A Mãe do Meu SENHOR : A Mariologia nas Escrituras
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| Sancta Virgo, ora pro nobis. |
I- Maria nas Escrituras
Mesmo não defendendo mais o sola scriptura, isso não significa que precisamos nos tornar um: "sine scripturis", sem escrituras, que é normalmente a visão que um evangélico médio tem dos católicos; em outras palavras, católicos criam seus dogmas no vácuo, sem nenhuma conexão com a Bíblia, diria o evangélico sola scriptura. Obviamente, nenhum protestante vai negar que Maria é uma personagem importante nas escrituras, mas certamente, quase todos não vão conseguir ir além disso. Percebam que a questão do sola scriptura está por traz de toda a discussão entre católicos e protestantes. No caso da Mariologia, não é diferente. Afirmar a Imaculada Conceição, por exemplo, faz um evangélico quase fazer o sinal da cruz. Mas vamos jogar nas regras protestantes, e ver o que o texto sagrado fala sobre a Mãe de Deus. A primeira menção, que podemos ver nas escrituras à Maria, está no texto de Gênesis 3.15, quando Deus fala da inimizade entre a serpente e a Mulher, e entre as descendências de ambas. O Todo Poderoso anuncia uma guerra entre a mulher e a serpente que se perpetuaria ao logo da história. O clímax dessa batalha se deu na cruz, quando Nosso SENHOR foi ferido no calcanhar ao morrer, mas que na sua ressurreição, esmagou a cabeça da serpente. O descendente da mulher é Cristo, ele é o centro da história da salvação, mas é inegável que a mulher que trouxe Ele ao mundo, está presente nessa profecia. Alguém pode ponderar dizendo que Maria está nessa profecia assim como Eva, Sara, Rebeca, Lia, Raabe, Rute, Bete Sheba, todas as outras mulheres da ascendência de Cristo. Porém não esqueçamos o que o Anjo Gabriel disse a ela: "Bendita és Tu entre as mulheres" Lc 1.28. Repetido por Isabel em Lc 1.42. Só Por essa saudação, o mínimo que um cristão pode fazer, usando só as escrituras, é considerar Nossa Senhora a mulher mais importante da história.
Uma nova menção à Maria no Velho Testamento, aparece em Is 7.14: "Portanto o próprio SENHOR vos concederá um sinal: eis que a virgem conceberá, e dará luz à um filho, e será chamado de Emanuel". Se Gênesis anuncia que haveria uma guerra entre a mulher e a serpente, Isaías acrescenta que a Mulher teria uma característica especial: seria uma virgem. O descendente da Mulher, anunciado em Gn 3.15, nasceria de uma jovem casta. Agora, por que Jesus teve que nascer de uma virgem? Alguém poderia responder dizendo que foi justamente para cumprir a profecia de Isaias 7.14. A profecia porém, apenas anuncia o fato a ser realizado. Existe um motivo ou motivos para que o fato aconteça. No caso do nascimento virginal de Jesus, podemos destacar algumas razões: primeiro, Nossa Senhora seria a nova Eva, ou aquela que desfaria o que a primeira mulher fez, desencadeado a queda da humanidade. Eva era uma virgem quando comeu o fruto proibido, isso está subtendido quando após a queda Gn 4.1, é dito que Adão conheceu Eva, deixando a entender, que antes disso, os dois ainda não tinham tido relações maritais, fazendo com que, tanto Adão como Eva, ainda fossem virgens. O conceito de Maria como a nova Eva, aparece bem cedo na história da Igreja. Dois escritores se destacam: Justino de Roma e Irineu de Lyon. O primeiro diz o seguinte em um de seus escritos:
"Por outro lado, confessamos que ele nasceu da virgem como homem, a fim de que pelo mesmo caminho que iniciou a desobediência da serpente, por esse também ela fosse destruída. De fato, quando ainda era virgem e incorrupta, Eva, tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte. A virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe deu a boa notícia de que o Espírito do SENHOR viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, através do que o santo que dela nasceu seria o Filho de Deus. A isso, ela respondeu: 'Faça-se em mim segundo a palavra'. E da virgem nasceu Jesus, ao qual demonstramos que tantas Escrituras se referem, pelo qual Deus destrói a serpente e os anjos e homens que a ela se assemelham, e livra da morte aqueles que se arrependem de suas más ações e nele creem". (Diálogo com Trifão 100.4-6)."
Irineu de Lyon, é outro escritor que trata do assunto: Nossa Senhora, a mulher que desata o nó de Eva. A seguinte citação explícita isso:
"Da mesma forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé." (Contra Heresias, Livro III, 22.4).
Irineu retoma o assunto em outra parte do seu escrito:
"Quando o SENHOR veio de modo visível ao que era seu, levado pela própria criação que ele sustenta, tomou sobre si, por sua obediência, no lenho da cruz, a desobediência cometida por meio do lenho. A sedução de que foi vítima, miseravelmente, a virgem Eva, destinada a varão, foi desfeita pela boa-nova da verdade, maravilhosamente anunciada pelo anjo à Virgem Maria, já desposada a varão. Assim como Eva foi seduzida pela fala de anjo e afastou-se de Deus, transgredindo a sua palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de anjo e trouxe Deus em seu seio, obedecendo à sua palavra. Uma deixou-se seduzir de modo a desobedecer a Deus, a outra deixou-se persuadir a obedecer a Deus, para que, da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse advogada." ( Ibidem; Livro V; 19.1).
Tanto Justino de Roma, quanto Irineu de Lyon, tiram essa percepção de Maria como a Nova Eva, tanto das escrituras como da Tradição apostólica, lembrando que Irineu foi discípulo de Policarpo e esse de São João Apóstolo. Mas no caso das escrituras, isso não está posto da mesma forma como elas tratam de Nosso SENHOR como novo Adão. No caso de Cristo, as escrituras se encarregam de deixar isso muito claro e perceptível (Rm 5.12-21, por exemplo). No caso de Nossa Senhora, o tema da Nova Eva foi ensinado de forma oral pelos apóstolos, especialmente São João, já que ele foi encarregado por Cristo de cuidar da Virgem Santíssima após a crucificação Jo 19.26-27.
A segunda razão pela qual acredito que o nascimento virginal foi necessário, é que era preciso que o Filho de Deus não tivesse nenhum vestígio de pecado em sua natureza. O sacrifício teria que ser de um cordeiro puro, sem máculas ou manchas. Que Ele não cometeu nenhum pecado, o texto sagrado deixa isso muito claro:
"Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado." Hb 4.15. ( V.t. I Pe 2.22-23; II Co 5.21; I Jo 3.5).
Que Ele nasceu sem o pecado original fica implícito nas palavras do Anjo Gabriel:
" E o anjo respondeu: O Espírito Santo descerá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; portanto, também o Santo que há de nascer será chamado Filho de Deus." Lc 1.35.
O Nascimento virginal foi o meio que o Todo Poderoso escolheu para que seu Filho nascesse sem a maldição do pecado. Jesus poderia ter nascido sem pecado através dos meios ordinais que todos nascem, ou seja, da relação entre um homem e uma mulher? Responder a isso acredito ser muito difícil, pois certamente pela onipotência de Deus eu diria que sim, mas pensando no modus operandi divino, e também pensando no que já falamos de que Maria foi a nova Eva, eu diria que não. Um fato está posto, Deus quis assim, que Ele nascesse por meio de uma virgem. Isso necessariamente nos leva a outra questão, poderia ser qualquer virgem ou teria que ser a Virgem? Dizer que foi qualquer virgem seria o mesmo que dizer que Deus escolheu aleatoriamente uma para essa grandiosa missão. O texto sagrado mostra que Ela achou graça diante de Deus Lc 1.30, essa expressão foi usada também para Noé em Gn 6.8 e para Moisés em Ex 33.12. Achar Graça diante de Deus, significa que a vida da pessoa em questão é uma vida piedosa e virtuosa. Obviamente outras personagens acharam graça diante de Deus, mesmo o texto não usando especificamente essa expressão, como por exemplo, Abraão, que foi chamado amigo de Deus Tg 2.23; Davi, homem segundo o coração de Deus, I Sm 13.14; Daniel, homem muito amado, Dn 9.23; Jó, Jó 1.1, dentre tantos outros.
Nossa Senhora foi a virgem escolhida antes da fundação do mundo, para ser a Mãe de Deus. Mesmo que outras pessoas tenham achado graça diante de Deus, como vimos, nenhuma delas se compara a missão da Virgem Santíssima. Nossa Senhora foi mais do que uma mulher virtuosa e piedosa, seu ventre abrigaria o Filho do Deus vivo, para isso, Ela também precisava ser imaculada. Não é concebível, que Ela tivesse pecado, pois a criança que nela seria gerada é a própria santidade. Protestantes normalmente usam textos, como por exemplo Rm 3.23, para dizer que Nossa Senhora também está incluída no restante da humanidade pecadora. "Todos pecaram..." Diz o Apóstolo, logo, Ela também teria pecado. Essa conclusão é muito simplista e desconsidera muitas outras coisas que as escrituras ensinam. Primeiramente, todos, nem sempre são todos sem exceção, isso é óbvio. Calvinistas são obrigados a concordar neste ponto, pois eles também entendem que textos que falam em todos nem sempre significam todas as pessoas sem exceção. Exemplo: " Pois a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens." Tt 2.11, (tb Rm 11.32). Para um calvinista a graça se manifestou salvadora só para os eleitos, logo, todos nessa passagem, não é todos indistintamente. Claro que um arminiano pode saltar neste momento, e afirmar que todos sempre são todos, tanto na passagem de Romanos, como na de Tito. Porém os arminianos também terão que reconhecer que em muitas sentenças em que se usam todos (as) nas escrituras, existem as exceções. Por exemplo Hb 9.27, que diz: " Aos homens está ordenado morrer uma só vez..." Apesar do texto não dizer, todos os homens, fica implícito, já que a experiência nos mostra que normalmente todos morrem. Porém, sabemos pelas escrituras mesmas, que alguns não morreram, como por exemplo, Enoque, conforme Hb 11.5, e também, no caso dos crentes que estiverem vivos na Segunda vinda de Cristo, I Ts 4.15-16 e I Co 15.51. Em segundo lugar, uma exceção obvia, dos que não pecaram, é Cristo, e se há uma exceção pode haver duas.
Interessante que na passagem de Hebreus 9.27, o autor não se preocupou em colocar as exceções, por que deveria então na passagem de Romanos ser colocada a exceção de Maria, como aquela que não teve pecado também? No caso Dela, a exceção é uma questão de lógica, como já mencionamos antes, ela precisava ser sem pecado, pois seu corpo transmitiria a natureza humana ao Verbo Eterno. Cristo foi feito da matéria Dela, a relação entre os dois, no que diz respeito à natureza humana, é única. Se não fosse assim, não haveria necessidade de nascimento virginal. Nesse ponto, voltamos a questão do sola scriptura, não há nenhum versículo que fale expressamente que Maria era sem pecado. A questão é que na verdade ela diz, mas não do jeito que um evangélico quer. Para ser justo, nem todo protestante defende que toda a verdade bíblica tem que estar explicitamente declarada nas escrituras. Muitos, por exemplo, entendem que uma verdade de fé está no texto sagrado, mas de maneira implícita; ou seja, não há um texto falando escancaradamente sobre. Um exemplo é a questão da união hipostática, que é a doutrina que fala da união das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana. No máximo que a Bíblia fala, é que Cristo sendo Deus, se tornou homem (Fp 2.6-7). Mas não há explicação de como essas naturezas estavam e estão unidas. Prova disso, foi o fato da necessidade de um concílio (Éfeso), para resolver a grande discussão que se formou entre os que defendiam a ideia de que as duas naturezas eram separadas ( Nestório), e aqueles que defendiam duas naturezas em uma só pessoa, essa última foi a vencedora, inclusive gerando o título de Theotokos (Mãe de Deus), para Nossa Senhora. Todas as igrejas tradicionais protestantes endossam o concílio de Éfeso como verdade de fé, e reconhecem essa verdade como estando nas escrituras, mesmo sabendo que ela não está de maneira explícita.
No caso da impecabilidade de Nossa Senhora, ela está intimamente associada a santidade de Cristo, por causa Dele, Ela precisava ser Imaculada. A igreja ao longo da história reconheceu essa verdade também como verdade de fé, mesmo sabendo que há variações de como isso se deu. Por exemplo, a Igreja Católica defende a Imaculada Conceição, isto é, que Nossa Senhora foi preservada do pecado original desde a concepção, e que permaneceu sem pecado durante toda sua vida terrestre. Já os ortodoxos, defendem que ela foi purificada no momento da anunciação, quando Ela aceitou a missão de ser Mãe do SENHOR. Mas é bom dizer, que mesmo os ortodoxos entendendo assim, eles também acreditam que Ela permaneceu sem pecar durante toda a vida; a purificação que Ela recebeu, segundo eles, foi a questão da mortalidade, que Adão transmitiu a toda a humanidade. Isso também é uma diferença que os ortodoxos tem em relação a tradição latina sobre o pecado original. Os protestantes sim, que destoam totalmente, e reduzem Nossa Senhora a condição de Mulher igual a todas as outras, em relação ao pecado.
