Acerca dos dons espirituais 2° Parte
Continuando nosso estudo sobre os dons espirituais, nesta segunda parte quero abordar o assunto mais no âmbito bíblico e teológico. Quando falo "biblicamente", refiro-me a abordagem de textos bíblicos relativos ao tema, porém, isso não significa que a riqueza da tradição da igreja vai ser posta de lado, na minha opinião, é impossível interpretar um texto sem considerar o que os grandes mestres do passado falaram a respeito do mesmo. Você pode até pegar uma passagem bíblica e interpreta-la por sua conta, mas dificilmente alguém vai deixar de consultar depois, a opinião de cristãos do passado, para então, definitivamente chegar a uma conclusão do texto. Dentro do tema da continuidade ou não dos dons do Espirito Santo, podemos ver na primeira parte que a igreja cristã em todas as suas tradições tem se debruçado sobre o assunto, o que nos ajuda muito na analise do assunto. Não sou dono da verdade, mas como disse Paulo: "Penso que também tenho o Espirito de Deus" (1 Co. 7.40).
Continuidade ou Descontinuidade?
Na primeira parte, podemos observar que a opinião da continuidade foi algo que caracterizou mais a vida da igreja do que a descontinuidade. A grande razão disso, na minha opinião, é que o texto sagrado parece apontar mais para a continuidade do que para a cessação dos carismas do Espirito Santo. Jesus disse que os sinais seguiriam os que cressem (Mc.16.17). Existe uma discussão em torno do versículos finais de Marcos (9-20), muitos acreditam que um copista acrescentou esses versículos, porém, mesmo assim o suposto copista acreditava que os sinais continuariam, pois, ele diz que "Os sinais acompanharão os que crerem", ou seja, enquanto houver um crente em Jesus no mundo, os sinais vão seguir esse crente. Seria muito estranho acreditarmos que Jesus na verdade, estaria dizendo que os sinais acompanhariam os que cressem até a um certo tempo, (por exemplo, até o fechamento do cânon), mas, depois terminariam. A palavra usada por Marcos, ou o copista, para "acompanhar" foi no grego, "Parakoloutheo", que no dicionário Strong significa: seguir após; seguir alguém de maneira de estar sempre ao seu lado; seguir de perto, acompanhar. Esses significados parecem indicar muito mais para uma continuidade, do que uma ruptura nos dons espirituais.
Outro texto parecido com o de Marcos, é João 14.12: "Digo-los a verdade: aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque estou indo para o Pai". Novamente temos um texto no qual Cristo liga os sinais com a fé. Não há nesse texto nenhuma indicação de que os sinais cessariam em algum momento, ao contrario, Jesus afirma que após sua ascensão aos céus, seus seguidores teriam a intercessão dele em seu favor. Cristo acrescenta que: " Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho" (Jo.14.13). Obviamente que o "tudo" que pedirmos, está relacionado com a vontade soberana de Deus, mas, como Jesus tinha dito antes, que seus seguidores fariam sinais ainda maiores do que ele fez, temos que entender que isso aconteceria justamente porque ele estaria á destra de Deus rogando por nós. A intercessão de Cristo em favor dos seus não cessou, logo, os sinais obviamente não devem ter cessados também. A relação dos sinais com a fé é interessante dentro do nosso assunto, pois mesmo os cristãos que se inclinam mais para o cessacionismo, acabam por causa da dinâmica da fé, deixando uma porta semi-aberta para explicar possíveis milagres que venham acontecer entre os crentes. Lutero, por exemplo, sustentou que a era dos milagres poderia ter cessado, mas, por outro lado, ele afirmava que a fé tem seu potencial próprio de operar milagres. Certamente quando Jesus disse que: "Se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer para esse monte: vá daqui para lá, e ele irá. Nada será impossível para vocês" (Mt.17.20), ele não estava fazendo uma promessa apenas para os apóstolos, mas, sim para todos seus seguidores ao longo da historia.
