Amilenísmo (Pós-Amilenísmo) x Pré-Milenísmo: Sistemas Comparados
Um dos assuntos mais intrincados da Escatologia, sem sombra de duvida, é o capitulo que trata sobre o Milênio. As diversas interpretações de Apocalipse 20 dividiram os estudiosos em pré, pós e amilenistas. Esses termos definem como cada um lê o famoso capítulo do livro das revelações. Pré-milenistas acreditam que Apocalipse 20 fala literalmente de um período de 1000 anos na terra, que terá Cristo como seu governante supremo. Pós-milenistas e amilenistas fazem uma leitura menos literal do mesmo capitulo, acreditando que o Milênio refere-se não a um período no futuro, mas, sim, a uma era que já teria começado no inicio da historia cristã, e que se estenderá até a segunda vinda de Cristo. amilenistas e pós-milenistas, discordam muito pouco entre si e quando o fazem, as divergência limitam-se em detalhes de como este reino inaugurado por Cristo na sua primeira vinda vai terminar no futuro; se através da pregação do evangelho e a conversão do mundo todo, como creem os pós-milenistas, ou através de forma abrupta, por ocasião da segunda vinda de Jesus Cristo, como ensinam os amilenistas. Essa semelhança entre amilenísmo e pós-milenismo me fará trata-las aqui neste trabalho, como se fosse a mesma doutrina, deixando, portanto, o pré-milenismo como a teoria antagônica. Evidentemente, que Apocalipse 20 não será o único texto bíblico analisado por nós aqui, já que, especialmente os pré-milenistas, usam outros textos, para linkar com o de Apocalipse com intuito de respaldar suas conclusões. Esse comentário identifica-se com o amilenísmo, como a teoria mais coerente com o material revelacional contido no livro sagrado. Reconheço porém, que o amilenismo não é destituído de dificuldades interpretativas, e que precisam ser melhor trabalhadas por seu proponentes. Mesmo assim, acredito que ele consegue lidar melhor com o tema, especialmente o texto de Apocalipse 20, que é o único texto das escrituras que falam diretamente sobre o Milênio. Mãos a obra então, com a graça de Cristo.
Definindo Amilenismo
Alguns amilenistas não gostam da expressão amilenismo, pois, segundo eles, a expressão não faz jus ao conceito defendido pelos proponentes da doutrina. Não sabemos ao certo a origem do termo, porém, sabemos que o conceito é bem antigo. Particularmente não me ofendo com o termo, pois, de certa forma a negação que o termo expressa, mostra, que o amilenismo não acredita no Milênio nos termos que o pré-milenismo apresenta, ou seja, que haverá no futuro um período literal de 1000 anos. Portanto, o termo amilenismo não nega o conceito de Milênio, mas nega o conceito pré-milenista. Colocando isso de outro jeito, o amilenismo acredita que Apocalipse 20 está falando de um acontecimento real, a diferença em relação ao pré-milenismo, está em: quando o Milênio acontece, e sobre a literalidade ou não do número 1000 e sobre outros detalhes, como a prisão de Satanás por exemplo. O pré-milenismo arvora a bandeira, que seu sistema possui uma abordagem mais literal e realista do capitulo 20 do livro das revelações. Sobre isso, vamos ver mais adiante, que a suposta literalidade do sistema pré-milenista é tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Podemos sintetizar a posição amilenista de três maneiras:
1- Amilenismo não nega a existência do Milênio, mas, nega o Milênio conforme os pré-milenistas entendem;
2- O Milênio, segundo o conceito amilenista, é o período que compreende toda a era cristã, há diferenças com respeito ao inicio do Milênio, alguns partem do ministério de Jesus, neste estudo, defendo que o Milênio começa na queda de Jerusalém no ano 70 d.c.
3- No esquema amilenista, os eventos finais resumem-se em: segunda vinda de Cristo - Juízo final - criação dos novos céus e nova terra.
Essas três características do amilenismo dão um bom panorama da posição, porém, para ampliar mais o ponto 3 acerca dos eventos finais, a posição amilenista entende que eventos como o arrebatamento e a ressurreição dos mortos, são eventos concomitantes à segunda vinda, e não eventos separados como crê o pré-milenismo (dispensacionalista). Trocando em miúdos, por ocasião da segunda vinda de Cristo ocorrem os seguintes eventos: ressurreição dos mortos e arrebatamento dos santos; sobre a ressurreição dos mortos o amilenismo acredita que todos os mortos ressuscitam, inclusive os impios, no momento da segunda vinda, então, os mortos em Cristo e os vivos crentes são arrebatados para encontrar os Senhor nos ares; crentes e Cristo então, voltam à terra para que ocorra o juízo final, e em seguida, o estabelecimento de novos céus e nova terra. Toda a base bíblica para esses eventos serão colocados mais à frente, por hora, estou apenas colocando os eventos na ordem em que o amilenismo entende eles. Sobre a grande tribulação, muitos amilenistas, por serem preteristas, acreditam que a grande tribulação falada por Jesus, no sermão profético de Mateus 24, 25, cumpriu-se na queda de Jerusalém no ano 70 d.c. Outros, ainda acreditam, em uma futura grande tribulação que antecederá o retorno de Cristo. Neste comentário, adoto uma posição chamada preterismo parcial, que acredita que a queda de Jerusalém explica muito do que Jesus falou no sermão profético e também acontecimentos relatados no livro de Apocalipse, porém, também compartilho a ideia de que a situação do mundo antes da volta de Cristo, também possa ser descrita em termos de uma grande tribulação. Sobre a questão de Israel, acredito que essa, seja a grande diferença que tenho como outros amilenistas, que por serem aliancistas, adotam a ideia da substituição, que é a afirmação de que a Igreja substitui Israel em tudo, ou seja, todas as promessas que eram para Israel, agora pertencem a Igreja. Não há duvidas de que Deus fez de ambos os povos um só, conforme Paulo escreve aos Efésios 2.14-15, porém, isso não invalida um futuro despertamento entre eles, mas esse é assunto para um outro momento.
