Morte, imortalidade da Alma e Ressurreição 4° Parte: Final

Analisamos ao longo do estudo, uma serie de textos que respaldam a doutrina imortalista, bem como, estabelecemos uma comparação com a proposta alternativa, que é a doutrina mortalista. Nessa quarta e última parte, quero continuar abordando o assunto, porém olhando mais a questão das consequências lógicas e teológicas, quando adotamos esta ou aquela doutrina. Acreditar que a morte significa uma aniquilação total do ser humano, com certeza traz desdobramentos teológicos e filosóficos que é preciso ser transposto por aqueles que a defendem. O arcabouço doutrinário da fé cristã, estabelece relações entre uma e outra doutrina que precisamos lidar de uma tal maneira que uma não negue a outra. A chamada, escatologia individual, que é uma das divisões da escatologia,  e aquela que trata sobre a questão da morte e da alma. O que dissermos acerca do destino da alma após a morte, acaba afetando outras doutrinas, ou seja, a imortalidade da alma não é uma ilha dentro da teologia cristã, ela tem importância na maneira como entendemos outros temas. Alguns deles vou trazer a discussão nesta quarta parte.


O Criacionismo e a Imortalidade da Alma  

Tudo que existe é obra de Deus, quer visível ou invisível, material ou imaterial; tudo Deus trouxe a existência, livre e soberanamente, inclusive as almas. Existe uma longa discussão acerca da origem das almas, se elas são criadas no momento da fecundação (criacionismo), ou se, elas são transmitidas pelos pais (traducionismo). O que temos de concreto, é que Gênesis afirma que Deus soprou no homem a alma. (Gn. 2.7). Assim sendo, a alma tem uma origem diferente do corpo, enquanto este foi feito de matéria preexistente, a alma por sua vez, foi dada diretamente por Deus. Como diz uma obra judaica: "Aquele que sopra, sopra do seu interior." (Zohar). Essa expressão traduz perfeitamente a ideia de Gênesis; a alma vem diretamente de Deus, não há processos  intermediários  na  sua  criação. É bem verdade que a expressão, soprou, aparece em outros momentos, como sinônimo da palavra criadora de Deus, como por exemplo no Salmo 33.6:" Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o seu exercito pelo sopro da sua boca."Alguém, poderia dizer que a expressão de Gênesis 2.7, não significa necessariamente uma criação especial da alma humana, já que o texto do Salmo citado, diz que tudo na verdade, foi criado pelo sopro divino. Porém, é preciso notar uma diferença fundamental entre os dois textos, No Salmo citado, a expressão: "Sopro," é um sinônimo da expressão da primeira parte do verso: "Palavra do Senhor," isso é o que se chama de paralelismo sinonímico da poesia hebraica. O que acontece em Gênesis 2.7 não é a mesma coisa, caso contrario, teríamos que chegar a conclusão que existe uma alma universal, que surgiu após o sopro criador de Deus. O sopro divino em Gênesis, é o trabalho cirúrgico de Deus dando vida a humanidade.