Voltando às escrituras, depois dos dois textos do Velho Testamento que mencionam a Mulher, Gn 3.15; e a Virgem, Is 7.14, chegamos ao Novo Testamento, quando então essas duas menções ganham nome e realidade. Os relatos da anunciação e do nascimento de Jesus, são os que mais mencionam Nossa Senhora. São Mateus tem um relato mais resumido do que o de São Lucas, mas ambos mencionam fatos em comum: de que Ela estava desposada de José, ou seja, Ela era noiva dele, Mt 1.18 conf. Lc 1.27. Também os dois evangelistas concordam que a concepção foi obra milagrosa do Espirito Santo, (Mt 1.18,20; conf Lc 1.35). No restante da narrativa temos informações complementares de um evangelista em relação ao outro. São Lucas nos da detalhes, especialmente relacionados a Nossa Senhora, que precisamos analisar. Primeiramente, a saudação do Anjo Gabriel à Ela é muito significativo: "Alegre- se agraciada," Lc 1.28, é a primeira expressão dirigida à Ela. No grego do Novo Testamento a expressão é: kecharitōmenē, que é usada somente essa vez, o que torna a saudação ainda mais importante. O mais próximo que temos da expressão no N.T. é Jo 1.14, falando sobre Cristo que é cheio de graça, (gr. Pleris Charis) e também At 6.8, usada para Estevão. Nesse ponto precisamos tomar cuidado para não estabelecer uma comparação entre Cristo e Maria. Obviamente Nosso SENHOR não é só cheio de graça, ele é a fonte da graça, Jo 1.16-17, e todos recebem Dele, inclusive Ela. Porém, o que queremos destacar, é que Ela recebeu graça Dele, mais do que qualquer outra criatura, antes e depois Dela. Ela é cheia de graça, ou "Full of grace" em inglês, ou em latim "Gratia Plena." A ideia em qualquer língua, é que Ela é completa de graça, sendo assim, ela foi agraciada com a plenitude da graça, o que faz Dela, uma criatura perfeita, aos moldes do que Eva era antes da queda. Um detalhe adicional, do contraste de Adão - Cristo; Eva - Maria, é que, quando Deus fez Adão, Ele formou ele da terra virgem, não havia pecado no mundo, tudo era muito bom, Gn 1.31. Deus ao formar o novo Adão, também o tirou da "terra virgem," que foi o corpo Imaculado de Nossa Senhora. (Para mais detalhes sobre a expressão kecharitōmenē consulte aqui).
Maria Santíssima, é cheia ou completa de graça, e onde há essa plenitude, não existe espaço para qualquer vestígio de pecado, é contradizente entender, que Ela possui essa abundância de graça e ao mesmo tempo seja igual a qualquer um de nós, no que tange a natureza caída e corrompida. Evangélicos como eu era, acreditam que ela foi agraciada só no fato de ter sido escolhida para ser a Mãe de Jesus, mas aí que reside o erro, pois justamente por ser escolhida, Ela foi feita à altura da missão. Quando Deus mandou construir o tabernáculo, ele encheu Bezalel (Ex 31.1-5), com toda sabedoria para a execução da obra, quanto mais virtudes e graças o SENHOR concedeu a Santíssima Virgem, para "construir" Nela, Aquele que seria o tabernáculo vivo Jo 1.14.
Após chama-la de cheia de graça, o Anjo Gabriel dirige à Ela mais duas expressões : "O SENHOR é convosco" e " Bendita sois vos entre as mulheres." A promessa do SENHOR estar com Ela nos leva novamente ao uso dessa expressão para outros personagens das escrituras. Um Anjo disse algo semelhante para Gedeão em Juízes 6.12: " O SENHOR está contigo homem valente," também Js 1.9; Ex 3.12 etc. Colocar as expressões lado a lado nos leva ao erro de igualar ou diminuir Nossa Senhora em relação a outros servos de Deus. O SENHOR estava com Ela de uma maneira que não estava com mais ninguém. Se pensarmos em termos Trinitarianos, O Pai predestinou Ela, O Espírito Santo gerou Nela e o Filho nasceu Dela. Nenhuma outra criatura do universo, teve essa relação profunda com Deus, por isso, muitos santos na história expressaram uma forte devoção à Ela, como Santo Efrem, por exemplo:
"Vós todos que sabeis discernir, vinde, admiremos
A Virgem que é mãe, a filha de David.
Vinde, admiremos a Virgem puríssima,
Maravilha em si mesma, única em toda a criação" (Hino sobre Maria n° 7).
Maria foi a mulher mais abençoada da humanidade, a declaração angélica de que Ela é bendita entre as mulheres reforça a ideia Dela como a nova Eva. São Paulo diz que: "vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher..." Gl 4.4. Maria faz parte da plenitude dos tempos, Ela é plena de graça. As mulheres que a antecederam, foram servas fiéis, mas nenhuma se compara a Ela: Sara ao ouvir que seria mãe na velhice, riu duvidando e foi questionada pelo Anjo, Gn 18.9-15; Maria, quando ouviu que mesmo virgem seria Mãe, disse: "Aqui está a serva do SENHOR; cumpra em mim conforme a tua palavra." Lc 1.38. Deus fez Ela a mais excelente das criaturas, para que Ela pudesse gerar o Homem perfeito, o cabeça da nova humanidade.
Depois dessa saudação extraordinária do Anjo Gabriel à Ela, Lucas diz que Maria ficou abalada com que o Anjo disse, e Ela começou a refletir (gr.dialogisomai) sobre o significado daquelas palavras, Lc 1.29. A ponderação Dela certamente não foi só no momento em que o Anjo falava, mas se estendeu depois, pelo que sugere o tempo do verbo. A surpresa Dela ao ouvir as palavras do Anjo, já diz muito sobre a profundidade do que Ela estava ouvindo. O curioso do relato, é que a surpresa Dela não foi pela aparição do Anjo, mas pelo que Ele disse para Ela. Normalmente diante de aparições angelicais, homens desmaiavam ou ficavam em estado de choque, Dn 8.17; 10.8-9; Ez 3.23; Ez 43.3, Lc 1.12. No caso da Virgem Santíssima, não houve desmaio ou prostração pela aparição, afinal de contas, ali estava Aquela que depois, na tradição cristã, seria chamada a Rainha dos anjos.
Após o Anjo descrever a glória do Filho, do qual Ela seria a Mãe, Nossa Senhora pergunta ao mensageiro celestial : "Como acontecerá isso, visto que não tenho relação com homem algum?" Lc 1.34. Alguém pode pensar que a pergunta Dela demonstra alguma incredulidade diante das revelações, mas, na verdade não, basta comparar com o que aconteceu com Zacarias, pai de João Batista, que diante do mesmo Anjo, duvidou da promessa e ficou mudo Lc 1.18-20. A pergunta Dela, demonstra uma santa curiosidade de como o milagre da concepção ocorreria, sem o curso normal de um homem e uma mulher. A pergunta também é reveladora em relação ao dogma da Virgindade Perpétua de Nossa Senhora, mas isso, é assunto para mais adiante.
Após a visita do Anjo, o texto de Lucas salta para a visita de Maria, já gravida, a Isabel numa cidade de Judá, um local montanhoso, segundo a tradição, esse local se chama Ein Karem. O encontro de Nossa Senhora com Isabel é grandioso. Após a saudação de Maria, Isabel exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre." Lc. 1.42. Isabel repete as palavras do Anjo Gabriel, acrescentando a frase: bendito fruto do teu ventre. Os céus e a terra chamaram Maria de bendita entre as mulheres, outras pessoas nas escrituras foram chamados de benditos(as), por exemplo, Jael; a mulher que matou Sísera, na batalha de Israel contra os cananeus. No cântico de Débora, a frase dirigida à ela, é parecida com a dirigida à Nossa Senhora: "bendita seja entre as mulheres Jael... Bendita seja entre as mulheres que habitam em tendas." Jz 5.24. Um crítico pode querer equiparar os textos para provar alguma igualdade entre Nossa Senhora e a mulher Jael. Porém, seria muita desonestidade tentar fazê-lo. Primeiro, que o próprio texto restringe Jael à mulheres que habitam em tendas. Segundo, no caso de Jael, Débora está dizendo "bendita seja," para Nossa Senhora, o Anjo e Isabel dizem: " bendita és." Ou seja, no caso de Jael, Débora está abençoado ela pelo ato de bravura que ela demonstrou. No caso da Virgem Santíssima, tanto o Anjo como Isabel, declaram uma condição que Ela já era. Obviamente que essa condição está ligada ao fato Dela ser a Mãe do SENHOR, mas o fato é que, sendo o Filho que Ela gerou ser o que Ele é, a Mãe que o gerou deve estar à altura do evento. Por isso o Anjo e Isabel são uníssonos ao louva-la, chamando-a de bendita entre as mulheres.
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| Quem sou eu que venha a mim a Mãe do meu SENHOR (Lc 1.43) |
O versículo seguinte, Lc 1.43 é uma prova inequívoca de veneração a Virgem Santíssima, demonstrada por Isabel. Ela diz: "quem sou eu que venha a mim a Mãe do meu SENHOR." Para situar o leitor, Isabel era muito mais velha que Maria, conforme as escrituras dizem, Lc 1.7,18,36. Normalmente a mais jovem tinha uma reverência pela mais velha, mas na cena, é Isabel que irrompe em louvor a Maria. A frase de Isabel, quem sou eu... é um reconhecimento formal da grandiosidade da mulher que estava ali. Anos depois, o filho de Isabel diz algo semelhante ao Filho de Maria: "... Eu que careço ser batizado por você, e você vens a mim?" Mt 3.14. Um crítico poderá dizer que a declaração de Isabel é só porque Ela estava grávida de Jesus, porém o texto é contundente: "...que venha a mim a Mãe do meu SENHOR." Obviamente se Maria estivesse grávida de um outro filho, a saudação de Isabel seria outra, porém foi Ela a escolhida para ser a Mãe suprema, a declaração de santa Isabel envolve a Mãe e o Filho. Assim como declaramos que a natureza humana e a divina em Cristo são inseparáveis, semelhantemente, pela lógica, Maria está para sempre associada a Ele como Mãe, que gerou o ser completo de Cristo, incluindo humanidade e divindade. A expressão: "Mãe do meu SENHOR," nos leva a declaração do concílio de Éfeso, que chamou Nossa Senhora de Teotokos.
Muitos evangélicos não aceitam a expressão, Mãe de Deus, pois para eles, é como se estivessem chamando Nossa Senhora de deusa por tabela. Os mesmos porém, ignoram que o termo Mãe de Deus (Teotokos), foi definido no concílio de Éfeso em 431 d.C. e reafirmado no concílio seguinte, o de Calcedônia em 451 d.C. Quase todas as igrejas protestantes, senão todas, subscrevem os dois concílios citados. O termo surgiu em virtude do debate com Nestório, que dizia que em Cristo haviam duas naturezas separadas, e que Maria era mãe apenas da natureza humana, por isso ele usava o termo Cristotokos, Mãe de Cristo. Porém, é bom deixar bem claro, que a ortodoxia condenou Nestório como herege e definiu que Maria é mãe do ser inteiro de Cristo, incluindo, humanidade e divindade. Portanto, Mãe de Deus, está inteiramente em harmonia com a fé da igreja. A declaração de Santa Isabel: "Mãe do meu SENHOR," respalda inteiramente a decisão do concílio de Éfeso. A palavra SENHOR para um judeu carregava um alto grau de significado, em se tratando de um sacerdote como Zacarias (Lc 1.5), esse significado era ainda mais sagrado. Isabel era esposa de Zacarias, e a palavra SENHOR, nos lábios dela, carregava todo o peso teológico e histórico que a mesma tinha nas escrituras hebraicas. Entendemos portanto, hoje, como cristãos, que a palavra SENHOR, usada por Isabel, significa o SENHOR do Antigo Testamento, que se revelou aos patriarcas e profetas. O fato é que se SENHOR tem o peso que tem, para Isabel, a Mãe desse SENHOR; também é de elevada posição. Um homem no Antigo Testamento, quando alcançava a posição de Rei, elevava a posição da sua mãe também como rainha 1 Rs 15.13. Essas rainhas mães tinham grande influência no governo, 1 Rs 2.12-20. Pelo simples fato dos escritores bíblicos se preocuparem em citar o nome da mãe dos reis, é porque isso era importante para eles (1 Rs 14.21; 15.2; 15.10; 22.42; 2 Rs 12.1 etc). Quando Isabel chamou Maria de: Mãe do meu SENHOR, esse pano de fundo veterotestamentário sobre a figura do rei e sua mãe (Gevirah) devia estar embutida na mentalidade de Isabel.