Apocalipse 20 e o método preterista de interpretação
O ponto de partida, necessariamente precisa ser o texto de Apocalipse 20, pois, é o texto que fala explicitamente sobre o Milênio. Certamente se ele não existisse, não haveria tanta polêmica acerca do tema Milênio, nem mesmo os pré-milenistas, fariam a interpretação que fazem acerca das profecias do velho testamento, que supostamente tratam sobre um reino de Deus literal na terra, se o texto de Apocalipse 20 não existisse. Porém, a realidade é que existe o texto, e precisamos conviver com ele e entender que ele faz parte do texto sagrado, e portanto, foi algo que Deus deixou para nós. Antes de entrar propriamente na interpretação do capitulo 20, é preciso entender algumas questões sobre o livro de Apocalipse: A primeira delas é: qual a ferramenta interpretativa que usamos para interpreta-lo? Como assim, ferramenta interpretativa? Bom, quando você lê o livro você precisa estabelecer, de que forma você vai ler o livro, você pode fazer uma leitura futurista do livro, ou seja, fazendo essa leitura, você parte do pressuposto de que a maior parte do conteúdo do livro refere-se a eventos futuros, e quando falo futuro, seria um futuro distante, que ainda não aconteceu. Uma outra forma de ler Apocalipse, é entender que o livro tem um cumprimento que se realiza ao longo da historia, ou melhor, as profecias do livro se cumprem no decurso da historia, e terminam com a segunda vinda de Cristo. Uma terceira maneira, é entender que Apocalipse não possui necessariamente um cumprimento histórico, mas, sim, que ele descreve a luta do bem contra o mal através de varias figuras míticas. Uma quarta maneira, e é aquela que adoto aqui, é a interpretação preterista, nela, interpretamos o Apocalipse, vendo um cumprimento nos tempos em que João está escrevendo. Adoto, porém, uma posição mais moderada do preterismo, que enxerga que alguns fatos narrados no livro, terão um cumprimento futuro. Essa posição recebe o nome de preterismo parcial*, para diferenciar da posição mais radical, que entende que todo o livro de Apocalipse já se cumpriu. Agora quero dar os motivos, porque acredito que a posição preterista é a que mais faz justiça ao livro de Apocalipse:
1- O próprio livro fala de acontecimentos que brevemente devem acontecer, Ap. 1.1,3; 2.5,16; 3,11; 22.6. Há varias tentativas de responder à essa declaração, por partes daqueles que veem um cumprimento futuro do Apocalipse, porém, é muito difícil dizer que "brevemente", não signifique "logo". Os pre-milenistas que adotam o método futurista de interpretação, usam outros textos para explicar a ideia de "brevemente". Por exemplo, 2 Pe. 3.8, que fala que: "Mil anos é como um dia e um dia como mil anos". Segundo eles então, o "brevemente" de Apocalipse seria um breve no tempo de Deus, que pode demorar no nosso tempo. Ora, essa explicação é absolutamente insatisfatória, pois, é como se dissesse que Deus não conhece a passagem do tempo para nós, ou melhor, Deus diz "brevemente", mas devemos interpretar "demoradamente". Imaginem então se Jesus ao invés de ter dito "brevemente" em Apocalipse, tivesse dito: "As coisas que vão demorar a acontecer", então, alguém poderia dizer que "demorar", pode significar "logo", seguindo essa interpretação de 2 Pedro. Quando a passagem de 2 Pedro 3.8 diz que para Deus um dia é como mil, e mil como um dia, ele quer dizer que o tempo não afeta Deus, como afeta a nós. Outra passagem citada para tentar explicar o "brevemente", de Apocalipse é 1 João 2.18: " filhinhos, já é a ultima hora". Aplicando então em Apocalipse, os interpretes diriam que, já que estamos na ultima hora, é possível dizer em Apocalipse, "brevemente". João ao dizer que "já é a ultima hora" ele não está dizendo que a volta de Cristo se dará em breve, mas que entramos em uma era chamada de ultima hora. Isso corresponde ao que o profeta Joel disse e que Pedro repete no pentecostes, de que: "Nos últimos tempos derramarei do meu Espirito", (Joel 2.28; Atos 2.17). Os últimos tempos de Joel, correspondem a ultima hora de João, ou seja, correspondem a uma era, porém, é muito diferente de dizer "coisas que brevemente vão acontecer". Nesse caso, brevemente tem que significar logo, caso contrário, as palavras perdem o sentido natural que elas possuem. Dentro disso, ainda podemos dizer, que quando um evento anunciado em uma profecia, for ter um cumprimento distante, isso é dito por Deus através do profeta, veja Daniel 8.26; (também 10.14), onde esta escrito, que os eventos anunciados, seriam para dias muito distantes. Logo, podemos claramente ver que o "brevemente" de Apocalipse quer realmente dizer que seriam eventos que aconteceriam no tempo de João, ou muito perto dele. Obviamente. que o preterismo parcial não ignora o fato de que há acontecimentos no horizonte futuro de João, como por exemplo o juízo final e os novos céus e a nova terra. No caso do Milênio, o preterismo parcial acredita que o inicio dele se deu no tempo de João, porém, o fim dele, naturalmente se dará muito tempo depois, já que, mesmo entendendo o número simbólico, (10X10X10), acreditamos que ele no minimo indica que um longo tempo se passaria entre a primeira vinda e a segunda vinda de Cristo.
2- Outra razão para entendermos que o preterismo é a melhor maneira de interpretar o Apocalipse, é que as promessas e advertências que Cristo direcionou para as sete igrejas fazem mais sentido, se elas tiveram um cumprimento na época delas. Normalmente os pré-milenistas fazem uma interpretação preterista dos três primeiros capítulos de Apocalipse, porém, ao mesmo tempo eles interpretam algumas passagens das cartas de Apocalipse, como tendo um cumprimento futuro, para a Igreja da época do arrebatamento. Quem nunca leu ou ouviu um pré-milenista dispensacionalista usar a passagem de Apocalipse 3.10, para provar o arrebatamento antes da grande tribulação? Para ser justo, sei que não são todos os pré-milenistas que fazem essa abordagem, quem normalmente a faz, são os dispensacionalistas, chamados de pré-tribulacionistas, que são aqueles que acreditam que o arrebatamento é um evento separado da segunda vinda; que se dará sete anos antes daquela, e entre um e outro evento, acontecerá a grande tribulação. Pois bem, um dos textos que eles usam para provar essa teoria, é o versículo citado de Apocalipse 3.10 que diz: "Como guardaste a palavra da minha perseverança, eu também te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo". A exegese feita, exclui totalmente a igreja de Filadélfia da época de João, pois, segundo os proponentes da doutrina, " guardar da hora da tentação ", significa ser retirado da terra antes da tribulação. Mas perceba, que para fazer essa leitura, é preciso desconsiderar a Igreja para qual ela foi feita. Quando Jesus disse que livraria a igreja de Filadélfia da tribulação, será que os ouvintes da igreja da época entenderam que esse livramento seria em um futuro distante, ou eles entenderam que se tratava de um livramento para a época deles mesmo? Imaginem o pastor da igreja lendo a carta e dizendo para eles, que o livramento prometido seria para milhares de anos depois. É obvio que essa promessa de livramento foi para a Igreja de Filadélfia da época de João, obviamente que Deus promete livrar sua igreja das tribulações, nesse sentido, essa promessa vale para a igreja de todas as épocas, mas, mesmo assim não significa que a igreja precise ser retirada da terra, já que, a igreja original para qual a promessa foi feita, enfrentou a tribulação, sem precisar ser retirada da terra.
3- Uma terceira razão para usar o método preterista para interpretar o Apocalipse, é que ele não ignora importantes eventos da época em que foi escrito. A queda de Jerusalém no ano 70 d.C. foi um acontecimento marcante na vida dos cristãos que vivenciaram ele. Certamente, o texto de Apocalipse não deixaria de relatar esse importante evento. Outra situação histórica importante à época de Apocalipse, é a relação entre o Império romano e a igreja, especialmente, a relação conflituosa em virtude da recusa dos cristãos em aceitar as imposições do Império no tocante ao culto romano, que envolvia a adoração ao imperador e outras coisas abomináveis para os seguidores de Cristo. A resistência dos crentes, redundou em grandes perseguições por parte do Império, e o martírio em massa de cristãos, (Ap 2.10; 6.9; 20.4). O pré-milenismo futurista, ignora todos esses eventos e joga quase todos eles para milhares de anos depois, transformando o livro de Apocalipse, praticamente em uma obra irrelevante para os cristãos da época em que foi escrito.
* Particularmente adoto uma abordagem diferente de preterismo, que consiste na ideia de que os eventos cumpridos no primeiro século, tornaram-se um padrão para o restante da historia até a consumação da mesma, na segunda vinda de Cristo. Para exemplificar isso, podemos citar as bestas que aparecem no capitulo 13, e que na visão preterista, representam o imperador de Roma (besta que surge do mar), e o sacerdócio judaico na época de João (besta que surge da terra). Essas figuras são modelos de outras "bestas" que surgiram e surgirão ao longo da historia. Esse preterismo dei o nome de preterismo arquetípico. "O que aconteceu, de novo acontecerá; e que se fez, de novo será feito: debaixo do sol não há nenhuma novidade" (Ec.1.9 Vs.católica).
Desvendado Apocalipse 20
Vamos então para o texto que suscitou todas as teorias relacionadas ao Milênio. Os versículos que tratam sobre os mil anos, podem ser separados por assuntos da seguinte maneira:
1- A prisão de Satanás, versículos 1-3;
2- Os personagens nos tronos e as almas martirizadas, vers. 4;
3- A primeira ressurreição, versículos 5-6;
4- A soltura de Satanás para enganar as nações, versículos 7-9;
5- O fim do diabo e de todos os seus seguidores, vers.10.