Acredito que esses ditos de Cristo sejam um problema para os cessacionistas, pois, se eles afirmam que o fim da era apostólica pôs fim aos dons espirituais, por outro lado, eles tem que admitir a possibilidade desses sinais acontecerem em virtude do potencial da fé que o próprio Senhor ensinou existir. Interessante, que essa fé geradora de milagres, é mais adiante ensinada pelo apostolo Paulo, justamente como um dos dons do Espirito Santo (1 Co. 12.9). Assim sendo, se afirmamos que os dons cessaram, teremos que admitir que a fé que Jesus incentivou buscarmos, também cessou com o fim do período apostólico. Obviamente que os cessacionistas afirmam que alguns dons cessaram, não todos. Geralmente em debates sobre o assunto, os dons mais citados são o de línguas, profecia e de curas, nunca ouvi um cessacionista falar que o dom da fé cessou, porém, por coerência, acredito que deveria ser defendido que, se os outros dons cessaram, o da fé igualmente cessou. Obviamente que a fé como dom, não é a fé salvífica, (mesmo que a fé salvífica também seja um dom divino) pois, Paulo deixa claro que a fé como dom espiritual é dada a alguns, não a todos (1 Co. 12.9). Mesmo considerando ela um dos carismas do Espirito, afirmar que ela cessou junto com os outros dons, nos obrigaria a dizer que quando Cristo incentivou a buscar a fé que move montanhas (fé milagrosa), Jesus estaria falando algo somente para as primeiras comunidades cristãs. Fazer isso, porem, poderia nos levar a criar uma teologia seletiva, pois, se a fé milagrosa ficou restrita para a era apostólica, quem garante que outras coisas também não ficaram? Será que os ensinamentos do sermão do monte também não era só para os primeiros discípulos? Percebam, é muito mais coerente entender que tudo que Cristo ensinou vale para todas a gerações, incluindo a fé milagrosa.
Agora se alguém disser que a fé milagrosa não cessou, apenas os outros dons (línguas, curas, profecias) terminaram, então a pergunta seria, qual o critério para dizer que esse dom cessou e aquele não? Parece-me um tanto arbitrário escolher quais dons continuam e quais acabaram. A teologia paulina claramente associava a continuidade dos dons ao evento final que se daria na segunda vinda de Cristo: "De maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Co. 1.7). Diante de um texto como esse, temos apenas duas opções, ou Paulo acreditava que a vinda de Cristo se daria em seus dias, ou ele acreditava que os dons iriam durar até a volta do Senhor. Mesmo se adotarmos a ideia de que o apostolo acreditava na volta de Cristo ainda nos seus dias, ainda assim, isso revela que o marco final dos dons se daria no grande evento final que como bem sabemos, não aconteceu no primeiro século, o que deixa os dons espirituais disponíveis á igreja que ainda aguarda à manifestação do Senhor.
Argumentos Cessacionistas
Vou colocar aqui os principais argumentos usado pelo cessacionista para respaldar a ideia de que os dons espirituais cessaram com o fim da era apostólica.
1- Quando vier o que é perfeito (1 Co. 13.10) - Esse talvez seja o texto áureo do cessacionismo. Segundo a interpretação, o perfeito que viria, era a formação do cânon do novo testamento, que então, tornaria os dons obsoletos. Com todo respeito aos que interpretam dessa maneira, mas, acredito que ela não faça justiça ao que o apostolo Paulo quis dizer aos corintos. Por que acredito que o texto não está falando da formação do cânon do Novo Testamento? Primeiramente uma análise exegética mostra que Paulo tem outra coisa em mente, ao falar do "que é perfeito". No versículo anterior ele diz o seguinte: "Porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos" (1 Co. 13.9). Agora percebam um detalhe, se Paulo está dizendo, que, o que é perfeito, é a formação do cânon, então, teríamos que concluir que a Bíblia aniquilaria a Bíblia. Como assim? Ele disse: ..."E em parte profetizamos", ora o que Paulo profetizou é justamente o que está no cânon do Novo Testamento, já que grande parte do mesmo foi escrito por ele. Agora se entendermos que o que ele fala no versículo seguinte, como sendo a formação do cânon, então o texto ficaria assim: "Porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito (cânon), então o que é em parte (o que profetizamos) será aniquilado". Vejam, não faz sentido Paulo dizer que quando o cânon se completasse, ele aniquilaria o que o próprio apostolo tinha profetizado. A maneira mais simples e coerente com o restante das escrituras é que, o que é perfeito, refere-se a segunda vinda de Cristo, quando então, todo o conhecimento parcial será aniquilado, pois, teremos um conhecimento direto e claro de Deus. Calvino concordou com essa interpretação, veja o que ele diz no comentário dele no livro de 1 Corintios: "O apóstolo poderia ter posto nestes termos: "Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.” No entanto, ele usa a mesma forma de expressão anterior, ao pôr a perfeição em contraste com o que é em parte. Ele está dizendo: “Quando a perfeição chegar, tudo quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido.” Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa na morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; ela, porém, não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final ( 1 Corintios, João Calvino,2003, edições Parakletos; pgs. 406-407).