Retomando o tema das rainhas mães, a relação disso com Nossa Senhora é óbvia, se cremos que Cristo é rei, conforme as escrituras deixam claro, p.e. Mt 25.34,40, temos que dizer que Ela é rainha. Talvez algum protestante possa querer contradizer isso com a analogia de que a mãe de um médico não a faz médica, ou a mãe de um arquiteto não a faz arquiteta, e assim por diante. Mas essa analogia é terrível, médico, arquiteto etc, são profissões, são algo que a pessoa escolhe durante a vida. Rei, não é profissão é uma herança hereditária, a pessoa nasce para aquele fim. Mostramos no A.T. que o conceito de rainha mãe está bem presente, vide p.e. 1 Rs 15.13. Agora um evangélico provavelmente vai exigir um texto bíblico prova, já que, esse conceito das mães rainhas não será suficiente. Pois bem, Apocalipse 12 parece ser um bom texto para isso. Esse texto merece uma capítulo só para ele, mas por hora, vou me limitar a dizer que a Mulher ali é uma representação de Nossa Senhora, e que ela está com uma coroa de doze estrelas na cabeça Ap 12.1, o que demonstra que Ela está retratada como uma Rainha. Bom, conseguimos construir dois pontos interessantes sobre a realeza de Maria : primeiro, mostrando pela Velha Aliança o conceito da Rainha mãe. Segundo, um texto no Novo Testamento (Ap 12.1), mostrando ela coroada. Mas além desses dois, temos o testemunho da tradição da igreja falando sobre.
Santo Efrem, o Sírio (306-373): " Oh Imaculada totalmente pura virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo..." (Oração para a Virgem Maria).
São João Damasceno (? - 749): "Quando Ela se tornou Mãe do Criador, Ela verdadeiramente se tornou rainha de toda a criatura" (Homilia da dormição da abençoada Virgem Maria).
Além dessas citações diretas, temos São Pedro Crisólogo (380-450) que dizia que o nome Maria em hebraico, significa, Soberana ou Senhora, Domina em latim. (Sermão 142 A anunciação da abençoada Virgem Maria).
Resumindo tudo que abordamos até aqui temos:
1- O conceito de Maria como a Nova Eva;
2- O conceito da necessidade de Nossa Senhora ser sem pecado para poder ser a Mãe de Deus, reforçada pelo título de kecharitōmenē, Cheia de graça, dada pelo Anjo Gabriel;
3- Um reconhecimento da majestade de Maria por Isabel na expressão: Mãe do Meu SENHOR.
II - Outros Textos Bíblicos
Outro texto importante em nossa análise é o cântico de Maria, o famoso Magnificat. Lc 1.46-55. O cântico de Maria ecoa o louvor de Ana, mãe de Samuel (1 Sm 2.1-10). Ambos cânticos exaltam a Deus por enaltecer a humildade em contrapartida à soberba. Ana no seu cântico, diz algo perfeitamente aplicável à Nossa Senhora: " Levanta o pobre do pó e, do monturo, exalta o necessitado, fazendo-o assentar entre os príncipes e herdar o trono de gloria..." 1 Sm 2.8. Se conectarmos isso à frase da Virgem Santíssima: " Porque Ele contemplou a humildade da sua serva; pois, doravante, todas as gerações me chamaram bem aventurada." Lc 1.48. Foi exatamente o que aconteceu com Ela, Deus a exaltou de tal maneira que Ela não só se tornou mãe, mas a Mãe de Deus. Se aceitamos que Ela é uma Rainha, falar em trono de gloria, é algo absolutamente natural para Maria. Isso não é mariolatria, como um evangélico possa querer afirmar. Apocalipse fala nos 24 anciões que estavam assentados em 24 tronos Ap 4.4, Jesus fala que os discípulos se assentarão em tronos, Mt 19.28. Ora, no caso de Nossa Senhora, Ela já está entronizada como rainha do céu. Obviamente, é necessário neste ponto, pressupor o dogma da assunção, mas isso é para outro momento.
"Todas as gerações me chamaram de bem aventurada," disse Nossa Senhora, se os primeiros cristãos tivessem a mentalidade de muitos evangélicos de hoje, certamente essa previsão da Virgem Bendita, não se confirmaria. Mas o fato é que, Ela sempre foi reconhecida por todas as gerações de cristãos, que davam à Ela o tamanho merecido. Ao dizer que todas as gerações chamariam-Na de bem aventurada, Ela, intui, que os fiéis reconheceriam o lugar Dela no plano divino. Evangélicos, como eu era, certamente vão dizer, que católicos vão muito além do simples titulo de bem aventurada. Novamente o problema do sola scriptura se manifesta. Vamos refletir a respeito. Primeiro vamos colocar o significado da palavra venerar. Venerari é a palavra latina que deu origem a palavra em português venerar, e o significado é prestar homenagem, honrar, mostrar reverência. Nas traduções bíblicas em português aparece um termo semelhante em Hb 13.4: "venerado (gr. timios) seja entre todos o matrimônio..."Alguma traduções vertem timios para respeitado. Mas o termo grego timios, é equivalente ao latim venerari. Um outro exemplo no Novo Testamento é o de Atos 5.34: "Mas levantando-se no sinédrio um fariseu, chamado Gamaliel, mestre da lei, respeitado (timios)..." Esses dois exemplos são suficientes para explicar como os cristãos, tanto católicos como ortodoxos e até mesmo alguns protestantes, lidam com a veneração á Nossa Senhora. Ninguém, com certeza, vai dizer que o termo grego timios, usado para matrimonio e Gamaliel, signifique adoração. Entendendo isso, fica fácil entender o que de fato muitos cristão prestam à Virgem Santíssima. São Paulo nos ensina um princípio importante: "paguem a cada um o que lhe és devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito a quem honra, honra." Rm 13.7. O Apóstolo está falando de autoridades instituídas por Deus, e a elas, devemos dar o que lhes é devido. Isso é semelhante ao que nosso SENHOR disse: "dai a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus." Mt 22.21; Mc 12.12; Lc 20.25. Se devemos tributar as devidas honras a governantes humanos, muitos dos quais, ímpios; o que dizer então, Daquela que abrigou no seu ventre o Filho de Deus? A resposta à isso, primeiramente, deve envolver um sentimento de arrependimento e tristeza por não ter reconhecido essa verdade antes: "arrepende-te dessa tua iniquidade e ora a Deus" At 8.22. Depois, o passo seguinte, é começar a dar a Ela a honra devida. Começar a rezar Ave Maria, é um bom começo.
Um outro ponto do Magnificat, importante de mencionar em nossa abordagem é o momento que Nossa Senhora diz: E o meu espirito exultou em Deus meu salvador" Lc 1.47. Críticos a devoção da Virgem Santíssima, usam esse texto para afirmar que, ao chamar Deus de meu salvador, Ela estaria reconhecendo uma natureza pecaminosa. Nossa Senhora pode ter pensado em varias coisas quando chamou Deus de meu salvador. 1) Ela pode estar se referindo a toda a situação da gravidez Dela, que inclusive, envolveu uma ação sobrenatural de Deus, para que São José assumisse Ela e o Filho, por meio do sonho, Mt 1.19-20; comp. Lc 1.49. 2) Ela pode estar falando de outros livramentos anteriores, não narrados nas escrituras. Nós mesmos, quando passamos por uma situação difícil, dizemos que Deus nos livrou ou salvou; e essa declaração, não está necessariamente ligada a salvação do pecado. 3) Ela pode estar, sim, falando de salvação espiritual, mas no sentido que a Igreja entende. E como é esse entendimento? A Igreja compreende que Nossa Senhora foi salva do pecado, mas por antecipação. Deus prevendo os méritos de Seu Filho, a salvou antes; justamente para que Ela fosse a Mãe Imaculada que teria a graça de conceber o Verbo Eterno. Isso é maravilhoso, pois Deus na sua infinita sabedoria, conseguiu uma forma, com a qual, seu Filho nascesse de uma Mulher Santa. Usando os méritos de Cristo, Ele lançou na conta Dela, um adiantamento da obra expiatória de Cristo. Por todas essas razões, Ela pode chamar Deus de, meu salvador. Os próprios evangélicos acreditam em uma salvação por antecipação, como no caso dos santos do Antigo Testamento, pois os sacrifícios da velha aliança não salvavam ninguém (Hb 10.4-12), mas eram uma prefiguração do sacrifício de Cristo. No caso de Nossa Senhora essa salvação por antecipação foi completa, por tudo o que já dissemos, sobre Ela ser a nova Eva que reverteria a desobediência da primeira mulher.
Outro texto das escrituras relacionado a Nossa Senhora, é o de João 2, o casamento em Caná. Esse texto está registrado somente no evangelho de João, o que é significativo, já que João é o discípulo que recebeu Maria em casa, conforme pedido do SENHOR na cruz, Jo 19.26.-27. Dos doze, apenas Mateus e João, foram os que escreveram evangelhos, Lucas e Marcos não eram do grupo dos doze. Se Mateus estava presente, conforme sugere Jo 2.2, o fato é que ele, e nem os outros dois registraram esse milagre, não sabemos o porquê, mas especulo que o motivo que levou João a escrever sobre esse, foi a convivência por anos com a Virgem Santíssima. De todos os milagres de Jesus, esse é o único que Nossa Senhora é mencionada, e tem uma participação ativa. O texto inicia dizendo que na festa, a Mãe de Jesus estava ali Jo 2.1. Provavelmente o casamento era de alguém bem conhecido Dela, talvez um parente. No evangelho apócrifo chamado: O Evangelho secreto da Virgem Maria, diz que o noivo se chamava Levi, e era filho de Manassés e Lia, que na época da gravidez de Maria, hospedaram Ela e o pai (Joaquim) na viagem que fizeram para visitar Isabel. Jesus e seus discípulos também foram convidados Jo 2.2, e é claro que Ele é o centro da historia. Porém, não tem como não considerar a presença e atuação de Nossa Senhora no evento. Ela, imediatamente após saber da crise da falta de vinho, levou a questão para Jesus. Essa atitude Dela, diz muito sobre o que a Igreja entende sobre a intercessão de Nossa Senhora. A resposta de Cristo à Ela sempre me intrigou, mesmo nos tempos de evangélico. "Mulher que tenho eu contigo, a minha hora ainda não é chegada." Jo 2.4. "Mulher," parece algo tão deselegante de um filho para uma mãe. Podemos dizer que existe dois significados na expressão. O primeiro é o cultural, e o segundo é teológico. No primeiro caso, chamar de Mulher era equivalente a chama-la de madame ou senhora. F.F. Bruce um erudito protestante, afirma isso no comentário dele sobre o Evangelho de João. ( F.F. Bruce; comentário João; Ed. Cultura Cristã Pg 70). O significado teológico, tem haver com o conceito da nova Eva, já mostrado aqui. Ao chama-la de Mulher, Nosso SENHOR a identifica com àquela mulher, da profecia de Gênesis. São João nos da um detalhe interessante, Nossa Senhora não se dirige a Jesus chamando-o de Filho, como Ela fez no episódio dos doze anos, Lc 2.48. Isso pode parecer irrelevante em um primeiro momento, mas revela, que naquele momento, o evangelista quer retratar algo mais profundo que a relação biológica de Mãe e Filho, quer mostrar a relação entre a Medianeira, a que intercede; e o Realizador, Aquele que faz.
O Papel de Nossa Senhora como medianeira, é contestado pelos protestantes, especialmente evangélicos, que não conseguem ver nas escrituras textos claros que mostrem isso. O relato de João mostra claramente a intervenção Dela no episódio. Jesus diz que sua hora ainda não havia chegado, Jo 2.4. A pergunta que surge é: Jesus realizaria o milagre caso Maria não tivesse pedido? Obviamente, o Filho de Deus pode fazer qualquer coisa sem a intervenção de ninguém, mas a Bíblia sagrada ensina claramente uma estrutura hierárquica em que pessoas e até Anjos fazem parte no processo de oração e resposta divina. Por exemplo São Paulo fala em um dom chamado de: dom de socorro, 1 Co 12.28, ele está listado junto com outros carismas, como apostolado, profecia, administração etc. Agora se Bíblia fala que Deus é nosso socorro, Sl 46.1. Por que é preciso um dom de socorro, se o próprio Deus já nos socorre? A reposta é simples, Deus colocou pessoas específicas que prestam ajuda, logo, Deus é nosso socorro, mas Ele faz isso dentro da estrutura do corpo de Cristo. Um outro exemplo, é o que acontece no livro de Daniel, o Anjo Gabriel disse que veio trazer a resposta às orações do profeta, Dn 9.23;10.12-13, inclusive o Anjo diz que encontrou resistência de outros, possivelmente anjos decaídos, que foi preciso a intervenção do Arcanjo Miguel, Dn 10.13. Se juntarmos a isso, o texto de Apocalipse, em que os anjos carregam as orações dos santos, Ap 5.8, temos claramente um ministério angélico associado a oração que os fieis fazem, e a resposta de Deus por meio dos anjos. Mas para que Deus precisaria dessa intermediação? A resposta é, porque ele quer assim. Ele poderia dispensar qualquer mediação e responder nossas orações diretamente, mas escolheu que houvesse cooperação entre suas criaturas, alias, se levarmos isso a ferro e fogo, não seria necessário nem orar, já que Jesus disse que nosso Pai sabe do que é necessário antes de pedirmos, Mt 6.8, mas mesmo assim, mandou que nós orássemos, inclusive ensinou oração do Pai Nosso. No caso da intercessão de Nossa Senhora, e dos outros santos, mas falando especificamente Dela, que tem prerrogativas únicas, devido a sua condição de Mãe de Deus, a Igreja professa que Ela intercede diante de Jesus a todos aqueles que pedem a sua ajuda. Essa crença pode ser verificada na tradição da Igreja, por exemplo na antigo oração ou hino, chamado de: "Sob vossa proteção" (em latim, Sub Tuum Praesidium, Sec. III a VI), que mostra que muito cedo na historia da Igreja, os fieis pediam a ajuda da Virgem gloriosa. A oração completa diz:
" Sob vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus; não despreze as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livra-nos sempre de todos os perigos, Ó Gloriosa e Santíssima Virgem."