1- A prisão de Satanás - O Milênio segundo Apocalipse 20, começa com a prisão do diabo. As divergências entre amilenistas e pré-milenistas começa aqui. Segundo o pré-milenismo, a prisão é literal, todas as cenas da sua prisão, (as correntes, o selo e o abismo), descrevem uma situação real. Para o amilenismo, a prisão é figurada, ela não significa um banimento do diabo do mundo, mas, sim, uma limitação de atividade. O pré-milenismo usa o argumento da literalidade, para chegar a conclusão de que o texto está descrevendo uma prisão real. O amilenismo por outro lado, afirma que a descrição não pode ser literal, caso contrário, teríamos que admitir algumas conclusões muito difíceis de responder. Por exemplo, se a cena da prisão de Satanás é literal, por que o texto descreve somente a prisão dele e não de todos os outros anjos maus? Na narrativa, os outros anjos são totalmente ignorados como se não existissem, para reforçar isso, quando o texto descreve a soltura do diabo mil anos depois, ele narra somente ele sendo solto, nada fala dos outros demônios. A conclusão logica disso, é que teríamos que admitir que durante o Milênio, somente Satanás estará preso, os outros anjos maus estarão soltos. Para responder a essa questão, restaria aos pré-milenistas dizer que não foi necessário mencionar os outros demônios, pois, a prisão deles estaria subentendida na de Satanás. Porém essa resposta seria um tiro no pé dos pre-milenistas, pois, eles teriam que admitir que o texto não está sendo interpretado literalmente, haja visto, que o texto fala de um Anjo prendendo um diabo.
Portanto, se os pré-milenistas realmente quiserem ser literais na sua interpretação, eles terão que concluir que o Milênio terá a presença dos outros demônios que não foram presos junto com o diabo. Por causa disso, é muito mais apropriado interpretar a passagem figuradamente, pois, a leitura literal acaba gerando problemas insuperáveis. Na leitura amilenista, o motivo do texto citar só Satanás sendo preso, indica que a prisão refere-se a uma limitação de atividade, e não a um isolamento absoluto. Durante o transcurso do Milênio, segundo o conceito amilenista, Satanás estará impedido de fazer algo específico, e não impedido de fazer tudo. A omissão do texto aos outros demônios é proposital, pois, para o objetivo do escritor, bastava citar o chefe dos anjos maus. Interessante que no capitulo 12 de Apocalipse, quando temos a menção da batalha entre o Arcanjo Miguel e o dragão (diabo), o texto cita, o diabo e seus anjos, (Ap. 12-7-9). Percebam que nesse capitulo, o autor menciona os outros anjos maus, porque ali faz parte do propósito do autor menciona-los. Já no capitulo 20, o autor simplesmente ignora os outros anjos caídos, tanto no momento da prisão, quanto no momento da soltura de Satanás. O motivo disso, segundo a leitura amilenista, é que o diabo, a partir de determinado momento, fica impedido de fazer alguma coisa. Normalmente muitos amilenistas acreditam que a prisão, representa o exorcismo cósmico que Jesus realizou por meio de sua morte na cruz. Muitos ainda acreditam que o capitulo 12 de Apocalipse narra a mesma historia do capitulo 20, apenas usando outras palavras.
Esse método de interpretação é conhecido como paralelismo progressivo, que consiste, que o livro de Apocalipse conta a mesma historia varias vezes, usando palavras e imagens diferentes e progredido um pouco mais a cada cena. Esse método foi consagrado no livro: "Mais que vencedores", do escritor, Willian Hendriksen. Neste comentário adoto uma posição que chamo de idealismo cronológico, que vê no livro um sequência baseada em assuntos e não em ordem em que os eventos vão acontecer. Bom, mas quanto a prisão de Satanás, qual o significado no mundo real desse evento? Toda a explicação anterior foi necessária para pontuar o fato de que acredito que a batalha entre Miguel e Satanás, narrada no capitulo 12, não se refere ao mesmo evento da prisão do diabo do capitulo 20. Sem sombra de duvidas Jesus impôs uma derrota acachapante no poder das trevas durante o seu ministério na sua primeira vinda, isso está claramente descrito nas escrituras nas seguintes passagens: Jo. 12.31; Cl. 2.15; Mc. 3.27; Hb. 2.14. Porém, acredito firmemente, que esse triunfo de Cristo sobre o diabo, está representado no capitulo 12 de Apocalipse, e não no capitulo 20. A propósito, toda a historia da redenção está maravilhosamente descrita na passagem de Apocalipse 12.
a- A mulher e o dragão, descreve a inimizade que haveria entre o povo da promessa (descendência da mulher), e os perdidos (descendência da serpente) descrita por Deus, após a queda do homem;
b- O filho da mulher é Cristo, que esmagaria a cabeça do dragão;
c- A batalha no céu entre o Arcanjo Miguel e o diabo, descreve poeticamente a batalha de Cristo contra as hostes malignas durante seu ministério terreno, Cristo triunfa na sua morte e ressurreição e precipita o dragão e seus demônios para a terra. O acusador perde sua força, pois, o sangue do cordeiro garante a justificação a seus seguidores vs 11. Tanto a vitória do Arcanjo Miguel no céu, quanto a vitória da mulher na terra contra o dragão, foi devido ao que o menino, (Cristo), que se assentou no trono realizou, Vers. 5;
d- O dragão derrotado, agora tenta se vingar da mulher; isso fala da perseguição que os primeiros cristãos sofreram pelo império romano.
Resumindo, o capitulo 12 narra a grande obra do messias, em seu ministério terreno. Já o capítulo 20, na nossa interpretação, avança um pouco no tempo e chega até o ano 70 d.c. data da destruição de Jerusalém. A pergunta seria então: o que afinal é a prisão de Satanás? O texto de Apocalipse 20, narra que o diabo foi preso para não mais enganar as nações. Penso que a resposta de "Não mais enganar as nações", está no próprio texto, quando da soltura do diabo. Veja o versículo 8: "E sairá a enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como areia do mar, afim de congrega-las para a batalha". Observe as palavras: Sairá a enganar as nações... afim de congrega-las para a batalha. Aqui está a resposta da prisão de Satanás, ele atualmente está impedido de congregar as nações para uma batalha final contra Deus e contra seu povo; mas no final da historia, Deus vai "solta-lo", ou seja, ele terá a liberdade de conduzir as nações numa ultima e definitiva rebelião contra Deus. Ele está impedido de fazer isso atualmente, por causa da presença dos eleitos entre as nações, mas após se completarem o número dos escolhidos, então, o resto da humanidade vai assumir sua filiação com Satanás, como a semente da serpente, conforme Deus disse em Gênesis após a queda de Adão, (Gn. 3.15). A queda de Jerusalém no ano 70 d.c. marca o inicio do Milênio, pois, a destruição do templo, lugar sagrado e centro da adoração da velha aliança, deu inicio de fato a era da Igreja. O cristianismo se emancipou definitivamente do judaísmo após a destruição do templo, pois, Atos dos Apóstolos mostra, que enquanto o templo existia, mesmo os cristãos ainda usavam o templo como lugar de reunião, (At. 2.46). Jesus também falou na conversa com a mulher samaritana, que chegaria a hora que não se adoraria a Deus mais no templo, pois, os verdadeiros adoradores adorariam em espirito e em verdade, (Jo. 4.23-24). Essas palavras de Cristo só se cumpriram plenamente, depois da destruição do templo, quando então, iniciou-se a era dos verdadeiros adoradores. O Milênio, portanto, começa oficialmente com a destruição do templo; a prisão de Satanás, e com a igreja assumindo o papel de povo de Deus.