 No relato da criação, o sopro que Deus infundiu em Adão, distingue-se da palavra criadora usada ao longo dos seis dias, essa distinção chega ao clímax, quando o texto afirma que o homem passou a ser a imagem e semelhança de Deus. O sopro divino humanizou o boneco inerte e sem vida, Deus poderia ter usado sua palavra criadora para ordenar que o homem vivesse, como ele fez com o resto dos seres vivos, porém, o texto de forma intencional mostra Deus, primeiramente, modelando o corpo de Adão dos elementos preexistentes,  em seguida, narra o auge do processo com:  "soprou Deus." Quando o criador fala, as coisas passam a existir, mas, quando Deus sopra, o homem torna-se homem. A narrativa dessa origem singular da alma, mostra que ela possui uma natureza diferente do corpo. Por isso, a ideia da natureza imortal da alma, é perfeitamente compatível com sua origem. É muito estranho, portanto, falar que a alma morre da mesma maneira que o corpo morre. Jesus falou, e nos já comentamos aqui, que só Deus pode fazer a alma perecer, (Mt 10.28). Isso já mostra, que a natureza da alma é diferente da natureza do corpo, pois, ela é constituída de tal maneira, que somente o criador tem poder de dar um "fim" nela.  Outro fato que ajuda a confirmar a imortalidade da alma, reside em que, aquilo que veio de Deus não pode morrer, se a alma morresse como o corpo, como pregam os mortalistas, teríamos um dilema, pois, como poderia algo que vem diretamente de Deus morrer? O  livro de Eclesiastes afirma que algo em nós não desaparece na morte "E o pó volte à terra, como o era, e o espirito (sopro), volte a Deus, que o deu." (Ec. 12.7). Mesmo o mais convicto mortalista concorda, que esse texto de Eclesiastes, ensina que algo que Deus colocou em nós, sobrevive ao fenômeno da morte. Com certeza eles vão discordar na definição de "espirito" usado no verso, pois, para um mortalista, a palavra tem um sentido de princípio de vida e não uma referência à alma. Normalmente para justificar esse argumento, usa-se o texto do Capitulo 3.19 de Eclesiastes, onde fala que homens e animais não possuem diferença em sua parte imaterial, ambos partilham do mesmo espirito, porém, quando ele chega no versículo 20, o autor explica que homens e animais ao morrer voltam ambos ao pó, porém, com respeito ao espirito, ele não afirma a mesma coisa, apenas lança uma pegunta no verso 21: "Quem sabe que o folego do homem vai para cima, e o folego dos animais vai para baixo da terra?" Ele responde essa pergunta no capitulo 12.7, já mencionado anteriormente, "Que o espirito (do homem) volta para Deus."

Assim sendo, o sábio de Eclesiastes claramente expressa, que algo colocado por Deus no incio da formação do homem, retorna inexoravelmente para Deus. Posto isso, o paradoxo mortalista está estabelecido, pois, o texto de Eclesiastes mostra que o espirito volta para Deus, ora, mesmo que a definição deles de espirito não seja a mesma nossa, é inquestionável que esse algo, seja alma ou seja principio vital não morre, logo, existe um "imortalismo" embutido no conceito mortalista, a diferença ficaria então, que para eles, o princípio de vida que Deus colocou em nós é algo impessoal, porém, igualmente imortal. Se um mortalista chegar a essa mesma conclusão que mostramos acima, a discussão mudaria de lugar, pois, já não mais se discutiria a imortalidade da alma, mas sim, sua pessoalidade ou não. Uma questão que precisa ser entendida é que o sopro  que Deus infundiu em Adão, em Gênesis 2.7, e o sopro que retorna para Deus em Eclesiastes 12.7, pela lógica, não é mais o mesmo, sim, pois, entre um e outro, temos a questão do pecado (sobre isso discutiremos mais adiante), mas só para exemplificar, o pecado afetou todo o nosso ser, logo, mesmo que se entenda que o espirito que volta para Deus, é outra coisa diferente da alma, temos que considerar que ele também foi afetado pelo drama do pecado.  Essa conclusão afeta a maneira de como entendemos o "voltar para Deus" de Eclesiastes, e por consequência, a questão da pessoalidade ou não do espirito que retorna para Deus. Sobre essa questão, vou tratar mais pormenorizadamente no próximo tópico. Resumindo o que tratamos acima, podemos dizer que: A criação especial da alma, relatada em Gênesis, em termos do sopro divino, revela que por natureza a alma é imortal, pelo fato dela possuir uma natureza diferente da do corpo. O puro sopro divino que o primeiro homem recebeu, precisa, a partir da queda e da entrada do pecado, ser entendida, como algo que também foi afetado, e que portanto, o voltar para Deus, exige que a alma também seja alcançada pela redenção.


