As 2300 tardes e manhãs de Daniel 8.14
A profecia contida em Daniel 8, é um daqueles textos que trazem uma enorme dificuldade para todos que estudam as escrituras seriamente. Porém, apesar da dificuldade, vamos explorar esse rico texto e tentar chegar a uma melhor conclusão. Para inicio de conversa, podemos afirmar com certeza que até o vers. 8, temos praticamente uma unanimidade em relação a interpretação do texto. Vamos fazer uma resenha do que foi dito até esses versículos.
Investigando o Texto
1- Carneiro com dois chifres altos; um era maior do que o outro; o mais alto subiu por ultimo. Interpretação: Esse carneiro representa o império Medo-Persa que já tinha aparecido no livro de Daniel no cap 2 da estátua de Nabucodonosor representado pelo peito e braços de prata e no cap.7 na figura do urso com três costelas na boca. Ainda na visão do carneiro, o chifre maior representa os persas que tiveram supremacia no reino; e o fato de subir depois, significa que os persas que estavam subjugados pelos medos conseguiram ascender e tomar o poder principalmente na figura de Ciro o grande. O carneiro era um animal bastante significativo na cultura persa um historiador do século 4 Ammiannus Marcellinus, disse que os governantes persas carregavam a cabeça de carneiro quando eles estavam liderando seus exércitos. Também haviam imagens de carneiros estampados em moedas e em turbantes de imperadores persas.
2- Bode com um chifre notável entre os olhos. Esse bode não é outro senão o Império Grego com seu mais importante líder, Alexandre o grande. A vitória do bode sobre o carneiro, que simbolicamente representou a vitoria dos gregos sobre os persas ao longo de vários anos em batalhas famosas da antiguidade chamadas de guerras médicas. O império Grego também apareceu no livro de Daniel no capitulo 2, na estatua de Nabucodonosor, nos quadris e coxas de bronze, e no capitulo 7 no leopardo de quatro asas e quatro cabeças; as quatro asas são a rapidez das conquistas gregas, enquanto que a as quatro cabeças são a divisão do império; o que nos leva novamente ao capitulo 8.
Após essa breve recapitulação dos eventos descritos até o vers. 7, o vers. 8 então, descreve o que aconteceu com o bode. O chifre notável é quebrado, e no seu lugar surgem quatro outros. Alexandre o Grande, é o chifre notável que foi quebrado, aludindo a sua morte abrupta em 323 a.C. de causa desconhecida. Após a morte de Alexandre, o Império grego foi dividido entre quatro oficiais de Alexandre a saber: Cassandro, Lisímaco, Ptlomeu e Seleuco. Bom, até aqui, a maioria dos interpretes andam de mãos dadas, a partir do vers. 9 que a coisa pega fogo, pois, na sequência, o texto afirma que de um dos quatro chifres, surge um chifre menor; que se engrandeceu muito para o sul, para o oriente e para terra gloriosa. Quem é essa ponta pequena? Podemos afirmar que existem basicamente três interpretações para essa personagem.
1- Interpretação Futurista - Afirma que o chifre pequeno de Daniel 8 refere-se a uma figura do futuro, ou seja, o anticristo escatológico. Normalmente os proponentes dessa interpretação, usam como argumento principal, o fato de no vers. 13 um dos anjos envolvidos na visão, fala sobre a transgressão assoladora, o que ligaria essa profecia com o dito de Jesus em Mt 24.15 “ quando pois, virdes sobre o abominável da desolação do qual falou o profeta Daniel...” outro argumento seria o vers. 17, que fala que a profecia se refere ao tempo do fim.
2- Interpretação Adventista - Adventista, pois é uma interpretação bem particular deles, talvez as Testemunha de Jeová tenham uma interpretação semelhante, porém com suas próprias nuances. A interpretação é a seguinte: O pequeno chifre das profecia seria Roma e posteriormente o papado. As 2300 tardes e manhãs são relacionadas com as 70 semanas mencionada no capitulo 9 de Daniel, os proponentes usam a expressão “ setenta semanas estão determinadas sobre teu povo” afirmando que a palavra “determinada” pode ser traduzido por “cortada” ou seja, as setenta semanas deveriam ser cortadas dos 2300 dias, clarificando, 490 anos deveriam ser tirados de 2300 anos. Observe que nessa interpretação 2300 tardes e manhãs são transformadas em anos. Os textos usados para embasar isso são: Nm 14.34; Ez 4.5-7.
3- Interpretação Histórica Preterista - Essa é a interpretação que vê o cumprimento da profecia de Daniel já realizada na história passada, especialmente na figura de Antíoco Epifânio. Podemos resumir a profecia da seguinte maneira: o pequeno chifre é Antíoco Epifânio que surgiu de um dos quatro outros chifres mencionado na profecia, que, como citado anteriormente, são quatro reis que dividiram o império grego após a morte de Alexandre o Grande. Esse chifre pequeno profanaria o santuário por 2300 tardes e manhãs, que por sua vez, são entendidas como 1150 dias, já que as 2300 manhãs e tardes, são sacrifícios que eram realizados duas vezes ao dia, ou seja, 2300 devem ser divididas por 2, dando o número de 1150 dias.
Análise da posição futurista
Após apresentar as opções de interpretação, vamos tentar ver qual delas faz mais justiça ao texto de Daniel.