2- Os personagens nos tronos e as almas martirizadas - Após a prisão de Satanás, somos introduzidos a cena seguinte na visão de João. Ele vê tronos com figuras sentadas neles, e também, almas que foram martirizadas por causa do evangelho. Não temos muitas informações desses dois grupos de personagens; sobre o primeiro grupo, João diz que eles estavam em tronos, e foi lhes dado o poder de julgar. Muito relacionam isso ao que Jesus prometeu aos 12, quando disse que eles se assentariam em tronos e julgariam as 12 tribos de Israel, (Mt. 19.28). Paulo diz algo semelhante, quando afirma que os crentes julgariam o mundo e os anjos, (1 Co. 6-2-3). A promessa de Cristo aos 12 naturalmente refere-se a um período que ainda não aconteceu, pois, ele fala que seria na: "Regeneração de todas as coisas", Na interpretação adotada aqui, o Milênio começou a quase dois mil anos atrás, portanto, o que Jesus fala, obrigatoriamente precisa ser diferente do que Apocalipse fala, caso contrario, o amilenismo teria que concordar com o pré-milenismo, de que Apocalipse 20 e Mateus 19.28, falam da mesma coisa. O motivo principal porque acredito que Apocalipse esteja falando de algo diferente do que Jesus anunciou, está no fato de que a visão que João está descrevendo, parece estar acontecendo no céu, isso porque, junto com os personagens nos tronos, temos as almas dos mártires. Esse fato por si, mostra que a cena se desenrola nos céus, pois, seria estranho as almas dos mártires estarem na terra. Os pré-milenistas respondem a isso, dizendo que as almas "viveram", ou seja, elas ressuscitaram, o que levaria a cena para a terra, porém, essa resposta cai no mesmo problema comentado anteriormente sobre a literalidade do texto exigido pelos pré-milenistas. O texto fala que elas, (as almas) "viveram", não diz onde esse viver aconteceu, porém, como vimos antes, se as almas estavam no céu, logicamente o viver delas se deu no céu, e não na terra. Esse fato faz com que o "viveram" de Apocalipse 20.4 se refira a outro evento, diferente da ressurreição do corpo. Sobre os personagens nos tronos, sua identidade é de difícil interpretação, porém, a presença delas no texto parece estar intimamente associado à das almas martirizadas, pois, imediatamente após dizer que foi lhe dado o poder de julgar, João introduz a cena das almas, portanto, parece que o julgar tenha a ver com o que aconteceu com as almas. Lembrando que no capitulo 6 de Apocalipse, as almas pedem que seja feita justiça pelo que aconteceu a elas, (Ap.6.9-10), parece que em Apocalipse 20, João vê o momento em que a causa delas vai ser julgada.
Assim sendo, os personagens nos tronos parecem ser aqueles á quem Deus designou para julgar a causa das almas que foram mortas por causa do evangelho. A pergunta permaneceria, quem seriam esses personagens nos tronos, que julgaram a causa das almas? Basicamente temos duas possibilidades de identificação desses personagens. Uma delas, é que seriam anjos que Deus conferiu o poder de julgar. Essa não é uma possibilidade que possamos descartar, já que o Novo testamento refere-se a uma hierarquia angelical, das quais, tronos estão entre elas, (Cl. 1.16). Se há tronos, logo, deve haver Anjos que estão em uma esfera de governo celestial de autoridade. Um questionamento que poderia de fazer acerca disso, é de que não seria algo comum anjos julgando pessoas, porém, o texto deixa claro que os personagens receberam o poder de julgar, ou seja, Deus conferiu a eles a capacidade de julgar as almas, (comp. Dn.7.26), sendo assim, nada impede de que o Eterno tenha designado poderes angélicos para cuidar da causa das almas que foram martirizadas. Um outro argumento que apoiaria a possibilidade de serem anjos, está no fato de que o texto de Apocalipse não usa a mesma linguagem que usou acerca das almas. Por exemplo, o texto diz que as almas "viveram", e reinaram com Cristo por mil anos, já, sobre os personagens nos tronos, a narrativa não fala nada, dando a entender que os mil anos de reinado com Cristo tem haver somente com almas, o que seria coerente, já que, sendo os personagens nos tronos anjos, não faria sentido em dizer que eles reinaram com Cristo, pois, essa promessa diz respeito à pessoas e não a anjos. Ou seja, as almas que foram mortas pelo amor ao evangelho, receberam o prêmio de reinar com Cristo; já os "tronos", são seres celestiais que Deus concedeu o poder de julgar a causa das almas vitoriosas. No próprio livro de Apocalipse temos no cap. 4, a visão que João viu de 24 anciões, (gr. presbuteros), sentados em 24 tronos. Acredito que eles são os mesmos personagens visto no cap. 20, ou seja, anjos de um alto grau de autoridade. Uma outra possibilidade de identificação dos seres nos tronos, seria a de que elas são pessoas, crentes que Deus concedeu o poder de julgar. Por tudo que escrevi anteriormente, acredito que essa possibilidade seja a menos plausível. Se fosse esse o caso, teríamos que admitir que essa pessoas nos tronos não participariam do Milênio, já que o texto claramente fala que isso é algo relacionado ás almas. Os seres nos tronos são praticamente coadjuvantes no relato; são as almas as protagonistas, e é para elas a promessa de reinar com Cristo por mil anos.
Desvendado Apocalipse 20
Vamos então para o texto que suscitou todas as teorias relacionadas ao Milênio. Os versículos que tratam sobre os mil anos, podem ser separados por assuntos da seguinte maneira:
1- A prisão de Satanás, versículos 1-3;
2- Os personagens nos tronos e as almas martirizadas, vers. 4;
3- A primeira ressurreição, versículos 5-6;
4- A soltura de Satanás para enganar as nações, versículos 7-9;
5- O fim do diabo e de todos os seus seguidores, vers.10.
1- A prisão de Satanás - O Milênio segundo Apocalipse 20, começa com a prisão do diabo. As divergências entre amilenistas e pré-milenistas começa aqui. Segundo o pré-milenismo, a prisão é literal, todas as cenas da sua prisão, (as correntes, o selo e o abismo), descrevem uma situação real. Para o amilenismo, a prisão é figurada, ela não significa um banimento do diabo do mundo, mas, sim, uma limitação de atividade. O pré-milenismo usa o argumento da literalidade, para chegar a conclusão de que o texto está descrevendo uma prisão real. O amilenismo por outro lado, afirma que a descrição não pode ser literal, caso contrário, teríamos que admitir algumas conclusões muito difíceis de responder. Por exemplo, se a cena da prisão de Satanás é literal, por que o texto descreve somente a prisão dele e não de todos os outros anjos maus? Na narrativa, os outros anjos são totalmente ignorados como se não existissem, para reforçar isso, quando o texto descreve a soltura do diabo mil anos depois, ele narra somente ele sendo solto, nada fala dos outros demônios. A conclusão logica disso, é que teríamos que admitir que durante o Milênio, somente Satanás estará preso, os outros anjos maus estarão soltos. Para responder a essa questão, restaria aos pré-milenistas dizer que não foi necessário mencionar os outros demônios, pois, a prisão deles estaria subentendida na de Satanás. Porém essa resposta seria um tiro no pé dos pre-milenistas, pois, eles teriam que admitir que o texto não está sendo interpretado literalmente, haja visto, que o texto fala de um Anjo prendendo um diabo.
Portanto, se os pré-milenistas realmente quiserem ser literais na sua interpretação, eles terão que concluir que o Milênio terá a presença dos outros demônios que não foram presos junto com o diabo. Por causa disso, é muito mais apropriado interpretar a passagem figuradamente, pois, a leitura literal acaba gerando problemas insuperáveis. Na leitura amilenista, o motivo do texto citar só Satanás sendo preso, indica que a prisão refere-se a uma limitação de atividade, e não a um isolamento absoluto. Durante o transcurso do Milênio, segundo o conceito amilenista, Satanás estará impedido de fazer algo específico, e não impedido de fazer tudo. A omissão do texto aos outros demônios é proposital, pois, para o objetivo do escritor, bastava citar o chefe dos anjos maus. Interessante que no capitulo 12 de Apocalipse, quando temos a menção da batalha entre o Arcanjo Miguel e o dragão (diabo), o texto cita, o diabo e seus anjos, (Ap. 12-7-9). Percebam que nesse capitulo, o autor menciona os outros anjos maus, porque ali faz parte do propósito do autor menciona-los. Já no capitulo 20, o autor simplesmente ignora os outros anjos caídos, tanto no momento da prisão, quanto no momento da soltura de Satanás. O motivo disso, segundo a leitura amilenista, é que o diabo, a partir de determinado momento, fica impedido de fazer alguma coisa. Normalmente muitos amilenistas acreditam que a prisão, representa o exorcismo cósmico que Jesus realizou por meio de sua morte na cruz. Muitos ainda acreditam que o capitulo 12 de Apocalipse narra a mesma historia do capitulo 20, apenas usando outras palavras.
