Apocalipse: a difícil jornada para figurar no Cânon do Novo Testamento


Vamos nos ocupar desta vez em tratar de um tema menos polêmico e mais informativo. Nosso assunto será em torno do ultimo livro das escrituras, não para analisa-lo exegeticamente, mas sim, para mostrar a difícil jornada que o livro fez para entrar no Cânon do Novo Testamento. Apocalipse não está sozinho nessa história, alguns outros livros do N.T. também sofreram resistência para integrar o texto sagrado, ele serão mencionados aqui, porém, a ênfase ficará mesmo no livro das revelações.

 Origens

Não poderíamos começar sem antes tratar da questão da autoria de Apocalipse, pois, essa foi uma das discussões em torno da canonicidade do livro. É bom lembrar ou informar que existiam três critérios básicos para que um livro fosse considerado apto para integrar o cânon do N.T.

1- Origem apostólica - Esse critério estabelecia que um livro era considerado inspirado caso ele tivesse sido escrito por um dos Apóstolos ou por alguém intimamente ligado a eles, como por exemplo, Lucas e Marcos, que segundo a tradição foram supervisionados por Paulo e Pedro quando escreveram seus Evangelhos. (Atos, Evangelho de Lucas, Evangelho de Marcos).

2- Reconhecimento das Igrejas - As principais igrejas da época precisavam reconhecer a autoridade dos livros, ou seja, a circulação desses livros nas igrejas lideres, (Jerusalem, Roma, Éfeso, Antioquia), revelava um reconhecimento da cristandade em relação a sua inspiração e autoridade.

3- Conteúdo do Livro -   O mais importante critério de todos, era se o conteúdo do livro estava em harmonia com o ensino oral dos Apóstolos durante suas vidas. Esse critério está associado ao anterior, na medida que as igrejas citadas eram às que os Apóstolos tiveram grande influência durante seus ministérios. 

Já que a autoria apostólica era um dos critérios para a inclusão ou não de um livro no cânon, Apocalipse foi alvo da discussão exatamente pela questão autoral. Que um João escreveu o livro, não temos duvidas (Ap. 1.1,4; 21.2, 22.8), a pergunta seria: qual João escreveu? As possibilidades que são apresentadas pelos experts são: João o Apostolo, um outro João ou um outro escritor que usou o nome de João.  Em favor de João, o Apostolo do Senhor, temos o testemunho de Justino o mártir e Irineu de Lion. Um dos primeiros a rejeitar a autoria de João, Apostolo, foi Marcião, que por sua vez o levou a não incluí-lo no seu cânon editado do N.T.  Dionísio de Alexandria foi outro importante escritor do passado a questionar a autoria apostólica de Apocalipse. Ele também foi o primeiro conhecido a fazer uma critica sistematizada contra a autoria de João Apostolo. A sua principal critica focava a diferença entre o grego de Apocalipse e o grego dos outros escritos joaninos. Euzébio de Cesareia, o conhecido escritor de historia eclesiástica, juntamente com Papias, apresenta João o presbítero como tendo sido o escritor de Apocalipse. Mesmo que os autores acima não tenham rejeitado o livro por conta da possibilidade da não autoria apostólica, no entanto, isso acabou influenciando outros a começarem a questionar Apocalipse como livro inspirado.  Cirilo de Jerusalém que viveu entre 315 e 386 listou todos os livros do N.T. menos Apocalipse e ainda deixou instruções para que ele não fosse lido pelos crentes. 

Questões doutrinárias também foram levantadas questionando a autoria apostólica de Apocalipse, uma delas foi a questão milenarista, Caio bispo de Roma acreditava que o livro de Apocalipse acabava ajudando os hereges em seus erros, motivo que o levou a rejeitar a obra. O mesmo Caio, afirmava que Apocalipse teria sido escrito por Cerinto, outra figura controversa e fundador da heresia chamada cerintianismo. O Concilio de Laodiceia (363-364), tratou sobre o cânon bíblico e fixou o número de livros do N.T. em 26, justamente Apocalipse ficou de fora. Um contraponto ao concilio de Laodicéia, foi o concilio de Hipona, (393), nele Apocalipse figurou na lista aprovada pelos bispos que lá estiveram. As resoluções de Hipona foram endossadas no concilio de Cartago III (397). 


