Jesus Cristo e o Arcanjo Miguel
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| Todos os anjos de Deus o adorem (Hb 1.6) |
Seria o Arcanjo Miguel (Quem é como Deus) um título de Cristo? Alguns cristãos talvez nem saibam que essa discussão existe no meio da cristandade, porém ela é real, e por conseguinte, será discutida aqui neste espaço. Qual a importância disso para a fé cristã, ou ainda poderíamos transformar essa pergunta em outra: acreditar que Jesus e o arcanjo são a mesma pessoa, traria algum prejuízo a sã doutrina? Ou uma terceira, não acreditar que os dois na verdade são um só, poderia afetar de alguma forma, nossa relação com Deus? Quero dividir esse comentário em três partes; na primeira, vamos ver com quem, ou mais ou menos, quando essa discussão tomou corpo. Na segunda parte, quero fazer uma análise bíblica sobre o tema; e por fim, vamos trazer algumas curiosidades relacionadas a figura do arcanjo Miguel na história cristã, incluindo citações nos livros apócrifos.
I- A Discussão na Historia da Igreja
As primeiras citações que temos noticias sobre Jesus ser o arcanjo Miguel são do século XVI em diante, temos pouco ou quase nenhum registro antes disso. As citações a Miguel antes disso são sempre reverentes, mas nunca passam disso. Por exemplo, São Basílio de Cesaréia (sec. IV), considerava ele acima de todos os outros anjos, mas ainda sim, um entre eles. Orígenes (séc. II), também dissertou sobre angelologia e sobre Miguel, ele disse que ele era responsável pela oração e suplica das pessoas, assim como Rafael era responsável pelas curas. Cirilo de Jerusalém (séc. IV), comparando os anjos ao Espirito Santo, diz que nenhuma das coisas criadas se comparam a ele, e inclui Gabriel e Miguel na lista. Na famosa obra de Pseudo Dionísio Areopagita, "Da Hierarquia Celeste" ( escrito por volta do século V), ele classifica os anjos em três classes, ou esferas, sendo a classe de Miguel a terceira, ela seria composta por outros arcanjos. São Tomas de Aquino (Sec. XIII), seguiu a mesma ideia, e também classificou os anjos em três esferas, Miguel é colocado por São Tomas na mesma classe dos outros arcanjos, e portanto, alguém distinto de Cristo, o criador de todos eles. Além desses, temos grandes santos da historia cristã, como por exemplo São Francisco de Assis, que foi extremamente devoto do Arcanjo Miguel. Um relato da vida de São Francisco, conta que ele certa vez foi até o santuário do monte Gargano; Itália, dedicado ao Arcanjo, e se recusou a entrar, por se achar indigno. Esses exemplos mostram que a ideia de identificação de Cristo com Miguel é uma ideia que aparece muito tempo depois, como falamos antes, por volta do século XVI. Uma das poucas exceções a isso, está no livro apócrifo: o Pastor de Hermas, obra escrita no segundo século, onde o autor usa adjetivos que equiparam Miguel a Jesus, porém a cristologia do escrito é discutível do ponto de vista ortodoxo (vide: doutrinas centrais da fé Cristã; J.N.D. Kelly; Ed. Vida Nova, pg.70, onde ele comenta doutrinas polêmicas na obra).
