Quem são os filhos de Deus de Gênesis 6?


Se eu fosse fazer um top 5 dos textos mais polêmicos da Bíblia, certamente na minha lista, estaria o texto de Genesis 6. Moises porém, ao escrever aquela passagem, parece saber muito bem o que queria dizer. Infelizmente com o passar do tempo as palavras passam a ter sentidos diferentes do original, a mentalidade começa a sofrer influências externas da cultura e do mundo em geral, e aquilo que era claro no inicio, começa a ganhar camadas sobre camadas  de "material" que acaba soterrando o fundamento original. Cabe a nós escavar e retirar as camadas, o que inclui inclusive o nosso preconceito com algo que fere a racionalidade moderna, que não aceita nada que seja demasiadamente incomum e que fuja do ordinário. Como sempre gosto de fazer, vou colocar todas as possibilidades possíveis que conheço e que os estudiosos apresentam em relação ao texto contido no primeiro livro da Bíblia. Ao longo da minha caminhada de fé já mudei de opinião sobre esse texto, no início eu simplesmente ecoava a opinião da denominação da qual fazia parte, após começar a estudar o texto com outros olhos, acabei adotando uma nova perspectiva.  Nas próximas linhas vou mostrar a posição que defendo em relação ao assunto, mas sem deixar de considerar outras possibilidade. 


Conhecendo as interpretações

Vou começar mostrando o que o mundo teológico fala do texto de Gênesis 6, tanto na tradição cristã, como na judaica. Encontramos diversas teorias e propostas para explicar o enigmático texto de Gênesis 6. Primeiramente, para quem não está familiarizado com o texto, e quem nem mesmo sabe que ele é motivo de grandes embates, vou colocar o núcleo da polêmica para que os leitores tomem ciência da discussão. Podemos começar fazendo a seguinte pergunta, onde está a polêmica do texto? Com certeza a resposta está na expressão, "Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas..."(Gn.6.2). Dependendo da resposta que damos a essa pergunta, outras vem logo atrás como desdobramento da escolha. Outra pergunta encontrada no texto, é quem são os filhos do relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens (Gn. 6.4). Essas duas perguntas básicas e as periféricas são as que vamos tratar aqui. 

Filhos de Deus (bené hâ Elôhim) -  As mais importantes interpretações de quem seriam os filhos de Deus na passagem são: descendentes de Sete; anjos; humanidade não caída; homens poderosos. Vou tratar apenas com essas quatro possibilidades, porque acredito que elas contemplem a opinião dos principais interpretes, tanto do cristianismo como do judaísmo. Vou colocar um pequeno resumo de cada uma delas:

1- Descendentes de Sete - Os defensores dessa ideia afirmam que os filhos de Deus eram a geração piedosa de Sete, e consequentemente as filhas dos homens, eram as descendentes de Caim. O maior argumento dessa teoria é a menção das genealogias de Caim ( cap 4) e de Sete (cap 5) nos capítulos anteriores que parecem criar um pano de fundo para o capítulo 6.

2- Anjos - Essa é a teoria que vou sustentar aqui. Ela afirma, baseado no uso ao longo do primeiro testamento da expressão filhos de Deus, que eles são anjos que se afeiçoaram as mulheres e desse relacionamento surgiram pessoas especiais. 

3- Humanidade não caída - A teoria afirma que Adão e Eva não foram os únicos humanos criados por Deus, outros foram criados, porém, com a diferença de não terem pecado tal como aqueles. Esses humanos não caídos então seriam os filhos de Deus que coabitaram com as descendentes de Adão e Eva.

4- Homens poderosos -   Essa teoria nasce em contextos judaicos.  Ela basicamente diz que os filhos de Deus eram reis ou soberanos da época que tomaram  varias mulheres para si e formaram os primeiros haréns.

Existem variações dentro dessas quatro teorias, por exemplo, muitos teólogos interpretam os filhos de Deus como anjos, porém, com a ressalva de que a narrativa seria mitológica e foi colocada por Moises para explicar o motivo da corrupção humana. Ainda outros, aceitam a possibilidade de que tenham sido anjos, porém, eles fizeram isso por meio da incorporação, da mesma maneira que os demônios descritos no evangelhos. Na seção seguinte vou expor a interpretação que acredito ser a melhor opção, em comparação às outras possibilidades.