Esse método de interpretação é conhecido como paralelismo progressivo, que consiste, que o livro de Apocalipse conta a mesma historia varias vezes, usando palavras e imagens diferentes e progredido um pouco mais a cada cena. Esse método foi consagrado no livro: "Mais que vencedores", do escritor, Willian Hendriksen. Neste comentário adoto uma posição que chamo de idealismo cronológico, que vê no livro um sequência baseada em assuntos e não em ordem em que os eventos vão acontecer. Bom, mas quanto a prisão de Satanás, qual o significado no mundo real desse evento? Toda a explicação anterior foi necessária para pontuar o fato de que acredito que a batalha entre Miguel e Satanás, narrada no capitulo 12, não se refere ao mesmo evento da prisão do diabo do capitulo 20. Sem sombra de duvidas Jesus impôs uma derrota acachapante no poder das trevas durante o seu ministério na sua primeira vinda, isso está claramente descrito nas escrituras nas seguintes passagens: Jo. 12.31; Cl. 2.15; Mc. 3.27; Hb. 2.14. Porém, acredito firmemente, que esse triunfo de Cristo sobre o diabo, está representado no capitulo 12 de Apocalipse, e não no capitulo 20. A propósito, toda a historia da redenção está maravilhosamente descrita na passagem de Apocalipse 12.
a- A mulher e o dragão, descreve a inimizade que haveria entre o povo da promessa (descendência da mulher), e os perdidos (descendência da serpente) descrita por Deus, após a queda do homem;
b- O filho da mulher é Cristo, que esmagaria a cabeça do dragão;
c- A batalha no céu entre o Arcanjo Miguel e o diabo, descreve poeticamente a batalha de Cristo contra as hostes malignas durante seu ministério terreno, Cristo triunfa na sua morte e ressurreição e precipita o dragão e seus demônios para a terra. O acusador perde sua força, pois, o sangue do cordeiro garante a justificação a seus seguidores vs 11. Tanto a vitória do Arcanjo Miguel no céu, quanto a vitória da mulher na terra contra o dragão, foi devido ao que o menino, (Cristo), que se assentou no trono realizou, Vers. 5;
d- O dragão derrotado, agora tenta se vingar da mulher; isso fala da perseguição que os primeiros cristãos sofreram pelo império romano.
Resumindo, o capitulo 12 narra a grande obra do messias, em seu ministério terreno. Já o capítulo 20, na nossa interpretação, avança um pouco no tempo e chega até o ano 70 d.c. data da destruição de Jerusalém. A pergunta seria então: o que afinal é a prisão de Satanás? O texto de Apocalipse 20, narra que o diabo foi preso para não mais enganar as nações. Penso que a resposta de "Não mais enganar as nações", está no próprio texto, quando da soltura do diabo. Veja o versículo 8: "E sairá a enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como areia do mar, afim de congrega-las para a batalha". Observe as palavras: Sairá a enganar as nações... afim de congrega-las para a batalha. Aqui está a resposta da prisão de Satanás, ele atualmente está impedido de congregar as nações para uma batalha final contra Deus e contra seu povo; mas no final da historia, Deus vai "solta-lo", ou seja, ele terá a liberdade de conduzir as nações numa ultima e definitiva rebelião contra Deus. Ele está impedido de fazer isso atualmente, por causa da presença dos eleitos entre as nações, mas após se completarem o número dos escolhidos, então, o resto da humanidade vai assumir sua filiação com Satanás, como a semente da serpente, conforme Deus disse em Gênesis após a queda de Adão, (Gn. 3.15). A queda de Jerusalém no ano 70 d.c. marca o inicio do Milênio, pois, a destruição do templo, lugar sagrado e centro da adoração da velha aliança, deu inicio de fato a era da Igreja. O cristianismo se emancipou definitivamente do judaísmo após a destruição do templo, pois, Atos dos Apóstolos mostra, que enquanto o templo existia, mesmo os cristãos ainda usavam o templo como lugar de reunião, (At. 2.46). Jesus também falou na conversa com a mulher samaritana, que chegaria a hora que não se adoraria a Deus mais no templo, pois, os verdadeiros adoradores adorariam em espirito e em verdade, (Jo. 4.23-24). Essas palavras de Cristo só se cumpriram plenamente, depois da destruição do templo, quando então, iniciou-se a era dos verdadeiros adoradores. O Milênio, portanto, começa oficialmente com a destruição do templo; a prisão de Satanás, e com a igreja assumindo o papel de povo de Deus.
2- Os personagens nos tronos e as almas martirizadas - Após a prisão de Satanás, somos introduzidos a cena seguinte na visão de João. Ele vê tronos com figuras sentadas neles, e também, almas que foram martirizadas por causa do evangelho. Não temos muitas informações desses dois grupos de personagens; sobre o primeiro grupo, João diz que eles estavam em tronos, e foi lhes dado o poder de julgar. Muito relacionam isso ao que Jesus prometeu aos 12, quando disse que eles se assentariam em tronos e julgariam as 12 tribos de Israel, (Mt. 19.28). Paulo diz algo semelhante, quando afirma que os crentes julgariam o mundo e os anjos, (1 Co. 6-2-3). A promessa de Cristo aos 12 naturalmente refere-se a um período que ainda não aconteceu, pois, ele fala que seria na: "Regeneração de todas as coisas", Na interpretação adotada aqui, o Milênio começou a quase dois mil anos atrás, portanto, o que Jesus fala, obrigatoriamente precisa ser diferente do que Apocalipse fala, caso contrario, o amilenismo teria que concordar com o pré-milenismo, de que Apocalipse 20 e Mateus 19.28, falam da mesma coisa. O motivo principal porque acredito que Apocalipse esteja falando de algo diferente do que Jesus anunciou, está no fato de que a visão que João está descrevendo, parece estar acontecendo no céu, isso porque, junto com os personagens nos tronos, temos as almas dos mártires. Esse fato por si, mostra que a cena se desenrola nos céus, pois, seria estranho as almas dos mártires estarem na terra. Os pré-milenistas respondem a isso, dizendo que as almas "viveram", ou seja, elas ressuscitaram, o que levaria a cena para a terra, porém, essa resposta cai no mesmo problema comentado anteriormente sobre a literalidade do texto exigido pelos pré-milenistas. O texto fala que elas, (as almas) "viveram", não diz onde esse viver aconteceu, porém, como vimos antes, se as almas estavam no céu, logicamente o viver delas se deu no céu, e não na terra. Esse fato faz com que o "viveram" de Apocalipse 20.4 se refira a outro evento, diferente da ressurreição do corpo. Sobre os personagens nos tronos, sua identidade é de difícil interpretação, porém, a presença delas no texto parece estar intimamente associado à das almas martirizadas, pois, imediatamente após dizer que foi lhe dado o poder de julgar, João introduz a cena das almas, portanto, parece que o julgar tenha a ver com o que aconteceu com as almas. Lembrando que no capitulo 6 de Apocalipse, as almas pedem que seja feita justiça pelo que aconteceu a elas, (Ap.6.9-10), parece que em Apocalipse 20, João vê o momento em que a causa delas vai ser julgada.