Apocalipse nas Igrejas Ortodoxas Orientais

Quando falamos em Igrejas ortodoxas, precisamos fazer uma distinção entre elas. As chamadas "orientais", são aquelas que não aceitaram as resoluções do concilio da Calcedônia (451), que discutiu as naturezas, humana e divina de Cristo. Os ortodoxos orientais adotaram a crença de que as naturezas de Cristo estavam unidas em uma só (miafisístas). Outras igrejas, chamadas de ortodoxas, seguiram as declarações do concilio, por causa disso essas são também conhecidas como ortodoxas calcedônianas ou ortodoxas bizantinas.  Entre as igrejas ortodoxas orientais (não calcedônianas) estão: Igreja ortodoxa síria; igreja ortodoxa etíope, igreja ortodoxa copta. Entre as igrejas ortodoxas bizantinas (calcedônianas), estão Igreja ortodoxa russa, Igreja ortodoxa grega, Igreja ortodoxa romena. Essas ultimas são as que em 1054 estiveram envolvidas no grande cisma que dividiu o cristianismo. Além desses dois grandes grupos de igrejas ortodoxas, podemos mencionar uma terceira igreja que não se enquadra em nenhum dos dois. A Igreja Assíria do oriente, também chamada de Igreja ortodoxa assíria. Ela não está em comunhão nem com as igrejas ortodoxas orientais (não calcedônias), nem com com as ortodoxas bizântinas (calcedônias), pois ela já havia negado as resoluções do concilio anterior, o de Éfeso (451). 

No que diz respeito ao Apocalipse, as igrejas do ocidente (incluindo as igrejas ortodoxas calcedônianas) reconheceram o Apocalipse muito antes do oriente. No  oriente o conceito de cânon é diferente do ocidente. Nós definimos a questão de duas maneiras: Livros inspirados, aqueles que fazem parte da nossas bíblias; e livros não inspirados, aqueles que não fazem parte, e portanto, livros que não tem valor doutrinário. No oriente eles fazem uma divisão tripla: livros que devem ser lidos na Igreja, livros que podem ser lidos em casa, e livros que não devem ser lidos. O livro de Apocalipse pode ser incluído no segundo caso, um livro que pode ser lido em casa, porém ele não é lido na igreja. Existe exceções, por exemplo no mosteiro ortodoxo grego de São João na ilha de Patmos, onde o livro é lido publicamente e reconhecido com escritura sagrada. Em outras palavras as Igrejas orientais não consideravam Apocalipse herético, mas sim consideravam que ele tem o mesmo "peso" por exemplo, dos ensinos dos Pais da Igreja, especialmente os Pais Apostólicos. Uma das grandes controvérsias que levou o oriente a resistir ao livros das revelações, sem duvida foi o surgimento das heresias, uma delas que se destacou foi o montanismo (Séc.II), e sua crença milenaristas. Montanus, seu fundador, acreditava que ele era o Paracleto prometido por Jesus. Ele tinha duas profetisas (Prisca e Maximila), que ajudaram a propagar suas doutrinas. Montano acreditava em um milênio literal na terra baseado em Apocalipse 20. verdade seja dita, que o milenismo de Montano era diferente do pré-milenismo atual. Apesar de haver semelhanças, como por exemplo, a crença de Cristo reinando mil anos na terra, no entanto, no caso de Montano ele acreditava que esse reino seria somente com o crentes em uma terra paradisíaca e prospera. Não havia a ideia de um reino de mil anos para cumprir as promessas ao Israel étnico, como o pré-milenismo atual crê. 