Análise da Questão

Vou apresentar as razões do porquê a teoria filhos de Deus = anjos parece mais coerente com a narrativa. Antes de tudo gostaria de analisar uma critica que é feita contra essa teoria. Muitos estudiosos rejeitam essa possibilidade simplesmente porque ela parece ser mitológica demais. Isso é no minimo curioso, porque os mesmos estudiosos não acham mitológico a cobra e a mula que falaram, um homem que foi elevado aos céus num redemoinho, a terra parar seu movimento de translação e muitas outras coisas que parecem ser mitos se consideradas "racionalmente". Tentando pensar à maneira desses estudiosos, talvez eles possam se defender usando a ideia de que os milagres que citei foram realizados por Deus, enquanto que, no caso dos anjos, o fato extraordinário deles conseguirem se relacionar, e até procriar com humanos, seria algo extraordinariamente incomum, mesmo para eles. Se alguém responder isso, a pergunta feita de volta deveria ser: o quê conhecemos das "fisiologia" angelical, para dizer o que eles podem ou não fazer?  O que sabemos pela revelação bíblica é que o Todo Poderoso os fez com capacidades superiores as nossas (Sl. 8.5; Hb. 2.7). Alguns exemplos dessa superioridade podem ser vistas na passagem que narra  um anjo matando 185.000 soldados assírios (2 Rs. 19.35); eles aparecem voando em alguns casos (Dn. 9.21; Is. 6.6); abrem portas sem auxílio de membros (At. 12.10). Essas são algumas coisas pontuais que mostram a grande capacidade que eles receberam de Deus. Eles também aparecem fazendo coisas comuns que nós fazemos, por exemplo, comer (Gn. 19.3); louvar (Lc. 2.13); ter curiosidade por algo (1 Pe. 1.12). 

As criticas contra a possibilidade dos anjos terem coabitado com mulheres, parece serem pautadas mais por um preconceito intelectual, do que por argumentos extraídos das escrituras. Se anjos podem comer  e  falar, como as escrituras mostram eles fazendo, por que eles não poderiam fazer outras coisas, como por exemplo copular?  Se alguém disser que copular envolveria um processo mais complexo do que comer, pois neste caso, seria necessário ter um corpo com órgãos sexuais, que por sua vez produzisse espermatozoide; mas, se eles podem assumir um corpo com capacidade de comer, por que esse mesmo corpo não pode fazer outras coisas?  Vejam, é incoerente acreditar que eles podem ter um corpo que consegue interagir com nós em algumas situações, mas, no caso de Genesis 6, criamos uma regra simplesmente porque achamos isso muito mitológico. Um outro exemplo relacionado a isso seria o fato de anjos tocarem pessoas e esse toque ser sentido, o que pressupõe que eles assumem uma  "materialidade". Dois textos que mostram isso: Daniel 8.18 e Atos 12.7, nos dois casos as pessoas tocadas, Daniel e Pedro, demonstram interação com o toque  angelical. Acredito que esses exemplos ajudem a entender que é possível os anjos terem realmente coabitado com as mulheres, e que os argumentos contra isso, devem considerar que a narrativa bíblica contempla fatos de natureza extraordinária, e que portanto, a discussão não pode ser se esse fato está muito fora da realidade conhecida, caso contrário, toda a narrativa bíblica pode ser colocada em duvida. Um texto muito usado por aqueles que não admitem a possibilidade do texto estar falando de anjos, é o de Mateus 22.30 (comp. Mc. 12.25; Lc. 22.36) que fala que o anjos não casam nem se dão em casamento. O texto paralelo de Lucas esclarece que a comparação que o texto faz entre os anjos e os homens é acerca da imortalidade, ou seja, após a ressurreição seremos imortais como os anjos são, e portanto, não haverá necessidade de procriação. Os anjos de Gênesis 6 não tomaram para si mulheres porque sentiam necessidade de perpetuar a especie, mas, sim o fizeram, por causa de um sentimento indevido, e por isso mesmo foram condenados, "Os anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, ele os tem reservado em prisões eternas na escuridão para o juízo do grande dia " (Jd. 6). 