Assim sendo, os personagens nos tronos parecem ser aqueles á quem Deus designou para julgar a causa das almas que foram mortas por causa do evangelho. A pergunta permaneceria, quem seriam esses personagens nos tronos, que julgaram a causa das almas? Basicamente temos duas possibilidades de identificação desses personagens. Uma delas, é que seriam anjos que Deus conferiu o poder de julgar. Essa não é uma possibilidade que possamos descartar, já que o Novo testamento refere-se a uma hierarquia angelical, das quais, tronos estão entre elas, (Cl. 1.16). Se há tronos, logo, deve haver Anjos que estão em uma esfera de governo celestial de autoridade. Um questionamento que poderia de fazer acerca disso, é de que não seria algo comum anjos julgando pessoas, porém, o texto deixa claro que os personagens receberam o poder de julgar, ou seja, Deus conferiu a eles a capacidade de julgar as almas, (comp. Dn.7.26), sendo assim, nada impede de que o Eterno tenha designado poderes angélicos para cuidar da causa das almas que foram martirizadas. Um outro argumento que apoiaria a possibilidade de serem anjos, está no fato de que o texto de Apocalipse não usa a mesma linguagem que usou acerca das almas. Por exemplo, o texto diz que as almas "viveram", e reinaram com Cristo por mil anos, já, sobre os personagens nos tronos, a narrativa não fala nada, dando a entender que os mil anos de reinado com Cristo tem haver somente com almas, o que seria coerente, já que, sendo os personagens nos tronos anjos, não faria sentido em dizer que eles reinaram com Cristo, pois, essa promessa diz respeito à pessoas e não a anjos. Ou seja, as almas que foram mortas pelo amor ao evangelho, receberam o prêmio de reinar com Cristo; já os "tronos", são seres celestiais que Deus concedeu o poder de julgar a causa das almas vitoriosas. No próprio livro de Apocalipse temos no cap. 4, a visão que João viu de 24 anciões, (gr. presbuteros), sentados em 24 tronos. Acredito que eles são os mesmos personagens visto no cap. 20, ou seja, anjos de um alto grau de autoridade. Uma outra possibilidade de identificação dos seres nos tronos, seria a de que elas são pessoas, crentes que Deus concedeu o poder de julgar. Por tudo que escrevi anteriormente, acredito que essa possibilidade seja a menos plausível. Se fosse esse o caso, teríamos que admitir que essa pessoas nos tronos não participariam do Milênio, já que o texto claramente fala que isso é algo relacionado ás almas. Os seres nos tronos são praticamente coadjuvantes no relato; são as almas as protagonistas, e é para elas a promessa de reinar com Cristo por mil anos.
Na interpretação que estamos adotando, afirmamos que o Milênio começou após a queda de Jerusalém, as almas portanto, que João vê no céu, são dos crentes que estavam morrendo por causa do evangelho. A pergunta que poderia se fazer é, se as almas que João vê, são só dos crentes que morreram na época do Apocalipse? Uma resposta afirmativa, a essa pergunta faria com que tivéssemos que admitir que o Milênio teria sido uma promessa somente para os crentes do primeiro século, e mais, seria apenas para os crentes que foram martirizados, já que a passagem menciona apenas almas dos que foram mortos. A verdade está, em que essa pergunta é um problema para os pré-milenistas dispensacionalistas, já que, são eles que cobram uma interpretação literal do texto. No caso dessa passagem sobre almas, a conclusão logica é de que o Milênio é um período de tempo apenas para os mártires, pois, como vimos, o texto só menciona eles reinando com Cristo. Para a nossa interpretação isso não é um problemas, pois, adotamos uma interpretação alegórica do texto. As almas vistas por João portanto, representam todos crentes que morrem e passam a estar com Cristo, e reinar com ele. O interessante, é que na época em que João estava escrevendo o livro, cristãos estavam sendo martirizados em massa, portanto, é compreensível que o grande volume de almas que estavam no céu na época, era justamente desses crentes mártires. Desse jeito, o livro pode ser entendido também, como uma mensagem de consolo aos crentes que estavam debaixo da perseguição.
3- A primeira ressurreição - Ainda na esteira do assunto anterior, a menção da primeira ressurreição está diretamente relacionado as almas vistas por João que estavam no céu. Ele afirma que as almas dos mártires reviveram e reinaram com Cristo, por mil anos; ele também diz, que os outros mortos não reviveram, e termina o vers. 5 dizendo que essa é a primeira ressurreição. Basicamente temos duas possibilidades sobre o que seria essa primeira ressurreição:
1- Ressurreição física, o corpo que se desfez na morte volta a vida e junta-se à alma.
2- Ressurreição espiritual, pode ser entendida como a conversão ou novo nascimento, Mas também pode ser entendida como a passagem da alma pela morte e sua ascensão ao céus para estar com Cristo.
Para definirmos quais das duas opções é a melhor escolha, precisamos coletar todas as informações que o texto nos fornece e ligarmos isso com outros textos bíblicos que falam da ressurreição. A primeira coisa que João viu, foi os tronos, já tratamos antes sobre a identidade desses personagens e acreditamos que trata-se de seres angelicais designados para tratar da causa das almas martirizadas. São elas, as almas, a próxima visão de João, e o texto parece concentrar toda a atenção nelas, deixando os seres nos tronos em um segundo plano. São elas que vivem os mil anos, não há menção de outras pessoas no texto, o que torna a interpretação pré-milenista problemática, já que eles afirmam que essas almas são as que vieram da grande tribulação, portanto, no momento da visão de João, os crentes que foram arrebatados vivos e os que ressuscitaram no dia do arrebatamento deveriam estar presentes na visão de João. Para tentar resolver isso, os pré-milenistas precisam provar que os seres nos tronos são os crentes levados no arrebatamento, porém, isso não resolve a questão, ou pior, cria um problema ainda maior, pois, o texto fala que são as almas que reinam com Cristo por mil anos, sendo assim, se os seres nos tronos são santos, eles estarão de fora do Milênio; somente as almas, que segundo os pré-milenistas vieram da grande tribulação, são aqueles que vão reinar com Cristo no Milênio. O que piora a situação pré-milenista, é o fato que eles acreditam que pessoas mortais vão estar no Milênio, sim, segundo eles, são as pessoas que vão se converter à fé durante a grande tribulação e que vão chegar vivas até o início do Milênio. A pergunta seria então: onde isso está no texto de Apocalipse? Os próprios pré-milenistas que pedem uma interpretação literal do texto tropeçam exatamente nisso, pois, o texto fala só das almas dos mártires e é somente a elas a promessa de reinar com Cristo por mil anos. Seria injustificável, se o texto de Apocalipse estivesse realmente falando de uma era literal na terra em que pessoas mortais viveriam com pessoas imortais e anjos e toda a corte celestial, não ter deixado isso claramente no texto.
Tudo isso afirmado anteriormente, valida a ideia de que essa passagem, bem como todo o livro de Apocalipse deve ser lido de maneira simbólica. Isso vale para a questão da primeira ressurreição, já que ela está inserida dentro deste arcabouço simbólico na qual o livro todo está posto. Se a primeira ressurreição não é a ressurreição do corpo, então o que seria ela? Obviamente se a ressurreição da qual João está falando não é física, só resta-nos a alternativa espiritual. Dentro do amilenismo geralmente a resposta seria de que ela é a conversão, ou seja, o viver e reinar com Cristo, seria uma forma alegórica de João descrever o processo de novo nascimento. Penso que a conversão é a causa da primeira ressurreição e não ela em si. Explicado melhor, as almas estão no céu por causa da conversão, mas a primeira ressurreição é algo posterior que acontece com elas. Eu ligo o texto de Apocalipse diretamente com o texto de Mateus 10.28. " Não temeis os que podem matar o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode matar o corpo e fazer perecer no inferno a alma e o corpo". Qual ligação pode ser feita entre os dois textos? Percebam que a visão de João descreve o que Jesus falou, pois, as almas de Apocalipse foram mortas violentamente, ou seja, elas não temeram os que matam o corpo; depois, João diz que elas "viveram e reinaram com Cristo"; consequentemente por não ter temido os homens, mas sim a Deus, e sendo fiel até a morte, elas viveram no sentido de agora estar no céu reinando com Cristo. Mais adiante o texto de Apocalipse diz que a segunda morte não tem poder sobre elas, isso refere-se ao que Jesus diz no texto de Mateus que Deus pode fazer perecer a alma e o corpo no inferno As almas dos fieis escapam do dano da segunda morte, que por sua vez, será o destino dos infiéis que não receberam o perdão de Deus em Cristo Jesus, Ap. 20-13-15. Assim sendo, a primeira ressurreição é chamada assim, porque ela acontece em uma esfera espiritual, enquanto que, a segunda ressurreição, que não está declarada no texto, acontece em um nível material, pois, será então a união do corpo com a alma. O texto de Apocalipse chama de: "Bem aventurado e santo os que fazem parte da primeira ressurreição, pois, eles não receberão o dano da segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo e, reinaram com ele mil anos". (Ap. 20.6). Ou seja, todas as almas que estão no céu com Cristo, já estão livres da condenação da segunda morte, pois, todas elas fazem parte da primeira ressurreição. Lembrando que essas almas que estão no céu agora e todas as outras que vão se juntar a elas ainda, também vão participar da segunda ressurreição, que será então, a ressurreição do corpo, que vai acontecer no final dos tempos quando Cristo voltar.