Uma das mais antigas menções que temos registro, está no comentário de Calvino no livro de Daniel, porém é preciso considerar duas coisas: 1)- Não é ele o autor de tal ideia; 2)- ele mantém uma certa neutralidade em relação ao assunto, vamos analisar suas declarações. A primeira citação dele está no comentário do capitulo 10.13 de Daniel, quando ele diz o seguinte: " Há quem pense que a palavra Miguel representa Cristo, e não faço objeção a essa opinião" (Comentario de Calvino sobre Daniel; Ed. Parakletos Pg. 299). Mais adiante porém, no mesmo comentário ele diz: "Visto, porém, que isso não é geralmente admitido, deixo-o em suspense por enquanto" (ibid. pg. 300). Há uma nova menção ao assunto na referida obra, quando ele comenta os vss. 16-18, que trata de um outro anjo que aparece no relato do profeta: "Declaro que ele (o outro anjo) não deve ser Cristo, porque essa interpretação melhor se adequa à pessoa de Miguel"(ibid. pg. 306). No fim do comentário dele do capitulo 10 ele fala mais algo a respeito: "E então Miguel, que alguns pensam ser Cristo. Não faço objeção a esse ponto de vista, porque ele o chama de príncipe da igreja, e esse titulo não parece pertencer a qualquer outro anjo, porém é peculiar a Cristo" (ibid. pg. 315). Por fim, temos a interpretação dele do capitulo 12.1 de Daniel onde ele parece deixar a sua opinião mais clara: "Por Miguel muitos concordam em interpretar com sendo Cristo a cabeça da igreja. Mas se parecer preferível entender Miguel como sendo o arcanjo, este sentido provará ser adequado, pois sob Cristo como o cabeça, os anjos são guardiões da igreja" (ibid. pg. 434). Podemos perceber pelos comentários citados que Calvino não tinha uma opinião definida sobre o assunto, mesmo que as vezes ele pareça se inclinar para a possibilidade afirmativa, de Cristo e Miguel ser a mesma pessoa. O autor das institutas porém, admite que a possibilidade negativa também possa ser considerada; ideia que ele afirma ser da maioria.
Filipe Melancton (1497-1560) contemporâneo de Calvino, também falou do assunto e parece que abraçava a ideia. Ele comentando Daniel 10 diz o seguinte: "O príncipe, Miguel, que aqui é chamado de príncipe do povo de Deus; eu entendo que ele é na verdade o filho de Deus, o Logos, como ele foi denominado por João" (Reformation Commentary on Scripture, Old testament XII pg. 385; tradução própria). Outro autor importante que posso citar foi Issac Watts (1674-1748), autor do famoso hino, "Ao contemplar a rude cruz", Watts afirma na obra: The glory of Christ as God-Man o seguinte: "Cristo não poderia ser ele próprio, Miguel o arcanjo, o príncipe de Israel? Foi bem observado por alguns escritores o fato de que as escrituras nunca falam de arcanjo no plural, talvez porque exista apenas um arcanjo e ele ser Cristo" The glory of Christ as God-man pg.223; tradução própria).O curioso na obra de Watts é que ele numa nota de rodapé (pg 224), diz que alguns sustentavam que o anjo *Gabriel que apareceu a Daniel também era uma aparição de Cristo, essa ideia porém, parece que não sobreviveu por muito tempo. Interessante ainda, que tanto Calvino, quanto Isaac Watts, deixam a entender, que a ideia de Miguel ser Jesus, não eram deles próprios, mas que eles herdaram de outros. Já no caso de Melancton, ele parece chegar a conclusão por si mesmo. Seria ele um dos autores da crença? na verdade é muito difícil saber. O fato é que por essas citações podemos afirmar com um grau de certeza maior, de que a teoria de Miguel ser um titulo de Cristo, e portanto serem a mesma pessoa, parece ter surgido no período da reforma. Mais tarde, grupos como os adventistas de sétimo dia, adotaram a teoria como doutrina.
* Um documento apócrifo do Sec. II chamado epístola do apóstolos, narra um dialogo de Cristo com os seus discípulos onde ele afirma ser o anjo Gabriel, e que ela (Maria), quando creu na palavra, fez com que ele tornar-se em carne nela. Parte desse documento compõe o cânon da igreja ortodoxa etíope.