O Pecado e a Imortalidade da Alma

A solidariedade de toda a raça humana com o pecado de Adão é um fato incontestável nas escrituras, especialmente no Novo Testamento, (Rm. 5.12; 1 Co. 15.22). Essa verdade porém, precisa ser escrutinada à luz da questão da alma, seja ela mortal, ou imortal. Se toda a humanidade foi responsabilizada pela queda de Adão, é necessário encontrar um elemento comum entre todos e Adão. A primeira tentativa de responder isso, seria a de que, geneticamente estamos ligados ao primeiro homem, assim sendo, o pecado tornou-se parte da natureza de Adão, a ponto de ser transmitido a todos os outros membros da humanidade. Essa é a alternativa está longe de responder satisfatoriamente a questão da universalidade do pecado, pensar assim é tornar o pecado em algo puramente material, a ponto de que poderíamos concluir que se isso fosse verdade,  então, através da engenharia genética, conseguiríamos encontrar o "gene" do pecado, isola-lo, e desenvolver humanos sem pecado, ou seja, poderíamos fabricar santos em série. Essa ideia é completamente sem sentido à luz da escrituras, que apresenta o pecado, como algo que transcende aspectos materiais; (Hb 9.23; Cl 1.20), e que afetou toda a criação, (Rm 8.19-22).  A universalidade do pecado faz mais sentido, quando entendemos que o homem não é só um amontoado de átomos, mas, que ao contrário, ele é um ser dotado de espirito ou alma. Esse elemento imaterial na nossa constituição é que coloca toda a humanidade dentro de um mesmo "sistema," o pecado de Adão afetou todo o "sistema,"  da mesma maneira, que um elemento contaminante afeta toda a água de um reservatório.

  Nesse ponto, podemos retomar o texto de Eclesiastes 12.7, que afirma, que após a morte o espirito volta a Deus. Esse elemento que volta para Deus, que nós chamamos de espirito/alma, e que os mortalistas chamam de principio vital, necessariamente precisa ser entendido como algo que também foi afetado pelo pecado. Ora, algo que foi contaminado pelo pecado não pode voltar para Deus impunemente, nesse ponto é que entendo que o conceito da imortalidade da alma é mais coerente, pois, o voltar para Deus não pode ser entendido como algo que literalmente volta para dentro de Deus, caso contrario, teríamos que admitir que Deus também seria afetado na sua natureza santa pelo pecado. No conceito imortalista, as almas dos que foram remidos pelo sangue de Cristo, voltam para Deus e com ele ficam, porém, as almas que não foram alcançadas pela redenção, são separadas da sua presença, tal como descreve a parábola do rico e Lazaro. No conceito mortalista, porém, se o principio vital de todos voltam para Deus, como ficaria a questão do pecado? A morte de Jesus explicaria a purificação dos salvos, porém, e quanto aos impios? o que Deus faz com o sopro, (conceito mortalista), dos impenitentes que retornam para ele sem a purificação no sangue do cordeiro? Talvez um mortalista diga, que o voltar para  Deus de Eclesiastes seja metafórico, porém, isso levantaria outro problema, o de que, o texto coloca essa declaração junto com a questão do corpo, que segundo o escritor, volta para terra, coisa que sabemos ser  literal, então, por que o voltar para Deus também não seria? Assim sendo, quando analisamos esse texto de Eclesiastes, precisamos responder três questões: Primeira, qual o conceito de espirito que damos no texto? Segundo, o que é o voltar para Deus? E terceiro, se esse espirito, seja qual a definição que dermos, foi contaminado pelo pecado?  