Certamente o texto de I Tm 2.5 será evocado por um evangélico: "Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." O texto é colocado contra a doutrina católica da intercessão de Nossa Senhora. Esse texto de São Paulo é um eco do que Jesus falou em Jo 14.6: "...Ninguém vem ao Pai a não ser por mim." A primeira coisa que temos que atentar no que São Paulo diz, é que ele primeiramente fala, que há um só Deus. Ora, sabemos que Jesus é Deus com o Pai por outros textos, então, ao dizer que há um só Deus; isso não descarta o fato de Jesus ser Deus. Se usarmos o mesmo raciocínio, o fato de Jesus ser o único mediador, não descarta que existam outros. Além do mais, a exclusividade da mediação que São Paulo se refere, é em relação ao acesso a Deus que só Cristo pode proporcionar em virtude do seu sacrifício vicário na cruz, Hb 9.24. Nesse sentido, ninguém mais pode fazer essa mediação. Agora, vimos anteriormente que Nossa Senhora, foi de fato uma mediadora entre as pessoas e Jesus na festa de Caná. Um "sola scriptura" poderá trazer outros textos que mostram pessoas intercedendo junto a Cristo. Por exemplo, o episódio do centurião registrado em Mt 8.5-13 em que ele pede para Jesus curar um servo seu que estava doente. Essa passagem mais ajuda, do que refuta o nosso ponto. Ela mostra que o centurião intercedeu, ou mediou a situação entre Cristo e o servo doente. Mas certamente, o ponto que um critico vai se apegar é tentar equiparar o centurião a Nossa Senhora, pelo fato que ele também pediu e Ele fez. Porém, no caso de Nossa Senhora, a intercessão Dela provocou a ação imediata de Cristo, mesmo Ele afirmando que Sua hora não havia chegado. Sobre isso, podemos dizer que o Verbo veio ao mundo através Dela, iniciou seu ministério publico pela intervenção Dela, e ainda, na cruz, tornou Maria, Mãe de João, e de todos os crentes (Jo 19.26-27, comp. Ap 12.17). Do começo ao fim da vida terrena de Cristo, Maria está envolvida. Por isso, a priori, entendo que a Mãe de Deus, hoje no céu; glorificada, exerce seu ministério de intercessão, como nenhum outro santo, por causa de suas prerrogativas únicas.
III- A Mulher Gloriosa de Apocalipse 12
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| Nossa Senhora do Apocalipse |
Reservei um capítulo só para falar de Apocalipse 12, pois acredito que ele seja o arremate de tudo o que falamos até o momento sobre a Santíssima Mãe de Deus. Na época de evangélico, sempre interpretei que essa mulher poderia ser qualquer coisa, menos uma referência a Maria. A verdade é que, ainda hoje, esse é o pensamento protestante predominante sobre a passagem. Pesquisando na internet, encontrei um site protestante, que admite que Maria está contemplada na passagem, mas eles dizem, que o significado não se esgota nela, The Woman of Revelation 12: God’s People, Not Mary Alone (biblebelievingchristian.org) . Essa, na verdade, é a opinião da Igreja Católica. Ela entende, que Maria é a mulher no sentido literal; Israel, no sentido histórico e a igreja, no sentido espiritual, (A mulher de Apocalipse 12 é Maria, Israel ou a Igreja? E o Dragão quem é? | Católicos na Bíblia (catolicosnabiblia.com.br). O problema então, não é dizer que a mulher da passagem é isso ou aquilo, mas sim, descartar totalmente Nossa Senhora do significado, como fazem os evangélicos em geral. O grande argumento, de que a Mulher da passagem é Nossa Senhora, é que o próprio texto diz isso literalmente: " E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono." (Ap 12.5; comp. Lc 1.32-33). É consenso de todos, que o Filho da mulher é Cristo; o texto afirma categoricamente que a Mulher deu a luz ao Filho, que é Cristo, logo, a única mulher, que conhecemos, que deu a luz a Jesus, foi Maria. Sobrepor uma interpretação figurada ao que o texto está dizendo literalmente, é não querer ver o obvio. Podemos observar ao longo do texto, quatro personagens, são eles: a Mulher, o Filho, o Dragão e Miguel. dos quatro, três são interpretados literalmente: o Filho é Jesus; o Dragão, é o diabo; e Miguel, o Arcanjo. Por que somente a mulher teria uma interpretação simbólica? O erro ao meu ver, não é considerar um simbolismo associado a mulher, como a tradição Católica mesmo faz, mas sim, desconsiderar totalmente Maria na passagem. Essa abordagem é curiosa entre os evangélicos, que pedem textos claros que mostrem a Imaculada Conceição, a Assunção e outros dogmas, mas diante de um texto, como o de Apocalipse 12, que diz literalmente: "deu a luz um filho homem," a atitude, geralmente, é dizer que isso não se refere a Maria.
Este comentário não pretende dizer que Nossa Senhora é o único e exclusivo significado da Mulher no texto, mas sim, mostrar que Ela não pode ser retirada como um dos significados, ao meu ver, dominante no texto. Um paralelo que podemos apresentar é o que São Paulo faz com Sara e Agar, na carta aos Gálatas, quando ele não desconsiderando a literalidade das duas mulheres, faz aplicações espirituais e morais; dizendo que uma representa a lei (Agar); e a outra, a graça (Sara), Gl 4.21-31. Obviamente, no caso de Paulo, ele próprio explica a alegoria; em Apocalipse, São João, por causa do gênero do livro, apresenta isso em camadas de significados. Qualquer pessoa que ler a passagem, e sem ter qualquer pressuposto teológico, for perguntado, sobre quem é o Filho que a mulher gerou, talvez em um primeiro momento, será necessário mostrar a ela, que o menino é Jesus, mas se ao descobrir isso, perguntarmos de novo: quem você acredita que seja a mulher que no texto deu a luz a Jesus Cristo? A resposta será obvia, Maria. Alguém pode afirmar, que em Apocalipse nada é óbvio. Isso pode ser verdade em relação a muitos dos símbolos e imagens que aparecem no livro, mas em outros, o significado é de fácil identificação. Por exemplo, o Cordeiro que aparece no capítulo 5, com sete chifres e sete olhos, Ap 5.6, todos sabem que Ele é Jesus, mesmo o texto não mencionando o seu nome. Como sabemos que é Ele? Basta ler o vs. 9, que diz: "foste morto, e com teu sangue compraste homens de todas as tribos povos, povo, línguas e nações." Essa declaração mostra que só pode estar se tratando de Cristo. O mesmo podemos depreender em relação a Mulher de Apocalipse 12, quando diz que Ela deu a luz a criança que é Cristo.
Agora, a pergunta que o meu eu evangélico, do passado, faria ao meu eu católico de hoje, seria: admitindo que a mulher da passagem seja Maria, o que isso ajudaria no alto conceito que a Igreja tem Dela? Bom, primeiramente a resistência que os protestantes, em geral, tem em admitir que a Mulher seja Maria, já mostra que eles não querem lidar com os desdobramentos que isso levaria. Para isso, devemos voltar ao versículo 1 que descreve a Mulher: " E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça." Ap 12.1. João chama a visão da Mulher de grande sinal (gr. méga semeion). A palavra sinal (semeion), é muito importante para João. No Evangelho de sua autoria, ele usa essa palavra para os milagres que Jesus fez, e que autenticavam sua divindade (Jo 20.30-31). No caso da Mulher, João qualifica o sinal como grande, em contraste com o sinal do dragão, que ele chama apenas de outro sinal, Ap 12.3. Uma outra vez no livro ele vai se referir ao sinal como grande; quando os sete anjos aparecem para derramar os últimos flagelos da ira divina, Ap 15.1; o grande sinal da Mulher também aponta para Is 7.14 "O SENHOR mesmo vos dará um sinal." A grandiosidade da Mulher é retratada de forma poética: vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de 12 estrelas sobre a cabeça. O significado desses símbolos tem recebido as mais diversas interpretações, quase sempre, associado ao significado que o interprete atribui a mulher da passagem. Assumindo que a Mulher é Nossa Senhora, como significado principal, como podemos entender os símbolos celestes, como sol, lua e estrelas, ligados a Ela? Acredito que os significados dessas imagens estão associados a sua condição de Mãe do SENHOR e o alto grau de admiração que os cristãos da época em que o Apocalipse foi escrito já demonstravam à Ela. Das três imagens ligada à Mulher, a mais fácil de deduzir o significado, é o da coroa. O detalhe das 12 estrelas, apontam para os doze apóstolos. São Vicente Pallotti (1795-1850), foi o primeiro na história conhecido a chamar Maria de Rainha dos Apóstolos, e o texto de Apocalipse 12 reforça esse título. Além disso, a canção Salve Rainha ( latim Salve Regina), composta no século XI, também mostra que Nossa Senhora desde muito tempo, foi venerada como Rainha.
Certamente um evangélico dirá, que esses títulos, já são da época em que a igreja se "corrompeu", e que não estão na Bíblia, mas se esse for o caso, está aí o texto de Apocalipse 12 mostrando Ela coroada, cabe a ele agora conseguir provar, que a mulher não é Maria. As outra duas imagens atribuídas à Ela: vestida de sol, e a lua debaixo dos pés, são mais difíceis de entender, principalmente pelo leque de possibilidades de significados. Se assumimos que a Mulher é Nossa Senhora, qual o significado de estar vestida de sol? Vestimentas tem basicamente dois significados nas escrituras: cobrir o corpo e servir para indicar alguma condição. Em Gênesis, logo após a queda, Deus vestiu o primeiro casal, Gn 3.21; Jesus, em Apocalipse, fala à igreja de Laodicéia para que compre vestimentas brancas para cobrir a nudez; Ap 3.18. Nesse último texto, a nudez é uma referência a condição espiritual daquela igreja. Roupas também eram marcadores de alguma condição física ou moral da mulher; a virgindade, por exemplo, 2 Sm 13.18-19; modéstia, 1 Pe 3.3 etc. Em Apocalipse, os anjos são vestidos de linho fino Ap 15.6; também os santos, Ap 19.8. Agora, no caso de Nossa Senhora, Ela está vestida de Sol, é como se não houvesse roupa digna o suficiente para Ela, e foi necessário o próprio sol, para cobrir o corpo Imaculado da Virgem Gloriosa. A roupa de varias cores de Tamar no texto de 2 Sm 13.18, indicava sua virgindade, mas foi rasgada por ter sido maculada; a de Nossa Senhora é feito de algo que nunca foi maculado, indicando a gloria de sua pureza perpétua. Além disso, estar vestida de sol indica a maternidade divina, pois Ela estava gravida do Sol da justiça, Ml 4.2; e da luz do mundo, Jo 8.12. A lua debaixo dos pés, transmite a ideia de algo sendo subjugado, Rm 16.20; Ap 3.9. Isso nos remete ao início da criação, quando a lua foi criada para ser a governante da noite Gn 1.16, que nas escrituras tornam-se símbolo do mal, Sl 30.5; 91.5; 1 Ts 5.4-9. Na própria perícope de Ap 12, vemos a luta entre a Mulher e o Dragão, e o texto mostra a vitoria da Mulher em todas as situações:
1- O dragão tenta tragar o Filho da Mulher, mas esse é arrebatado para o céu. Ap 12.4-5;
2- Persegue a Mulher, mas Ela ganha asas de águia e foge para o deserto, Ap 12.13-14;
3- Lança um rio para matar a Mulher, mas a terra engole o rio, Ap 12.15-16.