4- A soltura de Satanás para enganar as nações - Após os mil anos O diabo será libertado da sua prisão e sairá a enganar as nações. Comentamos na parte em que falamos sobre a prisão de Satanás, que durante o Milênio, ou seja a era que estamos vivendo, Satanás está impedido de enganar as nações e leva-las a uma última e derradeira tentativa de destruir a Igreja de Cristo. O texto fala que ele será solto por pouco tempo, (Ap. 20.3). O pouco tempo, deve ser entendido em relação aos mil anos que ele ficou preso, e, assim como interpretamos os mil anos como um tempo indefinido, logo o "pouco tempo" da sua soltura também será um tempo indefinido, apesar que, logicamente ser um tempo menor que os mil anos. Esse pouco tempo pode ser relacionado com o que normalmente se chama de grande tribulação, apesar de não ter nada a ver com o conceito pré-milenista, que acredita numa grande tribulação antes do Milênio, no entanto esse breve período em que Satanás estará solto, pode ser perfeitamente relacionado a um momento de grande tribulação no mundo. A narrativa de Apocalipse descreve Satanás saindo pelo mundo todo para enganar as nações, Ap 20.8. O texto descreve um sucesso na sua empreitada, pois, no versículo 9 é dito que subiram pela largura da terra e cercaram a cidade santa. Ou seja, Satanás consegue convencer o mundo para atacar os santos. Não temos mais detalhes de como ele vai conseguir isso, porém, podemos inferir algumas questões e relaciona-las dentro das visões escatológicas que estamos analisando. Por exemplo, dentro da visão pré-milenista a soltura do diabo se dará após o reino milenar literal de mil anos. Vamos considerar a posição pré-milenista acerca disso. Segundo os pré-milenistas, a terra estará desfrutando uma era paradisíaca aos moldes do jardim do Eden durante o período milenial, Cristo estará pessoalmente reinando em Jerusalém, juntamente com todos os santos que foram levados no arrebatamento. Agora vejam os problemas dessas afirmações. Depois de um período perfeito, onde por mil anos a terra viverá uma era sem igual de paz, de ausência de fome, doenças, sem violência, sem tráfico de drogas, sem terrorismo e sem nada das mazelas da era atual, então de repente, Satanás é solto e consegue convencer o mundo inteiro a desistir da paz e felicidades que estão desfrutando e formar um exército de suicidas para atacar o todo poderoso Cristo que estará reinando em Jerusalém. Um problema adicional a esses mencionados, é que parece que a Bíblia não vai existir durante o Milênio, pois, pense o seguinte, as pessoas que entrarem no Milênio, são as que viram Cristo voltar com todos os santos, e que viram Cristo destruir o Anticristo e que viram a transformação da terra em um paraíso, ou seja, viram o cumprimento detalhado de todas as profecias das escrituras, as mesmas escrituras que afirmam que no final do Milênio haverá uma rebelião e que, quem participar vai ser destruído e lançado no lago de fogo. Mesmo assim, inexplicavelmente, as pessoas sabendo do que vai acontecer vão se deixar enganar por Satanás e vão fazer exatamente como as escrituras diz que fariam.
Os pré-milenistas para tentar resolver esses problemas, afirmam que as pessoas que vão ser enganadas, são os filhos da primeira geração que entraram no Milênio, e que não vivenciaram as coisas que aconteceram antes. Essa saída não resolve os problemas, pois, mesmo as pessoas que nascerem durante o período estarão em um mundo onde Cristo estará presente, junto com todos os santos glorificados vivendo entre elas. Os próprios pré-milenistas usam textos que falam de uma grande e profunda espiritualidade durante o Milênio. Hc 2.14 é um desses textos, que diz que a terra se encherá de conhecimento do Senhor ou sobre o Senhor. Pois bem, de repente então, todo esse conhecimento é destruído por Satanás que consegue dentro de pouco tempo, conforme o texto diz, iludir o mundo todo em desistir de tudo e tentar atacar Cristo com paus e pedras, pois, supõe-se que durante a era de paz do Milênio não haverá armas de fogo, como misseis, metralhadoras, caças, e toda a parafernália militar que o mundo atual possui. Interessante dentro disso, que é possível imaginar uma tensão no ar durante o Milênio, pois, as pessoas vão olhar para o calendário e lembrar que no final do Milênio haverá a rebelião. Imaginem então quando chegar no ano 999 do Milênio, as pessoas vão lembrar que no ano seguinte a loucura vai tomar conta do mundo. Tudo isso vai acontecer debaixo do governo de Cristo e dos glorificados. Se continuássemos pensando a respeito, certamente outros problemas apareceriam, contudo esses já são suficientes para mostrar o problema de interpretar o texto de Apocalipse literalmente. Sendo assim, temos que tomar outra direção, e entender a soltura de Satanás da mesma maneira que entendemos sua prisão. falamos por ocasião da prisão do diabo, que ela refere-se a uma restrição imposta por Deus a ele. Essa restrição está relacionada com o que o texto fala quando da sua soltura, que afirma, que ele sairá a enganar as nações afim de congrega-las para a batalha. No final dos tempos, próximo a segunda vinda de Cristo, o diabo vai receber a permissão para enganar as nações pela última vez. O texto não dá maiores detalhes de como ele fará isso, apenas diz. que ele sairá pelos quatro cantos da terra. Certamente isso não será um tipo de boca-a-boca do diabo saindo pelo mundo todo batendo de porta em porta para convencer a humanidade a juntar-se a ele numa guerra contra Deus. Possivelmente João descreve figuradamente uma guerra espiritual, cujo alvo, o texto claramente fala que são o povo de Deus, Ap. 20.9. Essa investida final do mal contra Deus e seu povo, pode envolver filosofias anti-cristãs ou até mesmo, uma perseguição aos moldes da perseguição do Império romano contra o Cristianismo narrado ao longo do livro de Apocalipse. O mundo atual é um exemplo claro do que pode ser (ou se já não é) esse período que Apocalipse descreve como a soltura de Satanás, onde ele "cercará" o arraial dos santos, ou seja, ele vai tentar impor restrições contra os crentes de todos os jeitos possíveis. Bom, não temos definido muito bem como será essa investida final de Satanás, o certo é que será a ultima, pois, o texto encerra dizendo que choveu fogo do céu e consumiu a todos.
5- O fim do diabo e de todos os seus seguidores - Chegamos ao fim da presente era com a derrota final do diabo e de todos os seus seguidores. O fogo que desceu do céu e que consumiu todos aqueles que estavam com Satanás, (Ap 20.9), é uma maneira figurada para descrever a vitória de Cristo sobre o poder das trevas que oprimiam a igreja. Cronologicamente acreditamos que isso acontecerá na segunda vinda de Cristo em glória para estabelecer o juízo final e em seguida criar novos céus e nova terra. Interessante que Apocalipse parece estabelecer uma ordem em que os inimigos de Cristo serão derrotados, isso nos faz lembrar dois textos bíblicos, o Salmo 110 " Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te a minha destra , até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés". Salmo que depois Paulo lembra e acrescenta dizendo que: " O último inimigo a ser derrotado é a morte", (1 Co. 15.26). Apocalipse se aproveita dessa ideia e descreve a ordem em que os inimigos de Cristo caem um após outro. Compare:
1- Capítulo 12- Arcanjo Miguel derrota o diabo e seus anjos - Jesus triunfa na cruz impondo uma derrota mortal ao império das trevas.
