Em Defesa da Alta Cristologia

 

Jesus Cristo é o centro e a razão da fé cristã, e ironicamente, acabou se tornando a figura mais controversa da historia da igreja. Concílios foram convocados para discutir a pessoa de Cristo, e das definições desses concílios, o cristianismo se dividiu em vários grupos e tradições.  O próprio salvador disse certa vez que ele não veio trazer a paz, mas a guerra (Mt. 10.34-35). Por mais chocante que possa ser esse texto, ele descreve o que foi a historia cristã nos mais de dois mil anos de história. Esse comentário sem propõe a estabelecer as bases bíblicas que levaram o cristianismo a defender a plena divindade de Cristo, e por consequência, sua colocação como a segunda pessoa da santíssima trindade.


Os Alicerces da Alta Cristologia

Quando usamos o termo alta cristologia, queremos nos referir ao conceito ortodoxo sobre a plena deidade de Jesus, em contraste à baixa cristologia, que é aquele conceito que humaniza Cristo a ponto de vê-lo apenas como um homem especial, e não como Deus. Por definição se existe uma alta e uma baixa cristologia é possível também falar em média cristologia, que seria um conceito intermediário entre a baixa e a alta. Nessa categoria poderíamos enquadrar o arianismo, que acreditava na divindade de Jesus, porém, negava que essa divindade fosse igual a de Deus Pai. Os alicerces pelos quais a alta cristologia se estabeleceu, com certeza foi o que os escritores do Novo Testamento declararam sobre a pessoa de Jesus. Vamos colocar os principais textos que declaram a plena divindade de Cristo, e também aqueles que supostamente contestam essa declaração.

" No principio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus" (Jo. 1.1). É impossível falar de cristologia sem mencionar esse texto joanino, e é por ele que quero começar nosso estudo. Podemos usar a tríplice divisão existente no texto, para explicar essa grandiosa declaração de João:

- No principio era o verbo -  Não tem como não associar essa expressão com a do primeiro livro da Bíblia, "No principio criou Deus...(Gn. 1.1).  A palavra hebraica "Bereshit" (no principio) é a mesma usada na tradução do Novo Testamento para o hebraico. Em grego, a expressão é: "En Archê". O principio, portanto, remete-nos ao inicio de tudo, quando Deus trouxe a existência todas as coisas. Nesse passado remoto, quando Deus criou tudo, João diz,  que o verbo era. E quem era o verbo? Mesmo que João mantenha em suspense a  identidade do verbo, parece óbvio que os leitores originais sabiam de quem o evangelista estava falando. Ao dizer mais adiante, que o verbo se fez carne (vs 14), João claramente identifica o verbo com o personagem histórico, conhecido como Jesus Cristo. Jesus, portanto, no principio da criação, existia como o Logos (o verbo). Isso não quer dizer que Cristo era uma força impessoal antes de encarnar, já que o conceito de verbo ou palavra, parece transmitir isso, porém, a ideia de logos, na verdade fala da relação entre o transmissor e a palavra, no caso de Deus e Cristo.

- E o verbo estava com Deus -  Essa segunda sentença de João é fantástica do ponto de vista da relação que existe no ser de Deus. No principio, o verbo estava junto com Deus em uma comunhão perfeita de amor mutuo. Leonardo Boff foi muito feliz ao dizer que Deus não é solidão, mas comunhão. O Verbo sempre esteve com Deus, não houve um tempo em que Deus existia em uma solidão absoluta. O Pai, o Verbo, e também o Espirito Santo definem o conceito de Deus. Gênesis 2.18 ecoa essa verdade de maneira maravilhosa: "... Não é bom que o homem esteja só..." No relato de Gênesis, todos os atos criativos de Deus são seguidos pela expressão: "E viu Deus que era bom", somente em Gn. 2.18 o criador declara que algo não era bom, esse algo, era a solidão do primeiro homem. Essa declaração de Deus faz todo o sentido quando entendemos que Deus nunca esteve sozinho, por isso, ele pode declarar que a solidão não é boa. 

- E o verbo era Deus -  Essa terceira declaração de João é o desfecho lógico do que ele disse até agora: Se no principio era o Verbo; e se o Verbo estava com Deus, João conclui que o Verbo era Deus, isso não quer dizer que o Verbo era o Deus mencionado antes, mas sim, que ele também era Deus. Essa afirmação joanina tem rendido debates ao longo da história da igreja. Os que contestam a plena deidade de Cristo, afirmam que a declaração de João deveria ser entendida como: o verbo era um deus, ou o verbo era divino. Os críticos da tradução, o Verbo era Deus, afirmam que essa tradução faria com que o Verbo se confundisse com Deus. Evidentemente que o texto fala de uma distinção entre o Verbo e Deus, quando ele afirma que o Verbo estava com Deus, porém, essa critica faz sentido para os que afirmam que Deus e o Verbo são a mesma pessoa, que é o que defendem os sabelianos ou unicistas. O Verbo e Deus (Pai) não são a mesma pessoa, todavia, a declaração de que o Verbo era Deus não pode ser negligenciada. Temos basicamente duas opções para lidar com essa assertiva do apostolo João: A primeira delas, é entender que a expressão, era deus, apenas signifique que o verbo era divino, mas, não Deus na verdadeira acepção da palavra. Isso era o que defendia Ario, e que modernamente é defendido pelas testemunhas de Jeová. A segunda opção, é entender que João estava afirmando que o Verbo era Deus, da mesma maneira que o Pai também o é. Para decidir qual das duas opções é a melhor, devemos avançar no contexto, pois, ele é a chave para entender a declaração joanina. Na continuação do texto João afirma que o Verbo é responsável pela criação do universo: " O mundo foi feito por ele" (vs.3); " O mundo foi feito por intermédio dele" (vs.10).  Vamos analisar essa afirmativa de João à luz das duas opções mencionadas anteriormente. Aqueles que defendem que o verbo era um deus, ou apenas divino, precisarão responder à pergunta de: como alguém que é criador do universo, pode ser definido como alguém inferior a Deus?  Os que sustentam a inferioridade do Verbo em relação a Deus, afirmam que Jesus foi apenas o instrumento pelo qual Deus criou todas as coisas. Seria assim, Deus criou o Verbo (Jesus) como a sua primeira obra, e depois, entregou a ele à incumbência de criar todas às outras coisas. Isso é uma tentativa de tentar salvaguardar o monoteísmo, que é a crença em um único Deus, porém, ironicamente, isso acaba indo contra o que se quer defender, pois se Deus criou alguém capaz de criar o universo, ele criou um outro deus, mesmo que se afirme que esse segundo deus é inferior ao primeiro, fatalmente a conclusão é que teríamos um politeísmo aos moldes ao da mitologia grega, que tinha Zeus como deus supremo, e abaixo dele, outras divindades. 