A resposta do imortalismo a elas seria: Primeiro; espirito é a parte imaterial do ser humano, as vezes chamada de alma, que após a morte continua existindo como um ente consciente. Segundo; voltar para Deus é o retorno à origem daquele que é o criador da alma, porém esse retorno é condicionado ao que a alma fez através do corpo, (2 Co. 5.10 note a expressão: "através do corpo").  Terceiro; sim, o espirito foi afetado pelo pecado, e de igual modo precisa passar pelo processo de santificação, (1 Ts. 5.23). O espirito precisa ser salvo, (1 Co. 5.5). O estrago que o pecado causou em toda constituição humana foi devastador; aquilo que na teologia se chama de depravação total, (Total Depravity), naturalmente envolveu nossa parte imaterial, já que, o conceito da depravação total, é que todas as áreas da natureza humana foram afetadas pelo pecado, a ponto de que, somente um ato da graça de Deus pode reverter a situação e fazer o homem voltar-se para Deus. O puro sopro de Deus, dotou o homem com todo o pacote de atributos que fazem parte da constituição humana, tais como: razão, sentimentos, vontade, consciência e etc. O livro de Jó descreve isso com as seguintes palavras: " Há porém, um espirito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido." (Jó 32.8).  O entendimento humano, que segundo o texto de Jó, advêm da origem divina da alma, foi afetado de tal maneira  pelo pecado,  que  Paulo  vai dizer  que:    " ...O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos..."(2 Co.4.4).  O entendimento mencionado por Paulo, certamente, não envolve somente aspectos intelectivos, já que, nosso Senhor certa vez disse: "Deus ocultou dos sábios e entendidos e revelou aos pequeninos," (Mt 11.25). O entendimento, que é vedado a alguns, e dado a outros, refere-se a característica própria da nossa natureza espiritual que foi atingida pelo pecado, e que torna o homem inapto por si mesmo de conhecer as coisas divinas. Deus em Cristo, porém, torna possível que a alma amordaçada pelo pecado, saia do seu estado de cegueira espiritual e entre em um estado de iluminação, que vai redundar por fim, no novo nascimento. 

 A Cristologia e a Imortalidade da Alma 

A Cristologia, obviamente, não poderia faltar nesta relação que estamos estabelecendo entre a imortalidade da alma e outras doutrinas da fé cristã. Cristo foi um homem perfeito, em tudo foi semelhante a nos, com exceção do pecado, (Hb. 4.15). Mortalistas e imortalistas concordam que ele tinha uma alma humana, alma, que para o imortalista continuou existindo após sua morte, e para o mortalista, desapareceu, quando Cristo morreu. A humanidade de Jesus Cristo, constitui-se um caso especial a ser analisado, especialmente por conta daquilo que em teologia é chamado de: união hipostática.  Esse termo teológico trata da união das naturezas de Cristo, a humana e a divina. A dificuldade em lidar com esse assunto é tal, que ao longo da historia cristã, muitas heresias surgiram, muito por conta da complexidade para entender o tema, o que levou muitos teólogos a criarem sua própria interpretação do assunto. Se você pesquisar por heresias cristológicas, vai aparecer uma porção de resultados, alguns deles, ainda mais complexos, do que a versão ortodoxa do assunto. O fato é que a cristandade ortodoxa expressa  a Cristologia conforme o Credo da Calcedônia (451) professa: "Verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, contando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, conforme a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado...".   Esse trecho do credo, deixa bem claro o entendimento que o cristianismo tem acerca da humanidade de Cristo, de que ela é constituída por corpo e alma racional, tal qual a nossa. Obviamente que essa confissão de Fé, proposta no concilio de Calcedônia, não detalha a questão da "alma racional de Cristo," ou seja, não é detalhado se a alma de Cristo era imortal ou não, porém, é bom lembrar, que os clérigos que participaram do concilio, eram em sua esmagadora maioria,  composto por crentes que acreditavam na imortalidade da alma.( Na realidade desconheço se havia mortalistas presentes no concilio). Assim sendo, o conceito subjacente do concilio, era de que a da alma de Cristo era imortal, tal qual a nossa o é. Lembrando que esse concilio, é um dos chamados, concílios ecumênicos, aqueles que todas as tradições cristãs subscrevem como sendo regra de fé (com exceção das igrejas não caldedonianas, que é por exemplo o que crê a igreja ortodoxa copta). Essas informações preliminares, ajudam a pavimentar nossa analise sobre a relação da Cristologia e a imortalidade da alma. A humanidade de Jesus, portanto, era idêntica a nossa, inclusive no que diz respeito a parte imaterial, ele tinha uma alma humana e que conforme temos visto ao longo do nosso estudo, era imortal. É evidente que nesse ponto da conversa o mortalista não vai concordar, pois, para eles, a alma de Cristo era tão  mortal como a nossa, no entendimento deles. Pois bem, devemos portanto, comparar as duas propostas, e então, determinar qual delas é a mais adequada.