A primeira, a que vê o cumprimento lá no futuro, usa como principal argumento, mas não único, o fato de Cristo ter mencionado “O abominável da desolação” como algo a ser cumprido no futuro. Porém, a pergunta a ser feita é: o abominável da desolação predito por Cristo, é o mesmo mencionado no capitulo 8 de Daniel? Para responder essa pergunta precisamos ver a ocorrência dessa expressão em Daniel. A expressão em grego é: "bdelygma tes eremoseos". Ela aparece em Dn 12.11, praticamente igual à citada por Jesus em Mt 25.15 da LXX. A expressão aparece ainda em Daniel, com variações em 9.27, 11.31 e 8.13. Segundo Eberhard Nestle, teólogo alemão, a expressão “abominação da desolação” é um termo tipicamente judaico de desprezo a uma divindade pagã. Portanto, ela é praticamente um termo técnico para demonstrar um sentimento de repulsa divina pela idolatria, especialmente aquela que é praticada dentro do lugar sagrado. (conf. Ez 5.15 e todo o capítulo 8). Sabendo disso, podemos afirmar que a expressão usada em Daniel em diversas ocasiões não significa necessariamente a mesma coisa. Sendo assim, o uso que Jesus faz dela pode ser entendida não com respeito a profanação causada por Antíoco Epifânio, relatada por Daniel no capítulo 8.13 (também em 11.31), mas à outra abominação cumprida em outro tempo. como por exemplo, aquela feita por Tito Vespasiano no ano 70 d.C. conforme Dn 9.27. Outro argumento do futurismo é usar a afirmação que aparece em Dn. 8.17,19,26. que afirma o cumprimento da visão para o tempo do fim, ou dias muito distantes conforme o vers. 26. Mais uma vez precisamos entender o significado da expressão, neste caso, “tempo do fim.” Se compararmos com Dn 11.27.35 vamos perceber que fim não é o fim escatológico, mas sim um fim específico, neste caso o fim da profanação de A. Epifânio. Podemos afirmar portanto, que não há nenhuma evidência forte o suficiente para sustentar que a profecia de Daniel 8 terá um cumprimento no futuro distante. Sendo assim, vamos seguir adiante para analisar a próxima interpretação.
Análise da Posição Adventista
Essa é com certeza uma interpretação bem mais sofisticada do que a primeira, no entanto, é aquela, que a meu ver, é a mais problemática do ponto de vista teológico. É bom lembrar que o movimento adventista surgiu em torno da profecia de Daniel 8 (junto com o Cap.7 e 9). A interpretação dada a principio por William Miller sobre as 2300 tarde e manhãs, foi entendida por ele como se referindo a data da volta de Cristo que não aconteceu. Foi reinterpretada por outros como algo que teria acontecido no santuário celestial, ou seja no céu, acabou sendo o estopim do que viria a ser o Adventismo de Sétimo Dia. A interpretação já foi resumidamente mostrada acima, porém, vamos analisa-la agora de forma mais detalhada. Como foi mostrado, os adventistas usam diversos textos para interpretar e calcular a profecia de Daniel. O método deles parte do principio de que as 2300 tardes e manhãs refere-se a anos. É bem verdade que os adventistas não são os únicos a usar o método dia-ano para interpretar a profecia de Daniel, por exemplo, um famoso Rabino, chamado Saadia Gaon (Rasag), afirmou que o fim dos 2300 anos marcaria a chegada do Messias, porém. o cálculo dele partia da saída de Israel, do Egito, chegando em uma data totalmente diferente à de 1844. Outro Rabino que seguia o princípio dia-ano foi Shlomo Yitzhaki (Rashi), que também afirmou que no final do período o messias chegaria. No caso da interpretação adventista, o fracasso no cumprimento da profecia foi remediada por meio de uma nova interpretação, o que resultou no que é hoje conhecido como: juízo investigativo. Um famoso dito que diz: “ A emenda ficou pior do que o soneto” é bem apropriado para definir a tentativa dos intérpretes adventistas de consertar a falha da profecia inicial. A seguir vou expor as razões do porquê a interpretação adventista acaba falhando.
- O primeiro erro que identifico na posição adventista, é a associação que eles fazem entre as 2300 tardes e manhãs do cap 8, e as 70 semanas do cap. 9. Claro, a ideia em principio é engenhosa, pois já que eles transformam as 2300 tardes/manhãs em anos, é necessário encontrar um ponto de partida da profecia para então com essa data chegar até o cumprimento futuro da mesma. O jeito que eles encontraram para fazer isso é por meio das seguintes ideias: Daniel não teria entendido a profecias das 2300 tardes e manhãs fazendo necessário uma nova visita angelical para explicar ao profeta o quê aconteceu no cap. 9. Outra associação já mencionada, é interpretar a palavra “decretada” como “cortada do cap 9.24. E por fim uma terceira relação feita pela IASD, é sobre o uso de duas palavras diferentes no capitulo 8 para visão, hazor e maree. Esse argumento seria uma tentativa para explicar o quê Daniel não entendeu e que precisava do esclarecimento do Anjo. Bom, primeiramente a respeito do suposto não entendimento de Daniel da profecia, é quase ofensivo a inteligência de Daniel e a capacidade do Anjo de explicar. Lembrando que a sabedoria de Daniel era um modelo de comparação a de outros sábios; “ És mais sábio do que Daniel” (Ez. 28.3); o próprio livro do profeta enaltece a inteligência dele conforme Daniel 1.20. É verdade que o texto a princípio afirma que ele não entendeu a profecia Dn. 8.15, porém imediatamente, o Anjo Gabriel se apresentou para explica-la. Veja as palavras do Anjo: “ te farei saber a visão” Dn. 8.19. Será que o Anjo Gabriel falhou na sua missão de explicar a profecia para Daniel? é inconcebível isso, claro que Daniel entendeu a visão a ponto de desfalecer pelas coisas que o Anjo mostrou para ele. Vs. 27. Além disso, a profecia do cap 8 e do cap 9 possui uma diferença de aproximadamente 13 anos entre elas, o quê torna a teoria do não entendimento de Daniel ainda mais questionável, já que, seria muito estranho Deus deixar o seu servo com uma dúvida durante 13 anos. Ainda sobre isso, os adventistas afirmam que os 2300 “anos” foram entendidos por Daniel como o tempo que Israel ainda ficaria no exílio e sem o centro do seu culto que era o templo, por isso ele foi consultar os livros, especialmente o de Jeremias para averiguar sobre a duração do cativeiro babilônico, e ao ler Jeremias, viu que o tempo seria de 70 anos, o que então levou Daniel a uma terrível duvida entre o que foi dito no cap 8 sobre 2300 tardes e manhas, e, entre o que estava escrito na profecia de Jeremias. Bem, agora considere o problemas disso, se realmente Daniel estivesse com essa duvida, ele teria esperado os 13 anos para consultar a profecia de Jeremias? Ele não teria feito isso imediatamente após a mensagem angelica do cap.8? Qualquer pessoa que tem uma duvida procura sanar a mesma o mais rápido possível e não esperar mais de uma década para fazer isso. Alguém pode dizer que ele fez isso, mas o texto não relatou, porém isso é especulação infundada, já que o texto fala que a consulta se deu no cap. 9, ou seja 13 depois. Assim que, não faz nenhum sentido a interpretação adventista , e que a visão do cap 9 é algo totalmente independente do cap.8.