O Velho Testamento atribui a Deus, o mesmo que deveria ser adorado como único Deus, o ato de criar (Gn. 1.1; 14.19,22, dentre muito outros textos). O interessante disso, é que Deus descansa no sétimo dia por ter encerrado todo seu trabalho criativo. Agora quem descansou no sétimo dia? O texto diz que foi Deus (Gn. 2.2), ora se o Verbo criou todas as coisas, conforme o texto de João informa, bem como outros textos  (Hb. 1.2; Cl. 1.16), então, é logico que quando as escrituras afirmam que Deus descansou, isso inclui Jesus, como criador. Além disso, o mandamento dado por Deus para lembrar o sétimo dia, também é uma mandamento dado pelo Verbo. Resumindo isso, podemos dizer o seguinte: Quando a Bíblia usa a palavra Deus, necessariamente Jesus está incluído nela, não faz sentido entendermos que quando a Bíblia diz que Deus criou os céus e a terra, ou quando diz, que ele descansou de toda a sua obra, isso esteja se referindo apenas ao Pai, e excluído o filho. Um outro exemplo disso são as expressões "Apareceu Deus..." (Gn. 12.7; 18.1; 35.9), segundo o evangelho de João: "Deus nunca foi visto por ninguém, o Deus (ou Filho) unigênito no seio do pai é que o revelou" (Jo. 1.18). Se relacionarmos os textos, teremos que obrigatoriamente concluir que quem apareceu na Antiga Aliança foi o Verbo de Deus, no versículo 18 chamado de Deus unigênito, pois é ele o revelador do Pai. Foi ele que traduziu e continua traduzindo aos sentidos humanos a majestade gloriosa de um Deus infinito. Apocalipse 21.23 expressa isso de uma outra forma, ao dizer que na eternidade a gloria de Deus será revelada pelo Cordeiro, que será a lâmpada. 

 

O Significado de Logos

 Por que João escolheu essa palavra como título de Cristo?   Logos é uma palavra rica em significados na cultura grega, porém sabemos que o escritor João era hebreu, e portanto, o pano de fundo judaico está presente na passagem. A palavra hebraica correspondente para logos é "davar", e na septuaginta (tradução grega do Velho Testamento), a palavra logos é usada para traduzir davar, apenas um exemplo para ilustrar isso é o Salmo 107.20: "Ele enviou sua Palavra (hb. davar; gr. logos) e os curou, e os livrou da morte". Para entender então o sentido de logos precisamos recorrer tanto ao pano de fundo grego, como também ao judaico para  usufruir ao máximo o que o termo significa.  Primeiramente, o termo correspondente hebraico "davar", é usado amplamente no Velho Testamento com um variado leque de significados, dentre eles estão: Palavra, mandamento, assunto, ação, evento, motivo. No primeiro Testamento, a palavra de Deus era muitas vezes personificada, transformando-se em um mensageiro divino: "Veio a palavra do Senhor a Isaías" (Is. 38.4); " A palavra que sair da minha boca não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para a que designei" (Is.55.11). A escolha de João portanto, ao comparar Jesus a palavra de Deus não é sem razão, na realidade, podemos apresentar três razões para isso:

1- A lei de Deus -  A Palavra de Deus compartilha da natureza do próprio Deus, ela não é o próprio Deus, mas procede dele, sendo assim ela é em si mesmo tudo o que Deus é. Quando Deus se expressou através da Torah, especialmente no dez mandamentos (dez palavra; dez Devarim, plural de davar; ou dez Logos, Ex. 34.28; Dt. 10.4) ele revelou o que ele é. Se os mandamentos são a expressão do caráter de Deus, segue-se que o Logos que é: "A expressão exata do seu ser..." (Hb.1.3) também o seja. Nesse ponto podemos inferir, que João ao chamar Cristo de Logos, tem em mente a lei de Deus, ou seja, aquele que deu a lei é ao mesmo tempo é a própria lei. Paulo diz que: "Porque a finalidade da lei é Cristo..." (Rm.10.4), assim sendo, Cristo foi a própria lei encarnada. O próprio Deus disse que: "Esse é meu filho amado, em que me comprazo; a ele ouvi" (Mt.17.5); lemos algo muito parecido no Salmo 78.1 "Escutai o meu ensino, povo meu, inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca". A ordem para obedecer a lei divina é a mesma que diz para ouvir o verbo encarnado. 

2- A similaridade com Deus - Uma segunda razão pela qual João chama Cristo de Logos (palavra) de Deus é que o termo é apropriado para mostrar a relação de similaridade entre a palavra (Cristo) e o emissor (Deus). Palavras são expressões do que está na mente, Jesus mesmo disse que: "A boca fala do que está cheio o coração " (Mt. 12.34). Quando falamos em similaridade estamos nos referindo não a uma semelhança física, já que Deus é espirito, mas sim, a uma semelhança de natureza. Assim sendo o Verbo é a imagem de Deus conforme o Apostolo Paulo fala em Colossenses 1.15: "Ele é a imagem do Deus invisível". Alguém pode refletir dizendo que a ideia de imagem não significaria igualdade, já que nós também somos a imagem de Deus (Gn. 1.26). Essa reflexão tem sua verdade, porém ao mesmo tempo, ela desconsidera o fato de que o texto de Colossenses não afirma que Cristo foi feito a imagem de Deus, ele diz que que Cristo é a imagem de Deus, isso é uma condição inata dele como palavra de Deus. 

3- A revelação sobre Deus - "Deus habita em luz inacessível a quem ninguém viu nem pode ver". (1 Tm. 6.16, comp. Jo. 1.18). O texto citado afirma peremptoriamente que Deus nunca foi visto por ninguém, porém temos varias vezes a expressão ao longo do Velho Testamento de que Deus apareceu a alguém. Como conciliar isso?  A resposta é, o Verbo de Deus  torna possível que o inescrutável torne-se conhecido. O Verbo é a interface que torna possível conhecermos o incognoscível. Pense em ondas de radio invisíveis e inaudíveis aos sentidos humanos, e que são "traduzidas" pelo aparelho de radio quando o mesmo está sintonizado na frequência certa, fazendo com que as ondas de radio fiquem perceptíveis aos sentidos humanos. Por isso, Cristo pode dizer que, quem vê a ele, vê o Pai (Jo. 14.9). O Verbo pode revelar o Pai porque ele é do tamanho do Pai. Mesmo que como filho ele se submeta ao Pai dentro do propósito redentivo, ele é igualmente Deus e compartilha de todas as prerrogativas divinas. Nesse sentido a doutrina da trindade é a única possibilidade lógica para explicar a relação dentro do ser de Deus, O Pai, O Verbo e o Espirito, estão intrinsecamente relacionados de tal maneira que podemos dizer que os três são um.