II- Analisando o Texto Bíblico
Minha perspectiva pessoal é a de que Jesus e Miguel não são a mesma pessoa, e vou dar a seguir os argumentos bíblicos para sustentar isso. Existem cinco menções ao arcanjo Miguel na Bíblia sagrada, são eles: Dn. 10.13,21; Dn. 12.1; Jd, 9 e Ap. 12.7. Existe ainda o uso da palavra arcanjo em 1 Ts. 4.16, porém não aparece o nome Miguel nesse texto. Para ser justo neste comentário, Miguel não é o único anjo que é identificado como sendo Cristo por estudiosos, outros também o são. Por exemplo, vimos lá atrás que Gabriel também já foi comparado ao Filho de Deus; o Anjo do Senhor, que aparece no A.T. também é identificado com Cristo; o forte anjo de Apocalipse 10.1 é outro; Grant R. Osborne cita alguns autores que identificam esse anjo com Cristo (Comentário Exegético do Apocalipse; Grant R. Osborne; Ed. Vida Nova pg. 444), além do anjo do pacto (Ml.3.1), que é uma clara referência a Cristo. Esses exemplos devem nos levar a ser parcimoniosos com as criticas dirigidas contra aqueles que defendem a teoria Miguel=Jesus, já que outros estudiosos fazem o mesmo com outros anjos. Lembrando, que muitos que acreditam que o Anjo do Senhor seja Cristo, discordam de que Miguel também o seja; o mesmo vale para os que acreditam que o anjo forte de Apocalipse 10.1 seja Jesus, eles também a priori, mesmo acreditando que esse anjo seja o Senhor podem discordar em relação a Miguel, e muitos, evidentemente, acreditam que na realidade, todos esses anjos, e também Jesus sejam a mesma pessoa. O fato é que, com exceção daqueles que defendem que nenhum anjo é Cristo, de alguma forma todos os outros cristãos acabam identificando o salvador com um dos anjos mencionados.
Voltando aos textos que falam diretamente sobre o Arcanjo Miguel, sabemos que eles não são única fonte para sustentar a teoria Miguel = Jesus, outros conceitos são colocados. Por exemplo a ideia do Anjo do Senhor. Sabemos pelo registro bíblico que ele é um personagem intrigante, haja visto, que ele parece se destacar dos demais. Muitos afirmam que o Anjo do Senhor é uma Teofânia, ou mais especificamente, uma Cristofânia. Os defensores da teoria em questão, ligam esse personagem a Miguel, fazendo com que a lógica seja a seguinte: Anjo do Senhor = Miguel = Jesus. Porém, a dificuldade é conseguir ligar um personagem a outro. Anjo do Senhor aparece 65 vezes na Bíblia hebraica, Miguel é citado apenas 5 vezes. Que o Anjo do Senhor é muitas vezes, descrito como um ser singular nas escrituras, não há duvidas disso. Muitos textos apresentam ele falando palavras de Deus em primeira pessoa, como se Ele fosse o próprio Deus: Gn 22.15-16; Jz 2.1; 13.13-18; e muitos outros exemplos. No caso de Miguel, existe registro de uma unica fala dele, Jd 6. e essa unica vez, coloca ele falando sobre Deus (Senhor), na terceira pessoa. Primeiramente, precisamos estabelecer que nem sempre que a expressão, Anjo do Senhor aparece, especialmente no Velho Testamento, signifique que se está falando do mesmo Ser. Por exemplo, o Anjo do Senhor citado em 2 Sm 24.16 provavelmente é um Anjo distinto do citado nos textos anteriores, já que esse, está recebendo ordens do Senhor. Isso evita criar um falso silogismo: o Anjo do Senhor é Cristo; Miguel é o Anjo do Senhor, logo, Miguel é Cristo. Se Anjo do Senhor não se refere a um único ser, logo, Miguel pode ser o Anjo do Senhor, mas também, pode ser um outro Anjo do Senhor. Será necessário provar que ele é aquele Anjo do Senhor especifico, que se apresenta como o próprio Senhor. O texto que pode fazer essa conexão é o de Zc 3.1-7. O Anjo do Senhor é mencionado no vs 1, agora voltamos a questão anterior, Esse é o Anjo do Senhor que é o próprio Senhor, ou Ele é um outro Anjo do Senhor? Vejam, que a tarefa dos que defendem Miguel=Jesus é difícil, primeiro que eles precisam provar que esse Anjo do Senhor é o próprio Senhor e depois, que ele é o Arcanjo Miguel. A ligação que se faz entre o Anjo de Zacarias e o Arcanjo Miguel é sobre o que o versículo diz: "Mas o (Anjo) Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?" Zc 3.2. comp. Judas 6. A primeira tarefa já é difícil; notem que coloquei Anjo entre parênteses. O motivo é que existe uma discussão se foi o Anjo do Senhor, citado no vs 1, ou se foi o próprio Senhor que disse: o Senhor te repreenda do vs 2.