Quando Deus resolveu criar o ser humano, é certo que ele planejou o grande momento da encarnação, sim, pois sou da opinião que a Encarnação não foi resultado de um acidente, mas que foi algo, que fazia parte do  programa divino. Isso é algo profundo e misterioso, pois, se pensarmos no fato, de que Deus, antes de criar todas as coisas, existia em um estado perfeito e pleno, sem necessidade de criar nada e nem ninguém para melhorar ou aperfeiçoar uma existência já completa, caímos estupefatos em saber que mesmo assim, ele resolveu criar tudo o que criou, e levou adiante um plano que incluía a sua própria vinda ao mundo dos homens, se fazendo igual a eles. Isso é fantástico, pois a humanidade que o Deus filho assumiu, estará para sempre unido a sua divindade. Obviamente que isso não causou uma mudança no ser de Deus, pois, se fosse o caso, isso afetaria a imutabilidade Divina. Deus não mudou após a encarnação, (Tg. 1.17; Hb. 13.8), ele não melhorou e nem piorou, após o evento da encarnação, Deus sabiamente e poderosamente, uniu ao que já era perfeito á natureza humana, e para todo o sempre essa natureza estará inseparavelmente em Deus, através de Cristo. Voltemos porém, a questão da alma humana de Jesus. Estabelecida o fato, de que a alma de Cristo é absolutamente igual a nossa, segue-se portanto, por tudo que já falamos anteriormente, de que ela também é imortal, e que quando Cristo morreu na cruz, sua alma continuou a existir. Vou apresentar, duas razões, por que considero a doutrina da imortalidade da alma mais coerente em relação a cristologia.

1- O testemunho bíblico - Já analisamos anteriormente, textos que falam da alma sobrevivendo a morte física, entre os textos, temos a frase dita por Cristo ao ladrão da Cruz: "Hoje mesmo estarás comigo no paraíso..."(Lc 23.43). Essa frase é muito mais fácil de ser entendida, quando vista sob uma perspectiva imortalista, sem necessidade de mudar a virgula de lugar. Cristo está dizendo ao ladrão impenitente, que naquele dia mesmo, ele estaria junto com ele no paraíso, ou seja, a alma de Cristo e a daquele homem se encontrariam após a morte. Além desse texto, já analisado por nós em outro momento, temos a outra frase de Cristo na cruz, quando ele exclama ao Pai: "Pai! Em tuas mãos entrego o meu espirito" (Lc 23.46). Essa declaração de Cristo, é idêntica ao Salmo 31.5, o que faz com que a verdade de Cristo seja a mesma do salmista. O importante é que a exclamação do Senhor na cruz: "entrego nas tuas mãos," é mais uma frase que se conecta melhor com a ideia da sobrevivência da alma/espirito apos a morte do que uma aniquilação. Quando Cristo pede para que o Pai receba seu espirito, isso subtende uma possibilidade, pois, se o espirito de todos retornam a Deus naturalmente, como ensinam os mortalistas, não faria sentido Jesus pedir por algo que aconteceria independente dele pedir ou não. Quando Estevão foi apedrejado ele também disse algo semelhante, quando ele estava para morrer ele clamou: "... Senhor Jesus, recebe o meu espirito" (At. 7.59). O interessante que agora o anfitrião que recebe os espíritos dos justo é Cristo, se compararmos ao texto de Eclesiastes 12.7: " O espirito volte a Deus" temos uma clara referencia a divindade de Cristo, pois, o Deus para qual o espirito retorna, segundo Eclesiastes, em Atos recebe o nome de Jesus.