A escolha de João portanto, do termo Logos, é cirúrgica para falar da relação de Cristo com Deus. Tudo que a palavra (davar) significava no Velho Testamento está sendo usada por João para referir-se ao Verbo de Deus. Resumindo o que comentamos até agora podemos afirmar o seguinte: João usou o termo Logos, porque ele é apropriado para mostrar a intima relação de Cristo com o Pai; o Verbo procede eternamente de Deus, não faz sentido afirmar que a Palavra passou a existir em um determinado momento do tempo, o mesmo vale para o Espirito Santo, ele procede eternamente de Deus, sendo coeterno com ele; para realçar a igualdade do Verbo com Deus, João mostra ações e características que são próprias do próprio Deus, tais como: Criador (vss. 3,10; conf. Gn. 1.1), Luz (vss.4-5,7;8.12) termo aplicado a Deus, segundo o próprio João (1 Jo. 1.7 "Deus é luz"); Vida (vs. 4; comp. Sl. 36.9) todas essas prerrogativas são atribuídas tanto a Deus quanto ao Verbo de Deus, desse modo, a conclusão é que: "O Verbo era Deus".


Outros Textos que Apoiam a Alta Cristologia

Hebreus 1.3 - "Sendo ele o resplendor da sua gloria e a expressa imagem do seu ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...". Esse texto é uma declaração fantástica na defesa da alta cristológica, pois o autor de hebreus usa termos fortes em relação a plena divindade de Cristo. A primeira parte do versículo fala em "Resplendor da sua gloria", resplendor é a tradução da palavra grega "Apaúgasma", traduções em inglês usam a palavra "radiance", que tem o mesmo significado da palavra resplendor em português. Em qualquer caso, a ideia é de algo que reflete uma luz, ou que torna visível a luz, essa é uma imagem muito semelhante a ideia do Logos que tratamos anteriormente, ambos os termos expressam a relação de Cristo com Deus,  assim como a palavra procede da mente, e a luz procede do sol, tanto a palavra como a luz, compartilham da natureza dos seu emissores, em ambos os casos, as imagens revelam uma relação de dependência, pois sem a palavra nunca saberíamos o que esta na mente do pensador, e sem a luz nunca entenderíamos a natureza do sol. Do Mesmo modo, sem o pensador não existiria palavras ou idéias, e sem o sol não existiria luz. 

O autor de Hebreus continua sua profunda analise da natureza de Cristo para dizer em seguida que ele é " A expressão exata do seu ser". Essa segunda declaração é ainda mais forte do que a primeira, pois nela o autor afirma que o filho é a representação exata de Deus Pai. A palavra grega usada dessa vez é "charakter" que era a palavra usada para representar a marca feita por um carimbo, ou modernamente poderíamos associar a uma copia feita por meios eletrônicos como por exemplo, um scanner. O fato é que o autor que deixar a imagem na mente dos leitores, de que Cristo é exatamente o que Deus é. Cristo é a resposta a pergunta feita por Deus em Isaías 40.25: "Com quem vocês me compararão? Quem se assemelha a mim? A resposta é o Verbo de Deus que é a imagem do Deus invisível. O interessante disso é que essa característica de Cristo pressupõe algo que existiu desde sempre, pois no mesmo livro de Isaías o Eterno declara: "...Antes de mim nenhum deus se formou, nem haverá algum depois de mim..." (Is. 43.10). Ora se a crença dos arianos estivesse certa, então Deus teria formado outro deus depois dele, e esse texto de Isaías não seria uma verdade. No caso da crença trinitariana, a verdade do texto fica intacta, já que Cristo não se formou ou foi formado em algum momento, ele na verdade compartilha da eternidade com Deus.

A terceira parte do versículo de Hebreus continua elevando a pessoa de Cristo a posição de Deus na acepção plena da palavra. "Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder". Já vimos que é dado a Cristo o papel de Criador, agora ele também recebe o papel de sustentador de toda a criação, característica atribuído a Deus em textos veterotestamentários (Jó 34.14-15).  A declaração é muito semelhante a Colossenses 1.17 que afirma que: "...Nele todas as coisas subsistem".  O poder da palavra de Cristo é que mantém todo o cosmos em funcionamento, fato que vai durar até a consumação dos séculos, quando então, ele voltará, e todo o universo vai se desfazer para dar lugar a outro (Hb. 1.12; Ap.20.11). 

Filipenses 2.5-11 - Esse é mais um importante texto dentro do campo da cristologia. Varias palavras se destacam dentro da passagem, vamos colocar as partes em que elas aparecem: "Achando-se na forma (morphe) de Deus"; Não teve por usurpação (harpagmós) ser igual a Deus"; "Antes esvaziou (ekenosen) a si mesmo "; "E achando-se na forma (schema) humana".  Antes de entrar na parte teológica, precisamos entender porque Paulo escreveu o que escreveu. Os primeiros quatro versículos nos ajudam a entender isso. O Apostolo pede aos seus leitores que cada um exerça o altruísmo no mais elevado nível; que cada um considere os outros superiores a si mesmo; instruções que já tinham sido ensinadas pelo próprio Jesus (Mt 20.26-27; Mc.9.35; Lc.22.26). Paulo evoca o exemplo do fundador da fé cristã como padrão para todos os crentes. "Que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus" (Fp. 2.5). Esse versículo conecta o pedido do apóstolo pela abnegação com o exemplo dado por Cristo, e qual foi o exemplo?  A resposta constitui-se numa das passagens mais profundas do Novo Testamento em relação a pessoa de Cristo. "Que sendo na forma de Deus...". O que significa a expressão forma de Deus? Algumas versões preferem usar condição, em lugar de forma, como é o caso da Bíblia Ave Maria, e também a Bíblia de Jerusalém. A Bíblia King James em português traduz da seguinte forma: "...Tendo plenamente a natureza de Deus...". A NVI é mais direta e traduz: "...Embora sendo Deus...".  Podemos perceber pelas citações que os tradutores entenderam a expressão "forma de Deus" (gr.morphe Theou) como sendo uma clara referência a divindade de Cristo. 

