Morte, Imortalidade da Alma e Ressurreição 3° Parte
Nesta terceira parte, vamos continuar abordando textos bíblicos que tratam sobre os temas que estão no titulo, especialmente o da imortalidade da alma, em virtude deste ser um assunto mais polêmico em relação ao da morte e ressurreição. A bíblia contém outras passagens que tratam da questão da alma vivendo depois da morte física. Evidentemente, esses textos são motivos de discussão dentro da teologia cristã, especialmente, por parte daqueles que tem uma abordagem diferente em relação ao tema. O lado bom da divergência em temas como estes, é que opiniões contrarias, inevitavelmente nos fazem aprofundar e consolidar as doutrinas que cremos. Podemos afirmar que as divergências são um mal necessário, pois, haveria um grande risco de que a unanimidade pudesse fazer com que desenvolvêssemos uma teologia rasa e tediosa. Vamos então, continuar a mostrar dentro da perspectiva imortalista, textos que segundo nossa opinião, são fundamentais para estabelecer a crença na imortalidade da alma.
A Parábola do rico e Lazaro
A passagem de Lucas 16.19-31, não poderia faltar dentro do assunto em questão. A primeira controvérsia que surge em torno da passagem, é se ela é uma parábola ou uma historia real. Eu vou adotar neste comentário, a ideia de que a narrativa trata-se de uma parábola. Porém, é bom dizer, que para um imortalista, o fato de ser parábola, não traz um prejuízo muito grande para sua teologia, por outro lado, se o relato não for uma parábola, mas sim uma historia real, isso seria letal para a doutrina mortalista. Portanto, na perspectiva imortalista é possível lidar com qualquer das duas possibilidades.
Obviamente que se fosse provado que a narrativa é baseada em uma historia real. isso resolveria a questão de vez, e nem precisaríamos debater este assunto. Bom, vamos adotar a "pior" hipótese para o imortalismo, e lidar com o texto considerando ele como uma parábola. Algumas informações preliminares precisam ser estabelecidas para analise da passagem. A primeira delas: a narrativa está localizada em um contexto onde há diversas parábolas. Essa informação é importante, uma vez que, podemos comparar ela com as outras parábolas que a cercam. Uma segunda questão, é a do público que ouvia essas parábolas. Sabemos, que além dos discípulos, os fariseus também estavam presentes quando Jesus contou a parábola. Isso é relevante na interpretação, pois, podemos "linkar" o que Jesus ensina na parábola, com as crenças do publico presente. Uma terceira coisa que é preciso dizer, que apesar de tratar a passagem como parábola, acredito que ela é baseada em fatos reais, expressão que lembra a filmes, cujo roteiro é inspirado por acontecimentos verdadeiros, mas, que no cinema, recebe a dramatização característica dos filmes. Tendo essas informações de pano de fundo, vamos à analise da passagem. A parábola do rico e Lazaro é precedida por outras quatro parábolas, a saber pela ordem: Ovelha perdida, dracma, filho pródigo e mordomo infiel. Todas essas, são baseadas em coisas e situações absolutamente reais. Alias, todas as parábolas de Jesus tem essa característica; são baseadas em fatos reais. Isso já nos mostra um norte em relação à parábola que nos interessa, pois, se a história que Jesus contou sobre o mundo do além não for real, então temos uma quebra injustificável no padrão de Cristo. Pense o seguinte, a parábola começa contando a historia de dois homens; que estavam vivos e que tinham padrões de vida totalmente diferentes. Até aqui, todos vão concordar que a historia esta dentro da realidade conhecida. O problema se dá, quando a cena muda do mundo dos vivos para o dos mortos, pois, a partir de então, muitos vão dizer que a historia torna-se alegórica e portanto, não baseada na realidade. Um dos argumentos contra a realidade da narrativa, seria que o além é descrito com uma terminologia muito terrena, tal como: molhar a ponta do dedo para refrescar a língua; Lazaro estar reclinado no peito de Abraão; um conseguindo ver o outro dos lugares onde estavam e etc. Esse raciocínio se baseia na ideia que esses termos usados por Cristo, não fazem sentido quando usados para descrever almas sem corpo.