Essas vitórias da Mulher sobre o diabo nos ajuda a entender a lua debaixo dos pés. A governante da noite está debaixo dos pés da Mãe de Deus. Por isso podemos rezar: "...Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nos pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.". Estabelecida nossa posição em relação a identidade da Mulher, agora vamos ver o que aqueles que negam a identidade da Mulher, como sendo Nossa Senhora, usam como argumento para sustentar suas interpretações. Basicamente, existem duas outras interpretações defendidas por exegetas cristãos, são elas Israel e a Igreja. Novamente, porém, gostaria de frisar que a minha defesa neste comentário, é de que Maria é a Mulher da passagem, mas reconheço, que há elementos no texto que parecem apontar para outra direção, mas mesmo assim, isso não significa que Nossa Senhora desaparece do significado, e um outro se sobrepõe ao Dela. Por exemplo, o texto diz que o Filho foi arrebatado para o céu, e o dragão foi perseguir a Mulher, Ap 12.4-6. Os críticos da posição, afirmam que isso não aconteceu na historia, pois não há registro de perseguição a Maria depois da ascensão de Cristo. O texto diz que o dragão parou diante da Mulher para lhe tragar o Filho, Ap 12.4. Ora, isso aconteceu e está registrado no evangelho de Mateus, quando diz que Herodes ao saber que o rei dos judeus havia nascido, mandou assassinar todas as crianças com menos de 2 anos, para tentar com isso, matar Jesus (Mt 2.1-16). A fuga para o Egito (Mt 2.12-15), também pode ser colocada como um evento histórico, que demonstra a proteção divina contra as tentativas do diabo para matar Jesus. Talvez a parte mais difícil seja a versículo que fala que a Mulher fugiu para o deserto, depois do texto falar sobre o arrebatamento do Filho, Ap 12.6. Como entender a fuga da Mulher? Se pensarmos no que aconteceu com Nossa Senhora após a ascensão de Jesus, realmente temos no texto bíblico, poucas informações; o último registro sobre Ela está em Atos 1.14. Vamos voltar ao texto de Apocalipse, que fala da perseguição do dragão (diabo) à Ela. É bom observar, que o vers. 6 e o vers. 14 dizem a mesma coisa, que Ela fugiu para o deserto; no versículo 14, temos a adição da informação de que foi dado à Ela asas de águia, para que Ela fugisse ao deserto e ficasse lá por três anos e meio. Mesmo não tendo muita informação direta sobre o que aconteceu com Nossa Senhora, depois do episódio de pentecostes, é perfeitamente possível, conciliar o texto de Apocalipse, com as informações subsequentes de Atos. Sempre é bom lembrar, que Nosso SENHOR, na cruz, entregou os cuidados de Sua Mãe ao Apóstolo João, Jo 19.26-27. Partindo disso, o que acontece com Ela, no decorrer da historia da Igreja, está intimamente ligado ao Apóstolo do Amor.
Através de Atos, conseguimos rastrear o que acontece com João, o que nos ajuda a ter uma ideia do que aconteceu com Nossa Senhora. Por exemplo, Atos 4.3 nos informa que São João, junto com São Pedro, foram presos, logo após anunciar as boas novas do evangelho. Onde estava Nossa Senhora quando esse episódio e outros, (At 5.18) ocorreram? Baseado no pedido de Jesus a João, para que ele cuida-se de sua Mãe, o Apóstolo certamente cumpriu essa grandiosa tarefa com sucesso. O texto de Apocalipse 12.6,14, diz que a Mulher fugiu para o deserto, com asas de águia. As asas de águia, falam de algo ou alguém que ajudou Ela a ficar segura. Juntando as informações, João obedecendo ao pedido do SENHOR, diante da forte perseguição que começava a eclodir contra todos os cristãos, levou a Virgem Bendita para um lugar seguro, a fim de que Ela fosse preservada contra a perseguição que o diabo empreendia contra à Igreja. Para reforçar isso, o texto no versículo 14, diz que Ela ficou: "...fora da vista da serpente." Interessante, que o texto para de chamar o diabo de dragão, e começa a chama-lo de serpente. Essa mudança não é por acaso, a batalha entre a Mulher e a serpente, anunciada pelo Eterno em Gn 3.15, chega em um ápice, e o livro de Atos mostra no mundo real essa batalha. Um detalhe das asas de águia, que podemos inferir, não como argumento para provar a identidade da Mulher, mas como uma santa coincidência. Uma das quatro criaturas de Apocalipse, é justamente aquela que é semelhante a uma águia voando, Ap 4.7 (comp. Ez 1.10). Muito cedo, na tradição cristã, as quatro criaturas foram comparadas aos quatro evangelistas, São Irineu de Lion, foi um dos primeiros a perceber isso (Contra Heresias ). Justamente o Evangelho escrito por João, é aquele que Irineu compara a águia voando. Seria as asas de grande águia, de Apocalipse 12.14 uma referência simbólica ao apóstolo que se tornou o protetor de Nossa Senhora? Dois detalhes a mais na passagem de Apocalipse que gostaria de abordar, são os três anos e meio (um tempo dois tempos e metade de um tempo; 1260 dias) e também o rio que a serpente (dragão) expeliu contra a Mulher. Acredito que os dois eventos podem estar conectados. Sobre o rio, ou inundação que o diabo lança contra a Mulher, com certeza fala de algo terrível que ele usa contra Ela. Uma possibilidade bem plausível é o que Atos 8.1-3 fala: "E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judeia e de Samaria, exceto os apóstolos." e no versículo 3: "E Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão." Sublinhei as palavras, grande perseguição e assolava, para realçar que, o quê Saulo de Tarso fez contra a Igreja, foi algo avassalador; lembrando uma inundação; que nos remete ao que o dragão lançou contra a Mulher em Ap 12.15. A continuação da passagem, Ap 12.16, mostra que a inundação foi milagrosamente tragada pela terra.
O milagre da terra tragando o rio, aponta para o que acontece no capitulo 9 de Atos. Saulo, o perseguidor da Igreja, encontra o Filho da Mulher; e aquele que, então trabalhava para o dragão, agora se transforma no grande Apóstolo Paulo. Curiosamente em Atos 9.4, Saulo cai por terra, e em 9.8 ele se levanta da terra. É como se, o Saulo que cai por terra "morre", e depois, volta como Paulo, ou seja, a terra engolindo a inundação. Alguém pode questionar que a perseguição do então Saulo, parece se encaixar mais com a Igreja, o que ajudaria aos que defendem que a Mulher é a Igreja. Mas notem, que a Mulher em Apocalipse fica segura contra o ataque do diabo, a Igreja, sim acaba sendo afetada na perseguição, conforme At 8.3. Obviamente, que Nossa Senhora mesmo sendo preservada fisicamente, Ela deve ter sofrido muito, sabendo das perseguições que seus filhos estavam atravessando. Agora, a questão dos 1260 dias, que são três anos e meio, em que a Mulher ficou protegida, pode estar relacionado ao tempo que durou a forte perseguição contra a Igreja, incluindo a de Saulo. Atos não nos da informação de tempo, mas, estamos partindo da informação de Apocalipse, para presumir o tempo que a perseguição teria durado. Um detalhe da tradição que ajuda em nossa abordagem, é sobre o paradeiro de Nossa Senhora após a última informação que temos sobre Ela nas escrituras. Mesmo havendo divergências sobre isso, uma possibilidade bem forte, foi que Ela foi para Éfeso, para um lugar chamado, Meryem Ana Evi (Casa de Maria), em um lugar que hoje fica na Turquia. O interessante, é que a casa fica em uma região bem isolada, e que no primeiro século, deveria ser ainda mais retirada. Casa da Virgem Maria - Google Maps. Se conectarmos essas informações, com apocalipse 12.6,14, que fala da Mulher indo para o deserto tudo fica muito claro. Nossa Senhora foi levada por João para o deserto, onde ficou protegida da grande perseguição. O último versículo do capitulo 12, diz: "E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e tem o testemunho de Jesus."Ap 12.17. Ao ver que não era possível tocar na Mulher, o diabo parte para fazer guerra contra os descendentes Dela. Não há muita dificuldade para nossa defesa aqui, o remanescente da Mulher são todos os cristãos perseguidos pelo demônio. Não são descendentes biológicos, pois o próprio texto diz, que são: os que guardam os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. O interessante dessa expressão final é que João faz uma distinção entre a Mulher e a Igreja, o que dificulta a opinião dos que veem a mulher exclusivamente como Igreja ou Israel.
Há um versículo, que ainda precisa ser tratado, pois ele traz algumas dificuldade para nossa abordagem: " E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz." Ap 12.2. O desafio desse texto, é entender o que significa dores de parto, especialmente para a posição que estamos apresentando aqui, de que a Mulher é Nossa Senhora. Para entender o desafio, primeiro precisamos mostrar o que está por traz do problema. Um dogma muito caro na tradição católica e ortodoxa, é a Virgindade Perpétua de Maria. O dogma afirma que Maria é Virgem, antes, durante e após o parto, ou seja; a virgindade Dela permaneceu inviolada durante todo o curso da sua vida. Sabemos, pelas escrituras, que a concepção foi por obra do Espirito Santo, portanto, a virgindade Dela foi preservada. Também sabemos, que depois do nascimento, Nossa Senhora e São José, não tiveram relações (esse ponto será discutido no próximo capítulo). A questão desafiante, é justamente durante o parto, pois certamente, Nossa Senhora teve Jesus em um parto normal, sendo assim, a pergunta seria: como uma criança é parida de uma mulher virgem, sem afetar essa virgindade? Um milagre, é a resposta obvia para essa questão, assim como ocorreu na concepção. Voltamos então ao texto de Apocalipse que fala Dela com dores de parto. Teoricamente se Ela estava com dores, Ela estava tendo um parto normal, como qualquer outra mulher. A questão é, que muitos doutores da Igreja, seja do lado católico como do lado ortodoxo, afirmam que Nossa Senhora não sentiu dores no parto e nem mesmo derramou uma gota de sangue. No caso ortodoxo, alguns rejeitam a ideia da mulher de apocalipse ser Nossa Senhora, justamente pelo texto falar nas dores de parto (The Apocalypse: In the Teachings of Ancient Cristianity, An orthodox commentary by Archbishop Averky Taushev; Chapter 12). A tradição católica sustenta que a Mulher é Maria, mas entende o versículo, de maneira espiritual. Este comentário defende a posição católica, como pôde ser visto até agora, e sustenta com todas as forças, a virgindade perpétua da Mãe de Deus. A Igreja entende as dores de parto de Apocalipse, como uma referência, não a dores físicas, mas dores emocionais e espirituais, que Nossa Senhora sentiria ao ver seu Filho sendo crucificado (um dos títulos da Virgem é Nossa Senhora das Dores). Certamente, um critico vai usar isso como um argumento contra, pois, se usamos o versículo 5 literalmente, seria contraditório dizer que o versículo 2 é figurado, quando fala das dores de parto. Não tem como negar, que essa critica é coerente, pois, seria dar aos versículos, sentidos diferentes e convenientes para o texto.
Antes de dar uma explicação alternativa para o texto, precisamos estabelecer que o dogma da Virgindade Perpetua é dogma intocável e inegociável, e este comentário o sustenta. O catecismo da Igreja diz:
" O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria (162), mesmo no parto do Filho de Deus feito homem (163). Com efeito, o nascimento de Cristo «não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal» da sua Mãe." (Catecismo; I Parte; II Seção; § 499).
O catecismo desenvolve mais o tema, mas não há nenhuma menção se Ela sentiu ou não dores de parto. Uma outra questão que está envolvida, é que dores de parto estaria ligado ao pecado, segundo Gênesis 3.16. Como a igreja também defende a Imaculada Conceição, de que Ela nasceu sem pecado, e que ficou sem pecar durante toda a vida, a questão das dores de parto seria um desafio a mais para sustentar a interpretação literal de Ap 12.2. Primeiro, vamos abordar sobre as dores de parto e a relação com a virgindade. De largada, poderíamos responder que Ela, pode ter sentido dores de parto, e mesmo assim, ter permanecido Virgem, já que estamos tratando de um milagre. Mas uma outra pergunta pode surgir, não seria um milagre incompleto, já que Ela permaneceu virgem durante o parto, mas com dores? Essa é uma questão extremamente complexa, pois a dor faz parte da condição humana natural, e mesmo Nossa Senhora, sendo Imaculada; era no sentido natural, sujeita as finitudes humanas. Nosso SENHOR, que é Deus com o Pai e com o Espírito Santo; que se fez carne; e que também participou dessas vicissitudes, sentia dores, Is 53.3. Um principio que nunca deve ser esquecido, é que a graça de Nossa Senhora, nunca pode superar a graça de Nosso SENHOR, ou seja, a priori se Ele sentiu dores; Ela também pode ter sentido, no parto. Nosso SENHOR certamente tinha um corpo perfeito, e durante sua vida terrena, pela lógica, nunca ficou doente ou sentia dores causado por alguma enfermidade, mas na cruz, quando os pregos nas mãos e nos pés, o atingiram, Ele sentiu dores; o que explica o texto de Is 53.3, que o chamava de homem de dores. Semelhantemente, Nossa Senhora, como a Nova Eva, sem o pecado original, tinha um corpo sem defeito nenhum, e durante sua vida, não teve dor nenhuma causada pela mácula do pecado. Mas as dores de parto, no caso Dela, não estão necessariamente ligadas à uma fraqueza pecaminosa, mas é semelhante as dores que Nosso SENHOR sentiu na crucificação. E isso é magnifico, pois Ela no parto, ao dar a luz ao Cordeiro de Deus, participa não só emocionalmente, mas fisicamente das dores da redenção.
