O Sábado Libertador

" E então lhes disse: o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc. 2.27).

Este comentário irá se propor em abordar a questão referente ao sábado, usando como texto base a palavra de Cristo em Mc. 2.27, onde Jesus declara que a existência do sábado se deu para servir de conforto e benção para o homem. Obviamente que todos os outros mandamentos foram criados para o homem, porém é interessante notar que os outros mandamentos não são tratados da maneira que o sábado foi por Cristo. A relação entre  sábado e  trabalho é clara quando lemos o Todo Poderoso proferindo sua vontade ao homem: "Trabalharás seis dias..., mas o sétimo dia é sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho nenhum..." (Ex. 20.9-10). O proprio criador deixou o exemplo de trabalhar seis dias e descansar no setimo (Gn. 2.2-3), mesmo que  descansar para Deus signifique: cessar o trabalho criador, afinal  ele não se cansa nem se fatiga (Is. 40.28); mesmo assim, o exemplo de repousar após uma jornada de trabalho foi dado por ele.


Sábado x Trabalho

Deus estabeleceu o trabalho como um principio fundamental na vida do homem (Gn. 2.15), a queda porém, deteriorou  algo que deveria ser prazeroso, transformando o trabalho em uma luta pela sobrevivência (Gn. 3.19). Desde o principio, o Senhor determinou que uma semana de trabalho não poderia exceder a seis dias; o sábado interromperia o ciclo de trabalho de seis dias fazendo com que o homem pudesse descansar e se prepapar para um novo ciclo. Ao longo do tempo porém, homens começaram a explorar outros homens, transformado o trabalho em escravidão. Normalmente, no passado, os escravos eram prisioneiros de guerra que eram usados para realizar os serviços mais àrduos deixando para os conquistadores às atividades mais agradáveis. O código de Hamurabi (±1.700 a.C.) prescrevia que se um homem não pudesse pagar suas dividas, ele deveria faze-lo atravez de trabalhos forçados. A pratica da escravidão acabou se tornando algo comum, e a ideia de um dia de descanso era por outro lado incomum no mundo antigo. Encontramos alguns exemplos de algo semelhantes ao sábado biblico em algumas culturas antigas. Por exemplo, na Babilônia havia um dia chamado de: dia do mal (umu lemnuti) que aconteciam em dias especificos do mês, e neles algumas praticas eram proibidas, porém essas proibições não eram aplicadas a todo o povo, mas sim a pessoas especiais, tais como o rei e os sacerdotes. No Egito havia uma semana de dez dias dos quais, oito eram de trabalho, e dois de descanso. O diferencial do sábado instituído por Deus, é que ele foi determinado para todos e não para alguns, como os exemplos acima mostraram. 

Mesmo que o pecado tenha afetado a relação entre homem e trabalho, mesmo assim trabalhar  é algo visto como bom na sua essência: "Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer com que sua alma goze do bem seu trabalho. Vi que isso também vem da mão de Deus" (Ec. 2.24; Também 3.13; 5.19). A preguiça, que é a antitese do trabalho, é censurada no texto sagrado: " Vai ter com a formiga, ó preguiçoso..." (Pv. 6.6). O Novo Testamento também condena a preguiça e enaltece o trabalho: "... Se alguém não quer trabalhar, também não coma" (2 Ts. 2.10). O criador todavia, viu a necessidade de estabelecer um dia de descanso para servir de proteção a integridade fisica do homem. Israel que foi o receptáculo da revelação divina na primeira aliança, sabia muito bem o que era trabalhar sem descanso. O livro do Exôdo conta a historia do longo periodo de escravidão que os descendentes de Abraão tiveram que passar no Egito (vide Ex. 1.11-14); não há registro da guarda do sábado pelos israelenses durante o cativeiro egípcio, na verdade, não há registro nem mesmo antes, na época dos patriarcas, porém também é verdade, que antes da entrega da lei no sinai, o sábado aparece como um dia especial (conf. Ex.16.23-30). Quando Deus revelou sua vontade a Moises ele sacramentou o dia de descanso como um mandamento que deveria ser estritamente obedecido, sob pena de morte para quem descumprisse (Ex. 31.14; Nm. 15.32-36). O sábado pode ser visto como um ato da graça de Deus para que o homem não se consumisse em uma vida de trabalho interminável, Deuteronômio 5.14 deixa claro isso: "Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro da tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem assim com tu".(Lv. 23.12 usa a expressão: "Para que tome alento") Vejam que esse texto mostra a verdadeira função do sábado: a de servir de dia de repouso para que todos pudessem descansar. A ordem era de que nenhum trabalho poderia ser feito, nem mesmo os animais poderiam ser submetidos à cargas de trabalho. No versículos seguinte Deus lembra que Israel havia sido escravo no Egito, e que o sábado deveria lembrar eles disso, e mais, Israel não deveria praticar a mesma coisa, a de submeter seus membros a escravidão do trabalho (Lv. 25.17), antes pelo contrário, ele deveria zelar pela vida de todos que faziam parte da aliança, incluindo os estrangeiros que viriam a se juntar à comunidade da aliança.