2- Capítulo 17 - Vitória de Cristo sobre os dez reis que o texto fala que são os dez chifres da besta. Cap. 17. 12. Eles são uma especie de suporte ao governos da besta.
3- Capítulo 18 - Derrota da grande meretriz que o próprio livro diz que é a cidade que reina sobre os governos da terra Ap. 17.18. Uma referência a religião romana.
4- Capítulo 19 - Vitória sobre a besta e o falso profeta.
5- Capítulo 20 - Vitória final sobre Satanás. 20.10
6- Capítulo 20 - Vitória sobre o último inimigo, a morte 20.14.
Essa pode ser uma outra maneira de organizar o livro de Apocalipse, diferente da maneira cronológica e da maneira cíclica, da qual falamos antes e que foi consagrada pelo escrito Willian Hendriksen. Chamo esta maneira de idealismo cronológico, pois, acredito que o livro foi baseado numa sucessão de idéias e não de sequência temporal. Interpretando dessa maneira não é necessário estabelecer uma cronologia de tempo no livro, como fazem alguns interpretes que acreditam que o capitulo 20 é uma sequência temporal do 19 que por sua vez é do 18 e assim por diante. João montou uma ordem baseado na série em que Cristo vai triunfando sobre os inimigos, mas isso não significa necessariamente que esses acontecimento vão ser cronológicos ao longo da historia. Por exemplo a prisão de Satanás no capitulo 20 é colocado depois da derrota da besta no livro, porém, no mundo real, entendo que a prisão se dá paralelamente aos eventos do capítulo 19. Para ilustrar isso imagine que você tenha um sonho e depois você resolva escrever o seu sonho. Ao escreve-lo você seguirá uma ordem "cronológica" baseado na sequência que você viu durante o sonho. Agora imagine que os eventos do seu sonho se cumpram, mas, não na ordem que você viu. Se você escrevesse o livro após a ordem em que os eventos se cumpriram, o livro certamente teria uma sequência diferente. Assim vejo o livro de Apocalipse, João escreveu o livro na ordem em que ele viu as imagens e visões, porém, o cumprimento delas não precisa se dar necessariamente numa sequência cronológica. Essa maneira de organizar o livro não deve ser confundida com o método de interpretação que estamos usando aqui, que é o preterismo parcial, que vê o cumprimento do livro se dando especialmente no primeiro século, porém reconhecendo que há partes no livro que claramente reportam para o futuro, como por exemplo os capítulos 21 e 22 que tratam dos novos céus e nova terra. Isso de certa forma, responde uma questão levantada pelos pré-milenistas que usam o argumento da partícula "Kai", que em português equivale a nossa conjunção "E". Segundo os pré-milenistas, essa partícula é um marcador temporal e que quando ela aparece, isso indicaria uma sucessão de eventos no tempo. Um exemplo disso está em nosso texto de Apocalipse 20.1 "E vi descer..", isso, então, provaria que o capitulo 20 é uma continuação cronológica do 19. Porém, como vimos, a partícula pode tão somente indicar uma sequência na visão, mas não necessariamente temporal. Além disso, dentro do próprio livro de Apocalipse, temos o uso da partícula "Kai", claramente sem conotação temporal, Ap. 2.18; 3.1.
O capitulo 20 então termina com o juízo final, onde todos os seres humanos, que já viveram e que vão viver, terão que prestar contas. Temos então a segunda ressurreição, expressão omitida no livro, porém, subtendida devido ao uso da primeira ressurreição. Todos os mortos irão participar na segunda ressurreição, isso, está patente nas palavras de Cristo em João 5.28-29 "Não vos admireis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo". Não há intervalo entre a ressurreição dos justos e dos impios, ela acontecerá na mesma hora. Os dispensacionalistas conseguem dividir a ressurreição em varias partes para conseguir adaptar no seu sistema. Esse texto de João prova que a primeira ressurreição, que Apocalipse fala, não pode ser física, caso contrario, teríamos uma clara contradição nas escrituras, já que Jesus falou que a ressurreição de todos se dará na mesma hora. Em Apocalipse todavia, existe um intervalo de 1000 anos entre a primeira e a segunda ressurreição, veja: (Ap. 20.5 e 20.12-13). O único jeito de conciliar isso, é entendendo que a primeira e a segunda ressurreição são de naturezas diferentes, assim como são, a primeira e a segunda morte, (Ap.20.14).
Para encerrar, gostaria de fazer um resumo da posição amilenista defendida neste trabalho com respeito a ordem dos acontecimentos escatológicos:
1- Milênio - era da igreja que segundo nosso entendimento começa no 70 d.c. após a destruição de Jerusalém. Uma observação pertinente ao número mil, é que ele é usado nas escrituras como um padrão de quantidade de algo grande ou intenso: Salmo 84.10; 90.4; 91.7; 105.8; Eclesiastes 7.28. Na cultura em geral aparece também com esse padrão, veja o mito de Er descrito por Platão em que ele fala que as almas no submundo passaram por um sofrimento de 1000 anos. Em contrapartida, João afirma que as almas de Apocalipse tem um período de 1000 anos de alegria com Cristo.
2- Segunda vinda de Cristo - arrebatamento e ressurreição dos mortos.
3- Juízo final - Todos os seres humanos que já existiram terão que comparecer. Os eleitos serão confirmados como salvos diante de todos, (Lc.12.8), e os impios banidos para sempre da presença de Deus.
4- Criação de novos céus e nova terra.
A cronologia amilenista é extremamente simples se comparada à pré-milenista, especialmente a dispensacionalista, por isso ela não ser tão popular como essa, porém, acreditamos que ela faça muito mais justiça ao conteúdo revelacional. Todos os eventos são unificados no amilenismo, eventos como: a segunda vinda de Cristo, a ressurreição, o juízo final, são acontecimentos que ocorrem uma unica vez, e não dividindo em fases como fazem os dispensacionalistas. Apocalipse é interpretado à luz dos ensinos claros do Novo Testamento e não ao contrário. Por exemplo, citamos a questão da ressurreição, na qual Jesus falou que será um evento universal e único, em Apocalipse temos a questão da primeira ressurreição, que acontece mil anos antes da segunda. Qual texto devemos usar como base de interpretação? O de Jesus, que fala em um discurso direto e sem figuras, ou no de Apocalipse, cheio de símbolos e metáforas? A resposta é clara, o que Jesus falou deve interpretar o que Apocalipse falou, partindo dessa verdade, se Jesus disse que a ressurreição será um evento único, logo, o que Apocalipse disse, deve ser entendido de maneira não literal, pois, de outro jeito, os dois textos seriam irreconciliáveis. Outros assuntos relacionados a escatologia vão voltar a aparecer aqui, por hora, encerro este comentário rogando a graça iluminadora de Deus a todos que leram essas linhas, e invocando as palavras finais de Apocalipse "... Amem; vem, Senhor Jesus." (Ap. 22.20).
Nota: acredito que amilenismo e pós-milenismo deveriam ser visto como um mesmo sistema, e não como sistemas diferentes. A razão disso está no fato de que o termo pós-milenismo expressa a ideia de algo que amilenistas e pós-milenistas compartilham; que é a crença de que a segunda vinda de Cristo acontecerá depois do milênio. As diferenças entre os dois não são tão significativas a ponto de precisarmos vê-las como sistemas diferentes. O próprio pré-milenismo tem suas diferenças internas, como por exemplo, entre o pré-milenismo histórico e o dispensacionalista; diferenças muito maiores que existem entre o pós-milenismo e o amilenismo, mesmo assim ambos são chamados de pré-milenismo, apenas diferenciados com uso dos termos, histórico e dispensacionalista. Neste trabalho usei mais o termo amilenismo por questão de praticidade, porém, acredito que amilenistas possam ser chamados de pós-milenistas sem nenhum constrangimento.
Comentários
Postar um comentário