Argumentos favoráveis à Teoria dos Anjos

Analisando o texto com cuidado conseguimos encontrar algumas razões que nos fazem entender que o texto está falando de anjos. 

1- O autor estabelece um contraste entre homens e filhos de Deus - Isso pode ser observado comparando o versículo 1 com o 2, ele começa dizendo "Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas". (Gn. 6.1). Grifei as palavras, "homens" e "filhas", porque elas destacam o paralelo que o autor quer mostrar. Ao dizer que homens começaram a se multiplicar, o autor refere-se a toda a humanidade, a palavra usada no hebraico para humanidade ou homens é: "ādām", a mesma palavra usada quando Deus criou o primeiro casal, que representava toda a humanidade (Gn. 1.27). Em seguida, ao falar da multiplicação da humanidade, o autor diz que lhes nasceram filhas, ou seja, essas filhas eram mulheres que descendiam de toda a raça humana, e não de um grupo específico, como acreditam os que dizem que as filhas dos  homens  eram descendentes  apenas da parte de Caim. Avançado para o versículo 2 o autor diz: "Vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas...".  As filhas dos homens são apresentadas no versículo 1 como procedentes dos homens, no caso dos filhos de Deus, o autor não fala da procedência deles, chama-os de filhos de Deus, dando a entender que eles não fazem parte da humanidade, ora, se os filhos de Deus fossem descendentes humanos, o autor diria isso no versículo 1, quando falou da multiplicação dos homens, porém, ele afirma que dessa multiplicação vieram as filhas dos homens, o que obviamente deixa de fora os filhos de Deus. Por que isso? porque os filhos de Deus (anjos), procederam direto de Deus, enquanto que as filhas dos homens, vieram logicamente da massa humana. Temos então claramente duas linhas estabelecidas pelo autor: filhas dos homens (humanidade) e filhos de Deus (anjos). 

2-  O uso da expressão filhos de Deus - O uso que o autor faz da expressão filhos de Deus é importante dentro da analise que estamos fazendo, pelo fato dessa expressão aparecer outras vezes ao longo das escrituras, vamos nos valer delas para nos ajudar a entender à de Gênesis 6. Antes disso, uma duvida que pode ser levantada é, se filhos de Deus são anjos, por que Moises não usou de uma vez a palavra anjos no lugar de filhos de Deus? Responder a isso de forma inequívoca, não é tarefa simples, contudo, acredito que o tópico anterior ajuda a  responder a isso. Acredito que Moises preferiu usar a expressão, filhos de Deus, no lugar de anjos, exatamente para contrastar com a expressão filhas dos homens, conforme vimos antes. Lembrando que esse uso intercambiável das expressões não é um caso único nas escrituras, no livro de Jó (Moises é um dos possíveis autores), o autor usa as duas expressões também. Ele usa filhos de Deus (Jó 1.6; 2.1; 38.7), referindo-se a anjos, mas ele também fala desses seres usando a expressão mais conhecida, anjos (Jó 4.18; 33.23). Desse modo, o autor usou a expressão filhos de Deus em Gênesis, por que essa expressão servia melhor ao propósito que ele queria transmitir naquele momento. Voltando ao uso do termo, filhos de Deus, além de Gênesis 6.2 e de Jó 1.6; 2.1; 38.7, ela ainda aparece em Salmos 29.1; 89.6; Daniel 3.25. É consenso dos comentaristas que em todas essas citações, filhos de Deus significam anjos. A passagem de Daniel 3.25 que usa uma variação aramaica da expressão (bar Alahim), um pouco mais a frente na passagem, o texto usa anjo no lugar de filho de Deus (Dn. 3.28) o que mostra a intercambialidade das duas expressões, especialmente no Velho do Testamento. Isso reforça a ideia de que anjos estão em foco na passagem de Gênesis 6. Obviamente que não são somente os anjos que são considerados filhos de Deus nas escrituras, a nação de Israel recebe esse tratamento também, (Ex. 4.22; Os. 11.1), além obviamente do Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo (exemplos: Jo 1.34; Mc. 1.1) e os crentes, que tornam-se filhos de Deus quando crêem em Cristo (Jo. 1.12). Todavia, no caso de Gênesis 6, dizer que filhos de Deus signifique qualquer coisa diferente do que anjos, seria um anacronismo, pois, os outros usos ainda não eram realidades. Por exemplo, em Gênesis 6 Israel ainda não existia, o verbo de Deus não havia encarnado e consequentemente, não havia crentes em Cristo para se tornar filhos de Deus. Sendo assim, o termo "filhos de Deus" é apropriadamente aplicável aos anjos. Alguns traduções bíblicas  inclusive, entendendo que a expressão "filhos de Deus", refere-se a seres não humanos, preferiram verter o termo já com essa ideia, é o caso da tradução em inglês CEV (Contemporary English Version) que usa a expressão: "Supernatural Being" que em português seria: "Seres Sobrenaturais". Outro exemplo é a tradução francesa do Rabino Zadoc Kahn, que verte a expressão para o francês: "Les fils de la race divine", que em português ficaria: "filhos da raça divina". 