- A segunda relação que os adventistas fazem para ligar as 2300 tarde/manhãs com as 70 semanas, é afirmar que a palavra decretada Dn 9.27 pode significar cortada. Bom após desconstruir a primeira premissa do suposto não entendimento de Daniel, essa segunda premissa acaba ficando enfraquecida, pois, se realmente a palavra deva ser traduzida por cortada, a pergunta que dever ser feita é: cortada de onde? A questão é relevante em virtude do livro de Daniel possuir muitos outros números dos quais as 70 semanas (490 anos) possam ser “cortadas.” Há 1260 dias, 1290, 1335 e nossos 2300, além disso, os 490 poderiam ser cortados da história em geral, e não necessariamente de qualquer número do livro. A associação que os intérpretes adventistas fazem entre Daniel 8 e 9 é muito tênue, praticamente todo o alicerce da exegese deles necessita de que a vinda do Anjo no cap 9 tenha sido para explicar o cap 8. Mesmo assim, vamos analisar a questão da palavra decretada que eles afirmam que deve ser traduzida por cortada. A palavra usada no original é chetek, que pode ser traduzida por: decretado, cortado, eliminado, excluído, etc. Porém, vamos ver algumas traduções bíblicas sobre a palavra; NIV - New international version: “ seventy years are decreed… a palavra decreed em inglês, é a mesma palavra em português para decreto; Biblia Rena Valera em espanhol: “ setenta semanas están determinada sobre tu pueblo;” Biblia Luther em alemão: “Siebzig Wochen sind bestimmt” a palavra bestimmt também significa decretado. Uma outra tradução que pode ser evocada, é a de David Gorodovits, que é uma tradução direta do hebraico para o português segundo o Talmude e fontes judaicas, e ela também verte a palavra para “determinada sobre o teu povo”. Portanto, nenhum tradutor arriscou traduzir a palavra do jeito adventista. Sendo assim, esse é mais um argumento falacioso.
- Uma terceira questão a ser abordada, é sobre o uso das palavras hazon e mareh no capitulo 8 de Daniel. Os adventistas usam isso também, afirmando que hazon seria a profecia inteira do capitulo 8, enquanto que mareh seria especificamente a visão das 2300 tardes e manhãs, a parte que Daniel não entendeu. Sobre isso, os adventistas usam especialmente os vers. 27, na qual, afirmaria que Daniel ficou sem entender a visão. No capitulo 9.23, quando o anjo fala das setenta semanas, ele afirma que veio para que Daniel soubesse a interpretação da visão, (mareh). Segundo, eles então, a visão da qual o anjo fala, é a mesma visão (mareh) não entendida por Daniel em 8.27. Essa palavra hebraica é usada muitas vezes no Velho Testamento, e o seus significados são: visão, aparência, aparição. Em Isaías 53.2 o famoso texto do servo sofredor a expressão: "Nenhuma beleza tinha, para que o desejássemos", a palavra "beleza", é a tradução de mareh, que também poderia ter sido traduzido por "aparência". Os exegetas adventistas advogam a ideia de que, a razão do texto usar a palavra mareh em 9.23, foi para resgatar algo que ficou inexplicado no capitulo 8, especialmente a questão das 2300 tardes e manhãs. Esse argumento não leva em consideração o fato de que essa palavra aparece também no capitulo 10.1, onde a palavra significa simplesmente a visão que Daniel teve do ser celestial. O que o anjo fala em 9.23 pode ser entendido como o anuncio de uma nova visão, e não a retomada do que foi dito em 8.27. Para os adventistas, Daniel precisava usar a palavra hazon se ele fosse falar de uma nova visão, mas, o exemplo de 10.1 e de muitas outras passagens, mostra que isso é um preciosismo, ainda mais quando no texto em 8.16, Deus ordena que Gabriel dê o significado da visão (mareh), o que subentende que a ordem foi cumprida sem necessidade de uma nova explicação. Um detalhe que pode ser acrescentado aqui, é algo curioso na proposta da teologia adventista. Para eles o anjo precisou voltar para explicar as 2300 tardes e manhãs, na questão do tempo, isto é, Daniel não teria entendido o numero 2300, porém, se atentarmos para a profecia, ela não contém só a questão do tempo, mas, ela contém o elemento de lugar também. Segundo eles, o santuário que seria purificado, seria o santuário celestial, não o terreno. O ponto é que, se a visão precisasse ser explicada, teria que ser na questão do lugar, mais do que do tempo, pois, alguém acha que Daniel realmente entendeu que o santuário que seria purificado seria o celestial ao invés do terreno? Se o anjo voltou para explicar a visão, no mínimo ele deveria ter dito que, o santuário era o celestial, porém, não há nada no capitulo 9 que sugira isso.