Por isso o sábado faz parte dos 10 mandamentos (lei moral), pois é imoral  submeter uma pessoa a uma jornada de trabalho superior a seis dias. Israel seria a nação responsável em revelar ao mundo essa verdade, pois o próprio Israel havia, como povo vassalo no Egito, sido submetido à tal prática. A preocupação de Deus com respeito ao descanso se estende para a própria terra, isso é visto no estabelecimento do ano sabático, quando a solo da terra de sete em sete anos deveria cessar qualquer atividade agrícola, e depois de sete anos sabáticos (49 anos), haveria no 50° o ano de jubileu, onde também não se poderia cultivar a terra, além de libertar todos os escravos e devolver as terras a seus donos originais. Essa ordem divina foi tão seria que textos posteriores informam que Israel falhou em obedecer os anos sabáticos que fez com que um dos motivos do cativeiro babilônico tenha sido para que a terra tivesse enfim o descanso (2 Cr. 36.21). 


A Legalidade do Sábado Hoje

O texto que usamos como base desse comentário (Mc. 2.27), afirma que o sábado foi feito por causa do homem, ou feito para o homem; ora, se ele foi feito para o homem, parece obvio que o principio por traz dele ainda esta em vigor. O homem continua trabalhando, logo, ele ainda precisa de um dia de repouso. Por mais simples que essa declaração possa parecer, ela reflete o principio por traz da declaração de Cristo. Vimos na sessão anterior que essa finalidade já estava presente na velha aliança (Dt.5.14; Lv.23.12) "Para que descansem", "Para que tome alento". Assim sendo, o principio fundamental do mandamento do sábado é que ele garanta no minimo, um dia de descanso semanal ao homem. A discussão sobre qual deve ser esse dia para o cristão hoje, é periférica; mesmo que na antiga aliança esse dia tenha sido o sábado que conhecemos hoje, porém sabemos que na era cristã o domingo, em virtude da ressurreição do Senhor, tornou-se o novo "sábado". O mandamento no Sinai diz: "Seis dias trabalharás... mas o sétimo dia é o sábado do Senhor" (Ex. 20-9a-10a). Sabemos que o sétimo dia para os judeus era o dia imediatamente seguinte à sexta e anterior ao que chamamos hoje de domingo. Precisamos notar porém, que no sábado toda a nação parava ao mesmo tempo, com excessão dos sacerdotes que realizavam os serviços sagrados, não havia, como hoje, pessoas que descansavam em dias diferentes; a sociedade de Israel era totalmente diferente da nossa hoje; o próprio Israel atualmente, é diferente do que dos tempos bíblicos, a semana de trabalho de grande parte dos trabalhadores também é de cinco dias, com a diferença do inicio da  semana, que começa no domingo e termina na quinta-feira. 