3- O resultado do cruzamento - Um outro fato destacado pelo autor da narrativa, é que o resultado da união entre as filhas dos homens e os filhos de Deus, deu origem a "seres", especiais, que o texto chama de heróis da antiguidade. O fato a destacar, é que Moises enfatiza que a união entre os filhos de Deus e as mulheres produziu seres especiais. Acredito que isso é mais um forte argumento favorável aos seres em questão serem anjos. Faz todo o sentido entender que o cruzamento entre os seres celestiais e  mulheres, originou as pessoas especiais que o texto destaca. Agora, se os filhos de Deus eram humanos, como as outras teorias afirmam, a narrativa perde bastante o sentido, e ainda por cima cria alguns problemas. Primeiro, por que Moises destacaria filhos que viriam da união entre homens e mulheres? Isso não é o que acontece naturalmente desde o início da criação?  Interessante que no versículo 1 o autor disse que as filhas dos homens vieram da união natural de homem e mulher, e essas mulheres eram formosas vs.2. Ou seja, o máximo que união natural dos seres humanos produziu, foram belas mulheres, mas, a união entre os filhos de Deus (anjos), e essas mulheres, produziu os heróis e valentes do passado que o texto destaca. Em segundo lugar, se admitirmos que os filhos de Deus eram humanos, e dessa união com as mulheres surgiram pessoas especiais, isso acaba inconscientemente parecendo ser  um tipo de eugenia, ou seja, os filhos de Deus unidos as formosas filhas dos homens geraram crianças superdotadas. Os filhos de Deus hoje, isto é os crentes, geram filhos geneticamente iguais aos não crentes, por que os filhos de Deus do passado (admitindo que eles eram a geração piedosa de Sete) gerariam filhos especiais? Não faz sentido nenhum isso, mas se eles eram seres celestiais, então isso, responderia satisfatoriamente ao relato. 

4- Apoio de outras passagens bíblicas - A passagem de Judas 1.6 parece à luz de Genesis 6 fazer mais sentido quando entendemos serem anjos os filhos de Deus. Os Anjos que não guardaram o seu principado é sabidamente uma citação do livro de Enoque, que por sua vez afirma que o motivo da prisão dos anjos era justamente a prostituição com as mulheres. O capitulo 7 de Enoque é muito parecido com Gênesis 6 (Enoque 7.1-2), a diferença é que ele fala claramente que eram anjos. No capitulo 10 o escritor do livro de Enoque fala da prisão dos anjos, que parece ser a passagem citada pelo livro canônico de Judas (Enoque 10.15-17). Alguns críticos reconhecendo que Judas estaria citando Enoque, acabaram optando por interpretar a passagem de Gênesis 6 mitologicamente, por causa dos fatos incomuns narrado no livro apócrifo. Por exemplo, o livro fala que os gigantes filhos dos anjos com as mulheres tinham a altura de 300 cúbitos, o que equivale a 135 metros de altura; também o livro fala que os gigantes começaram a devorar tudo, inclusive praticar canibalismo (Enoque 7. 12-14). Sobre isso podemos dizer que no geral Judas endossa o relato de Enoque, porém, não sabemos se ele aceitava todos os detalhes do livro, porém, é bom dizer que se o relato de Gênesis é realmente mitológico, então, de que maneira poderíamos entender a citação de Judas? O texto de Judas perderia totalmente o sentido, pois, ele fala, por exemplo, que os anjos que pecaram estão reservados para o juízo final, ora, se ele considera o juízo final como um acontecimento real, faria sentido dizer que anjos mitológicos fariam parte de um juízo real?  Além da citação de Judas, temos a de Pedro, onde ele fala semelhantemente de anjos que estão presos, aguardando o juízo final (2 Pe. 2.4). Acredito que os anjos da carta de Pedro sejam os mesmos citados por Judas, pelo fato de ambos falarem de anjos que estão presos. Muitos comentaristas que negam serem anjos os filhos de Deus em Gênesis 6, acabam por coerência terem que dizer que os anjos citados por Judas e Pedro, são os mesmos que seguiram a rebelião de satanás. O problema com tal interpretação é a dificuldade de responder a razão deles estarem presos. Na nossa perspectiva, porem, acreditamos que duas rebeliões angelicais ocorreram no passado. A primeira, a do diabo; e a segunda, a dos anjos que se prostituíram com a mulheres. Esses últimos, são os anjos que Judas e Pedro citam como estando presos. Rebeliões diferentes redundaram em punições diferentes, Deus em sua infinita sabedoria e soberania, resolveu prender os anjos que cruzaram com mulheres; não sabemos o porquê disso, se fosse arriscar uma resposta, diria que foi para que eles não tentassem fazer isso de novo e acabassem bagunçando o mundo (mais do que ele já esta) juntamente com os que ficaram soltos. 