- Além do que vimos até agora, acredito que existam outros problemas com a interpretação adventista. Por exemplo, a questão do local do cumprimento da profecia; segundo a exegese deles. Isso mesmo, o local do cumprimento, pois segundo a conclusão da interpretação adventista, a profecia das 2300 tardes e manhãs teria tido o seu cumprimento no santuário celestial, ou seja, no céu. No entanto, vejo nisso um enorme problema em relação há pelo menos dois principio bíblicos básicos que trata sobre profecias. Sabemos que profecias são dadas por Deus para: edificar, consolar e exortar, conforme 1 Co. 14.3. Se olharmos para a profecia de Daniel que estamos estudando, facilmente conseguimos encontrar esses três objetivos da profecia, pois, ela contém tanto mensagem de edificação, quanto de consolo; como de exortação. Agora a questão é a seguinte, consolar, edificar ou exortar exige que haja um cumprimento visível e palpável da profecia. Acho que dá para perceber onde quero chegar. A interpretação adventista de Daniel 8 simplesmente anula isso, pois, segundo a interpretação deles a profecia cumpriu-se no céu onde ninguém pode ver seu cumprimento, a não ser que ela tenha sido dada para anjos. É bem verdade, que parte dela segundo a interpretação adventista, teve um cumprimento terreno, como a parte referente ao chifre pequeno, porém, o ápice da profecia, a purificação do santuário, deu-se no céu. O ponto é que: a profecia é dada para ter um cumprimento aqui na terra, entre aqueles que são alvos da profecia. Um outro principio bíblico que acredito que a interpretação adventista fere, é a de Deuteronômio 18.21-22 que diz: " E se disseres no teu coração: como conheceremos qual seja a palavra que o Senhor falou? Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás." Esse principio e importantíssimo, pois, ele nos ensina, que todas profecias precisam ser validadas por meio do seu cumprimento; e esse cumprimento precisa ser verificado. Para isso, logicamente, a profecia tem que se cumprir na terra para que possamos julgar a profecia como procedente ou não de Deus. Novamente a interpretação adventista compromete isso, pois ao alegar que a profecia de Daniel teve um cumprimento no santuário celestial, torna impossível a verificação da veracidade da mesma. Alguém pode argumentar afirmando que pelo fato de estar na Bíblia torna ela automaticamente verdadeira. Ora, obvio que por estar nas escrituras a profecia de Daniel e de todos outros profetas são verdadeiras, mas a questão é, exatamente por alguém aqui na terra ter visto o cumprimento delas é que as torna verdadeiras. Pense em todas as profecias messiânicas relacionadas a Cristo; as pessoas contemporâneas de Jesus puderam verificar o cumprimento de todas elas já que todas estavam se cumprindo diante de seus olhos. Ou pense nas outras profecias de Daniel; por exemplo, a das setenta semanas, independente da interpretação que adotamos, elas tiveram um cumprimento terreno. Portanto, uma interpretação que afirma que uma profecia teve um cumprimento que não possa ser verificado, não tem credibilidade.
Análise da posição histórica preterista
Após verificar as duas posições anteriores, gostaria de analisar essa que considero a posição mais coerente do ponto de vista exegético, teológico e histórico de todas. Como já havíamos resumido anteriormente, vamos analisa-la mais profundamente. Também vamos verificar os pontos fracos que os críticos dela apontam. Bom, vamos repetir a interpretação: o cifre pequeno é Antíoco Epifânio IV; as 2300 tardes e manhãs são o tempo, colocado em termos de quantidade de sacrifícios que foram interrompidos, lembrando que dois sacrifícios eram oferecidos por dia, um pela manhã, e outro pela tarde. Portanto, se dividirmos 2300 por dois, temos 1150 dias, o tempo que Antíoco profanou o santuário terreno. É bom dizer que existe uma variação dessa posição que considera as 2300 tardes e manhãs, como 2300 dias literais; o quê daria cerca de 6.5 anos, usando o calendário lunar de 354 dias. Essa pode ser uma outra possibilidade, porém, nessa analise vou usar a interpretação 2300 sacrifícios, ou seja, 1150 dias, pois considero fazer mais justiça ao contexto geral. Primeiramente, por que considero Antíoco o personagem perfeito para ser identificado como o chifre pequeno que Daniel menciona? Vou apontar algumas razões: 1º Daniel menciona que o chifre pequeno surgiu de um dos quatro chifres da cabeça do bode; Dn 8.8-9. Existem objeções a essa afirmação, já que alguns exegetas alegam que o chifre teria surgido dos quatro ventos, porém, isso é claramente uma tentativa de desvincular o chifre pequeno dos quatro reinos divididos que Daniel menciona, pois, admitir que o chifre veio do bode, obrigaria por consequência a ter que aceitar que o mesmo veio de um dos quatro reinos gregos, e não de um reino diferente, como por exemplo, o Império Romano. Para inicio de conversa, essa polêmica não afeta a opinião de que o chifre pequeno seja Antíoco, pois, se adotarmos a interpretação de que o chifre veio dos quatro ventos, isso não enfraquece de maneira nenhuma a tese que liga o chifre a Antíoco, pois qual o problema? Antíoco Também surgiu de uma das direções mencionadas no texto. Agora, se porventura a interpretação correta for a de que o chifre veio do bode, ou seja, de um dos quatro chifres, então, isso sim enfraqueceria a opinião de que o chifre representa o Império Romano, haja visto, que os que defendem a teoria chifre/Roma, terão que conseguir ligar os Romanos com algum dos quatro reinos gregos. Sabendo disso, gostaria de mostrar porque considero a opinião de que o chifre pequeno veio do bode e não dos quatro ventos. No capitulo 8 inteiro todos os outro chifres estão identificados com um dos dois animais mencionados no texto, ao total, incluindo o chifre pequeno, temos 8 chifres; 7 deles temos certeza de sua procedência, 2 vieram do carneiro e 5 do bode, logo, por que o ultimo, o chifre pequeno, teria uma procedência diferente dos outros chifres? teríamos que aceitar a ideia que esse pequeno chifre veio voando solto em uma das direções mencionadas no vers. 9. Alguns argumentam usando Zacarias 1.18-19; alegando que lá também os chifres não estão ligados a nada, porém, essa analise desconsidera que na visão de Zacarias nenhum dos 4 chifres está ligado a nada, no caso de Daniel, se admitirmos que o chifre pequeno veio dos 4 ventos, teríamos que assumir que isso seria uma quebra na sequência do texto, posto que todos os outros 7 procederiam dos dois animais, e somente o ultimo viria de uma fonte diferente.