O uso que os montanistas faziam do livro de Apocalipse para apoiar suas ideias, acabou criando uma tensão em relação ao livro que duraria séculos. Por volta do século VI as igrejas orientais começaram a aceitar o livro em virtude de vários comentários que começaram a circular. Um dos mais importantes foi o de André de Cesareia, seu comentário tornou-se uma referência nos séculos seguintes nas igrejas ortodoxas do oriente. Podemos então afirmar, que as duas questões já mencionadas aqui, levou as igrejas ortodoxas orientais a ter ressalvas com respeito ao livro de Apocalipse: 1- a questão da autoria; a possibilidade  do livro não ter sido escrito por João. 2- O uso que grupo sectários faziam do livro para apoiar determinadas doutrinas.  Nos dias de hoje, Apocalipse é um livro aceito pelas igrejas ortodoxas, porém com a ressalva que ele não faz parte dos lecionários de algumas delas, mas de outras sim, por exemplo do mosteiro em Patmos já mencionado, também na Igreja ortodoxa copta, onde o livro é lido inteiramente durante a "Grande Sexta Feira", durante uma vigília que começa a meia noite e vai até as primeiras horas da manhã do sábado (fonte 1). Na Igreja Ortodoxa indiana, ele é lido em algumas ocasiões como por exemplo no domingo após 30 de outubro, que marca o inicio do calendário litúrgico da igreja. Porém as leituras limitam-se aos capítulos 2 e 3 de Apocalipse (fonte 2).


Os antilegômenos de Lutero

Antilegômenos (escritos disputados), refere-se aos escritos que eram questionados como sendo ou não inspirados. Foi usado pelo historiador Euzébio de Cesareia para referir-se aqueles livros que não tinham um reconhecimento universal da igreja (homolegomenos), mas que também não eram totalmente considerados não canônicos, como por exemplo, Apocalipse de Pedro. Entre os antilegômenos estão a carta aos hebreus, epístola de Judas. Apesar do termo antilegômenos ser mais adequado em relação ao Novo Testamento,  o conceito pode ser aplicado aos livros do Velho Testamento também. Livros como o de Ester e Cantares de Salomão tiveram suas autenticidades e valor canônico questionados em um primeiro momento, mas posteriormente, aceitos e incluídos no cânon. Apocalipse pode ser enquadrado em uma categoria unica, pois como vimos, ele em um primeiro momento foi considerado canônico, mais tarde sofreu contestações e por fim foi reconhecido definitivamente como texto sagrado e inspirado. 

Lutero criou sua própria lista, chamada de cânon de Lutero.  Nela ele excluíu os livros deuterocanônicos, aqueles que estão nas bíblias católicas. Em relação aos livros do Novo Testamento, eles tinha reservas com pelo menos 4 deles: Tiago, Judas, Hebreus e Apocalipse. Apesar dele não ter excluído eles na sua tradução para o alemão, ele os colocou em uma especie de apêndice no final. As reservas de Lutero a esses livros devem-se muito ao fato de que eles já haviam sido motivo de discussão no passado. Com respeito a opinião de Lutero em relação ao Apocalipse, podemos resumir a opinião dele contida no prefácio da edição de 1522: ele pede que seus leitores tenham suas opiniões próprias em relação ao livro, porém, ele afirma que não considera o livro nem apostólico e nem profético. Uma das criticas que Lutero faz ao Apocalipse, foi a falta de clareza do livro, algo que segundo ele deveria caracterizar o ensino apostólico. Lutero também compara Apocalipse ao 2 livro de Esdras, um livro considerado apócrifo por católicos e protestantes, e que possui muito conteúdo apocalíptico semelhante ao livro do Novo Testamento. No fim do prefácio Lutero diz o seguinte: "Prefiro me apegar a livros que apresentam Cristo de forma clara e limpa". Apocalipse é considerado canônico nas igrejas luteranas, porém, com a ressalva que ele deve ser usados com cuidado (fonte 3).


Conclusão

A historia da formação do cânon das escrituras é um capitulo à parte na historia da igreja. Podemos ver isso apenas focando em um livro, no caso o livro de Apocalipse, porém, outros livros sofreram a mesma resistência e estiveram envolvidos em grandes discussões até serem reconhecidos como inspirados. Apocalipse é claramente um livro de difícil interpretação, dificuldade que levou muitos eruditos do passado a evita-lo ou até rejeita-lo. O próprio livro porém, nos aconselha a estuda-lo, (Ap. 1.3), por outro lado, o mesmo livro alerta para não acrescentar e nem tirar nada dele, (Ap. 22.18-19). Paz e graça a todos.





fonte 1Igreja Copta




           










































 







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