Bom, concordo que alma não deve ter língua, dedo e peito, e que possivelmente, do inferno não se consegue ver o céu, diante disso, temos duas alternativa: a primeira, é dizer que a descrição do além não é real e que essa parte da parábola é meramente acidental. A segunda, seria entender que Jesus realmente esta dizendo que existe vida após a morte do corpo, mas, que a descrição dessa vida é feita em termos terrenos. A primeira opção, que é a preferida dos mortalistas; mas reconhecendo que existem imortalistas que também pensam assim, é na minha modesta opinião, uma quebra muito grande no padrão de Jesus. Analisem, digamos que almas morrem junto com o corpo e que a inexistência seja a única realidade após a morte, séria pedagógico, contar uma parábola que mostra o oposto? Alguém pode responder que sim, pois o propósito da parábola, não é falar sobre a vida após a morte. Mas, se esse propósito não estava na mente de Cristo, então, por que não dar um outro rumo a história. Se, o que vem após a morte é a ressurreição e o juízo, então, isso poderia ter sido colocado no relato, sem precisar falar de algo que não acontece. Um outro problema com isso, é a questão dos ouvintes, seria muito confuso contar uma historia que menciona detalhes que não faziam parte das crenças deles. Uma detalhe interessante, é que Jesus menciona na parábola a punição e a recompensa do rico e do pobre logo após a morte, vers. 25, fato que dificulta o entendimento mortalista, já que na realidade, para esses, não existe punição nem recompensa após a morte, mas sim, após a ressurreição. Tentar contornar isso apelando para o gênero literário da narrativa, não é uma solução aceitável, pois, mesmo sendo parábola, não faz sentido usar uma linguagem que seria contraditória com a crença verdadeira. Notem um detalhe, segundo os mortalistas, Nem Jesus, nem os fariseus e tampouco os discípulos, acreditavam na imortalidade da alma, portanto, o conceito por traz da historia, era absolutamente estranho a todos os presentes, mesmo assim, Jesus prefere seguir por esse caminho. Certamente um fariseu espertinho, poderia cutucar um discípulo de Jesus e perguntar: " por que o mestre de vocês esta falando de vida após morte se nem nós, nem vocês e nem mesmo ele, acreditam nisso?"
Bom, se a parábola realmente está descrevendo a realidade da vida além túmulo, como explicar os detalhes tão corpóreos inseridos por Jesus nela? Para responder isso, gostaria de lembrar um texto proferido pelo apóstolo Paulo que pode ser aplicado a parábola de Jesus: "Mas, como está escrito: aquilo que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e nem subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam." (1 Co. 2.9). O principio que pode ser extraído desse texto, é que, o que está reservado para aqueles que vão herdar a vida eterna, está além dos sentidos humanos. Porém, a bíblia descreve esse mundo em termos conhecidos. Lemos no livro de Apocalipse a descrição de ruas de ouro, muros de jaspe, portas de pérolas, arvore que dá fruto para cura das nações e etc. Todas essas coisa já foram vistas pelo olho humano e também ouvidas, porém, o propósito é fazer o desconhecido tornar-se conhecido por meio de analogias. O próprio Jesus quando falava com Nicodemos disse: " Se vos falei das coisas terrestres e não crestes, como crereis se vos falar das celestiais?" (Jo 3.12). Aplicando isso a parábola em questão, a descrição do além, tanto do rico no hades, como de Lázaro no céu, é feita usando a fenomenologia conhecida. Um questionamento que pode surgir com essa interpretação seria a de que: isso não estaria alegorizando a passagem também, já que se os detalhes mencionados por Jesus, tais como, a língua do rico agonizando, o reclinar de Lázaro em Abraão, estariam sendo interpretados figuradamente? Com certeza, na interpretação que estou propondo, os detalhes recebem um tratamento não literal, porém, a realidade deles é mantida. Por exemplo, o rico pedindo para Lázaro molhar a ponta da sua língua, descreve uma agonia real que existe no inferno, desenhada porém, em termos terrenos. Isso pode ser feito com as outras imagens da passagem. Um texto interessante que ilustra isso é Isaías 65.17-25, onde o profeta descreve os novos céus e a nova terra em termos da terra atual. O texto fala em morrer com cem anos; fala em ter filhos e outras situações, que por outros textos, sabemos que não vão existir na nova criação. Isaías fez exatamente, o que segunda a nossa interpretação, Jesus fez na parábola do rico e Lázaro, ele usa a analogia do conhecido para interpretar o desconhecido.
A última questão que vou abordar, é a inserção de nomes no relato parabólico. Dois personagens são chamados pelos nomes na passagem, Abraão e Lázaro. O detalhe significativo é que são os dois personagens que estão no céu. O rico, que foi para o Hades, não tem nome, o tempo todo Jesus refere-se a ele apenas como, o rico. Nomes conferem identidade às pessoas, Jesus faz questão de mostrar que os personagens com nome, são os que são conhecidos por Deus, (1 Co.8.3), O rico não tem nome, porque ele é apenas mais um, de muitos, que estão perdidos para sempre na escuridão eterna.