Assim sendo, se o texto de Daniel quisesse que os leitores entendessem que o chifre pequeno procederia dos 4 ventos, seria o caso de incluir um terceiro animal na historia, cujo chifre pequeno estaria ligado. Como esse não foi o caso, é muito mais coerente admitirmos que o chifre pequeno procedeu do bode e não dos quatro ventos. Admitindo então que o chifre pequeno procedeu do bode, reduzimos bastante as possibilidades de identificação do personagem, já que, segundo o texto o chifre veio de uma das 4 divisões do Império Grego; lembrando elas: Egito, Síria, Macedônia e Trácia. Desses 4, podemos eliminar 2 que não tiveram qualquer relevância na historia judaica, são eles: Macedônia e a Trácia, sobraram dois: Síria e Egito. O Egito, habitado e governado pelos Ptolomeus, tiveram destaque na historia dos judeus, porém, não há ninguém daquela cultura que tenha feito as atrocidades que a figura da visão de Daniel revela que seria feito ao povo da aliança. Ao contrario, os Ptolomeus permitiram liberdade de culto e até incentivavam o desenvolvimento cultural de seus territórios vassalos. É bom lembrar que a famosa tradução dos setenta, a Septuaginta (LXX), surgiu sob ordens de Ptolomeu II, então rei daquela nação. Resta então, os selêucidas, esses sim cumprem na figura do famigerado Antíoco Epifânio, as características da profecia de Daniel. 2º razão para ligar o chifre pequeno a Antíoco, é que sem sombra de duvidas, Antíoco fez as coisas que a profecia de Daniel afirma que seria feita pelo chifre pequeno, são elas: “Ainda de um deles saiu um chifre pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa” (Dn 8.9). Antíoco começa em um carcere em Roma onde ficou como prisioneiro de guerra por aproximadamente 13 anos, saiu de lá para se tornar o rei dos selêucidas. Conquistou o Egito derrotando Ptolomeu VI e então voltou suas atenções para a Judeia, a terra formosa. Essa parte da profecia cumpriu-se sem problemas. “e se engrandeceu até o exército do céu; e lançou por terra algumas das estrelas desse exército, e as pisou.” Dn 8.10. A partir daqui temos o chifre pequeno atacando diretamente o povo de Israel e seu culto. O ataque começou com a tentativa de helenizar a judeia, tarefa que contou com ajuda dos próprios judeus que simpatizavam com a cultura grega. Antíoco assassinou o sumo sacerdote Onias e colocou no seu lugar seu irmão Jason, que mais tarde seria substituído por Menelau. Esse fatos correspondem a profecia de que o chifre pequeno jogou por terra algumas estrelas do céu. Essa profecia alude o caráter megalomaníaco de Antíoco Epifânio, cujo significado do nome, “deus manifesto”, é uma demostração clara desse fato. O fato de se engradecer até o exercito do céu, lembra uma outra profecia, de um outro rei soberbo, vide Is 14.13-14. “Sim, ele se engrandeceu até o príncipe do exército; e lhe tirou o holocausto contínuo, e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo.” Dn 8.11. A loucura de Antíoco o levou a pensar que podia desafiar o próprio Deus, o príncipe do exercito. Ele fez isso através de atos de profanação contra o templo sagrado e contra a lei de Deus. Proibiu o holocausto continuo, o korban tamid, a guarda do sábado e a circuncisão. Além disso, sacrificou animais terminantemente proibidos na Torah, como porcos por exemplos. Nesse sentindo, entendemos a expressão: "santuário deitado abaixo", pois, proibindo os sacrifícios, e no lugar; oferecendo animais impuros, além de imagens idólatras, como a de zeus, foi como se o templo tivesse sido destruído fisicamente. “E o exército lhe foi entregue, juntamente com o holocausto contínuo, por causa da transgressão; lançou a verdade por terra; e fez o que era do seu agrado, e prosperou.” Dn 8.12. Aqui temos um complemento do que foi dito no vs.11, acrescentado que o exercito, isto é, o povo de Israel, foi entregue por causa da transgressão. Obviamente transgressão cometida pelo próprio povo, vide o vs. 23. Aqui temos novamente o padrão do V.T. em evidência, Israel transgride e Deus os entrega nas mãos de seus inimigos. 3º razão que apresento para mostrar que o chifre pequeno corresponde a Antíoco Epifânio, é o testemunho externo ás escrituras, como por exemplo o de Flavio Josefo, que declara explicitamente que Antíoco havia sido predito por Daniel: “Isso se deu no mesmo dia em que, três anos antes, o Templo fora indignamente profanado por Antíoco e abandonado, no dia vinte e cinco do mês de apeleu, no ano cento e quarenta e cinco, e na Olimpíada cento e cinqüenta e três. A renovação ocorreu no mesmo dia do ano cento e quarenta e oito e da Olimpíada cento e cinqüenta e quatro, como o profeta Daniel havia predito, quatrocentos e oito anos antes, dizendo clara e distintamente que o Templo seria profanado pelos macedônios.” (História do Hebreus, Pg 291). Um outro importante registro histórico são os livros de 1 e 2 Macabeus, que apesar de não serem aceitos pelos protestantes, nos oferecem informações fundamentais para poder ligar a profecia de Daniel em questão, com o seu cumprimento na figura de Antíoco Epifânio. Há varias referências nos livros dos Macabeus que liga Antíoco a Daniel 8. Por exemplo: 1 Macabeus 1.37-39; fala da desolação do culto que Antíoco causou. 1 Macabeus 1.54, fala da abominação desoladora que é semelhante a que Daniel fala no cap 8.13. Macabeus também descreve a purificação do templo por meio de Judas Macabeu; 1 Macabeus 4.41-51. Essas referências são suficientes para demonstrar o cumprimento da profecia de Daniel nos livros de Macabeus. Além dessas referências, podemos citar o testemunho de um adventista, sim você não leu errado, um famoso Pr. Adventista, (o mesmo continua adventista), que abandonou a interpretação tradicional que a IASD faz da profecia de Daniel e adotou a interpretação preterista que estamos abordando. O Nome do Pr. é Winston McHarg, ele vive atualmente na Austrália e virou um critico da posição da sua igreja. Ele tem uma pagina na internet, aqui, onde ele mostra sua nova perspectiva no assunto. Ainda, dentro do testemunho externo, que corrobora a ligação de Antíoco ao cifre pequeno da profecia, temos a própria crítica que é feita a autoria e a data do livro de Daniel. Isso mesmo, pois, todos que estudam o livro de Daniel de uma forma mais técnica, vão perceber que existe na critica especializada uma tentativa muito forte para tentar tirar o elemento sobrenatural do livro e transforma-lo em apenas uma narrativa pós-acontecimentos,(vaticinium ex eventus), ou seja, o autor do livro de Daniel teria escrito o livro já tendo presenciado todos os eventos descritos ali. Não faz parte do propósito deste trabalho discutir isso, existem muitíssimas obras que a fazem, porém, o que interessa para nós é que essa critica é um argumento poderoso em favor da interpretação que estamos dando aqui. Pare e pense, os cépticos da profecia de Daniel partem da seguinte pressuposição: o livro é muito preciso em relação aos acontecimentos narrados ali, portanto não é possível que isso seja uma profecia. A solução para eles então, foi considerar que o escritor viveu após, ou durante os eventos do livro. E um desses eventos, é precisamente o capitulo 8, sobre Antíoco Epifânio, ou seja os próprios críticos do livro perceberam a precisão entre a profecia e seu cumprimento no período macabeu; o que só reforça nossa perspectiva.