Parece claro por esse comentário, que Calvino entendia que a expressão usada por Paulo "O que é perfeito", está relacionado mais à escatologia do que à formação do cânon. Um comentarista dos nossos dias, Leon Morris, também concorda com a ideia de que Paulo esta se referindo a consumação dos tempos quando usou a expressão "quando vier o que é perfeito". No seu comentário de 1 Corintios ele escreve: "O que é perfeito traduz "to teleion", que contém a ideia do fim ou objetivo culminado. Indica o plano de Deus. Quando se chegar à consumação, tudo que é parcial será aniquilado". (1 Corintios, Introdução e comentário, Leon Morris, Mundo Cristão, pg 150). Parece claro que o plano de Deus só vai se consumar na segunda vinda de Cristo, portanto, aquilo que é perfeito, virá na consumação da historia, por ocasião da segunda vinda de Cristo. Mesmo comentadores assumidamente cessacionistas, não se arriscam em interpretar o texto paulino diferente do que os dois que citei. Por exemplo, o Rev. Charles Erdman em seu comentário de 1 Corintios diz: "Serão aniquiladas”. Concedamos que os dons espirituais, outorgados à Igreja dos coríntios, limitaram-se à Era Apostólica. Ainda que Paulo não o afirme aqui, essa limitação era um fato provável. (1 Corintios, Charles R. Erdman, 1956, casa editora Presbiteriana, pg.121). O reverendo. é honesto em dizer que Paulo não afirma em 1 Corintios 13 que os dons cessariam, mesmo que ele em seguida diga que isso era uma tendência. Concluímos portanto, baseado nos comentários citados acima, que o texto de 1 Corintios não abona a ideia do fim dos dons no período apostólico.
2- Diminuição dos Sinais no Fim do Ministério Apostólico - Esse argumento afirma que já próximo do fim da era apostólica, temos uma sensível diminuição da operação dos dons. Um texto usado para isso é o de 2 Timóteo 4.20 "... A Trófimo deixei doente em Mileto". A ideia aqui é que Paulo não teria curado o irmão Trófimo , o que mostra a ausência, ou no minimo, a diminuição dos dons de cura que no passado Paulo demonstrou ter, conforme Atos 14.9-10; 19.12; 28.8-9. Esse argumento desconsidera algo básico: primeiro, o dom não prevalece sobre a vontade de Deus. Se o Senhor não quiser curar alguém nada vai curar, nem mesmo a melhor junta médica do mundo. Um exemplo disso é o próprio apostolo Paulo que disse que tinha um espinho na carne (uma doença talvez), e orou pedindo para que o Senhor o curasse e recebeu como resposta: "A minha graça te basta..." (1 Co. 12.9). Agora pensem o seguinte, se os dons de cura, necessariamente sempre curassem, então, bastaria Paulo pedir para um outro apostolo, Pedro talvez, para que impusesse as mãos sobre ele e removesse o espinho (a doença). Porém, no caso de Paulo, mesmo se os doze colocassem as mãos sobre Paulo, mesmo assim, ele não seria curado, porque a vontade soberana de Deus tinha outros planos para ele. O mesmo pode ter acontecido com Trófimo, Deus não o curou porque algo que pertence à vontade perfeita, soberana e inescrutável do Todo Poderoso, simplesmente, não permitiu que aquele discípulo fosse curado. O próprio Senhor em alguns momento do seu poderoso ministério de curas e maravilhas, negou-se em faze-lo, em virtude da incredulidade das pessoas ( Mt. 13.58). Alguém diria que houve uma diminuição dos dons no ministério de Cristo por causa do episódio de Nazaré?