A primeira parte do mandamento fala em trabalhar seis dias, a pergunta a ser feita seria: trabalhar menos do que seis dias semanais, constituí em quebra da lei?  Acredito que a resposta é um sonoro não; lembrando que Jesus disse que o sábado foi criado para que o homem descanse, logo ter mais de um repouso semanal, significa a evolução do principio que o sábado apresenta. Se esse principio fosse observado pela humanidade, certamente não teríamos séculos de escravidão e opressão vivenciados por muitos ao redor do planeta. Deus ensinou esse principio ao santificar um dia após a criação, ele diz, trabalhe, porém não esqueça do descanso, trabalhar sem parar revela nossa ambição em acumular riquezas; reservar um dia de descanso nos ajuda a lembrar que as verdadeiras riquezas não estão aqui (Mt.6-19-21). Com isso, podemos dizer o seguinte: primeiro, o sábado que foi dado no Sinai foi estabelecido como sinal entre Deus e Israel (Ex. 31.13,16,17); uma prova adicional disso, é que em Deuteronômio Deus afirma que a guarda do sábado estava relacionada com a libertação do povo de Israel do Egito (Dt. 5.15). Segundo, o principio do sábado como dia de descanso é algo atemporal, o sábado feito para o homem como ensinou Jesus; se esse dia é o sétimo ou o primeiro, ou até mesmo os dois, o importante é que se respeite o repouso. Todos os dias podem ser iguais (Rm.14.5), o descanso porém é indiscutível, ele precisa ser respeitado (Mc. 2.27). Ex. 31.17 chega a dizer que o próprio Deus "Tomou alento" (Almeida RA 1993) ou em outras versões, "Achou refrigério" (Tradução Brasileira), ou ainda "Parou para respirar" (Tradução Catolica) no sétimo dia. Interessante que Deus aplica a si mesmo (o tomar alento) aquilo que é próprio a seres finitos como nós, que necessitam do descanso para recuperar as forças.

 Em terceiro lugar, o Novo Testamento trata a questão do sábado diferente do que o Velho Testamento faz, no Velho, a guarda do sábado era algo compulsório, e desobedecer poderia custar a vida do transgressor (Nm.15.32-36). O Novo Testamento, a principio apresenta a guarda do sétimo dia como algo que ainda era praticado pelos discípulos, que na sua totalidade eram judeus (Lc.23.56); em Atos porém, Lucas mostra que um dia não era mais suficiente para dedicar-se ao Senhor (Atos. 2.46), o padrão agora era "todos os dias", não sabemos ao certo se todos os dias também significava o dia inteiro, porém isso parece estar implícito pela pratica de distribuição de bens entre eles (Atos 2.45); não havia naquele primeiro momento necessidade de trabalhar secularmente para sobrevivência. Com o passar do tempo, e com o crescimento da igreja mundo afora, isso foi mudando, Paulo por exemplo, por vezes revezava seu apostolado, com seu trabalho de construtor de tendas (Atos. 18.3). Não há duvidas de que o sábado era o dia de "folga" do apóstolo, e era o dia que ele aproveitava para pregar o evangelho nas sinagogas (Atos 18.4). Sabemos que o primeiro dia também começou a ser um dia especial para os cristãos em virtude de ter sido nele que o Senhor Jesus ressuscitou dos mortos (Mc. 16.2; At. 20.7; Ap.1.10). Mesmo não tendo um texto explicito mostrando a substituição do sábado pelo domingo, a historia da igreja mostra que isso acabou acontecendo. Repetindo que escrevemos até aqui, o principio do descanso semanal que Deus estabeleceu é atemporal, para a maioria dos cristãos, o domingo será esse dia, alguns outros, acreditam que o dia continua sendo o sétimo dia, ou seja o sábado. Paulo acerca disso escreveu: "Ninguém, pois, vos julgue... ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados" (Cl. 2.16; comp. Gl. 3. 9-10). Paulo certamente não está sendo contra um dia de descanso, mas sim, ele parece estar criticando o legalismo, e até mesmo, um exoterismo em relação a dias específicos. 