Respostas às Objeções a cerca da interpretação preterista
Algumas objeções são feitas sobre a interpretação preterista que liga Daniel 8 a figura de Antíoco Epifânio. Vou expor e responder algumas delas. Quase todas são feitas por adventistas, que conforme temos visto, são os que tem a interpretação mais exótica de todas. Pois bem, uma das objeções é a de que Antíoco é muito pequeno para cumprir a profecia de Daniel. Essa contestação, é feita valendo-se da ideia de que Daniel fala que o chifre pequeno se engrandeceria muitíssimo. Essa objeção falha em reconhecer o que o texto quer dizer com, "cresceu muito". Anteriormente abordamos, que a trajetória de Antíoco começa em uma prisão em Roma, onde após alguns anos, saiu para tornar-se rei selêucida. Assim sendo, em relação a si mesmo, Antíoco Cresceu muito, pois, se compararmos aos outros chifres da visão, o chifre pequeno parte da pequenez, coisa que o texto não fala dos outros chifres, compare por exemplo a descrição do grande chifre do bode, que sabidamente refere-se a Alexandre o Grande, o texto menciona ele já como um grande chifre, e não partindo de pequeno e tornando-se grande. Outra coisa que precisamos observar, é que a visão que Deus deu a Daniel tinha como alvo o povo do profeta, no caso Israel, portanto, o crescimento do chifre pequeno deve ser entendido também em relação ao que esse personagem causaria ao povo de Deus. Não é preciso repetir as atrocidades causadas por Antíoco ao povo da aliança. O fato é, que o texto após afirmar que Antíoco cresceria muito, continua dizendo para onde ele cresceria: “Cresceu a ponto de alcançar as hostes dos céus... (Dn. 8.10). Essa expressão deve ser entendida alegoricamente, pois, evidentemente que Antíoco não cresceu literalmente até os céus, mas que na realidade, ele cresceu tanto a ponto de afetar profundamente a vida e o culto dos filhos de Israel.
Mais uma coisa que precisa ser considerada em relação ao engradecimento do chifre pequeno, é o fato de ser comum os profetas usarem de linguagem hiperbólica para caracterizar um rei pagão e megalomaníaco como Antíoco. Podemos comparar, por exemplo, a profecia de Ezequiel 28, que refere-se a o rei de Tiro, talvez Etbaal II, a linguagem usada ali é extremamente hiperbólica, a ponto de alguns interpretes da historia aplicarem ela a Satanás. Mesmo que Satanás esteja na mira da profecia, não podemos descartar o elemento humano, já que a profecia é dirigida ao rei de Tiro. No entanto, o que nos interessa, é a linguagem da profecia, pois paralelamente a de Daniel 8, ela usa linguagem exagerada para caracterizar o orgulho e a soberba humana. Agora, por que Ezequiel dirigiu uma profecia contra o rei de Tiro? Deveria haver outros reis soberbos semelhantes ao rei de Tiro na época de Ezequiel, o profeta, porém, é orientado por Deus para se dirigir aquele rei específico. A resposta para isso é que o rei de Tiro tinha feito algo em relação a Israel, vejamos o que foi: “Filho do homem, visto como Tiro disse no tocante a Jerusalém: Ah! está quebrada a porta dos povos; está aberta para mim; eu me encherei, agora que ela está assolada;” EZ 26.2. Aqui temos a resposta, Tiro e seu rei escarneceram de Jerusalém, possivelmente quando os babilônios destruíram a cidade e levaram o povo cativo. O ponto é que, quando uma nação se envolvia de alguma forma com o povo de Deus, ela passava a ter relevância dentro da historia sagrada. E percebam que o rei de Tiro historicamente não teve grande importância, mas pelo simples fato do seu escarnio ter sido dirigido à Israel, fez com que o profeta de Deus dedica-se um espaço considerável em seu livro para profetizar contra ele. Agora imaginem no caso de Antíoco, que fez coisas abomináveis contra Israel e consequentemente contra Deus. As expressões usadas em Daniel referindo-se a Antíoco, tais como: cresceu até o ponto de alcançar as hostes dos céu... cresceu até o príncipe dos céus (Deus), é perfeitamente entendidas na relação que ele passou a ter com Israel e contra o Eterno. Compare com as expressões usadas em Ezequiel: “Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.” “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado...” Sendo assim, Antíoco tem relevância de sobra para ser a ponta pequena da profecia.