Vamos trabalhar com as duas possibilidade. A primeira, que foi o Anjo do Senhor que disse. Essa primeira possibilidade é defendida por muitos, ou talvez a maioria. Na própria tradução judaica, ela verte o versículo 2: "disse o Anjo do Eterno..." (tr. David Gorodoviz para a Bíblia hebraica). Se é o Anjo do Senhor que está falando, não teria problema nenhum em dizer que ele é Miguel, pois ele delega ao Senhor o poder de repreender satanás, tal qual, o Arcanjo fez em Jd 6. Os defensores da teoria Miguel=Jesus precisariam agora provar que esse Anjo é o Próprio Senhor (Jesus). Pelos dois primeiros versículos não tem como fazer isso, a solução seria ir para os vss 6 e 7. Nesses vss o Anjo fala na primeira pessoa "E o Anjo do Senhor protestou a Josué, dizendo: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Se andares nos meus caminhos, e se observares a minha ordenança, também tu julgarás a minha casa, e também guardarás os meus átrios, e te darei livre acesso entre os que estão aqui." O texto parece sugerir que o Anjo do Senhor é o Senhor dos exércitos, já que ele fala na primeira pessoa, porém é bom lembrar que ele usa a expressão: assim diz o Senhor. O Anjo está usando a mesma formula que os profetas usavam no VT. Iniciavam a profecia dizendo assim diz o Senhor e depois falavam em primeira pessoa, p.e. Is 48.17; Jr 9.23. Logo, o Anjo está falando em nome do Senhor, tal qual os profetas faziam, e não sendo o próprio Senhor. Resumindo, o Anjo do Senhor pode ser Miguel no texto, mesmo que não se diga isso, mas ele não é o Senhor, e sim fala em nome do Senhor.
A segunda possibilidade, é que o agente da fala em Zc 3.2 seja o próprio Senhor, e não o Anjo do vs 1. Nesse caso, se Anjo e Senhor são diferentes, já ficaria estabelecido, que nem o Anjo do Senhor é o Senhor, e consequentemente, mesmo se Miguel fosse o Anjo do Senhor, ele também não seria o Senhor. Nesse caso, o argumento ficaria em que, o Senhor pede para o Senhor repreender satanás. Existiria dois Senhores na passagem, um que pede para o outro repreender o diabo. O argumento então ficaria: se o Senhor (Jesus), pede para o Senhor (Pai), logo, na passagem de Jd 6, poderia ser Jesus (Miguel), também pedindo para o Pai repreender satã. No caso dessa possibilidade, o problema seria só explicar por que o Senhor não repreendeu o diabo diretamente, mas delegou ao outro Senhor, tal como, Miguel o fez na contenda contra o maligno. Acredito que uma possível resposta para isso, seria que o Senhor que pede é o mesmo que repreende. Não teriam dois Senhores na passagem, mas apenas um. Isso é um recurso linguístico chamado de ileísmo, quando aquele que está falando, se refere a si mesmo na terceira pessoa, Jesus mesmo fez isso: "Porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias após a sua morte, ressuscitará." Mc 9.31; (Mt 20.18; Lc 24.26). Com isso, seja qual for o cenário, não há porque fazer qualquer associação, entre a passagem de Zc, com a de Judas para conectar Miguel ao Anjo do Senhor, e por conseguinte a Jesus Cristo.