A pergunta então seria, até que ponto a expressão qualifica a divindade de Jesus Cristo?  Não é possível chegar a uma conclusão apenas pela expressão em si, é necessário recorrer ao contexto da passagem, e até mesmo ao restante das escrituras para entender o que realmente o Apostolo quis dizer. Já vimos anteriormente na analise de João 1, que o verbo era Deus; Também em Hebreus, o autor fala que ele (Jesus), é a expressão exata do ser de Deus, além dessas declarações, as escrituras apresentam uma intercambialidade entre Deus e Jesus em algumas ações, como por exemplo: Criar, sustentar, dar a vida, portanto considerar a expressão "forma de Deus" como equivalente a "igual a Deus", não é nenhum absurdo teológico. Prosseguindo no texto, Paulo diz: "O qual subsistindo na forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus" (Fp.2.6). Se a expressão "forma de Deus" equivale a ser igual a Deus, então como entender a expressão seguinte: "Não teve por usurpação ser igual a Deus"? Certamente alguém pode se perguntar, se Cristo já era igual ao Pai (Deus), então porque ele poderia querer usurpar algo que ele já tinha? Essa pergunta faz sentido quando olhamos o texto apenas considerando uma tradução, porém como sempre procuro fazer, precisamos olhar outras traduções ou versões das escrituras. Por exemplo uma versão em inglês (CEV - Contemporary English Version) traduz esse verso da seguinte maneira: "Christ was truly God. But he did not try to remain equal with God". Em português ficaria assim numa tradução livre: "Cristo era verdadeiramente Deus. Mas ele não tentou permanecer igual a Deus". Muitas traduções em português seguem essa linha, e entendem que a palavra grega harpagmós deveria ser traduzida com o sentido de que Cristo não se apegou a sua condição de igualdade com Deus, ao contrario, ele abriu mão dessa condição para realizar a obra de redenção. 

Isso nos leva à sentença seguinte de Paulo, a de que Cristo se auto esvaziou (ekenosen) tomando a forma de servo. Essa declaração é espetacular quando comparado ao que ele escreveu antes, pois o auto esvaziamento de Jesus quando comparado a sua condição de igualdade com Deus, faz da encarnação um ato de amor incomensurável, pois ele saiu de uma condição de igualdade para uma outra de submissão a Deus. Aqueles que defendem uma inferioridade de Cristo em relação ao Pai precisam reconhecer que isso diminui o ato redentivo, pois nesse caso, ele teria sido feito por uma criatura que foi criada por Deus em um determinado momento da eternidade. Textos como o de João 3.16: "Deus amou o mundo de tal maneira..."; ou o de 2 Corintios 5.19; "Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo...", ganham em profundidade à medida que Deus estava diretamente envolvido na obra de salvação do homem, e não indiretamente envolvido, no caso de Cristo ser uma mera criatura. O auto esvaziamento do Senhor é descrito por Paulo em etapas: Tornou-se em homem; tornou-se em servo; humilhou-se; e foi obediente até a morte na cruz. O verbo eterno realmente tornou-se em carne, esse ato é descrito como o grande mistério da piedade (1 Tm 3.16); qualquer ideia que negue a realidade da encarnação de Cristo é considerado como uma heresia anticristã (1 Jo 4.1-2). A expressão:   "encontrou-se na forma de homem" é interessante no contexto da passagem, pois ela parece estabelecer um contraste entre o que Paulo falou antes sobre Cristo estar na forma de Deus, e de repente ser ver como um homem. A razão pela qual, Paulo usa a expressão forma (morphe) de Deus, e depois usar outra palavra para forma (schema) de homem, pode estar no fato de que forma (morphe) de Deus tem mais haver com natureza, enquanto que forma (schema) de homem, tem haver com aparência humana que Cristo assumiu na encarnação.

 Na condição de homem, o Verbo não perdeu sua consciência divina, por isso ele pôde dizer que ele e o pai são um (Jo. 10.30); ele tinha também a consciência que podia perdoar pecados (Lc. 5.20). Cristo não deixou sua condição de  Deus por causa da encarnação, afinal de contas, Deus não pode negar a si mesmo (2 Tm. 2.13).  O auge da humilhação de Cristo retratada por Paulo em Filipenses foi ter sido fiel até a morte de cruz (vs.8). Os versículos seguintes (9-11), descrevem a exaltação de Cristo após a realização de sua missão. Muitos antitrinitários usam esses versículos para contestar a plena deidade de Cristo, pois o texto usa expressões como: "Deus o exaltou"; "lhe deu um nome "Para a gloria de Deus Pai". Essas expressões dariam a ideia de que Deus, o Pai, é superior ao Filho, e que o filho só foi glorificado porque o Pai assim desejou. É fato que o texto descreve uma submissão do filho ao Pai, porém essa submissão é perfeitamente compreensível à luz do que Paulo falou no inicio da sentença: "Não teve por usurpação ser igual a Deus", ora, se o filho se despiu da sua igualdade com Deus, é evidente que o filho encarnado entregou sua vida à dependência total ao Pai, qualquer atitude diferente disso seria uma contradição ao desapego voluntário de Cristo a sua igualdade com o Pai. A exaltação de Cristo pós ressurreição é a resposta de Deus a oração feita pelo filho em João 17.5: "Agora glorifica-me tu, Pai, contigo mesmo com a gloria que eu tive junto de ti , antes que houvesse mundo". Cristo voltou a sua condição de Deus, porém agora com sua humanidade unida a sua divindade. Isso é importante ser entendido, pois Cristo não ficou menos Deus quando encarnou, e não ficou mais Deus depois da ressurreição, Deus exaltou o ser inteiro de Cristo à condição de Senhor, pois foi o ser inteiro que se humilhou na encarnação, e é esse ser inteiro que hoje esta assentado à destra de Deus, e que recebeu o nome acima de todos os outros.

Colossenses 1.15-19 - Paulo novamente é o autor de um texto que exalta a pessoa de Cristo como Deus e Senhor. A primeira frase de Paulo é afirmar que Cristo é a imagem do Deus invisível, o que nos leva a conjecturar que se existe "O Deus invisível", é porque existe o Deus visível, que seria o próprio Cristo, já que Paulo diz que ele é a imagem do Deus que não se pode ver. Cristo é a lampada que torna a luz divina visível (Ap. 21.23); ele é o Deus unigênito (ou Filho) que revela Deus (Jo. 1.17). A imagem que Cristo é de Deus não significa uma imagem física, mas sim no sentido de Cristo tornar Deus cognoscível. Isso é algo profundo quando pensamos em Deus no sentido de um ser composto por pessoas. A infinitude de Deus torna-o incompreensível a seres finitos como nós, mas através do Deus filho; o Verbo, a imagem, o prisma que decodifica a luz divina, Deus torna-se alcançável ao conhecimento dos seres criados, isso nos faz ponderar que na relação das pessoas da trindade, faz parte da natureza funcional do filho, a "missão" de ser aquele que media (1 Tm. 2.5), Deus com a criação. 