2- Deus não pode deixar de existir - Acreditar que a morte lança as pessoas em um estado de inexistência, torna a morte de Cristo extremamente complicada do ponto de vista teológico, sim pois, teríamos que concluir, que durantes os três dias que Jesus esteve na sepultura, ele entrou em um estado de quase inexistência; quase, pois ainda seu corpo inerte estava no sepulcro, mas sua alma teria morrido. Neste ponto precisamos recorrer novamente ao Credo da Calcedônia para trabalhar essa questão. Ele afirma o seguinte a respeito da natureza humana e divina de Cristo: " Ele deve ser reconhecido em duas naturezas, inconfusa, imutável, indivisível, inseparável; sendo que a distinção das naturezas de maneira nenhuma é eliminada pela união, mas, antes a propriedade de cada natureza é preservada, e ambas concorrem numa pessoa, e numa subsistência, não partida ou dividida em duas pessoas".  O credo afirma algumas coisas interessantes acerca das naturezas divina e humana de Cristo: ela é imutável, indivisível e inseparável. Dessa maneira, a fé ortodoxa expressa no credo, diz, que a natureza divina e a humana são inseparáveis e imutáveis; ora, como conciliar isso com a crença da mortalidade da alma? pois, se Cristo ao morrer entrou em um estado de inexistência, logo, isso afetou sua imutabilidade, pois ele teria deixado de existir por um momento. O detalhe importante é que o credo da Calcedônia baseia sua crença em textos como Hebreus 13.8, por exemplo, onde diz que: " Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e será eternamente".  Ora, se a morte leva suas vitimas a uma inexistência, certamente o que Hebreus afirma sobre Cristo, fica comprometido, pois, durante três dias, Cristo não foi mais o mesmo. Isso é uma conclusão lógica, pois, se a morte nos reduz a um estado de não-ser, isso é rigorosamente verdade em relação ao Logos eterno. Esse dilema não existe na doutrina da imortalidade da alma, pois a morte de Cristo não reduziu ele a um estado de inexistência, pois, a essência divina e humana unidas e inseparáveis como reza o credo, continuaram existindo após a morte, através da alma imortal, que Cristo recebeu na encarnação.

Considerações finais

O conceito cristão da imortalidade da alma está bem fundamentada, tanto nas escrituras, quanto na historia da igreja. Apresentamos muitos textos bíblicos que sustentam sua crença, alguns deles falando quase que escancaradamente de alma vivendo após a morte, como por exemplo,  a passagem de Samuel 28, de Lucas 16, do rico e Lázaro; Apocalipse 6. A acusação de que a doutrina imortalista não tem base bíblica, é absurda, e muitas vezes, tem origem em teologias que nasceram em épocas que foram de grande efervescência materialista e de negação do espiritual. Pense o seguinte, de todos os textos bíblicos citados aqui ao longo das quatro partes deste estudo, mesmo, que os imortalistas estejam certos em relação a apenas um deles, e enganados sobre todos os outros, isso já será suficiente para confirmar a doutrina. Agora, no caso dos mortalistas, eles precisam estar certos em relação a todos, pois, se eles estiverem enganados em apenas um, todo o edifício desmorona. Por exemplo: os mortalistas dizem que em 1 Samuel 28, foi um demônio que apareceu, em Lucas 16, na parábola, todo o relato do além é irreal; em Apocalipse 6 o texto é metafórico; em Lucas 23.43, a virgula está no lugar errado e assim fazem  em outros textos apresentados aqui. Os mortalistas precisam de 100% de acerto, se eles estiverem equivocados em apenas um desses textos, então isso seria fatal para sua teologia. Agora, a questão obvia, seria a de que é muito difícil estar certo em todos esses textos, especialmente alguns que são motivos de grandes impasses e debates. A uma grande chance de que apenas em um, os mortalistas estejam equivocados. Essa regra vale para nos imortalistas, porém, notem que é necessário que estejamos certos em apenas um, o que convenhamos, é muito mais fácil do que estar certo em todos. Portanto, estatisticamente, esse é mais um ponto para a doutrina da imortalidade da alma em relação a sua antagonista. Encerro aqui o estudo e brevemente voltarei com outro tema. Que a infinita graça de Deus expressa em Jesus Cristo e revelada pelo Santíssimo Espirito Santo estejam com todos os leitores deste blog.

Leia a primeira parte aqui: Primeira Parte
Leia a segunda parte aqui: Segunda Parte
Leia a terceira parte aqui: Terceira Parte
































































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