3- Edificado sobre o Fundamento dos Apóstolos e Profetas ( Ef. 2.20) - Esse argumento afirma que não se pode colocar sobre o fundamento posto pelos apóstolos e profetas novas revelações. Temos aqui uma critica específica aos dons de profecia, variedade de línguas e interpretação de línguas, pós período apostólico. O principio base desse argumento é um dos solas da reforma protestante; o sola scriptura. Ou seja, a revelação de Deus está completa nos 66 livros que formam o cânon das escrituras, e nenhuma revelação extra pode ser colocada além do que está posto. Assim sendo, os defensores cessacionistas advogam que, dons como profecia e línguas, teriam uma natureza revelacional, e que se eles se perpetuassem ao longo da historia, necessariamente acabariam acrescentando revelações novas sobre as que já foram estabelecidas nas escrituras. Bom, as escrituras verdadeiramente afirmam que não devemos ir além do que está escrito (1 Co. 4.6). Isso inclui, não acrescentar nada à revelação que nos foi dada pelos escritores do texto sagrado. A discussão porem, seria, será que realmente os dons espirituais acrescentam novos conteúdos á revelação original? Eu diria que se houver a tentativa de fazer isso, o dom em questão não provém de Deus. Por exemplo, Jesus disse que ninguém sabe o dia da sua vinda (Mt. 24.36), se alguém profetizar marcando datas para a volta de Cristo, isso será uma clara contradição sobre o que o texto sagrado já estabeleceu. Porém, se alguém profetizasse ou tivesse uma visão ou sonho acerca de um evento especifico da historia, como é o caso da epidemia de coronavírus que está afetando o mundo inteiro, enquanto escrevo esse texto. Isso seria acrescentar uma revelação nova às escrituras? Acredito que não, ao contrário isso seria uma confirmação da verdade das escrituras, pois, Jesus disse que haveriam pestes (Mt. 24,7; Lc. 21.11). Uma mensagem divina dessa natureza não seria dada para ser colocada no cânon, mas sim, para ser uma mensagem de consolo e alerta para que pudêssemos nos preparar para os dias difíceis. Alguém pode argumentar, mas a Bíblia já fala que haverá tais coisas, logo, não é necessário uma profecia nova falando disso. O fato das sagradas escrituras avisarem que haverá pestes, não impede que uma delas (por exemplo a do coronavírus) seja revelada por Deus a uma geração especifica de cristãos para consolar, edificar e exortar. Amós 3.7 diz que" O Senhor não fará coisa alguma, sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas". Ora se Deus continua fazendo coisas (acredito que todos os cristãos concordam), logo, ele ainda está revelando essas coisas. Sobre a discussão acerca dos profetas que Paulo coloca junto com os apóstolos no fundamento da Igreja, acredito que ele esteja falando dos profetas do antigo testamento, por algumas razões: 1- Pedro diz algo muito parecido na sua carta (2 Pe. 3.2), e os profetas citados por ele, claramente referem-se aos do antigo pacto. 2- O Novo Testamento é composto aproximadamente de 33 % de citações diretas e indiretas do Velho Testamento (profetas), e os outros 66%, são obra dos apóstolos, ou por alguém autorizado por eles. 3- O ministério profético do Novo testamento não estava em pé de igualdade ao dos apóstolos, isso pode ser observado no episódio do profeta Ágabo, mesmo ele profetizando inspirado dizendo o que ia acontecer com o apóstolo, Paulo "desobedeceu" a profecia e foi para Jerusalém, contrariando os pedidos dos irmãos At. 21. 10-14. Esse episódio ainda mostra, que uma profecia pode ter um caráter meramente revelatório e não diretivo, ou seja, não é uma profecia para se tornar regra de fé, como são os escritos dos profetas do Velho Testamento e o dos apóstolos do Novo que são o fundamento na qual a igreja está firmada.
Os Dons na Atualidade
Partindo do pressuposto de que os dons continuam vigentes, precisamos lidar com questões importantes relacionados ao tema. Uma delas é responder se todos os dons ainda estão disponíveis para a igreja. Normalmente os dons que causam mais polêmicas, são os da lista de 1 Corintios 12.8-10, porém, existem outras listas, a tabela abaixo da uma boa visão das listas apresentadas pelo Novo Testamento:

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