A segunda expressão de Paulo é chamar Cristo de primogênito de toda a criação. Essa expressão é polêmica e inquietante por parte do Apostolo, pois ela parece pressupor que Cristo passou a existir dentro em um dado momento do tempo, já que primogênito, tomado literalmente, significa o primeiro gerado. A palavra porém, no original grego (prototokos), parece apontar em outra direção, a de que primogênito significaria posição e não cronologia. Dessa maneira Paulo ao chamar Cristo de primogênito quer com isso dizer que ele é o mais elevado de todos os seres, pelo fato dele ser o criador de todas as coisas. Se alguém quiser insistir de que  o termo primogênito tem que ser tomado literalmente, como significando o primeiro a ser gerado ou criado, então também precisaram lidar com os desdobramentos dessa interpretação, como por exemplo, Se Cristo é o primogênito de Deus no sentido cronológico, então o segundo filho, o terceiro e todos os outros na sequência seriam anjos, porém, conforme o próprio texto de Colossenses afirma, Cristo é o criador dos anjos (Cl.1.16), e de todo o restante da criação (Jo.1.3), logo os outros filhos de Deus na verdade seriam filhos de Cristo; os outros seres, incluindo nós humanos, seriam como que "netos" de Deus. O termo primogênito (protótokos) nem sempre é usado nas escrituras como primeiro gerado, por exemplo, em Jeremias 31.9 na LXX o termo é usado para Efraim (tribo) como sendo o primogênito de Deus, porém sabemos que Efraim foi o segundo filho de José, o que mostra que o termo protótokos ali está sendo usado como sinônimo de preferido, e não de primeiro gerado. O texto de Apocalipse 3.14 é citado como apoio por aqueles que acreditam que o primogênito de Colossenses tenha o significado de primeiro criado. O texto diz que Cristo é o princípio (arche) da criação de Deus, mesmo que o termo prototokos não apareça,  é semelhante à de Colossenses, em Apocalipse a expressão "principio"da criação de Deus" quer dizer que Cristo é a primeira causa do universo, e não que ele é a primeira criatura criada. A sentença seguinte em Colossenses confirma isso, pois após Paulo chamar Cristo de primogênito de toda a criação, ele emenda dizendo: "Porque nele foram criadas todas as coisas..", a conjunção "porque nele" é a razão do titulo "primogênito", pois em Cristo foram criadas todas as coisas. Vejam Deus não iniciou a criação criando Cristo, mas sim em Cristo ele criou todas as coisas, ou seja, por meio de Jesus o universo veio a existir e portanto, ele por consequência herdou todas as coisas que ele mesmo criou (Hb.1.2). 

O termo protótokos (primogênito) é usado em relação para Cristo de duas outras maneiras: primogênito dentre os mortos (Cl.1.18; Ap.1.5); e primogênito entre muitos irmãos (Rm. 8.29). Mesmo que haja uma ordem cronológica na expressão "primogênito dentre os mortos", significando que Cristo foi o primeiro a ressuscitar para não morrer mais, no caso de Romanos a ideia de Paulo é que Cristo é o arquétipo ou modelo dos crentes. Ainda no caso da primogenitura de Cristo dentre os mortos, ele precisava ser o primeiro exatamente para cumprir a missão de destruir o poder das trevas (Hb.2.14) e ser  aquele que tem as chaves da morte (Ap.1.18). Entendemos portanto que o termo primogênito define a importância de Cristo em relação a criação e não sua origem, já que como palavra de Deus ele compartilha da eternidade com Deus. Nesta altura podemos dizer o seguinte, pelo fato de Cristo ser chamado primogênito, e por consequência filho de Deus, isso faria dele alguém necessariamente mais "jovem" do que Deus o pai, pois um filho não pode ter a mesma idade de seu pai. Esse raciocínio tem logica dentro da perspectiva humana, porém se é verdade do ponto de vista humano, que um filho tem que ser mais novo que o pai, também é verdade que todo filho tem uma mãe, quem seria a mãe de Cristo então? Não a mãe humana como foi Maria, mas sim a mãe divina de Cristo quando Deus o gerou. Vejam como os termos devem ser tratados com cuidado, primogênito e filho, foram usados pelos autores sagrados para descrever a relação intima entre o Pai e Cristo e não para significar exatamente o que eles costumam significar para nós.

Se primogênito de toda a criação significa primeiro criado, como ensinam os antitrinitarianos, então teremos problemas com outros textos, por exemplo: João 1.3 diz que: "Sem ele, nada do que foi feito se fez". Primeiramente, seria preciso excluir o próprio Cristo da expressão: nada do que foi feito se fez, pois se ele criou tudo o que foi feito, logo "tudo", exclui ele mesmo, porém o texto diz que sem ele nada do que foi feito se fez, se Cristo é criatura, obrigatoriamente ele também teria que fazer parte de tudo que foi feito, mas não faz sentido dizer que ele fez a si mesmo, portanto, teríamos uma difícil tarefa para conciliar Cl 1.15 com João 1.3.

Uma segunda questão, no próprio texto de Jo 1.3,10 também Hb 1.2, Cristo não é apresentado só como o meio pelo qual Deus criou, Ele é o meio sem o qual, ou seja, os textos, especialmente Jo 1.3, descrevem uma dependência na relação: Logos e criação, "Sem ele", não haveria criação. A pergunta então seria: por que Deus precisaria do Logos para criar? Naturalmente um antitrinitario, dirá que Deus não precisava, caso contrário, ele teria problemas maiores para lidar, porém o texto de João é incisivo, "sem Ele", é como se eu dissesse que sem o dom, Beethoven não teria produzido a 9° sinfonia, ou seja, o Logos é colocado como um "elemento" imprescindível para que a criação viesse a existência. 

Voltando a pergunta por que Deus precisava do Logos para criar, para um trinitariano essa pergunta é relativamente fácil de responder, pois para esses, O Logos é Deus e eterno; O Logos é a sabedoria divina, sem sabedoria, obviamente Deus não poderia criar, assim também que sem o Espírito Santo, igualmente a criação não existiria. Para o antitrinitariano porém, essa pergunta é difícil, pois se Deus precisou criar o Logos primeiro, para só então, atravéz dele, criar todo o resto das coisas, é como se faltasse algo em Deus que ele corrigiu criando o Logos. Essa dependência não é forçada ou inventada, o texto bíblico diz claramente que: "Sem Ele" nada existiria. Obviamente que podemos dizer por outro lado, que sem Deus, o Logos não poderia criar nada, mas essa relação de dependência é um dos postulados da doutrina trinitariana, O Pai, o Logos e o Espírito definem a palavra Deus.