Quem são os Nefilins?

A narrativa de Gênesis 6 informa que da união entre os filhos de Deus e as mulheres, surgiram seres chamados de Nefilins. A palavra usada aparece em dois lugares na Bíblia, a de Gênesis 6.4 e em Números 13.33. Muitas traduções verteram a palavra "Nefilins" para gigantes, influenciadas especialmente pela Septuaginta (LXX), que usa a palavra gigantes. Outras versões porém, mantiveram a palavra original "Nefilins". A maioria dos especialistas afirmam que o termo vem do verbo "cair". A pergunta então seria: em que sentido a palavra cair está sendo usado, temos algumas possibilidades: caídos do céu; caídos mortos, caídos em batalha ou caídos moralmente. Pelo que depreendemos do texto de Gênesis 6, acredito que o significado de caídos moralmente faz justiça ao texto, pois, temos na sequência da passagem a descrição da degradação moral da humanidade que resultou por fim no diluvio. Algumas questões precisam ser tratadas em relação aos nefilins na relação com a teoria dos anjos serem os filhos de Deus. A primeira delas, que aparece no texto, é que o relato parece sugerir que os nefilins existiam antes da relação entre os filhos de Deus e as filhas dos homens. Isso seria um argumento contra a teoria que estamos defendendo aqui, pois, se esses seres ou pessoas já existiam antes da relação entre os anjos e as mulheres, então isso acabaria enfraquecendo o argumento que apresentei antes, sobre os filhos da relação serem uma prova da origem celestial dos filhos de Deus. Um fato a destacar é que a construção da passagem é de difícil compreensão, mas independentemente disso, o texto deixa claro que a união entre os filhos de Deus e as mulheres deu origem a pessoas especiais que o texto chama de heróis ou valentes da antiguidade (Gn. 6.4).

