Acerca dos dons espirituais 1º Parte
Quero abordar aqui mais um tema que polariza as opiniões dentro da fé cristã. A igreja ao longo da sua historia tem se debruçado sobre o tema da continuidade ou descontinuidade dos dons espirituais. Normalmente, ouvimos falar em pentecostais, os que defendem a atualidade dos dons; e os tradicionais, os que afirmam a descontinuidade dos mesmos. Esse dualismo é encontrado mais dentro da tradição protestante, (os carismáticos católicos podem ser colocados no grupo dos continuístas), porém, é preciso também olhar o que outras tradições cristãs falam sobre o tema, haja visto, que a Igreja cristã não nasceu na reforma, antes disso, já existiam cristãos que viveram uma vida intensa e dedicada á causa do evangelho. Existem variações dentro dos dois grupos, de continuístas e cessacionístas, ou seja, nem todos cessacionístas acreditam em um fim absoluto dos dons espirituais, muitos falam do fim de alguns dons, como línguas e profecias. No caso dos continuístas, nem todos acreditam na continuidade de todos os dons, muitos afirmam a descontinuidade de dons, como por exemplo, o do apostolado. Em certa medida então todos cessacionístas são continuístas e vice versa. Vamos neste estudo abordar o assunto olhando primeiramente para as escrituras, mas, também olhando a historia da igreja e a opinião de grandes servos de Cristo a respeito do tema.
Os dons espirituais na historia da Igreja
Antes de uma analise bíblica sobre o tema, vamos dar uma espiada na historia e verificar como o cristianismo, através dos seus principais expoentes, lidou com este assunto. Vamos partir da patrística primeiramente. Não é conhecido grandes tratados teológicos dos Pais da Igreja sobre o assuntos dos dons espirituais, o que temos são pequenos comentários de um ou de outro tratando o assunto.
Justino Mártir (100-165), por exemplo, na obra: Dialogo com Trifão, capitulo 82, ele diz que: " Os dons proféticos permanecem conosco até o dia de hoje", mais a frente, no capitulo 87 ele acrescenta que o Espirito Santo continuava concedendo dons da graça.
Irineu (130-202), em sua grande obra: Contra Heresias, diz que: "Todos aqueles que são verdadeiramente discípulos de Jesus, recebem graça dele, realizam grandes milagres em seu nome, promovendo assim grande bem estar ao homens, de acordo com o dom que cada um recebeu dele. Pois alguns verdadeiramente expulsam demônios, de modo, que aqueles que foram purificados de espíritos malignos frequentemente crêem em Cristo e se unem a igreja. Outros tem visões de coisas que estão por vir, outros ainda curam enfermos pela imposição de mãos, além disso, até os mortos são ressuscitados e permanecem conosco por muito anos".
Tertuliano (150-220), No Tratado sobre Batismo, ele exortava novos convertidos a buscarem zelosamente os dons espirituais: "Portante, meus bem aventurados, a quem a graça de Deus aguarda, quando sobem da fonte mais sagrada do seu novo nascimento (Batismo), e estendem as mãos pela primeira vez as mãos na casa de sua mãe (Igreja), junto com seus irmãos, peça ao Pai, peça ao Senhor que cada um receba sua própria especialidade de dons".
Orígenes (185-254), em Primeiros Princípios, ele adverte contra o mau uso dos dons: "Seja por batismo ou pela graça do Espirito Santo, quando a palavra da sabedoria ou do conhecimento ou qualquer outro dom for concedida a alguém, mas que todavia não for corretamente usado, ou seja, for enterrado na terra, ou escondido em um guardanapo, o dom do Espirito certamente será retirado de sua alma".
Cirilo de Jerusalém (313-386), registrou em sua obra, Palestras Catequéticas, que: " Se você crer, não apenas receberá o perdão dos pecados, mas também fará coisas que ultrapassam o poder humano. Que você seja digno do dom de profecia, por toda a sua vida o guardião, o Espirito Santo, permanecerá com você; ele cuidará de você, da sua saída e da sua entrada. E ele lhe dará dons de graça de todo o tipo, se você não o entristecer com pecado, esteja pronto para receber a graça, e quando tiver recebido, não a lance fora".
Agostinho (354-430), Agostinho pode ser classificado como um cessacionísta, mesmo assim, ele deixa em aberto a possibilidade de manifestações extraordinárias (opinião muito parecida com que os modernos cessacionistas sustentam). Ele mostra isso na sua obra Retratações: " Eu disse, (Capitulo XXV), esses milagres não foram permitidos durar até os nossos dias, para que a alma não procurasse coisas visíveis. e o ser humano não arrefeça acostumado com coisas que o emocionavam quando eram novas. Isto é verdade. Quando mãos são postas no batismo, pessoas não recebem o Santo Espirito de tal maneira que elas falem em variedade de línguas, nem doenças são curadas quando a sombra de um pregador de Cristo passam por elas.Claramente tais coisas que outrora aconteceram, hoje cessaram. Porém não deveria entender que não há mais milagres acontecendo hoje em dia em nome de Cristo, pois quando eu escrevia este livro, eu mesmo ouvi que um cego de Milão foi curado quando estava ao lado do corpo dos mártires, Protásio e Gervásio. Muitos outros tem acontecido nestes dias, portanto, é impossível conhecer a todos, ou enumerar todos os que conhecemos".