 Rm. 9.5; Tito 2.13; 2 Pedro 1.1 - A colocação desses três textos juntos se dá pela razão de que em certo sentido, eles são muito parecidos entre si no que diz respeito a declaração feita por Paulo e Pedro em relação a Cristo. Em todos os três casos Jesus é chamado de Deus, de acordo com a maioria das traduções. A discussão portanto, seria, se essas traduções estão realmente corretas ao traduzir os textos da maneira que eles estão postos. Para melhor entender a discussão vou por os textos conforme a maioria dos tradutores o entenderam:

"Aos quais pertencem os patriarcas, e dos quais descende o Cristo, segundo a carne, que é acima de tudo, Deus bendito pelos séculos! Amem" (Rm. 9.5; Bíblia de Jerusalém).

 "Enquanto aguardamos a bendita esperança: o glorioso retorno do nosso grande Deus e salvador, Jesus Cristo" (Tt.2.13; King James atualizada ). 

" Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, áqueles que mediante a justiça de nosso Deus e salvador Jesus Cristo..." (2 Pe.1.1; NVI).

Coloquei três diferente traduções para mostrar que, diferentes traduções entenderam que os versículos citados claramente chamam Cristo de Deus. O leitor pode procurar outras traduções e verificar que elas traduzem praticamente da mesma maneira. Os antitrinitários na contramão, dizem que essas traduções estão erradas, e que os versículos acima deveriam ser entendidos de forma diferente. Por exemplo no texto de Romanos 9.5 a tradução deveria ser da seguinte maneira: "... E deles descendeu o Cristo segundo a carne. Deus que está sobre tudo, seja louvado para sempre. Amem". (Tradução do novo mundo). Vejam que na tradução das testemunhas de Jeová, a pontuação do texto é diferente, fazendo com que a expressão final: "Deus que está sobre tudo", seja uma doxologia a Deus pai, e não uma declaração da divindade de Jesus. Se olharmos os outros dois textos, (2 Pe.1.1 e Tt. 2.13), a tradução do novo mundo também verte os textos de maneira diferente, nesses dois casos, os textos estariam falando de duas pessoas Deus Pai e Jesus. Não vou entrar aqui em analises gramaticais intermináveis para provar que as traduções ortodoxas estão certas em relação à do novo mundo. Apenas vou usar o argumento da estatística: será que a maioria das traduções estão erradas e somente a minoria está certa? Será que existe um grande complô trinitariano mundial que manipula todos os tradutores para que eles traduzam os textos do jeito que estão, para provar a divindade de Cristo, e consequentemente a doutrina da trindade?   Digamos que dos três citados, dois estão melhor traduzidos pela TNM e um pelas outras traduções, esse único texto já seria suficiente para provar que Cristo é Deus. Os antitrinitários afirmam que todas as traduções estão erradas, em todos os textos, e que somente a deles está certa em 100 % dos casos. Isso não seria muita pretensioso? Todos as tradições cristãs, incluindo as igrejas ocidentais, (protestantes e católicos), e as igrejas orientais (coptas, armênios, sírios, etíopes) possuem Bíblias adulteradas e somente os grupos minoritários é que são detentores das melhores traduções? Acredito que essas questões precisam ser consideradas quando lemos esses textos, e que possamos humildemente aceitar o óbvio.   


Textos Difíceis para a Alta Cristologia

Algumas passagens bíblicas parecem depor contra tudo o que dissemos até agora, porém este comentário assume o pressuposto de que não há contradições no relato bíblico, e portanto, as aparentes discrepâncias podem ser solucionadas sem arranhar a cristologia que a igreja cristã adota como a certa.  

- João 14.28 - "O Pai é maior do que eu". A primeira vista esse versículo parece deixar claro que Cristo está em uma condição abaixo da do Pai, e que parece muito mais simples entender ele como os arianos entenderam. Todavia, acredito que esse texto pode ser conciliado com tudo o que já escrevemos até agora. Na abordagem de Filipenses 2.5-11, vimos que Cristo na sua condição de Deus não se apegou a essa condição, ao contrário esvaziou-se dessa posição e assumiu a posição de servo. Interessante lembrar que o texto foi escrito para incentivar os irmão de Filipos lembrassem do exemplo de Cristo de auto humilhação e exercessem entre si a mesma atitude. Paulo chega a dizer que eles deveriam: "... considerar os outros superiores a vocês mesmos" (Fp. 2.3). Ora, se Cristo esvaziou-se de sua condição de igualdade com Deus, é óbvio que ele diria que o Pai era superior a ele; se Hebreus diz que ele foi feito um pouco menor do que os anjos (Hb. 2.7,9), por causa da paixão da morte, o mesmo vale muito mais em relação ao Pai. Ainda no texto de João, é preciso entender que a frase de Cristo é dita logo após ele afirmar que iria para o Pai, e ele iria para o Pai, porque o Pai é maior do que ele, em outras palavras, ele estava dizendo que precisava partir porque o Pai era sua meta final; seu objetivo último. Em Mateus 11.11 Jesus disse algo que pode nos ajudar a entender a ideia de maior e menor no texto de João, ele diz que: "Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João Batista, mas o menor no reino dos céus é maior do que ele". Em que sentido João Batista era  maior dos que  nasceram antes dele? Ele foi superior a Abraão,  a Moises, ou Davi? A resposta é que a superioridade de João Batista era em relação a sua missão, pois foi ele o responsável por ser o precursor do messias; o Elias que haveria de vir (Mt.11.14). Porém ele não era melhor nem pior do que os personagens citados; a fala de Cristo tem haver com a função, e não com alguma característica  intrínseca que João tinha. Essa verdade pode ser aplicada na questão da submissão de Jesus em relação ao Pai.