Quanto ao problema do texto dizer que os nefilins já existiam antes da união dos filhos de Deus com as mulheres. Uma maneira de resolver isso é entender que os nefilins são um grupo, e os valentes, os filhos da união dos anjos com as mulheres, são outro grupo. Interessante que a palavra no original para valentes é "Gibborin" uma outra expressão que aparece em outros momentos nas escrituras (Gn. 10.9; Ez. 32.27). Podemos entender o texto então da seguinte maneira: "Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens...". Até aqui temos um grupo de personagens, os nefilins; o texto não informa a origem deles, apenas diz que eles estavam na terra naqueles dias. Na continuação do texto de Gênesis temos: "...as quais lhe deram filhos, esses eram os valentes (gibborins), os homens de renome, que houve na antiguidade". Aqui temos o segundo grupo, esses sim, foram o resultado da união dos filhos de Deus (anjos) com as filhas dos homens. Essa interpretação, além de harmonizar bem o texto,  responderia a questão dos nefilins aparecerem em Números 13.33, já que uma critica à interpretação que estamos dando aqui, é que como poderia existir nefilins milênios depois, se eles foram todos destruídos no diluvio? A resposta então, é que os nefilins eram gigantes de origem humana, e naturalmente através dos sobreviventes do diluvio, permaneceram na linhagem humana, os gibborins, no entanto, seriam os filhos da relação filhos de Deus/filhas dos homens, e eles sim, teriam sido destruídos no diluvio. Uma outra alternativa, seria entender que o texto está tratando só de um grupo de seres, os nefilins; o outro termo, gibborins, seria apenas um adjetivo para qualificar os nefilins. A explicação para a existência deles antes do episódio,  de união dos anjos com as mulheres, seria, nesse caso, que essa união já havia acontecido antes e aconteceu de forma mais abrangente no período próximo do diluvio. No caso da existência dos nefilins no livro de Números milênios depois, a explicação seria de que as noras de Noé eram descendentes dos nefilins e que, portanto, passaram os gens adiante. Particularmente prefiro a primeira explicação, pois, o texto não parece indicar outros cruzamentos de anjos com mulheres, mas mesmo assim é uma possibilidade para explicar a dificuldade que o texto apresenta dentro da visão defendida aqui.


Dificuldades das outras teorias

Nesta última parte vou mostrar minha discordância em relação às outras teorias. No inicio mostrei que além da interpretação que adoto aqui, existem outras propostas que tentam explicar a passagem de Gênesis. Vou me ocupar aqui na abordagem das teorias que considero revestidas de maior popularidade entre os comentaristas.

1- Teoria dos descendentes de Sete -  Essa sem duvida é a teoria mais popular junto com a que estamos defendendo aqui. Santo Agostinho parece ter sido seu grande expositor. Mesmo tendo Santo Agostinho dentro das sua fileiras de defensores, acredito que ela falha pelas seguintes razões: ela afirma que os filhos de Deus são descendentes de Sete, e as filhas dos homens eram descendentes de Caim. O primeiro problema dessa teoria é que ela precisa provar que a palavra "homens" (ādām) do versículo 1 refere-se somente a descendência de Caim, já que os proponentes da interpretação afirmam, que as filhas dos homens eram provenientes da genealogia de Caim. O texto no entanto afirma, que as filhas dos homens vinham da multiplicação dos homens (humanidade), e não só de um tronco especifico, no caso os cainitas. Conectado a isso, os defensores da teoria precisam mostrar que os filhos de Deus vieram da descendência de Sete. O texto não fala da origem humana deles como fez com as mulheres, ora, se eles de fato eram humanos, eles também deveriam estar contemplados no versículo 1 onde o texto trata da proliferação da humanidade. Outro problema da teoria é que ela entende que os filhos de Deus eram os justos e as filhas dos homens eram as vilãs da história. No entanto, o texto parece descrever o contrário, pois, o texto diz que os filhos de Deus:   "Tomaram para si mulheres de todas as que escolheram" (Gn. 6.2). A narrativa transparece que as verdadeiras vitimas eram as mulheres e não os filhos de Deus, eles "tomaram" as mulheres. A "culpa" delas seria a de serem belas, o texto porém, nada diz que elas estavam usando a beleza para seduzir os filhos de Deus. Uma questão acerca disso, é que parece que entre os descendentes de Sete, não havia mulheres formosas, pois, pela lógica se as filhas dos homens eram descendentes de Caim, logo, parece que só elas tinham o dom da beleza. Outro detalhe a considerar é: onde estão as "filhas de Deus", e os "filhos dos homens" na historia?  Será que as descendentes de Sete não tinham beleza para que os descendentes de Caim a desejassem? 