Uma segunda questão, é sobre as dores de parto estar associado ao que Deus falou em Gênesis: " E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará."O questionamento que se levanta sobre o texto citado, é que as dores de parto estaria associado a culpa pela queda. Dessa maneira, Nossa Senhora, sendo Imaculada, não estaria sujeita a esse mal. Não há como negar, que a dor é uma contingência do mundo caído, e, Apocalipse afirma, que um dia ela deixará de existir Ap 21.4. No caso das dores de parto, o texto de Gênesis declara, que isso é um mal específico que as mulheres teriam de enfrentar. Não podemos nos esquecer, porém, que não foi só a mulher que recebeu a sentença pelo pecado, Deus disse a Adão: " No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás." Gn 3.19. Eva recebe a sentença das dores de parto, e da submissão ao marido; e Adão, recebe a sentença de que o sustento seria com muito trabalho; e ambos receberam a sentença que um dia morreriam. Voltamos ao assunto anterior, Nosso SENHOR, ao encarnar, se sujeitou em sua vida terrena a essa sentença dada a Adão. Ele precisou trabalhar como carpinteiro, Mc 6.3. São José deve ter falecido alguns anos antes de Jesus começar seu ministério, ou seja, entre os 12 e 30 anos de Cristo. Sendo assim, Jesus, por ser Filho único de Maria, precisou trabalhar para sustentar sua Mãe e a si mesmo. Portanto, se o SENHOR da Gloria, se sujeitou as mazelas de um mundo caído, e participou da sentença que Adão trouxe a humanidade, a Virgem gloriosa, se submeteu a sentença que Eva trouxe sobre todas as mulheres, mesmo sendo Imaculada. Um detalhe sobre o Nascimento de Jesus, que me leva a crer que Nossa Senhora pode ter sentido dores de parto literal, conforme a Mulher de Apocalipse sente, é que Lucas nos diz algo importante: "E enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz." Lc 2.6. A menos que entendamos que Maria soube da hora do nascimento de Jesus por uma revelação, o normal, é que Ela tenha sabido do momento exato, através de um sinal físico. As contratações uterinas, indicando o trabalho de parto, parece ser o mais natural, já que o texto, não diz nada diferente.
Para finalizar, gostaria de trazer autores que na história, defendiam que a Mulher de Apocalipse é Nossa Senhora. Um dos primeiros conhecidos foi Epifânio de Salamina (Séc IV), Ele escreveu uma obra chamada, Panarium, na qual ele faz uma defesa da fé contra várias heresias, que circulavam no seu tempo. Uma delas se chamava Antidicomarianistas, que literalmente significa: oponentes de Maria, e negavam, sobretudo a virgindade perpétua. Na parte dedicado a refuta-los, Epifânio citando a passagem de Apocalipse, comenta:
"Talvez isso se aplique à Ela, não posso ter certeza, e não estou dizendo que Ela permaneceu imortal, e não estou afirmando que Ela morreu. (The Panarion of Epiphanius of Salamis Books II and III. De Fide; pg 624).
Apesar da posição comedida dele, há no comentário, um pista de que a crença de que a Mulher da passagem era a Virgem Maria, já fazia parte das interpretações à época. Uma outra discussão que circulava, e que pode ser notada, é sobre a assunção da Virgem. Um outro autor antigo que via a mulher como Maria, foi Quodvultdeus ((Séc V), ele foi bispo de Cartago e Santo Agostinho foi seu mestre. Ele comenta o texto de Apocalipse:
"No Apocalipse do apóstolo João, está escrito que o dragão se colocou à vista da mulher que estava para dar à luz, para que, quando ela desse à luz, ele devorasse o filho que dela nascera. Que nenhum de vocês ignore que o dragão é o diabo; saibam que a virgem representa Maria, a pura , que deu à luz a nossa pura cabeça. Ela também encarnou em si uma figura da santa Igreja: ou seja, como, ao gerar um filho, permaneceu virgem, de modo que a Igreja, ao longo do tempo, gera seus membros, e ela não perde a sua virgindade." (Quodvultdeus of Carthage : the creedal homilies : conversion in fifth-century North Africa; pp. 67-68).
Uma terceira citação é de um autor do século VI ou VII, chamado Ecumênio, ele é conhecido por ser um dos primeiros a chamar a Virgem de Imaculada. No comentário sobre Apocalipse ele escreve:
“E apareceu no céu um sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés”? Ele está falando da mãe de nosso Salvador, como eu disse. Naturalmente, a visão a descreve como estando no céu e não na terra, pura de alma e corpo, igual a um anjo, cidadã do céu, aquela que veio para realizar a encarnação de Deus que habita no céu (“pois”, diz ele, “o céu é o meu trono”), e como aquela que nada tem em comum com o mundo e os males nele contidos, mas totalmente sublime, totalmente digna do céu, mesmo tendo surgido de nossa natureza e ser mortais. Pois a Virgem é da mesma substância que nós. A doutrina profana de Êutiques, de que a Virgem é de uma substância milagrosamente diferente da nossa, juntamente com suas outras doutrinas docéticas, deve ser banida dos tribunais divinos." (Commentary on the Apocalypse, [Fathers of the Church Patristic Series:] A New Translation; pp. 107-108).
Esses três autores, são suficientes para mostrar que muito cedo na história, já havia escritores que identificavam a Mulher como a Virgem Santíssima, mas é bem verdade, que outros, identificavam-na com a Igreja. Na verdade, não há muitos comentários para estabelecer qual era a interpretação dominante. Talvez, com mais certeza, podemos dizer que; no início havia uma tendência a ver a mulher como a igreja, especialmente pela questão das dores de parto. Mais tarde, os autores dando sentidos mais espirituais a esse problema, viram Nossa Senhora na passagem. Este comentário, ousa usar uma abordagem mais literal em toda o texto, incluindo o problema das dores de parto, porém sustenta todos os dogmas marianos, como verdades intocáveis de fé. Uma palavra final sobre a mulher de Apocalipse, é que se considerarmos ela de fato como sendo Nossa Senhora, poderíamos dizer que a visão de João Dela, seria a primeira aparição pós Assunção que temos registro, já que, a aparição Dela a São Tiago, por volta 40 d.C. teria sido em vida. Nossa Senhora do Apocalipse é um dos muitos títulos marianos.
Antes de encerrar esta sessão sobre a Mulher de Apocalipse, precisamos tratar sobre o dogma da assunção da Virgem Santíssima. Uma coisa que precisamos entender que um dogma ou doutrina nem sempre é construída em cima de um texto direto. Por exemplo, o dogma que citamos anteriormente da união hipostática, ele é uma elaboração filosófica em cima da ideia bíblica de que o Verbo se fez carne Jo 1.14. Porém, não há no texto de João, nem em outro texto, uma explicação detalhada de como as naturezas de Cristo estavam unidos. No caso da assunção de Nossa Senhora, não tem um texto explicito declarando que Ela no final de sua vida, foi elevada aos céus de corpo e alma. Mesmo que eu entenda que a Mulher de Apocalipse é Nossa Senhora, conforme acabamos de mostrar, na minha opinião, não é possível provar o dogma da assunção só por esse texto. Obviamente que para mim, João retrata Ela ali com alguém glorificada, por todas as três imagens que abordamos anteriormente, mas eu presumo isso baseado já na crença de que Ela foi assunta aos céus. Na verdade, existem três motivos pelos quais eu creio na assunção da Virgem gloriosa.
1- A Assunção é o corolário lógico da impecabilidade de Nossa Senhora. Essa primeira razão é fundamental para entendermos a Assunção. Mesmo um critico honesto do dogma, vai ter que admitir que, se Ela permaneceu sem pecar durante todo o curso de sua vida, Ela não poderia ser subjugada pela morte. As escrituras afirmam que: "o salario do pecado é a morte" (Rm 6.23); "a alma que pecar essa morrerá" (Ez 18.20); ainda São Paulo afirma: "o aguilhão da morte é o pecado." (1 Co 15.56). Ora, se Nossa Senhora recebeu a graça da impecabilidade, por ser a Mãe de Deus; por ser cheia de graça, essa inexorável lei que todos nos estamos sujeitos, por causa do pecado, Nela não teve efeito. Portanto, a assunção Dela é consequência lógica da sua vida isenta de culpa e pecado. Analogamente, todos os crentes vão passar por algo semelhante no final dos tempos, São Paulo afirma que na Vinda gloriosa de Nosso SENHOR, todos os cristãos, vivos e mortos (ressuscitados), vão ser elevados aos céus 1 Ts 4.17. Nossa Senhora por sua condição de imaculabilidade, foi elevada aos céus no final do curso de sua vida. Nesse sentido, para entender perfeitamente o tema, não podemos saltar direto para o dogma da Assunção, sem antes, entender os dogmas da Maternidade divina e da Imaculada Conceição.
2- A Assunção é defendida por todas as igrejas de sucessão apostólica. Esse ponto é importante, pois normalmente um protestante desavisado, entende que a Assunção é um dogma exclusivo da Igreja Católica Romana. Na verdade todas as igrejas de origem apostólica defendem a Assunção de Nossa Senhora. Todas elas receberam essa tradição e a reconheceram como verdade de fé. Uma curiosidade é que tanto as Igrejas Ortodoxas, como a Católica, comemoram a data da Assunção, (dormição para os Ortodoxos), no dia 15 de Agosto (28 no calendário Juliano). Existe um famoso adágio popular que diz: "onde há fumaça, há fogo," o fato de todas as tradições cristãs antigas aceitarem o dogma ou a tradição da Assunção, isso é estaticamente relevante. Podemos equiparar isso ao fato da ressurreição de Nosso SENHOR. Obviamente que a Ressurreição de Jesus é amplamente demonstrada nas escrituras e isso é matéria de fé entre todas as tradições cristãs. Mas em diálogos com Ateus, será que adianta citar as escrituras para validar a ressurreição? Nesse caso, qual o argumento que usamos para provar que a ressurreição foi um fato real e verdadeiro? Sem as escrituras, a ressurreição de Nosso SENHOR e a Assunção de Nossa Senhora ficam numa superfície muito parecida. Ambas tem um forte testemunho antigo que atesta os fatos. No caso da Ressurreição, por exemplo, usamos o argumento do tumulo vazio, não vou desenvolver isso aqui, mas apologistas cristãos usam isso como uma evidência histórica da ressurreição. No Caso de Nossa Senhora, também existe a ausência do corpo, e mais, existe a ausência do próprio tumulo. Agora considerem o seguinte, mesmo que um protestante não tenha o mesmo conceito católico sobre Maria, ele é obrigado a concordar que se Ela tivesse morrido e seu corpo tivesse permanecido na sepultura, haveria uma grande quantidade de relíquias do corpo Dela, ou pelo menos uma grande panfletagem de supostas relíquias do corpo. Mas o que temos é uma total ausência de relíquias, como ossos, por exemplo. Existem sim, relíquias de segundo grau, como o anel de noivado Dela ou o véu que Ela usava (maphorion), mas todas essas relíquias não estão associadas a um suposto corpo que morreu e que permaneceu no túmulo. É bem verdade, que existe uma tradição sobre um suposto túmulo da Virgem Maria em Jerusalém, porém, é bom lembrar a quem tentar usar isso como argumento contra a Assunção, que essa tradição está ligada a uma outra, a de que os Apóstolos colocaram o corpo Dela nesse túmulo e três dias depois, os Apóstolos encontraram o túmulo vazio.
3- A Mulher de Apocalipse 12. Já expusemos a nossa interpretação sobre a Mulher de Apocalipse ser uma descrição de Nossa Senhora, mas é possível ver o dogma da Assunção na passagem? Obviamente que o texto não descreve a cena da Assunção Dela, da maneira como descreve a de Jesus. Porém, temos pistas disso, por exemplo, Ela é descrita de forma glorificada no céu Ap 12.1, inclusive Ela está coroada. São Paulo escreve que receberá a coroa da vida após sua jornada de fé 2 Tm 4.8. Por dedução, se Ela é vista coroada, é porque Ela antecipadamente já recebeu esse prêmio. No caso da coroa Dela, a mesma é descrita com 12 estrelas, o que mostra Ela como rainha dos Apóstolos. Outro Ponto a destacar na passagem, é que Ela desaparece sem que o dragão consiga qualquer vantagem sobre Ela. No próprio livro de Apocalipse, mesmo os santos sofrem derrotas para a besta, que é um agente do dragão Ap 13.2. No caso da Mulher, o próprio dragão tentou derrotar a Mulher, mas em nenhum momento ele consegue nenhuma vantagem sobre Ela. Isso reforça nosso ponto sobre a impecabilidade Dela e consequentemente, demonstra que Ela, por não ter mancha de pecado nenhum, venceu outro agente do mal, que é a morte. Segue-se que Ela no fim do curso de sua vida irrepreensível, por não ter nenhuma mancha, foi elevada ao céus em corpo e alma.