- Mateus 24.36 - Esse outro texto é usado para mostrar que há coisas que Cristo não sabe, como por exemplo, a data exata da sua volta. Isso colocaria em xeque a questão da onisciência de Jesus, já que sendo Deus plenamente, não poderia haver algo que ele não soubesse. Reconheço que é difícil lidar com esse texto, e dar uma resposta plenamente satisfatória é igualmente problemático. Vamos lidar com possibilidades; mas antes disso, é preciso dizer que outros textos das escrituras asseveram a onisciência de Cristo, como por exemplo, Colossenses 2.9 que afirma que: "Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade". (Também 1.19). Seria difícil aceitar que exista algo que alguém que tenha toda a plenitude divina não saiba. Como entender então o que Jesus disse? Os interpretes oferecem alguma possibilidades: 1- Variante textual; a expressão "nem o filho" não aparece em alguns manuscritos. Essa possibilidade cai por terra quando comparamos a passagem ao relato paralelo de Marcos 13.32. 2- Cristo sabia, mas disse não saber a data da sua vinda por causa da sua humildade. O problema disso seria que Cristo demonstraria sua humildade por meio de uma inverdade, já que ele disse não saber algo que na verdade ele sabia. 3- A terceira opção é a que acredito ser a que mais harmoniza a questão com a alta cristologia. Cristo assumiu sua humanidade a ponto de não usar seus atributos divinos, tais como: onipresença, onisciência e onipotência. Lucas afirma que na condição humana ele crescia em conhecimento diante de Deus e diante dos homens (Lc.2.52). Se ele crescia em conhecimento, isso significa que ele teve um desenvolvimento intelectual e cognitivo normal como todos nós temos. Ele também, como homem, não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo (Jo.11.21); porém como o verbo eterno, ele pode estar em todos os lugares (Mt. 18.20. tb. Sl. 34.7). No caso da onisciência, ao mesmo tempo que ele não sabe a data da sua vinda, em outros momentos é dito que ele sabe tudo (Jo.21.17); sabe até mesmo que existia uma moeda que havia sido engolida por um peixe (Mt. 17.24-27). Esse aparente contraditório, mostra as naturezas de Cristo,  unidas, e ao mesmo tempo distintas.  Nesse sentido o credo da Calcedônia está  alinhado ao texto sagrado quando diz: "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem". O texto de Mateus, portanto, não nega a divindade de Cristo, mas sim, afirma sua humanidade.

- 1 Corintios 15.28 - Esse capitulo da carta aos Coríntios contém sem sombra de duvidas, a mais sistematizada declaração acerca da ressurreição dos mortos, sem ele, teríamos muito pouca informação sobre o que acontecerá com os mortos no fim dos tempos. Por agora nos interessa abordar o que Paulo diz no vers. 28, quando ele diz que após o Filho derrotar todos os seus inimigos, sendo o último a morte; então ele se sujeitará ao Pai e "Deus será tudo em todos". Os antitrinitários gostam de usar esse texto para afirmar que, o Filho no final das contas, está subordinado ao Pai. Nenhum trinitariano honesto nega que Cristo está em sua missão redentora submisso ao Pai; foi ele que enviou o Filho, O Filho assumiu a tarefa de tornar-se homem, de morrer e ressuscitar. Este comentário defende a subordinação temporal do Filho em relação ao Pai, e não eterna, ou seja, Cristo assumiu a tarefa de reconciliar todas as coisas com o Pai (Cl. 1.20). O texto de Coríntios descreve que quando essa missão terminar, Cristo entregará o universo redimido e restaurado a Deus, que então será tudo em todos. Entendo que a expressão: "se sujeitará", refere-se ao termino da sua missão temporal, e que a expressão: "Deus será tudo em todos", inclui o Filho na palavra Deus, bem como, o Espirito Santo. 

Esse texto de 1 Coríntios  não é só usado por antitrinitarianos, mas também por trinitarianos que acreditam na subordinação eterna do Filho ao Pai. Essa perspectiva acredita que no relacionamento intratrinitário, a submissão do Filho ao Pai é algo inerente no relacionamento entre o Pai e o Filho; e que essa característica é atemporal, ou seja sempre existiu e sempre vai existir. Um dos primeiros nomes na historia da Igreja que adotou essa visão foi Origines. Penso ser contraditório um trinitariano crer na subordinação eterna do filho, pelo fato de não fazer sentido afirmar que na trindade o Pai, o Filho e o Espirito Santo, são coiguais em poder e propósito, mas no entanto, um membro está subordinado a outro. No caso da subordinação temporal, isso seria na realidade um propósito comum da trindade para realizar a obra de redenção, tendo cada membro da trindade um papel especifico. Terminada a obra, então Deus (O Pai,  Filho e o Espirito) volta a ser tudo em todos.


Argumentação Adicional

Nesta ultima parte quero comentar outros textos e ideias que dão suporte à cristologia defendida pela ortodoxia cristã. Podemos lembrar da declaração de Tomé em João 20.28: "Senhor meu e Deus meu". Sem duvidas essa declaração é mais uma prova do que temos escrito até aqui sobre divindade plena de Cristo. Os antitritarianos tentam fazer dessa declaração de Tomé uma interjeição, porém a passagem é claramente dirigida a Cristo: "Respondeu-lhe Tome...". Tomé de fato chamou Cristo de meu Deus, e tal qual a declaração de Pedro: "Tu és o Cristo o filho do Deus vivo" (Mt.16.16); ou do centurião na crucificação: "Este era verdadeiramente o filho de Deus" (Mt 27.54); a declaração de Tomé é uma revelação feita por aquele que veio para nos conduzir à toda a verdade (Jo. 16.13), e que viria para glorificar a Jesus (Jo. 16.14). A declaração de Tomé não foi contestada por Cristo, ao contrario ele diz que: "Porque viste creste", a declaração "Meu Deus", compõe a nova fé que Tomé passou a ter depois daquele encontro.

Um outro texto interessante é o de 1 Corintios 1.23-25, onde Paulo falando aos cristãos de Corinto sobre o evangelho ser loucura para os gregos, e escândalo para os judeus, diz no versículo 25: "Porque a loucura de Deus é mais sabia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" . A pergunta seria, quando Deus esteve "fraco"? O contexto responde a essa questão, o apóstolo no vers. 23 e 24, afirmou que a pregação consiste na mensagem do Cristo crucificado, que é o poder e a sabedoria de Deus. Podemos perceber um contraste que Paulo estabelece, entre os que creem, e os que não creem na mensagem do evangelho, no caso dos descrentes ele divide em dois grupos: judeus e gregos, para os primeiros, a mensagem da cruz é escândalo, e para os gregos, ela é loucura. O termo "fraqueza de Deus", usado pelo apostolo, possivelmente seja uma expressão irônica usado por ele em relação á descrença, especialmente dos judeus, assim como a expressão "loucura de Deus", seja um cutucão na descrença grega. O fato que ao falar da fraqueza de Deus, ele chama Cristo de Deus, pois foi com Cristo, sobretudo na crucificação, que Deus (Filho) teve seu momento de fraqueza. Obviamente que Deus, na sua perfeição, não se cansa nem se fatiga (Is. 40.28); "Aquele que te guarda não dorme" (Sl. 121.3-4). Paulo porém, genialmente usa a opinião dos descrentes, que entendiam a morte de Cristo como uma fraqueza em Deus, para dizer que mesmo que fosse o caso, essa fraqueza seria mais forte do que os homens. Se para alguns (crentes) Cristo é o poder de Deus, e para outros (descrentes) a fraqueza, o que importa que Paulo indubitavelmente identifica Jesus como Deus.