Outro texto que pode sugerir uma identificação de Miguel com Cristo é o de Daniel 12.1: "Naquele tempo se levantara Miguel, o grande príncipe...". Calvino, como vimos anteriormente, cita interpretes do seu tempo que acreditavam que a expressão grande príncipe, se referia a liderança de Cristo sobre a igreja. Todavia, o mesmo Calvino afirma que a interpretação tradicional de Miguel ser um anjo de alta patente, e não o próprio Senhor, também é uma opção valida. O texto chama Miguel de grande príncipe, as duas palavras juntas é única ocorrência nas escrituras, mas separadas elas aparecem muitas vezes. O termo hebraico traduzido para príncipe é "Sar" que se aplica basicamente a lideres, sejam tribais, (Ex. 2.14); sejam militares (Js 5.14). Essa ultima citação é interessante, porque é aplicada a um anjo que se identifica como príncipe do exercito celestial. Mesmo o texto não chamando esse anjo de Miguel, o título de líder do exercito celestial parece indicar isso. Os defensores da teoria Miguel=Jesus usam esse texto como argumento, pois o texto fala que Josué adorou o anjo, e o mesmo não recusou, o que comparado ao anjo de Apocalipse (Ap 19.10; 22.8-9), mostra que aquele de Josué é mais do que um anjo.
Acredito que a recusa do anjo de Apocalipse, em contraste com a anuência do anjo de Josué, possa ser entendido pelas circunstâncias e pela época em cada caso. Josué não estava adorando o anjo como Deus, mas estava reverenciando-o como alguém superior, conforme o sentido do termo em hebraico (shachah); reis recebiam esse tipo de reverência (2 Sm 9.6); da mesma maneira profetas (2 Rs 2.15; Dn 2.46 "cegid" palavra em aramaico). No caso do anjo em Apocalipse, o mensageiro celestial entendeu que João estava adorando-o como Deus e imediatamente impediu o apóstolo. Paulo junto com Barnabé também recusaram ser adorados (At 14. 12-15), o que mostra que nos tempos do Novo Testamento, por causa do culto ao imperador, qualquer gesto que lembrasse um ato de adoração deveria ser evitado de todas as formas. Portanto, associar o anjo de Josué ao arcanjo Miguel não define a questão em relação a Cristo. Voltando a questão do título de Miguel de grande príncipe, não há duvidas de que isso reflete uma grande deferência a ele, mas saltar disso para uma identificação com Cristo, acredito que já seja um exagero. lembrando que no capitulo 10 de Daniel ele foi chamado de: "um dos primeiros príncipes" (vs. 13), o que mostra que ele não está sozinho nessa reverência. O texto de Daniel ainda fala do príncipe da Pérsia e do príncipe da Grécia (Dn 10.13;20), que são figuras que também dividem os interpretes, já que não fica claro se Daniel está falando de poderes angélicos ou poderes humanos. No caso de poderes angélicos, ainda teríamos o problema em definir se eles são anjos de Deus ou anjos decaídos. Calvino por exemplo, já citado, afirma que o príncipe da Pérsia é Cambises, que era rei da Pérsia á época (ibid. pg. 299), enquanto que o príncipe da Grécia é Alexandre o grande, segundo o entendimento do reformador (ibid. pg. 313). Sem entrar nessa discussão, o fato é de que Miguel é chamado de um dos primeiros príncipes, o que nos ajuda a entender a expressão usada por Daniel em 12.1.