IV- A SEMPRE VIRGEM MARIA
Na ultima parte deste comentário, vamos tratar sobre se Maria teve ou não outros filhos. Como já defendi a posição evangélica, de que Ela teve outros filhos, consigo entender um pouco como funciona a argumentação protestante. Antes de entrar na discussão bíblica, quero demonstrar que, as primeiras gerações de reformadores, defendiam a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora. A primeira geração da reforma, que eclodiu no século XVI, tinha como principais figuras, Lutero e Zuínglio, o primeiro na Alemanha e o segundo na Suiça. Ambos mantiveram a crença na Virgindade Perpétua.
Lutero: " Cristo, Nosso Salvador foi o único e natural fruto do ventre virginal de Maria, e isso aconteceu sem a participação de um homem, e Ela permaneceu virgem depois disso."(Luther's Works, eds. Jaroslav Pelikan (vols. 1-30) & Helmut T. Lehmann (vols. 31-55), St. Louis: Concordia Pub. House (vols. 1-30); Philadelphia: Fortress Press (vols. 31-55), 1955, v.22:23 / Sermons on John, chaps. 1-4)
Na mesma obra, ele diz o seguinte:
" Uma nova mentira está circulando sobre mim, a de que eu tenho pregado e escrito, que Maria, a Mãe de Deus, não era virgem, tanto antes como depois do nascimento de Cristo."(Pelikan, ibid; v.45:199 / That Jesus Christ was Born a Jew (1523)
Zuínglio: "Creio firmemente que Maria, segundo as palavras do Evangelho, como uma Virgem pura, deu à luz o Filho de Deus e, no parto e após o parto, permaneceu para sempre pura e intacta." (Zwingli Opera, Corpus Reformatorum, Berlin, 1905, v. 1, p. 424).
Avançando no tempo, chegamos a João Calvino, o caso dele, é um pouco complexo, pois ele parece ambíguo, vezes parece endossar a crença, e outras, parece nega- la, mesmo assim, os especialistas acreditam que ele tenha sido defensor da Virgindade Perpétua. Vou colocar uma comentário dele que parecem corroborar isso.
Calvino: "Surgiram certas pessoas obstinadas que desejaram sugerir, a partir desta passagem [Mateus 1:25], que a Virgem Maria teve outros filhos além do Filho de Deus, e que José coabitou com ela posteriormente; mas que loucura é esta! Pois o escritor do evangelho não teve a intenção de registrar o que aconteceu depois; ele simplesmente desejava deixar clara a obediência de José e demonstrar que ele estava plena e verdadeiramente seguro de que Deus havia enviado Seu anjo a Maria. Portanto, ele jamais habitou com ela com a expectativa de uma união conjugal.
Vemos, assim, que ele nunca a 'conheceu' carnalmente, pois ela fora separada [consagrada] para um propósito sagrado. Ele preferiu renunciar aos seus direitos e abster-se do matrimônio consumado, permanecendo, contudo, legalmente casado; ele preferiu, digo, permanecer assim a serviço de Deus, em vez de considerar o que poderia ter buscado para sua própria satisfação. Ele abandonou tudo para poder submeter-se totalmente à vontade de Deus.
Além disso, nosso SENHOR Jesus Cristo é chamado de 'primogênito'. Isso não ocorre porque houve um segundo ou um terceiro filho, mas porque o escritor do evangelho foca na questão da precedência. As Escrituras costumam nomear o 'primogênito' independentemente de haver ou não a sucessão de um segundo. Assim compreendemos a intenção do Espírito Santo. Por isso, prender-se a sutilezas tolas e vãs seria abusar das Sagradas Escrituras que, como ensina São Paulo, devem ser utilizadas apenas para nossa edificação.". (Max Thurian; Mother of All Christians (traduzido por Nevill B. Cryer, New York: Herder & Herder, 1963, pp. 39-40).
Esses três reformadores são suficientes, mas houve outros, como por exemplo, John Wesley, que também escreveu defendendo o dogma. Mas o que mudou, para que os protestantes das gerações seguintes negassem a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora? Muito provavelmente, foi a questão do sola scriptura. O livre exame do texto sagrado, por parte dos protestantes, especialmente daqueles oriundos da chamada reforma radical, que acreditavam que a reforma iniciada por Lutero e outros, não tinha rompido o suficiente com a Igreja Católica, levou a ver em textos, que falavam em irmãos do SENHOR, que Maria pode ter tido outros filhos. Nosso comentário agora vai se debruçar sobre esses textos e mostrar que a interpretação da Igreja sobre a Virgindade Perpétua é coerente com o texto sagrado e com a milenar tradição cristã.
Primeiro, quero mostrar pela cronologia do texto bíblico, que é praticamente impossível que Maria Santíssima tenha tido outros filhos. Entendendo isso, fica mais fácil derrubar os textos que os evangélicos usam para tentar refutar o dogma. Vamos começar pelo evangelho de Mateus, pois ele nos informa, que depois do nascimento de Jesus, reis do oriente visitaram o menino, (Mt 2.1-12). Não sabemos ao certo, quanto tempo depois do nascimento, os sábios chegaram onde Jesus estava, porém, podemos tentar presumir pela harmonia dos evangelhos. Pela lógica, a visita se deu depois dos acontecimentos narrados em Lucas, sobre a circuncisão de Jesus e o cumprimento da purificação feita por Nossa Senhora, depois do nascimento de um filho homem, (Lc 2.21-24). O período de purificação era de 40 dias (Lv 12.1-4). Sendo assim, a não ser que a visita deles tenha acontecido antes do oitavo dia da circuncisão, os sábios chegaram depois dos quarenta dias, pois o texto de Mateus fala, que depois da visita deles, o casal fugiu para o Egito (Mt 2.13). Dessa maneira, em quarenta dias ou mais, se José e Maria, já estavam tendo relações, haveria uma grande possibilidade Dela já ter engravidado de um outro filho. Porém o texto deixa claro que quando o casal foi para o Egito, eram os dois e Jesus, (Mt 2.13). Bom Até aqui, podemos conceder que por causa do pouco tempo, e por alguma razão, mesmo que o casal já estivesse tendo uma vida conjugal, Ela não tinha engravidado de novo. Porém, vamos avançar no tempo, e ir para o Egito, com a sagrada família. Mateus nos informa que Eles ficaram no Egito até a morte de Herodes o grande, (Mt 2.15). Novamente, não sabemos quanto tempo a família sagrada ficou lá, mas estima-se, baseado no ano que Jesus nasceu e o tempo da morte de Herodes, que foi de 2 a 4 anos. Mesmo se pegarmos o mínimo de tempo, dois anos, o texto fala que depois da volta, ainda era só, Maria, José e Jesus, (Mt 2.21-22). Em dois anos ou mais, um casal que tem relações regularmente, no mínimo já teria um outro filho.
Depois disso, a única informação que temos sobre a sagrada família, é o episódio dos 12 anos de Jesus registrado em Lc 2.41-52. Por tudo o que o texto diz, não há nada ali que nos leve a concluir que José e Maria, tivessem outros filhos naquele momento. Começando pelos versículos 41 e 42, o relato descreve que todos os anos o casal ia à festa da páscoa. O que salta no texto, é que não há nesses primeiros versículos, e nem nos seguintes, menção alguma a qualquer irmão de Jesus. Alguém pode entender que, Lucas omitiu os outros filhos do casal por algum motivo qualquer. Porém, pensando no tipo de narrativa de Lucas, acho muito difícil, se realmente o casal tivesse filhos, Lucas ter omitido tal informação. Uma razão que podemos dar, é que por exemplo, Tiago, que é apontado como um dos irmãos de Jesus, é citado pelo próprio Lucas em Atos, como figura destacada na Igreja (At 15.13). Se Tiago já tivesse nascido nesse tempo, e fosse irmão de Jesus, Lucas, muito provavelmente teria apontado no texto a presença dele no episodio no desaparecimento e reencontro de Jesus em Jerusalém. Mas simplesmente Lucas omite Tiago e qualquer outro irmão, lembrando que segundo a interpretação dos evangélicos, de Mt 13.55-56, Jesus teria pelo menos seis irmãos. No versículo 48, Nossa Senhora diz que, Ela e José estavam aflitos à procura de Jesus. Novamente há uma omissão total a qualquer outro filho. A conclusão mais coerente, é que José e Maria, até o tempo dos doze anos de Jesus, não tinham outros filhos. E depois? Será que dos doze aos trinta, José e Maria começaram a ter os filhos mencionados nos evangelhos? Antes de entrar no texto que é definitivo para mim, precisamos lembrar que, segundo a tradição, São José faleceu em algum momento entre os doze e os trinta anos de Jesus. O que sabemos mais certo, é que no episódio da festa de Caná, São José já tinha falecido. Talvez Ele tenha falecido próximo dos trinta anos de Jesus, mas também pode ter ocorrido muito mais cedo, não sabemos, seja como for, se Eles tiveram outros filhos, esses nasceram, num período de 18 anos, segundo o cálculo mais otimista. Matematicamente é possível, mas vamos fazer uma conta. Se Ela teve um filho a cada dois anos, o mais velho, quando Jesus tinha 30, estava com 16 ou 17 anos. Nessa sequência, o filho (a) mais novo teria entre 5 e 6 anos. No caso do mais velho, Tiago, ele teria entre 19 e 20 anos, quando Jesus ressuscitou e apareceu a ele, (1 Co 15.7). Ele era bem jovem, mas considerando que outros apóstolos talvez regulassem nessa idade, e se ele era discípulo desde o início do ministério de Jesus, sem problema. Porém, para os evangélicos que defendem que Tiago se converteu depois da ressurreição, isso é um problemão. Tiago foi contado entre o grupo de apóstolos ou presbíteros, (At 15.2,4,13); e com poder de decisão da noite para o dia, só porque era irmão de Jesus? O princípio de 1 Tm 3.6, que os presbíteros não podiam ser neófitos, no caso de Tiago, não teria sido levado em consideração. Ele não seria só jovem em idade, mas iniciante na fé, e mesmo assim, ele aparece como um líder da igreja. Definitivamente isso é totalmente nonsense. E isso tudo, é se São José faleceu perto do início do ministério de Jesus, talvez ele tenha falecido muito antes, o que geraria outro problema, pois pelo cálculo que vimos, não haveria tempo de gerar os seis filhos mencionado nos evangelhos.
Mesmo que se supere todos esses obstáculos, o texto que define a questão, é o de João 19.26-27. A grande pergunta que todos devem fazer é: onde estão os seis irmãos de Jesus naquele momento difícil? Qualquer tentativa de responder à isso é problemática. A mais comum, usada por aqueles que atacam a Virgindade Perpetua, é a de que os irmãos não estavam ali, por que não criam em Jesus (Jo 7.5). Não sei se alguém ainda se convence com essa ideia. Mesmo se os irmão não criam Nele, abandonar a Mãe, que estava ali sofrendo muito, vendo Seu Filho agonizar na cruz é algo inacreditável. O pior ainda, é pensar que as supostas filhas de Maria, que eram no minimo duas, não estivessem junto da Mãe. Os seis foram atacados pela covardia? Os seis eram sem afeto natural, para abandonar o Irmão e a Mãe naquela hora? Acrescente a tudo isso, o fato de Jesus passar o cuidado de sua Mãe a um discípulo, e não a um de seus irmãos ou irmãs. E Tiago? Aquele que se tornaria coluna da Igreja, aceitaria o fato de sua Mãe ficar sob cuidado de um estranho? O mandamento de honrar Pai e Mãe, (Ex 20.12, Ef 6.2), era levado a sério por um judeu, e cuidar dos pais na velhice estava incluído. No caso de Tiago, se ele era o filho mais velho depois de Jesus, cabia a ele cuidar da Mãe. Se pensarmos a respeito, poderemos levantar inúmeros outros problemas, o que nos faz concluir, que na verdade, o termo irmãos e irmãs, tinham um outro grau de parentesco com Jesus, talvez primos ou sobrinhos. O que também explica a ausência deles junto à Mãe na cruz e o pedido de Jesus para João cuidar Dela. Penso que essa pequena jornada na cronologia de Jesus, consegue demonstrar, que Jesus foi o filho unigênito de Maria. Estabelecido isso, podemos agora abordar a questão dos Irmãos que os evangelhos mencionam. Também vamos ver outros argumentos usados pelos evangélicos.