João 14.23 da mesma forma é um texto de peso que apoia a alta cristologia, pois nele Cristo fala de uma comunhão intima entre ele e o Pai, e se incluirmos o vs. 17 do mesmo capitulo,  o Espirito Santo também faz parte dessa comunhão. Nele Jesus afirma que se alguém diz amar a ele, precisa guardar seus mandamentos e desse modo, o crente será amado pelo Pai e ambos, o Pai e o Filho habitarão esse crente. A expressão usada por Jesus: "Viremos a ele e faremos...". lembra textos de Gênesis: "Façamos o homem" (Gn.1.26); "Desçamos, e confundamos" (Gn.11.7), textos que alguns afirmam ser expressões majestáticas, todavia, no caso de João 14.23, não se trata desse recurso, pois Cristo claramente diz que ele e o Pai, e também o Espirito Santo (vs.17), virão habitar no crente. Esse texto também mostra que Cristo partilha de atributos que são próprios de Deus, como por exemplo a onipresença, pois somente Deus pode habitar em vários corações ao mesmo tempo, como pressupõe o texto. Alguém pode argumentar dizendo que o texto é simbólico, Cristo não estaria literalmente habitando no coração do crente, porém isso seria verdade também em relação ao Pai. O problema disso, é que poderíamos pegar todos os textos que falam da onipresença de Deus, e também dizer que eles são simbólicos; ou assumimos que Cristo pode estar em vários lugares ao mesmo tempo tal como o Pai, ou então teríamos que redefinir toda a Bíblia. Uma outra verdade contida nesse versículo, é que a promessa de Deus habitar no meio do seu povo, era uma promessa feita por Deus (Jeová), no Antigo Testamento (Lv. 26.11; Ez. 37.26), lembrando que a promessa lá, era que Deus habitaria no meio do povo, enquanto que a promessa de Jesus é mais intimista, pois ele fala em habitar dentro dos fieis, o que somente Deus pode fazer.

Uma outra questão que gostaria de abordar, na verdade não seria um argumento a favor, mas de uma refutação a um argumento usado por antitrinitarianos. Os antitrinitarianos afirmam que o fato da Bíblia chamar Jesus de Deus, como por exemplo em João 1.1, não faria com que ele fosse considerado Deus no sentido pleno da palavra, já que outros também são chamados de deus ou deuses (vide Ex. 4.16; Sl. 82.6; Jo. 10.34; 1 Co. 8.5-6; 2 Co. 4.4). Esse argumento falha pelos seguintes motivos:

1- O termo Deus em relação a Cristo está qualificado, o que não acontece nas outras referências. Desse modo, quando a Bíblia chama Cristo de Deus, ela atribui a Cristo prerrogativas divinas. Por exemplo, o texto de João 1.1 chama ele de Deus, e complementa dizendo que ele criou o mundo (Jo.1.3;10). Isso já mostra uma diferença abismal do uso da palavra Deus em relação a Cristo e em relação a outros. 

2- Uma analise rápida dos textos citados mostra que o uso da palavra deus (hb. elohim; gr. theós) nesses casos são usadas metaforicamente, por exemplo Ex. 4.16 Deus respondendo a Moises sobre sua dificuldade de fala diz que Arão seria o profeta (o que fala) e Moises seria  deus (aquele que inspira o profeta), ou seja, o termo deus relacionado a Moises limita-se a sua relação com o termo profeta usado para Arão. No Salmo 82 citado por Jesus em João 10.34 temos uma ironia divina em relação ao comportamento dos homens que tinham o poder de julgar, mas julgavam injustamente; como homem morreriam vs. 7. Em 1 Corintios 8 5-6 Paulo diz que muitos se consideram deuses, ou seja, não são deuses de fato mas consideram a si mesmo como tal. Em 2 Corintios 4.4, o "deus deste seculo" é uma referência ao diabo, seria como dizer o "deus que este mundo escolheu" a ideia nesse caso é semelhante ao que Paulo disse em Filipenses 3.19:" O deus deles é o estomago" . O argumento, portanto, de que o termo deus é usado para Cristo do mesmo modo que é usado para outros seres, não se sustenta. 

Para terminar também gostaria de abordar a relação de tudo o que abordamos aqui e o monoteísmo. A alta cristologia contradiz  a crença em um único Deus? O famoso texto de Dt. 6.4 diz: "Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor". Aqueles que defendem um monoteísmo estrito (o judaísmo por exemplo) usam esse texto como prova de que a crença cristã ortodoxa na trindade está em conflito com a fé monoteísta. Outros grupos ditos cristãos também usam o texto para fundamentar a descrença na doutrina trinitariana. Obviamente que o cristianismo considera a si mesmo como uma religião monoteísta, mas como conciliar a fé em um único Deus  com a declaração cristã de que Cristo também é Deus?  Os cristãos não tem problemas com isso pois cremos em um único Deus que subsiste em três pessoas; a crença cristã entende que o termo Deus aplica-se a três pessoas: O Pai, o Filho e o Espirito Santo. Para fundamentar isso o cristianismo entende que as três pessoas partilham dos mesmos atributos e títulos. No caso do texto de Dt. 6.4 por exemplo, o termo "Senhor" usado ali é também atribuído a Cristo, conforme declara o texto de Efésios 4.5: "Há um só Senhor". Na sequencia do texto de Dt. entendemos a ideia de único Deus, pois Moises acresenta dizendo no versiculo 5: "Portanto amarás o Senhor teu Deus...", ou seja, Deus exige amor exclusivo de seus devotos pois ele é o unico Deus, porém, notem o que Jesus disse em Jo 14.21: "Aqueles que tem o meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama...". No texto de Deuteronômio a marca do amor a Deus é a guarda dos mandamentos, a mesma marca que Jesus fala em João; outro detalhe importante,  é que Jesus declara que tem mandamentos, que obviamente são os mesmos de Deus, o que coloca Jesus ao lado de Deus, pois se os mandamentos foram dados por Deus, e Jesus disse que esses mandamentos também são seus, logo, a conclusão é lógica. Portanto, a alta crostologia não contradiz o monoteísmo, ao contrario, ela revela a infinitude divina de um único Deus que se revela em três pessoas. 

Que o amor de Deus a graça de nosso Senhor Jesus Cristo e as consolações do Espirito Santo seja com todos os leitores.























 

















   



 



 














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