No versículo 2 de Daniel 12 o profeta descreve a ressurreição dos mortos, ligando isso a 2 Ts. 4.16. que fala que Jesus voltará em meio a grande alarido e com voz de arcanjo, os defensores da teoria Miguel=Jesus acreditam que isso seria uma prova de que Miguel seria de fato um título de Cristo. Porém, nem Daniel e nem Paulo parecem estar dizendo que a ressurreição dos mortos estaria associado diretamente ao arcanjo. Sabemos pelas escrituras, que a segunda vinda de Cristo será acompanhado por milhares de anjos (Mt 16.27; 24.31; 25.31; Mc 8.38; Lc 9.26; 2 Ts 1.7) é lógico portanto que Miguel estará presente nesse grande evento, assim como Gabriel também, inclusive a voz de arcanjo de 1 Ts 4.16 pode ser uma referência a Gabriel e não a Miguel, já que Gabriel aparece sempre nas escrituras associado a anunciar grandes eventos, como foi o caso do nascimento de Jesus (Lc 1.26). A ideia de 1 Ts 4.16 não é que a voz de arcanjo é a mesma de Cristo, mas sim, de que ela é um dos sinais que anunciam a vinda gloriosa de Cristo, juntamente com a trombeta de Deus, e com alarido. Todos concordam que a trombeta de Deus será tocada pelos anjos, talvez pelo próprio Miguel, e não pelo Senhor que está vindo, p.e. Ap 8.6; 11.15. Logo, a voz de Arcanjo não é produzida pelo Senhor, mas estará presente junto com a trombeta e com o grande alarido.
As duas últimas citações sobre Miguel são as de Jd 9 e Apocalipse 12.7, vou deixar Jd 9 para o final, pois acredito que ele seja o texto que define essa discussão. Sobre Apocalipse 12.7, que descreve o confronto entre Miguel e seus anjos, contra o diabo e seus anjos, interessante que o texto começa narrando a história da mulher que estava grávida e sendo perseguida pelo dragão (diabo); em seguida, a mulher dá a luz à criança (Cristo), que é levada para o céu. Miguel, na sequência, aparece batalhando contra o mesmo dragão que estava perseguindo a mulher. Uma simples leitura já mostra uma diferença entre a criança (Cristo) e o Arcanjo Miguel. A ideia do texto é que após o fracasso em destruir a mulher e a criança na terra, o dragão vai atrás da criança no céu, mas é interceptada pelo Arcanjo que precipíta o dragão na terra. Sem querer entrar nos significados desses símbolos (tem aqui no blog um comentário sobre essa passagem ), o fato é que o texto não sugere nem um momento que Miguel e a Criança são a mesma pessoa, ao contrário, Miguel aparece como protetor da criança, aliás Miguel em Daniel já havia aparecido como protetor da nação de Israel (Dn 12.1) em Apocalipse ele aparece como protetor da mulher e sobretudo da criança, pois é ela (a criança), que se tornaria o salvador do mundo. Um outro detalhe, é que se dissermos que Miguel=Criança, o texto ficaria um tanto confuso, pois teríamos que assumir que Miguel encarnou na mulher e que na sequência, ele aparece na figura da Criança, e em seguida aparece de novo na sua posição de arcanjo lutando contra o dragão. Na verdade, a ordem deveria ser: primeiro Miguel lutando no céu e depois tornando-se em criança; a ordem em que está posto a narrativa depõe contra a teoria de Miguel = Jesus. Um detalhe adicional ao texto que é importante citar, é que os defensores da crença Miguel = Jesus usam o fato de Miguel ter Anjos, Ap 12.7, como um argumento para dizer que ele é Jesus. Esse é um argumento muito frágil e facilmente refutável. As crianças também tem anjos, Mt 18.10, Pedro tem seu anjo, At 12.15. Agora os anjos de Miguel são diferentes dos das crianças ou o de Pedro? Absolutamente, quando a Bíblia fala nos anjos de Miguel, significa que ele tem anjos sob sua liderança, assim como em um exército, os soldados estão sob o comando de um capitão, mas obviamente, existem cargos acima do capitão, como o coronel o major etc.
