Celebrando o Natal sem Culpa
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| E o Verbo se fez carne (Jo 1.14) |
Gostaria de responder algumas criticas que são feitas por aqueles que são contra a celebração do natal, bem como, por outro lado, mostrar que ela pode sim, ser um momento especial para todos aqueles que querem reverenciar o Verbo eterno que se fez carne.
1- QUAL A VERDADEIRA DATA DO NATAL?
A resposta para isso é, não se sabe. Existem varias tentativas para chegar a data certa, mas nenhuma delas responde a questão adequadamente. Se você fizer uma pesquisa, logo descobrirá que existem varias hipóteses, quase todos os meses aparecem como a data certa. Isso mostra uma questão importante: se não existe uma data certa, logo, qualquer uma pode ser ela, inclusive a data tradicional de 25 de dezembro. Alguns tentam através da informação do evangelho de Lucas que diz que Zacarias, o pai de João Batista, era da ordem de Abias, isso nos levaria a 1 Cr. 24, onde o cronista fala que nos dias de Davi o sacerdócio foi dividido em 24 turnos, o turno de Abias era o 8°, que segundo a tradição servia no mês de junho ou julho; João foi gerado em um desses meses, e nasceu mais ou menos em março; como Jesus era seis meses mais jovem, teria nascido entre setembro e outubro. Mesmo que possa haver sentido nesse cálculo, porém, não tem como ter certeza de que a data esteja correta. Primeiro, não sabemos se o turno de Abias realmente servia na época citada (entre junho e julho), isso é mais uma especulação do que informação. Segundo, sabemos ao longo da historia, que muitas interrupções ocorreram no culto levítico, e portanto, nos turnos instituídos por Davi. Alguns exemplos foram: o cativeiro babilônico; reis apóstatas que estabeleceram cultos idolatras e nações estrangeiras que subjugaram Israel, como por exemplo os selêucidas, na figura de Antioco Epifânio, não sabemos se após essas interrupções, os turnos foram retomados da mesma maneira que antes.
Interessante que outros estudiosos usam a teoria do turno de Abias para provar a data de 25 de Dezembro, como por exemplo faz o teólogo Nicola Bux no livro: Jesus o salvador: lugares e tempos da sua vinda na história (tradução minha). Ele afirma que Zacarias exerceu seu turno em Setembro, colocando o nascimento de João Batista em Junho, contando seis meses depois, Jesus teria nascido em dezembro, justamente no mês que tradicionalmente se comemora o natal. Isso já mostra que a teoria do turno de Abias não prova que o nascimento de Jesus tenha sido em dezembro, mas também não prova que não tenha sido. Muitos cristãos anti-natal, dizem que a data tradicional de 25 de dezembro é uma apropriação indevida de rituais pagãos por parte dos cristãos antigos, especialmente do culto ao sol invictus. O que se sabe, no entanto, que isso é mais uma especulação moderna extremamente duvidosa, haja visto que isso parece mais vir de críticos do cristianismo, que questionam não só a data do nascimento, mas a própria historicidade de Jesus. Isso é curioso, pois os cristãos que acreditam que por serem anti-natal, estariam fazendo um serviço para o reino, na realidade podem estar inconscientemente fazendo o contrário. Um grande testemunho disso é a o que escreveu Hipólito de Roma (Séc. III) que afirma que a data do natal era de fato 25 de Dezembro. Hipólito era um cristão que jamais aceitaria comemorar algo que era de origem pagã. Lembrando ainda, que Hipólito foi um crítico do Papa de sua época, o que reforça a idéia de que, se o natal fosse mesmo uma festa pagã, que a igreja se apropriou, Hipólito, certamente, teria denunciado isso.
