos a igreja sucumbiu diante das portas do inferno. A resposta a isso, normalmente é dizer que sempre houve um remanescente que manteve a verdade viva. É inegável que sempre houve grupos que de alguma forma contestavam a autoridade da igreja. Porém, muitos desses grupos, muito provavelmente, seriam excomungados pelas igrejas protestantes atuais. Por exemplo, os Paulicianos, foram um grupo que viveram entre século VII e IX. e tinham como regra de fé os textos de São Paulo, por isso o nome, e também os Evangelhos. Tinham a iconoclastia como algo semelhante aos protestantes, e também eram contra o batismo infantil, porém nesse caso a semelhança é só com alguns protestantes. No demais, tinham crenças heterodoxas; rejeitavam o Velho Testamento, o que explica outra crença deles, que era a crença em dois deuses, semelhante ao que os marcionistas defendiam. Portanto esse grupo, dentro das doutrinas protestantes, não pode ser chamado de remanescente. Provavelmente, o grupo antes da reforma, mais alinhada a eles, foi os Valdenses no século XII. Mas percebam, se passaram 12 séculos, até aparecer esse grupo.
O caso dos valdenses foi muito semelhante ao protestantismo, tinham razão em algum ponto, mas falharam nos mais importantes. Em 2015 o Papa Francisco pediu perdão formalmente as fortes perseguições que a Igreja empreendeu contra o grupo na época. Uma informação que os evangélicos nunca podem esquecer é que o principio usado pela Igreja Católica de Escrituras, Tradição e Magistério é o mesmo usado pelas igrejas ortodoxas (com algumas nuances diferentes), portanto o argumento da corrupção da Igreja não é só mentiroso como é injusto. Todas as igrejas que advêm da sucessão apostólica usam basicamente o mesmo principio, isso explica a semelhança nas crenças:
Eucaristia - ambos católicos e ortodoxos creem na presença real (católicos dão uma explicação filosófica ao processo);
Intercessão dos Santos - ambos professam a mesma crença;
Veneração à Virgem Santíssima - As duas tradições fazem:
Os Sete Sacramentos - As duas tradições ensinam.
Obviamente que existem diferenças entre as tradições, porém muitas das diferenças se explica pelas circunstâncias em que ambas tradições se encontram, por exemplo, no ocidente a Igreja Católica é muito mais pressionada pelas ideologias que atacam a fé do que os ortodoxos no oriente; o que leva a igreja a dar uma resposta mais racional a determinada questão. Um exemplo foi a Transubstanciação, diante da crise protestante, que começou a mitigar a crença na presença real, a Igreja então estabeleceu o dogma para blindar a crença correta. Em outros casos, a diferença está em visões diferentes sobre determinado tema, por exemplo o purgatório. No oriente o pecado é visto mais como uma doença da alma do que uma questão jurídica que deve ser resolvida. Após a morte, para os ortodoxos, muitas almas ainda precisam serem curadas, por isso eles também tem a oração pelos mortos. No ocidente, o purgatório seria um estado onde aqueles que morreram em amizade com Deus, mas que ainda tem dividas a serem pagas, precisam passar para finalmente entrarem no céu. Desse jeito, finalmente podemos concluir que o principio do sola scriptura é totalmente inovador e estranho a todas as tradições apostólicas.
Que Deus ajude a todos a entender através do Seu Espirito Santo, o outro consolador, toda a verdade do evangelho. Gloria ao Pai ao Filho e ao Espirito Santo, como era desde o principio agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

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