Outra dificuldade da teoria, é sobre o termo "filhos de Deus". Vimos antes, que a expressão aparece algumas vezes no Velho Testamento e em todas elas, anjos são os personagens em foco. O famoso principio hermenêutico a Bíblia interpreta a própria Bíblia precisa ser considerado nesse caso. O termo, "bene haElohim" como vimos, é 100 % aplicado aos anjos nos outros casos, por que somente na passagem de Gênesis 6 ele teria um sentido diferente?  Lembrando que o autor de Gênesis, Moises, é provavelmente o autor do livro de Jó, onde o termo aparece três vezes (Jó 1.6; 2.1; 38.7), ou seja, o mesmo autor usa o termo por três vezes aplicada aos anjos e não há nenhuma outra referência desse autor usada a outro grupo. Além das citações de Jó, as referencia de Salmos (29.1; 89.6) e Daniel (3.25), tem um detalhe importante, pois, na época delas, Israel já era uma realidade, mesmo assim, o termo filhos de Deus, ainda era usada para referir-se aos seres celestiais. Outro problema da visão "descendentes de Sete", é lidar com as passagens do Novo Testamento que citamos antes, Judas 6 e 2 Pedro 2.4. A fonte que Judas (também 2 Pedro 2.4) usa em sua citação (Jd.6), é tirada do livro de Enoque, isso é ponto pacifico entre os estudiosos. Ora, se Judas usa Enoque, segue-se que ele está endossando a história que Enoque conta em seu livro, pois, seria muito estranho acreditarmos que Judas cita os anjos presos, mas não concordasse com o restante da história do livro, que é o fato desses anjos presos, serem justamente os anjos que pecaram com as mulheres de Gênesis 6. Os defensores da teoria dos descendentes de Sete tem a difícil tarefa de conseguir provar, ou que Judas não está citando Enoque, ou que mesmo que ele esteja citando, ele não endossa o motivo da prisão apresentado pelo livro, que foi o cruzamento dos anjos com mulheres. 

2- Humanidade não caída - Essa teoria é mais popular dentro do judaísmo, pelo simples fato, de que o judaísmo não precisa lidar com as declarações do Novo Testamento. Essa teoria se aproveita do significado da palavra, "adam", usada em Gênesis 1.27, para afirmar que Deus no sexto dia não criou somente um casal, mas, muitas outras pessoas. A teoria continua dizendo que a queda do homem narrada em Gênesis 3, descreve a queda de apenas uma das famílias que Deus havia criado, outras teriam permanecido em um estado de inocência, e seriam esses, os filhos de Deus de Gênesis 6. Acredito que dentro da visão cristã, essa teoria morre na casca, pois, o Novo Testamento deixa claro, que Deus no principio criou apenas um casal, At. 17.26: "De um só fez todas as raças de homens..." e que o pecado de Adão afetou todos os homens (Rm. 5.18). Basicamente também, essa teoria teria as mesmas dificuldade da teoria dos descendentes de Sete, a de provar que o termo filhos de Deus estaria sendo usado para seres humanos e não para anjos.

3- Homens poderosos - Essa também é muito popular no judaísmo, mas também ela é usada por teólogos cristãos. Ela foi defendida por dois grandes sábios do judaísmo: o Rashi  e Nashmánides (ambos séc. XII), e tornou-se o padrão do judaísmo rabínico desde então. Ela afirma que os filhos de Deus de Gênesis 6 são uma designação de poderosos monarcas da época que tomaram varias mulheres para formarem haréns. Acredito que essa teoria sofre dos mesmo problemas da teoria dos descendentes de Sete, e praticamente tudo que escrevi sobre aquela, vale para essa. Um detalhe que pode ser percebido, é que essa teoria, bem como as outras duas (descendentes de Sete; humanidade não caída), são teorias que tentam dar uma explicação menos extraordinária. O problema disso, é que todo o contexto é ignorado e apenas fica a tentativa de encontrar uma maneira de responder o texto de uma maneira que seja menos agressivo a inteligência humana. Fica então a critério dos leitores julgar isso à luz de toda revelação bíblica. 

Concluo aqui minha analise da passagem de Gênesis 6 baseado em todos os dados que temos a disposição, que a melhor conclusão do texto de Gênesis é entender que a passagem está realmente falando que os filhos de Deus eram anjos. Por mais fantástico que isso possa parecer à mente moderna, o texto aponta para essa conclusão. O mundo anterior ao diluvio era um mundo totalmente diferente do que conhecemos hoje. As idades extraordinariamente grande das pessoas que Gênesis descreve antes do diluvio mostram isso, e parecem à mente moderna algo fantasioso, mesmo assim, cristão ortodoxos aceitam como um fato verdadeiro e literal. 












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