Uma outra possibilidade muito forte defendida por muitos cristãos, é a de que Jesus foi concebido no mesmo dia que ele morreu. Esse dia, segundo essa tradição, teria sido o dia 25 de março que corresponderia ao dia 14 de Nisan, data da Páscoa judaica. Muitos cristãos do passado acreditavam também, que o dia 25 de março, foi o dia que o mundo foi criado. Juntando tudo isso, o dia 25 de março tornou-se uma dia muito especial no calendário cristão, a data do nascimento de Cristo teria sido nove meses depois, exatamente do dia 25 de dezembro. Uma outra possibilidade que pode ajudar a entender a escolha do mês de dezembro, é a festa do Hanuka (dedicação), comemorada pelo judaísmo, justamente no mês de dezembro.
2- POR QUE ALGUMAS TRADIÇÕES CRISTÃS COMEMORAM O NATAL EM OUTRAS DATAS?
Seja por motivo de calendário, ou de convicção histórica, algumas tradições comemoram o natal em outras datas. A Igreja Ortodoxa Armênia comemora o natal em 6 de janeiro, o dia de reis no ocidente, a razão dessa data é que os armênios acreditam que o nascimento de Jesus aconteceu na mesma data do seu batismo, que teria sido, segundo tradições antigas, em 6 de janeiro. Outras tradições cristãs comemoram em 7 de janeiro, como por exemplo, a Igreja Ortodoxa Copta. Nesse caso o motivo é simplesmente por causa da diferença de calendários, enquanto nós aqui no ocidente adotamos o calendário gregoriano, os coptas adotam o calendário juliano. Outras tradições que seguem a data de 7 de Janeiro são: Igreja Ortodoxa Russa, Ortodoxa Etíope, Ortodoxa Síria entre outras.
Uma conclusão que pode ser tirada dessas datas alternativas do natal, é a de que, no caso da data de 7 de janeiro, a diferença é meramente uma questão de calendário, se as igrejas que celebram nessa data, adotassem o calendário ocidental, eles também comemorariam em 25 de Dezembro, no caso dos armênios, a convicção do dia 6 de Janeiro, mesmo sendo uma razão teológica; a diferença em relação a nossa data, é de apenas 12 dias , e mesmo assim, o que está em discussão, não é qual data é a mais correta, mas sim, se devemos ou não comemorar o natal, e conforme estamos vendo, todas as tradições cristãs, incluindo católicos, ortodoxos e protestantes, celebram o natal e o consideram uma data extremamente importante dentro do calendário litúrgico.
3- AS CRÍTICAS
Muitos cristãos em suas ânsias por serem fieis ao evangelho, fazem críticas a celebração do natal. Algumas dessas críticas já foram, em certa medida respondida aqui, mas vou colocá-las de novo e tentar responder de forma mais detalhada:
- O Natal é uma festa de origem pagã - O problema com essa afirmação é pelo menos duas, primeira, que como vimos antes, não há comprovação nenhuma disso, simplesmente ela parte do pressuposto de que havia festivais pagãos comemorados em dezembro, logo, o natal é originário disso. A festa de Hanuka judaica, que é mais antiga que o natal, e que é muito parecida, inclusive com doações de presentes, pratos especiais, luzes, pode ter tido influência nos primeiros cristãos, que celebravam o nascimento do verbo de Deus, que é a luz do mundo. Segunda, mesmo que fosse verdade que o natal tenha sido uma adaptação cristã de festas pagãs, o fato é que ela não é mais uma festa pagã. Se aqueles que fazem essa critica usassem a mesma regra, os mesmos não poderiam se reunir em templos, pois existe uma certeza maior de que os primeiros templos cristãos tenham sido templos pagãos transformados em igrejas, do que da suposta origem pagã do natal.