Tomás de Aquino (1225-1274), Avançando na historia, temos a opinião de outra figura importantíssima na tradição cristã. Aquino partilhava da ideia de Agostinho, de que o dom de línguas, por exemplo, tinha mudado do individual para o corporativo na vida da Igreja. Ele afirma que o dom de línguas não seria mais necessário, porque, agora, a igreja teria interpretes em quase todas as línguas do mundo, tornando, portanto, desnecessário o referido dom. Em um comentário no Evangelho de Mateus, Aquino diz o seguinte: " Se você me perguntar, por que esse poder não está mais disponível aos pregadores hoje, Agostinho responde que o maior milagre hoje é a conversão do mundo inteiro. Portanto, ou houve milagres realizados e então provei meu ponto; ou se não houve, esse é o maior de todos, que é o de que o mundo inteiro foi convertido por pescadores, os mais humildes dos homens". Apesar dessa opinião especifica em relação aos dom de línguas, Aquino demostrava crer piamente em manifestações milagrosas, isso pode ser encontrado facilmente lendo seus escritos. Em um comentário dele de 1 Corintios 14.1-4, temos claras indicações de que ele acreditava na vigência do dom de profecia nos seus dias.
Martinho Lutero (1483-1546), Entrando no período da reforma, temos em Lutero uma das figuras mais importantes daquele momento. Em relação ao tema, observamos uma certa cautela em relação ao assunto, ora ele parece esboçar um certo cessacionísmo, e ora ele deixa a questão em aberto. Duas citações de sermões dele mostram essa ambiguidade: "Agradeço a Deus por não ter mais necessidade de milagres; a doutrina do evangelho já foi estabelecida por sinais e maravilhas suficientes, para que ninguém tenha qualquer motivo para duvidar deles" (Sermon on the gospel for the sunday, J.A. Shulze, pg. 246). Em outro momento ele tem um tom diferente: "Então, quando um pregador chamado disser: Deus está falando com você aqui, receba o Santo Espirito, da maneira que eles pregam você deve perguntar: que sinal você dá para que possamos acreditar em você? Se isso é apenas suas palavras não prestaremos atenção nelas; de você mesmo nada pode ser dito que valha a pena ser ouvido, mas, se você demonstra-las com sinais, então, vamos examinar que tipo de doutrina você tem, e se você fala ou não as palavras de Deus" (Festival Sermon of Marthin Luther, transleted by Joel R. Baseley, pg 4-5).
João Calvino (1509-1564), Paulo certa vez disse que "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento" (1 Co. 3.6). Isso pode perfeitamente ser aplicado em relação a Lutero e Calvino. Lutero lançou os fundamentos da reforma, mas, Calvino estruturou a obra. Em relação ao tema, Calvino trabalhou mais a questão do que Lutero. Mesmo tendo ressalvas a questão dos milagres, ele não pode ser considerado um cessacionísta radical. As "críticas" que Calvino fazia em relação aos milagres, era na realidade, uma resposta ao que os católicos afirmavam em relação aos reformadores. A igreja oficial dizia que o movimento protestante não estava sendo chancelado por Deus através dos milagres. Nesse contexto que Calvino então demonstra sua cautela em relação os supostos sinais: "O fato de exigirem milagres de nós agem de má fé, ora, não estamos a forjar algum evangelho novo; ao contrário, retemos aqueles mesmos à confirmação de cuja verdade servem todos os milagres que outrora operaram assim Cristo como os apóstolos" (Institutas da religião cristã, Vol I, pg.29). Calvino criticava o abuso dos milagres, especialmente quando eles eram usados para substituir as escrituras. "Já explicamos porque os milagres são chamados de sinais, é porque por meio deles que o Senhor demonstra seu poder aos homens".(Commentary on the gospel of John, Vol 2, pg. 281).
A consolidação do Cessacionismo
Vimos até agora que mesmo os mais reticentes em relação a continuidade dos dons, o eram mais por causa dos exageros de seus contemporâneos do que por uma convicção bíblica e teológica. A partir do seculo XVII porém, uma tendência cessacionista instalou-se na Igreja, especialmente na Inglaterra. Um dos fatores que podemos destacar foi o movimento puritano. Os puritanos foi um fenômeno na igreja da Inglaterra que procurou se distanciar de todas as maneiras do catolicismo, e que buscou uma maior pureza na doutrina e no culto. Podemos ver a marca cessacionista dos puritanos na confissão de fé de Westminster. Dois artigos da confissão pode ser mencionada, que tratam da questão dos milagres, o primeiro capitulo trata das sagradas escrituras e a sua suficiência, não havendo mais necessidade de novas revelações: "Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo".(C.F.W. Capitulo I. I).