O último texto, na nossa ordem aqui, que cita Miguel nominalmente é o de Judas 9. Um fato curioso que me chamou a atenção, é que procurei saber qual era a opinião de Calvino sobre essa passagem do Novo Testamento. O interessante é que ele comentando o vers. 9, em nenhum momento levanta a teoria sobre Miguel ser um título de Cristo, o que ele havia feito quando comentava o livro de Daniel, conforme citamos aqui, ao contrário, ele cita Miguel como um anjo, veja o que ele diz: "Que Miguel seja apresentado sozinho disputando contra Satanás não é novidade. Sabemos que miríades de anjos estão sempre prontos a prestar serviço a Deus. Mas ele escolhe esse ou aquele para realizar seu serviço como melhor lhe agrada". (Commentaries on the Catholic Epistles John Calvin; Christian Classic Ethereal Library; pg. 398; tradução própria). Esse comentário de Calvino me levou a seguinte conclusão: ou ele mudou de idéia e reconheceu que Jesus e Miguel são pessoas distintas, ou ele acreditava que o Miguel de Daniel era distinto do Arcanjo Miguel do Novo Testamento. O que poderia esclarecer essa dúvida, seria um comentário dele sobre Apocalipse 12, mas infelizmente, parece que tal obra não existe. Essa ambiguidade de Calvino no seu comentário de Judas em relação ao de Daniel, mostra que o texto do Novo Testamento parece deixar mais claro que Miguel é diferente de Jesus. Algumas razões para acreditar nisso são:
1- Se Judas acreditasse que Jesus e Miguel são a mesma pessoa não seria o caso dele deixar isso mais claro? Ele poderia ter dito "Quando nosso Senhor contendia...", ou dizer: "Quando o arcanjo Miguel (que é Nosso Senhor)... ou algo semelhante, mas o texto do jeito que está posto não dá nenhum sinal disso, o que me leva a conclusão que essa possibilidade nem passava pela cabeça de Judas. Interessante que cinco versículos antes ele cita: Nosso Senhor Jesus, nominalmente Jd 4, e no versículo 9 ele fala: "O Arcanjo Miguel," o que mostra que para Judas, Jesus e Miguel são personagens totalmente diferentes.
2- Miguel delega ao Senhor o trato contra o diabo, o que não combinaria caso ele fosse o próprio soberano, lembrando que Jesus é o criador de todos os anjos (Cl 1.16), incluindo aquele que se tornaria Satanás; seria surreal o criador não conseguir lidar com uma das suas criaturas. Os proponentes dessa crença usam Zc 3.1-7 para explicar isso, mas já tratamos esse texto e mesmo que lá seja o Senhor pedindo para o Senhor, o recurso do Ileísmo resolve. No caso de Jd 6, não tem como usar essa explicação, porque o texto deixa claro que o Arcanjo Miguel disse.
3- A passagem de Judas é muito semelhante à de 2 Pe 2.11, onde o autor fala de "anjos que não proferem juízo caluniador..." possivelmente, contra outros anjos. Ora, se Pedro tem em mente a mesma fonte de Judas, então Miguel estaria incluído na expressão geral, anjos, usada no texto, e consequentemente, isso seria uma prova que Miguel é apenas um anjo e não o próprio Senhor.
Antes de partir para o próximo tópico, é preciso mencionar uma citação do livro de Tobias. Esse livro não é contado nas bíblias protestantes, mas ele faz parte do cânon católico e da dos ortodoxos, ou seja, ele é considerado fonte de doutrina pela maioria das tradições cristãs. O trecho que considero relevante é esse: " Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão a serviço de Deus, o Senhor, e que tem o direito de entrar na sua presença gloriosa."( Tobias 12.15). O texto adiciona o nome de um terceiro Anjo, Rafael (Deus cura), que se junta a Gabriel e Miguel àqueles que são nomeados nas escrituras. O anjo diz que é um dos sete Anjos que podem acessar a presença de Deus. Se conectarmos isso a Apocalipse, onde é mencionado os setes anjos, p.e. Ap 8.2, e a Daniel, que fala que Miguel é um dos primeiros principes, Dn 10.13, podemos concluir que Miguel é um dos sete Anjos (Arcanjos), e portanto um ser totalmente distinto de Cristo.