Outra contestação feita contra a teoria ponta pequena/Antíoco, é que o texto afirmaria que o chifre pequeno destruiria o templo, coisa que Antíoco não fez. Já tratei desse assunto lá atrás, mas vamos detalhar mais um pouco. Para responder isso basta usar a tradução que já citei aqui: a tradução judaica de David Gorodovits traduz o versículo 11 da seguinte forma: “Exaltou-se até contra o Príncipe das hostes; cessaram por isto as ofertas diárias que eram levadas a Seu altar e foi abalada a fundação de Seu Santuário.” Dn 8.11. Com essa tradução fica fácil entender; a profecia não fala em destruição do templo, na realidade o texto fala que o santuário seria abalado, certamente pelas coisas abomináveis que Antíoco faria contra a casa de Deus. Interessante nessa objeção, é que quem a faz, normalmente os estudiosos adventistas , afirmam que no versículo 14 quando fala da purificação do templo, o texto estaria se referindo ao santuário celestial, porém isso cria um dilema, pois, se o santuário do versículo 11 é o mesmo do versículo 14, então temos que admitir que o santuário celestial foi destruído, o que seria um absurdo. Agora se alguém disser que o santuário do vers. 11 não é o mesmo do vers. 14, então, isso seria uma incoerência textual, pois, como provar que Daniel estaria falando sobre um santuário em um versículo, e 3 versículos depois falando em outro? O único jeito de resolver isso seria admitir que o santuário não foi destruído no vers. 11 mas sim abalado, porém ao fazer isso a primeira objeção, a de que Antíoco não destruiu o templo. cairia por terra. Assim sendo, essa é mais uma objeção inconsistente. Uma terceira objeção contra a teoria ponta pequena/Antíoco, é a de que no versículo 23, a expressão: “No fim do reinado deles...” indicaria que a ponta pequena surgiria somente no final do Império grego. Esse texto interpretado do jeito que os críticos fazem, também apresenta problemas para suas posições. Por exemplo os adventistas, que afirmam que a ponta pequena seria o Império romano. Ora, se a expressão: “no fim do reinado deles,” significar o final no sentido absoluto, então eles teriam um problema também, pois, sabemos pela historia que o império romano surgiu antes do fim dos quatro reinos gregos da profecia. Sem sombra de duvidas os romanos são responsáveis pela derrocada dos reinos gregos, todavia, eles não são o rei de cara feroz vs 23, a profecia está descrevendo uma pessoa e não um império. Interessante que a mensagem afirma que ele teria grande poder, mas, não de si mesmo. Ora se a profecia estivesse falando dos romanos a expressão “ não de si mesmo” não faria sentindo já que Roma não estava sujeito a ninguém politicamente ou militarmente. Na realidade essa expressão cai como uma luva para Antíoco Epifanio, cujo governo estava sujeito, curiosamente aos romanos. Voltando ao texto: “No fim do reinado deles, quando a medida dos transgressores estiver completo” ou seja, Antíoco surgiu quando o governo dos gregos já não tinha mais autonomia no cenário mundial, mas que estava subordinado ao já então forte Império romano. A expressão seguinte explica a razão do seu surgimento: “quando a medida dos transgressores estiver completa” entendo que o texto se refira a transgressão dos judeus apostatas que se deixaram helenizar e que acabaram apostatando de sua fé. O sacerdócio deixou de ser um cargo designado por Deus para ser de quem dava mais dinheiro, utensílios do templo foram vendidos para servir de fiador a corrupção desenfreada dentro da nação. A consequência disso, foi o castigo em forma de gente, chamado Antíoco Epifânio. Essas são as respostas a algumas objeções que são feitas contra a interpretação preterista, existem outras, porém, acredito que essas são as principais.
A questão das 2300 tardes e manhãs
A ultima coisa que vou abordar em nosso estudo são as polêmicas associadas as 2300 tardes e manhãs do ponto de vista da visão que defendo aqui. Advogo que as 2300 tardes e manhãs devem ser entendidas como 2300 sacrifícios, ou seja, 1150 dias. Essa é com certeza a parte mais difícil do texto, até mais, que a identidade do chifre pequeno. Mesmo aqueles que concordam que o chifre pequeno seja Antíoco Epifanio, podem discordar em relação a interpretação das 2300 tardes e manhãs. Já mencionei anteriormente que existem basicamente 3 formas de entender esse numero: 2300 anos; 2300 dias e 2300 sacrifícios, que é a interpretação deste comentário. A seguir, vou expor porque acredito que 2300 tardes e manhãs, referem-se a quantidade de sacrifícios que seria interrompido, bem como, fazer considerações sobre as criticas a esta posição. 1ª- O contexto de Daniel aponta para que o número trate de sacrifícios. O texto explicitamente afirma que o sacrifício contínuo seria interrompido; Dn 8.11;12;13. O sacrifício continuo era oferecido pela manhã e pela tarde; Ex 29.39. I Macabeus 1.41 fala do decreto de Antíoco que dentre outras coisas proibia os sacrifícios. No ver. 14 cap. 8 então o anjo diz: durante 2300 tardes e manhãs o santuário será purificado. Parece lógico portanto, associarmos que, 2300 seria o numero de sacrifícios que deixariam de ser oferecidos por causa da proibição feita pelo chifre pequeno, no caso, Antíoco Epifanio. 2º - Faz mais sentido relacionar o número com o que aconteceria depois, veja, vamos substituir a expressão tardes e manhãs, por sacrifícios: "até 2300 (sem) os sacrifícios; então o santuário será restaurado ( voltará a ter sacrifícios). Agora vamos fazer o mesmo exercício, substituindo tardes e manhãs, por anos: “até 2300 anos; então o santuário será restaurado.” Lembrado que o vers. 14 é a resposta do vers 13, que diz: “ Até quando durará a interrupção dos sacrifícios e abominação assoladora...? Não faz sentido nenhum, o anjo responder que a interrupção dos sacrifícios seria de 2300 anos, além do que, não seria uma verdade. 