Sublinhei a palavra "cessado" porque ela traduz bem a opinião da confissão em relação ao fim de qualquer outra forma de revelação, incluindo: sonhos, visões ou qualquer outro fenômeno que tente acrescentar novos ensinos. Em virtude de um anti-catolicismo no pano de fundo da confissão, podemos mencionar o capitulo xxv da confissão, quando ela afirma que o Papa é o anticristo. "Existe apenas um cabeça da igreja, e ele é o Senhor Jesus Cristo, não pode o Papa de Roma em qualquer sentido ser o cabeça, pois ele é o anticristo, o filho da perdição, que se exalta a si mesmo na igreja contra Cristo, e tudo que se chama Deus". (C.F.W Capitulo XXV. VI). Essa declaração foi retirada em versões posteriores da confissão, mas, no principio, ela mostra que o cessacionismo de Westminster era uma critica as alegações papais de supostos milagres, que para os proponentes da confissão, era na verdade, sinais de mentira, conforme o texto de 2 Tessalonicenses 2, onde Paulo trata sobre o anticristo. Outras confissões na Inglaterra seguiram a de Westminster, como por exemplo: Declaração de Savoy, confissão de fé feita pelo congregacionais e a confissão de fé batista de Londres, ambas contendo em seus artigos a cláusula de cessação dos dons sobrenaturais.
O surgimento do Pentecostalismo e Movimento carismático
Um capítulo da história cristã que não pode ser negligenciado, foi o surgimento do pentecostalismo no início do século XX. Outros movimentos anteriores influenciaram o que viria a ser tornar o pentecostalismo, podemos citar: o pietismo da Igreja Luterana, Sec. XVII, movimento que valorizava muito temas como, santificação, experiência religiosa; existem registros inclusive de manifestações de línguas estranhas entre os pietistas; o movimento de santidade holiness, movimento metodista, muito centrado também no tema da santificação, porém, com uma ênfase no batismo com Espirito Santo como propulsão para alcançar a santidade moral. Outra influência foi o ministério de Edward Irving um ministro presbiteriano polêmico, que pregava sobre a continuidade dos dons espirituais e também sobre escatologia. Um outro movimento que certamente cruzou o caminho do pentecostalismo, foi o dos Quakers (sociedade dos amigos), com sua teologia da "luz interior". Muitos lideres pentecostais, no início do movimento ou eram Quakers, ou tinham uma forte influência deles ,por exemplo, A.J. Tomlinson, Maria Woodworth-Etter, apelidada de avó do pentecostalismo. O início do século XX estava borbulhando com todos esses movimentos, nesse contexto que um metodista chamado Charles F. Parham deu o start inicial para o movimento Pentecostal. Segundo a Enciclopédia Histórica Teológica, Parham foi quem deu o ensino básico da "evidencia inicial" do batismo com Espirito Santo após uma estudante, chamada, Agnes Ozman, falar em línguas numa escola bíblica em janeiro de 1901 (E.H.T.I.C, pg.131). O grande marco do pentecostalismo sem duvida foi o avivamento da Rua Azusa, ocorrido entre 1906-1909, onde realmente o movimento se espalhou pelo mundo inteiro, e que em seguida produziu denominações pentecostais importantes, como por exemplo, As Assembleias de Deus. Podemos sintetizar a teologia pentecostal em relação ao assunto da seguinte maneira:
1- Os dons espirituais estiveram e estão presentes na vida da Igreja;
2- O batismo com Espirito Santo é uma experiência distinta da conversão;
3- Falar em línguas é a evidência inicial do batismo com Espirito Santo.
Ramificações posteriores do pentecostalismo, (neopentecostalismo), reviram o ponto 3, sobre a evidencia inicial, e mesmo considerando o batismo com fogo distinto da conversão, não adotaram a posição de que é necessário falar em línguas como prova do batismo com Espirito Santo.
Em meados do século vinte tivemos uma segunda onda de renovação cristã que atingiu as igrejas tradicionais, incluindo: luteranos, episcopais, presbiterianos, católicos e ortodoxos, que ficou conhecida como renovação carismática. Uma característica distinta do movimento carismático em relação ao pentecostalismo, é que não houve formação de novas igrejas, no geral, o movimento ficou restrito dentro das suas igrejas originais, sendo muitas vezes reconhecido por elas como um movimento autêntico. O movimento carismático católico por exemplo, foi reconhecido oficialmente pela igreja através de seu líder máximo, o Papa. Na Igreja Ortodoxa, o movimento foi menos impactante do que na Igreja Católica, mesmo assim movimentos como: Army of the Lord (exército do Senhor) um movimento de renovação dentro da Igreja Ortodoxa Romena pode ser citado.
Essa primeira parte apresentei um esboço da historia da igreja em relação aos dons espirituais, não me detive em nenhum movimento, porém, acredito que, mesmo assim, é possível ter uma visão geral de como a Igreja tratou o tema ao longo da sua historia. Na segunda parte, vou tratar o assunto biblicamente, com a interpretação que acredito ser a melhor escolha em relação ao tema.
Leia a segunda parte aqui: Segunda Parte
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