Resumindo tudo que falamos até aqui, acredito que o mandamento de um dia de descanso semanal permanece, pois se o sábado foi feito para o homem, é porque ele continua tendo o seu propósito hoje, que é o de proporcionar o bem para o qual ele foi criado. Sobre qual o dia especifico deveria ser esse dia, acredito pela revelação completa das escrituras, que isso não é o mais importante, como cristão, o domingo por tudo o que ele significa para nós, tornou-se o dia perfeito para isso. O mundo ocidental adotou o domingo como o "sábado" de repouso por influência cristã, mas mesmo assim, sabemos que muitos trabalham no domingo, e para esses, o dia de descanso se alterna entre um e outro dia. 


O Sábado e as Modernas Leis do Trabalho

Vimos que sábado e trabalho possuem nas escrituras uma intima relação; trabalhar é essencial na vida humana, mas o descanso também é imprescindível, e não adota-lo, pode ser entendido como pecado, primeiro por aqueles que estão no topo da piramide social como:  governantes, políticos e empregadores; que são aqueles que criam e executam leis, e também pelos trabalhadores em geral, que também por ganância querem trabalhar mais do que deveriam, negligenciando outras coisas, como cuidar da familia e confiar em Deus que supre todas as nossas necessidades. O sábado que o Eterno institui para Israel no Sinai, mostra a preocupação divina com o bem estar humano. Sabemos pelas escrituras que o sábado semanal não era o único dia que havia a suspensão do trabalho, outros dias festivos também eram de repouso, como por exemplo no primeiro dia da festa do pães ázimos (Nm.28.18); no oitavo dia da festa das trombetas (Nm.29.35); algo muito parecido com que temos hoje em dia no nosso calendário de feriados. A Torá está cheia de preceitos que mostram a preocupação social, por exemplo, Deus mandou adotar o dizimo trienal (Dt. 14.28-29) que era um dizimo destinado especificamente para atender os pobres; o ano sabático, além de servir de descanso ao solo, era um ano em que o fruto da terra deveria ser distribuído sem custos a todos (Lv.25.1-7), O homem que casava ficava livre do serviço militar por um ano (Dt.24.5). Assim sendo, a preocupação divina com o bem estar humano está patente na revelação que foi dada a nação israelita. O sábado como vimos até agora, faz parte desse cuidado, e podemos dizer que ele foi algo revolucionário no seu tempo, pois concedia a todos o direito de ter um dia de descanso. 

Interessante que por influência judaica e cristã, os dois dias de repouso (sábado e domingo) passaram a juntos formarem o que chamamos hoje, de fim de semana. A primeira empresa que adotou os dois dias foi a Ford, que além disso, adotou a jornada de trabalho de 40 horas semanais. Não seria exagero em dizer que houve influência judaico-cristã, já que para uns o sábado era sagrado e para outros o domingo, nesse caso a empresa agradou a todos adotando os dois dias e criando o fim de semana. A propósito, a criação de dois dias de folga alavancou a produtividade da empresa, ao contrário do que se pensava, pois os trabalhadores por terem mais tempo de repouso, responderam positivamente melhorando seus desempenhos dentro das fabricas. Hoje em dia, inclusive, se discute a adoção de mais um dia de repouso. Paises na Europa, já fazem experiência a respeito, com resultados satisfatórios. A lei do descanso semanal instituída por Deus, pode ser considerada a primeira lei do trabalho que temos noticias. Hoje temos direitos como: ferias de 30 dias por ano; jornada de trabalho de 40 horas semanais; 13º salario, licença maternidade, dentre muitas outras. Todas essas leis revelam a preocupação pelo bem estar do homem, especialmente em seu caráter de trabalhador; no passado, muitos morriam por condições insalubres e até mesmo penosas em seus ambientes de trabalho. Se o principio do sábado fosse seguido pela humanidade certamente muitos capítulos tenebrosos da nossa historia teriam sido evitados. Termino com o texto de Isaias: "Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra" (Is. 1.18).





















 





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