- Jesus e os Apóstolos não mandaram guardar o Natal - Essa assertiva, mesmo que verdadeira, não pode ser transformada em mandamento. Quando Jesus disse que: " O que ligares na terra, será ligado nos céus..." (Mt. 18.18), certamente está falando de coisas que a Igreja aprovaria na terra, e que por consequência, teria a aprovação divina. Voltando ao exemplo dos templos, não há um ensinamento de Cristo ou dos apóstolos, para que os cristãos se reunissem em templos; sabemos que os primeiros cristãos se reuniam em casas (p.e. Rm 16.10-11); foi muito tempo depois que templos foram usados, e muitos deles, eram pagãos no princípio, e só depois, consagrados ao culto cristão. Interessante que a festa de Hanuka, foi uma festa criada no período interbiblico, e portanto, não houve um mandamento de Deus para observa-la, como houve com a páscoa ou tabernáculos, no entanto, Jesus participou dela no seu tempo (Jo 10.22). Portanto, se é necessário uma mandamento para observar uma festa, então o que Jesus estava fazendo na festa de hanuka? Mesmo que ela seja uma festa judaica, ela não era uma festa biblica, a não ser que se considere o livro de Macabeus como canônico, coisa que os "antinatal" certamente não fazem. O ensinamento disso, é que Jesus celebrou uma festa que vinha da tradição judaica, assim como o natal é uma festa da tradição cristã que foi consagrada no calendário.
- Por não saber a data certa, comemorar o Natal seria uma Mentira- Mentira seria, se houvesse certeza de outra data, mas conforme vimos não há certeza de data nenhuma, na realidade, de todas as datas apresentadas, a data tradicional de 25 de dezembro parece ser a mais provável.
4- CELEBRANDO O VERDADEIRO NATAL
Uma lição que podemos tirar das criticas que fazem aqueles que são contra a celebração do Natal, é a de que podemos separar dois "natais", aquele que os seguidores de Cristo devem celebrar, e aquele que o mundo celebra. O natal secular, é aquele que é usado como subterfúgio para bebedice, glutonaria, e que acabam muitas vezes, terminando em desavenças e brigas serias entre familiares. O natal cristão, diferente disso, deve ser sobretudo um momento para celebrar o verbo que se fez carne (Jo 1.14).
Igreja Católica - Na Igreja ocidental, as quatro semanas que antecedem o natal, são chamadas de Advento. Marcam o início do calendário litúrgico da Igreja. Essas quatro semanas começam no último domingo de Novembro e vão até a véspera de natal. Em cada domingo dessas quatro semanas, um vela é acesa em círculo, formando uma coroa, as velas são normalmente roxas e uma, a do terceiro domingo, é rosa (esse domingo é chamado de domingo da alegria, pois o nascimento do Salvador se aproxima). Também nessa época, acontece a novena de Natal, são nove dias de oração e meditação, geralmente os nove dias que antecedem o natal. Ainda na tradição católica, temos a tradicional missa do galo, celebrada a meia noite do dia 25, pelo próprio Sumo Pontífice. Tudo isso mostra a riqueza litúrgica da Igreja.
Outras tradições cristãs também demonstram muita reverencia pela data. Os coptas por exemplo, fazem uma dieta de 45 dias, que vai do dia 25 de Novembro até o dia 6 de janeiro, data em que eles comemoram o natal. A dieta consiste em abstinência de carne e de derivados, praticamente uma dieta vegana. O fim da dieta acontece na ceia de natal. Semelhante aos coptas, os cristãos armênios fazem um jejum uma semana antes, que é finalizado na ceia natalina, no caso deles em 6 de janeiro. Os cristãos sírios também fazem um jejum de preparação para celebrar nascimento de Jesus e no dia 6 de janeiro celebram com uma ceia. Os sírios costumam se reunir perto de uma fogueira apagada e então escolhem o filho mais novo para ler a história biblica da natividade, no fim da historia, a fogueira é acesa e hinos são cantados enquanto a fogueira queima, no fim, a familia pula sobre as cinzas fazendo um pedido. Esses exemplos demonstram que muitos cristãos ao redor do mundo, demonstram grande reverência ao natal. No protestantismo, a igreja anglicana e a igreja luterana ( a tradição das velas em forma de coroa nasceu na igreja luterana, também o pinheiro foi ideia de Lutero), adotam um calendário muito parecido com o da Igreja Católica em relação ao natal e também a de outras festas cristãs.
Minha conclusão é a de que o natal não só pode ser guardado, como, deve ser guardado, afinal, ele representa novas de grande alegria, como cantaram os anjos na noite da natividade (Lc 2.10).

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