III- Miguel na Literatura Pseudoepigráfica e Apócrifa
Nessa última parte gostaria de explorar o assunto na literatura extra bíblica, especialmente nos escritos pseudoepigráficos e apócrifos. De todos os santos na tradição cristã, Miguel só perde para Nossa Senhora em destaque. Muitos relatos de aparições do Arcanjo estão presentes na história cristã. Um dos mais famosos, é aquele que é conhecido como: o milagre do arcanjo Miguel em Conas (antiga Colossos), ocorrido no século IV. Esse milagre ficou tão famoso, que o dia 6 de Setembro foi reservado para festejar o ocorrido, além de um monastério construído na Ucrânia em homenagem ao milagre. Na literatura não canônica, o Arcanjo é citado enumeras vezes. Vamos a alguns exemplos:
-Assunção de Moisés - Esta obra, também conhecida como Testamento de Moisés, é importante em nosso estudo, pois segundo a tradição, foi a obra citada por Judas em sua carta, quando comenta sobre a disputa entre Miguel e Satã. A obra completa provavelmente foi perdida, mas segundo Orígenes e Gelázio de Cízico, que tinham em mãos o texto completo, Judas estava se valendo dessa obra. Já outros eruditos acreditam que Judas usou uma composição de pelos menos três fontes: Apocalipse de Moisés (Ap. Moises 1.38), que descreve Miguel como aquele responsável por enterrar os justos; Livro de Enoque, que mostra Miguel junto com outros anjos acusando Azazel por ensinar os homens a pecar (1 Enoque 8.5-6); Livro canônico de Zacarias 3.2, que fala do anjo do Senhor repreendendo Satanás.
- Testamento de Abraão - Outra obra em que o arcanjo Miguel é figura proeminente. Essa obra possui duas revisões, uma chamada de extensa e outra de breve. Na extensa, Miguel aparece 24 vezes, enquanto que na breve, ele aparece 44 vezes. O livro narra a morte de Abraão e a vinda do arcanjo com milhares de anjos para buscar sua alma.
- Livro de Enoque Já citado antes, mas colocado em destaque pois, é um livro que cita Miguel varias vezes (14 ao total). Numa dessas citações, Miguel aparece como um dos sete arcanjos, que preside sobre a virtude humana (1 Enoque 20.5).
- Investidura do Arcanjo Miguel - Esse apócrifo do Novo Testamento escrito em copta, e que é atribuído, a João evangelista, narra um curioso dialogo entre Cristo e seus discípulos no Monte das Oliveiras, onde o Senhor responde uma série de questões, incluindo a criação e queda de Satanás (chamado de Saklatabôth), e a promoção do Arcanjo Miguel para o lugar deixado pelo diabo após sua queda.
Três conclusões conseguimos tirar dessa literatura não canônica que trata sobre o arcanjo: A primeira, é o alto grau de respeito que o cristianismo antigo tinha pela figura do Arcanjo. Em segundo lugar, Miguel aparece em muitas das narrativas como antagonista do diabo, o que ajuda a explicar textos canônicos que vimos em que ele aparece em conflito contra satã. Em terceiro lugar, sempre ele é retratado como distinto de qualquer das pessoas da trindade. Na obra citada, investidura do arcanjo Miguel, Jesus diz a seus discípulos que Miguel foi o segundo anjo criado por Deus, o primeiro teria sido Saklatabôth, que se tornaria Satanás.
Tradições cristãs orientais e ocidentais dedicaram um dia especial para homenagear o Arcanjo Miguel, no ocidente esse dia é 29 de setembro; originalmente esse dia era dedicado somente a Miguel, mas após o Concilio Vaticano Segundo (1961), Gabriel e Rafael foram incluídos na data. No oriente, a festa de São Miguel é 8 de Novembro (21 no calendário Juliano).
Para encerrar deixo o texto de Colossenses que exalta o criador de Miguel e de todos os outros anjos: "Porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para ele" (Cl 1.16).

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