Acredito que o caminho correto de saber a verdade é por esse caminho, se você começa pela questão dos irmãos, você vai ter que superar todas as dificuldades que apresentamos anteriormente, agora se você começa pelo caminho da cronologia, fica muito mais fácil decifrar o problema dos irmãos. Por que o Novo testamento usou então a palavra irmãos (gr.adelphos), para se referir a outro grau de parentesco que não irmão biológico? Para quem defende a Virgindade Perpetua, existem duas maneiras de explicar os irmãos de Jesus: 1- Eram irmãos só por parte de pai; 2- eram primos ou sobrinhos. A primeira opção, talvez seja a mais simples, pois não há necessitada de explicar o termo adelphos, já que no Novo Testamento mesmo, temos o uso de adelphos para meio irmão p.e. Mt 1.2. Dos 12 irmãos de Judá, seis eram irmãos de pai e mãe, os outros seis, eram apenas de pai. Nessa posição, os irmãos de Jesus eram filhos de José de um outro casamento. Essa possibilidade é defendida pelos ortodoxos, e ela tem a força de dados extra bíblicos, como por exemplo, uma citação de Josefo sobre Tiago (Antiguidades Judaicas, Parte 1, Livro XX, 8). Só essa explicação, já resolve a questão, mas mesmo considerando a força dela, prefiro a posição tradicional católica, de que na verdade, os irmãos tinham um outro grau de parentesco. Um detalhe nessa questão, é que sempre que a palavra irmãos, é usada, ela está relacionada a Jesus e não a Maria, ou seja, eles são irmãos de Jesus, mas nunca foi dito que são filhos de Maria ou José. Isso é importante, pois eles podem ser irmãos de Jesus, por parte de pai, como vimos antes, mas não seriam filhos de Maria. O autor também pode estar usando adelphos, no sentido de amizade profunda, Pv 18.24. Tiago por exemplo, pode ter sido um primo de Cristo, e ao mesmo tempo, um grande amigo de infância. Quem garante que Jesus não chamava Tiago de irmão, no sentido que chamamos um grande amigo hoje em dia? Alguém pode argumentar, que no caso dos outros irmãos, não faria sentido dizer que a palavra está sendo usado dessa maneira. Mas o caso de Tiago é diferente, pois ele de todos, é o que é citado individualmente, como irmão do SENHOR; (Gl 1.19). Irmãos também pode estar se referindo pessoas do mesmo clã ou conterrâneos, por exemplo, como no caso de Abraão e Ló (Gn 13.8). Esse é um bom exemplo, pois se conectarmos Jo 7.3-5 com Mt 13.54-58, podemos deduzir que os irmãos que não criam nele, são seus conterrâneos de Nazaré, que igualmente não criam Nele. Esses exemplos, acredito que responda a questão dos irmãos de Jesus.
Outro questionamento dos que atacam a Virgindade Perpetua é o de Mt 1.25: "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus." Temos duas questões nesse versículo: Primogênito e a expressão até que. No caso de primogênito, o argumento consistiria, no fato de que, se Jesus era o primogênito, logo teriam outros filhos. Essa ideia, tenho observado, que os próprios evangélicos a tem abandonado, por descobrirem que ela é falha. Primogênito dentre outros significados, simplesmente quer dizer, o primeiro gerado, e não necessariamente, que precise ter outros depois. Ou seja, uma mulher pode ter um filho, morrer no parto e mesmo assim seu filho ser chamado de primogênito (Dicionario Enciclopédico da Bíblia 3° edição; Ed. Vozes, Pg 1217). Se primogênito dependesse de ter outros filhos, não faria sentido Deus pedir para consagrar todos para si logo após o nascimento (Ex 13.2; 34.19). Um segundo problema, é o o que o versículo diz: que ele não a conheceu até que deu a luz a seu filho. Até que, indicaria que depois do nascimento, José teria tido relações maritais com Maria. Primeiro, precisamos lembrar que segundo a lei mosaica, um homem não podia ter relações sexuais durante o período de purificação da mulher Lv 18.19, e mesmo que Nossa Senhora tenha tido um parto limpo, ou seja, sem sagramento algum, o texto de Lucas diz que Ela cumpriu a lei Lc 2.22. Portanto, certamente, se tivesse ocorrido relações, não seria imediatamente após o parto, e pelo menos 40 dias depois. Vimos também, anteriormente, que depois dos quarenta dias, houve a visita dos sábios, e na sequência, a fuga para o Egito. Mesmo que entre a visita e a fuga, tivesse havido relações, vimos que nenhum outro filho nasceu até a volta do Egito para Nazaré. Essa construção toda, mostra que, a expressão "até que" deve significar outra coisa, que não que eles tiveram relações depois do evento nascimento. A expressão só indica o que aconteceu até o nascimento, e não o que aconteceu depois. Uma expressão em português para ilustrar isso: "O carro andou até que acabou o combustível." Ninguém vai entender com essa expressão, que depois que o carro parou, ele nunca mais andou. A frase só mostra o que aconteceu até o momento que o combustível acabou. Há versículos bíblicos que reforçam essa ideia, por exemplo 2 Sm 2.23; At 8.40.
Uma outra tentativa que os protestantes fazem, é tentar conectar Maria mãe de Tiago (Lc 24.10; Mc 16.1; Mt 27.56; Mc 15.40), com Maria Santíssima, para com isso, dizer que, Tiago irmão do SENHOR é Filho de Maria Santíssima. Sobre esse argumento, quero dizer, que muitas vezes a Bíblia não se preocupa em mostrar que um determinado personagem citado em uma parte, aparece em outra, com alguma característica diferente, mas na realidade é a mesma pessoa. Por exemplo, Natanael, que aparece em João 1.45-50 é identificado com Bartolomeu um dos doze (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.14; At 1.13), mas essa identificação é por dedução, e não por um texto claro. Outro leitor, pode acreditar que, Natanael é na verdade; Mateus, já que esse, também não é citado no Evangelho de João. Esse exemplo mostra, que é muito temeroso tentar negar o dogma da Virgindade Perpétua, baseado em tênues associações de personagens. Mas vamos explorar a questão de Maria, mãe de Tiago, ser Maria, Mãe de Jesus. De todas as citações de Maria, mãe de Tiago, em nenhuma delas, há qualquer referencia dela ser também mãe de Jesus. A argumentação protestante, foca na cena da crucificação. Já que em João 19.25 Nossa Senhora é citada, mas nos sinóticos Ela é omitida; Maria, mãe de Tiago, ao contrário, é citada nos sinóticos, e omitida em João. Mas, como provar, que na verdade, Maria, Mãe de Tiago, não é a mesma Maria, de Clopas, que também aparece na Cruz (Jo 19.25)? O único possível trunfo que os evangélicos tem, é dizer que, seria estranho os sinóticos terem omitido a presença de Maria, Mãe de Jesus na cruz, e terem colocado outra Maria, de menos relevância. Concluir com isso, que as duas eram a mesma pessoa, é um grande salto dedutivo. A pergunta pode ser invertida, se os sinóticos acreditavam que elas são a mesma, por que chamar a Virgem, de Mãe de Tiago, ao invés de Mãe de Jesus? Lucas por exemplo, que está escrevendo para Teófilo, para instrui-lo acerca da fé (Lc 1.1-4). Desde o início ele identifica que a Mãe de Jesus, se chama Maria; porém, no momento da ressurreição, ele a chamaria de Mãe de Tiago (Lc 24.10), sendo que no seu Evangelho, não há outra conexão que ligue as duas? É muito mais coerente entender, que ele chama essa Maria, de mãe de Tiago, justamente para diferencia-la da Mãe de Jesus, assim como ele fez com Maria Madalena (Lc 8.2); e Maria, irmã de Marta Lc 10.38-39. Não tem como Teófilo ter entendido que as duas Marias, (a Mãe de Jesus e a de Tiago), eram a mesma pessoa pelo que Lucas registra.
Outro questionamento dos evangélicos, é a ausência de Maria Santíssima no túmulo de Jesus, já que diferente da crucificação, Ela é omitida por todos os quatro evangelistas. Todavia, a Maria, mãe de Tiago é citada Lc 24.10; Mc 16.1; (Mt 18.1 a outra Maria?). Basicamente é o mesmo argumento da crucificação. Na realidade, para mim, seria surpresa se Ela estivesse ali. Pela coerência de tudo o que falamos até agora, Nossa Senhora era a serva perfeita. Não havia Nela, nenhum vestígio de incredulidade. Aquela que ao ouvir do Anjo, que teria um Filho na sua virgindade, creu; quanto mais, ao ouvir durante a vida inteira Seu Filho dizendo: que seria crucificado, morto e que ressuscitaria ao terceiro dia (Mt 17.23; 20.19; Mc 9.31ss). Ela como Mãe, cumpriu seu papel, estando junto à cruz até o fim, e certamente, estava quando o sepultaram. Mas depois, Ela ficou esperando a promessa se cumprir, não fazia sentido Ela ir ao túmulo, sabendo que em menos de três dias, Ele estaria de volta. Aquelas mulheres, foram ao sepulcro para cumprir um ritual a um morto, elas não estavam esperando a ressurreição, prova disso, que elas ficaram perplexas (Lc 24.4) ao ver o túmulo vazio; e ainda, os anjos disseram à Elas: "por que buscai o vivente entre os mortos?"(Lc 24.5). Nossa Senhora, todavia, estava acima disso; não precisava mais ir a sepultura; Ela mais do que ninguém, sabia o que estava para acontecer. Um detalhe sobre a não menção de Maria junto com as outras mulheres na sepultura, é que também não há nenhum texto que fale de uma aparição de Jesus à Ela, depois da ressurreição. Mas alguém acha mesmo que Ele não se manifestou para Ela? É óbvio que foi a primeira pessoa que viu Ele, e por isso, também, Ela não estava no grupo de mulheres que foram ao sepulcro.
Para encerrar, vou colocar o que outras tradições cristãs professam sobre a Virgindade Perpétua de Maria Santíssima. Para àqueles que acreditam que o dogma é uma inovação católica, e que são só eles que a defendem, atentem para isso: (todas as citações, foram traduzidas do inglês, consulte os links para verificar o original).
Igreja Ortodoxa Grega: "Argumentar contra a virgindade perpétua de Maria é sugerir algo que é altamente implausível, para não dizer impensável: que nem Maria, nem seu protetor, José, teriam considerado inapropriado ter relações sexuais após o nascimento de Deus em carne. Deixando de lado, por um momento, a singularidade da Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade, lembremos que era prática comum entre os judeus devotos do mundo antigo abster-se de atividade sexual após qualquer grande manifestação do Espírito Santo." (ortodoxos gregos).
Igreja Ortodoxa Armênia: "A Igreja Armênia afirma dogmas marianos fundamentais, incluindo a virgindade perpétua — antes, durante e depois do nascimento de Cristo — e a maternidade divina, considerando Maria moralmente imaculada e purificada do pecado original na Anunciação, tornando-se a arca sagrada da encarnação. Esses dogmas foram ratificados nos primeiros concílios da Igreja aceitos pela Armênia, como Éfeso e Calcedônia (embora posteriormente matizados), e são parte integrante do catecismo armênio, retratando Maria como a mãe sempre virgem que nutriu o Provedor de toda a criação. Ao contrário da Imaculada Conceição católica romana (a ausência de pecado em Maria desde a sua concepção), a visão armênia vincula sua purificação diretamente à manifestação do Espírito Santo na Anunciação, preservando-a como um modelo de santidade humana sem isenção inata do pecado original." (armenios).
Igreja Ortodoxa Copta: "A virgindade de Santa Maria não é uma questão de sua vida privada, mas sim uma "realidade bíblica" que pertence à nossa fé em Jesus Cristo. Pois, quando o Verbo de Deus se encarnou, Ele não se importou com o tipo de lugar onde seria abrigado, nem com as roupas que usaria, nem com a comida que comeria; mas certamente se importou muito com a Virgem que seria Sua mãe." (coptas).
Igreja Ortodoxa Siríaca: "A Igreja Ortodoxa Siríaca chama Maria de "Mãe de Deus" ("Theotokos"), porque ela deu à luz Cristo, Deus verdadeiramente encarnado. Ela é venerada como virgem perpétua e mãe de Deus, sendo a primeira entre os santos. No entanto, o conceito de Imaculada Conceição para Santa Maria não é aceito. De acordo com os ensinamentos da Igreja, Deus se agrada em atender às súplicas que lhe são dirigidas por intercessão de Santa Maria, a Virgem Mãe. Este tem sido o ensinamento constante dos santos padres desde o início da Igreja Cristã." (ortodoxos sirios).
Todas as declarações mostram que, tradições cristãs muito antigas, que nem em comunhão com Roma estão, defendem a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora. Portanto isso é mais uma prova cabal, de que a crença vem dos primeiros séculos da fé cristã; e era uma crença ortodoxa; e os poucos que a negaram, como os antidicomarianistas por exemplo, foram refutados pelos mestres da igreja, como, Epifânio de Salamina. A grande negação do dogma, veio pelas gerações posteriores de protestantes, já que sabemos que os primeiros reformadores, como Lutero e Zuínglio ainda a sustentavam. Além da tradição cristã, mostramos também um forte base bíblica que juntas, dão sustentação segura para o cristão professar o credo que diz na parte tocante a Mãe de Deus: "...E nasceu da virgem Maria." Por hora, terminamos aqui nosso estudo sobre a Teotokos, mas esse comentário poderá sofrer acréscimos posteriormente, ou ganhar uma segunda parte de acordo com a vontade divina. Despeço-me com o Salve Rainha.
Salve, Rainha,
mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve!
A vocês bradamos,
os filhos degredados de Eva.
A vocês suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses Vossos olhos misericordiosos
a nós volvei.
E, depois deste desterro,
nos mostrai Jesus, bendito fruto
do Vosso Ventre.
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce Virgem Maria.
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.




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