3º - O tempo da interrupção dos sacrifícios bate com 1150 dias. Esse ponto é contestado pelos que defendem a teoria dia/ano, já que segundo estes, baseado em I Macabeus 1.54; e, 4.52.53, o tempo que os sacríficos cessaram foi de 1105 dias e não de 1150. Agora percebam o seguinte, os críticos contestam a interpretação preterista de 1150 dias alegando que houve um erro de 45 dias, porém, são os mesmos críticos que acreditam que a profecia se cumpriu 2300 anos depois no santuário celestial onde ninguém pode comprovar seu cumprimento. Vamos responder então se realmente há esse erro de 45 dias. Essa objeção parte de um erro básico, ele usa o calendário solar de 365 dias para calcular o tempo. Até 45 a.C. o calendário solar não estava em uso oficial, especialmente na região onde os eventos da profecia se desenrolaram. A profecia de Daniel cumpriu-se cerca de 165 anos antes de Cristo. O calendário em uso então era o grego, que tinha 354 dias. Antes de 45 a.C. era mais comum calcular usando um calendário lunar baseado nas fases da lua. Havia várias maneiras de calcular o ano e fazer com que a estação batesse. O calendário lunar dos primeiros gregos tinha 354 dias. Segundo a Enciclopédia Britânica, eles tinham um ano de seis meses, contendo 29 dias e seis meses de 30 dias. A cada dois anos, um mês de 30 dias era adicionado entre o primeiro e o segundo mês. O mês intercalar foi omitido no oitavo ano do ciclo para fazer as estações voltarem às datas certas. O calendário hebraico tinha um ano de 360 dias e também o mês intercalar foi usado, embora a duração não fosse uniforme. A adição era determinada pelo sumo sacerdote. Usando o calendário lunar grego mais antigo de 354 dias e considerando que é possível que o primeiro e o último ano de cada ciclo de três anos tenham meses intercalares, criaríamos o seguinte cálculo: 3 anos e 10 dias seriam 3 X 354 + 2 X 30 para cada mês intercalar mais 10 dias. Isso é igual a 1132 dias. Faltam 18 dias para a quantidade necessária que completaria 2.300 sacrifícios diários ou 1150 dias. Estamos chegando mais perto, mas não perto o suficiente. Heródoto nos ajudará a fechar esta conta. Heródoto é chamado o pai da história, entre outras coisas. Ele escreveu sobre o ano 445 a.C. em uma passagem em que ele discute com Solon, na qual está falando com Croesus, um rei grego na Ásia Menor, sobre a relatividade da felicidade na vida, Solon cita a duração habitual da vida de um homem. Ele diz: "Tome setenta anos como o tempo de vida de um homem. Esses setenta anos contêm 25.200 dias sem contar os meses intercalares. Adicione um mês a cada dois anos para que as estações cheguem com regularidade adequada, e você terá 35 meses adicionais, o que fará 1050 Assim, o total de dias dos seus setenta anos é 26.250.” A partir desta passagem, vemos que a duração do ano grego é de 25.250, dividida por 70 ou 360 dias. Este seria o ano de Solon, Creso, Heródoto e, provavelmente, de Antíoco Epifânio e dos Macabeus. Com mais observação, podemos ver que 1.050 dias divididos por 35 dão 30 dias como a duração do mês intercalar. Usando o calendário grego de acordo com Heródoto e assumindo que os anos 146 e 148 eram anos intercalares, chegamos ao seguinte cálculo: 9-15-145 a 9-25-148, as datas indicadas em Macabeus desde a profanação até a purificação, é de três anos e dez dias. Assim, a sentença matemática após o calendário grego que estava em uso no momento em que a profecia foi cumprida seria: (3 X 360) + (2 X 30) + 10. Vamos fazer um diagrama.
3 x 360 iguais ******************** 1080 dias
2 x 30 (2 meses intercalares) ******* **** 60 dias
De 15 a 25 é igual a ************** 10 dias
___________________________________________
Total **************************** 1150 dias/2300 sacrifícios;
Usar o calendário grego é obviamente a maneira correta de calcular o número de dias entre as datas dos Macabeus. O uso desse método chega ao cálculo correto. Não perca de vista o fato de Daniel ter escrito essa profecia anos antes de ser cumprida. O anjo que falou conhecia o futuro. A natureza divina do livro de Daniel é validada por esta profecia. O mensageiro de Deus disse a Daniel que haveria um período em que um rei, que se levantaria de uma das quatro divisões do próximo Império Grego, atacaria a Terra Santa e interromperia o sacrifício diário por 2.300 vezes. Quando o futuro chegou tivemos o cumprimento perfeito desta profecia, o que valida a Bíblia como palavra inspirada por Deus.
A profecia de Daniel e a festa de Hanuká
Para encerrar nosso estudo não poderíamos deixar de mencionar que o episódio da vitoria dos macabeus sobre Antíoco Epifânio e a purificação do santuário (terreno), foi eternizada pela nação de Israel através de uma festa celebrada anualmente por aquela nação. A festa é chamada de Hanuká, cujo significado é: consagração, inauguração. A festa remete ao que falamos em nosso estudo, as vitorias dos piedosos Judeus macabeus da opressão selêucida de Antíoco Epifânio. Hanuká, comemora dois milagres que ocorreram: o primeiro deles foi a vitória sobre um inimigo muito mais numeroso e poderoso militarmente. O segundo foi o milagre da Menorá, o famoso castiçal de sete pontas que ficava no lugar santo cujo combustível era o óleo sagrado preparado apenas pelo sacerdote (cohen). Após vencer os sírios e consagrar o templo, os macabeus encontraram a menorá apagada e um único frasco de azeite com o selo do sumo sacerdote e a quantidade de óleo dava para apenas um dia e seria necessário oito dias para se fazer o óleo de novo. O milagre aconteceu então, pois esse único frasco permitiu que o castiçal ficasse aceso por oito dias. Por causa disso, a festa é também chamada de festa da luzes. Hanuká é comemorada em dezembro, tal como o natal cristão, durante oito dias lembrando o milagre da Menorá. O fato a destacar é que a festa de Hanuká é mais um ponto a favor da interpretação que defendemos aqui, pois, ela mostra que o mal que Antíoco causou na comunidade judaica de então, foi de tal magnitude, que a vitoria e o livramento posterior pelas mãos dos macabeus tornou-se algo marcante na historia do povo de Deus. Assim como a festa de Purim, relembra o livramento por meio da rainha Ester, do maligno Hamã. Ela também ajuda a confirmar o que tratamos anteriormente, a respeito do engradecimento de Antíoco em relação ao modo como ele afetou o povo da aliança. Ninguém consagra uma festa memorial tal como a de Hakuká para comemorar um livramento de alguém pequeno, como os críticos afirmam, pelo contrario, a festa é uma prova real do que representou aquele inimigo para o povo de Israel. Com isso, termino este estudo com a frase que é usada na festa de Hanuká, em um tipo de brinquedo em forma de dado, chamado de dreidel (hb.sevivon); que possui quatro lados. Em cada lado, uma letra hebraica que seria as inicias da seguinte frase: “Nes Gadol Haya Sham” que traduzido seria: “um grande milagre aconteceu lá.”

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