A relevância dos nomes na parábola, está no fato que isso confere uma singularidade ao relato. Não há outro caso similar nas parábolas de Jesus, e nas outras parábolas das escrituras, uma caso que poderia ser comparado, é a parábola de Ezequiel 23.1-49, onde Samaria e Jerusalém, recebem respectivamente os nomes de Oolá e Oolibá; as duas irmãs meretrizes. Apesar de Ezequiel atribuir nomes na sua parábola, a diferença entre a de Jesus é grande, já que, no caso de Ezequiel temos uma clara alegorização; as duas mulheres representam duas cidades que recebem nomes, Oolá e Oolibá, cujo significado da primeira pode ser "o tabernáculo dela," e o segundo, "o meu tabernáculo está nela." Na parábola do rico e Lázaro, apesar de alguns autores alegorizarem os personagens, em nenhum momento Jesus refere-se a eles como alegorização de algo, como por exemplo ele faz na parábola do trigo e joio de Mateus 13.24-30, onde ele mais tarde, explica aos discípulos, os significados dos elementos da parábola, (Mt 13.36-42).
No caso da parábola de Lucas, além do nome de Lázaro, temos o nome de Abraão citado nela. Isso não é de somenos importância, já que Abraão foi uma figura histórica e real. Se realmente na morte, tudo morre, a parábola torna-se ainda mais estranha por causa de Abraão, pois, seria o mesmo que dizer: "Olha, Abraão morreu a milênios atrás, e o seu corpo se decompôs e neste momento não existe mais nada dele, mas estou contando uma parábola para ensinar vocês a não ter uma vida egoísta como a do rico, mas na parte da vida do além, pulem essa parte, pois ali nada é real nem mesmo Abraão." Parece mais lógico entender, que Abraão ainda existe, no momento que Jesus está contando a parábola, lembrando que em outro momento Jesus faz uma citação muito semelhante a que ele fez na parábola, referindo-se a Lázaro reclinado á mesa com Abraão: "Digo-vos que muitos virão do oriente e ocidente, e tomarão lugares à mesa com Abraão,Isaque e Jacó no reino dos céus." (Mt 8.11). Essa promessa de Mateus fala de eventos após a ressurreição, e nenhum cristão duvida da sua veracidade, agora, se usarmos a mesma regra que se usa no caso da parábola, teremos problemas com esse texto também, pois, se para nos soa estranho ver almas no além reclinadas uma nas outras, como descreve a parábola, então, também poderíamos questionar: qual o tamanho da mesa, para que tantas pessoas possam assentar nela com Abraão e como pode se dizer que alguém que estará tão afastado na mesa realmente está sentado com Abraão? Essa mesa terá que ser maior que a muralha da China e Abraão terá de ser onipresente para estar com todos. Voltamos novamente aquela questão dos pesos e medidas para interpretar um texto e outro, no caso da parábola do rico e Lázaro, como está se tratando de almas, é inadmissível para alguns, a ideia que Jesus apresenta da vida no além. Já no caso de Mateus, como se trata de pessoas ressuscitadas e com corpos, então todas concessões possíveis são feitas para interpretar o texto. O que quero dizer com isso, que é possível interpretar a parábola do rico e Lázaro, usando os mesmos critérios que alguém possa usar para interpretar a passagem de Mateus.
Podemos concluir portanto, que apesar de não se constituir no ensino principal da parábola, a imortalidade da alma está ali como um ensinamento importante, assim como outras doutrinas. Por exemplo a angelologia, pois, no relato, Lazaro foi levado ao seio de Abraão por eles. Tem a doutrina da ressurreição dos mortos, mencionada por Abraão quando o rico pede para enviar alguém falar com seus irmãos. Todas essa doutrinas estão lá junto com a da imortalidade da alma, curiosamente, todas essas doutrinas são as que justamente, os fariseus criam conforme, Atos 23.8.
Análise de outros textos
Além de todos os textos já abordados, existem ainda muitos outros que amparam a doutrina da imortalidade da alma. Vou fazer uma análise breve de cada um.
- Lucas 23.43. Os mortalistas afirmam que existe uma grande conspiração imortalista que mudou a virgula de lugar, pois o texto deveria ser: "em verdade em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso," ao invés de: "em verdade em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso." Bom, nesse debate sobre qual a posição correta da virgula, fico com a multidão de traduções pelo mundo inteiro, que traduzem o texto com a ideia de que o ladrão estaria naquele mesmo dia com Cristo no céu. Faça uma pesquisa em qualquer idioma, e descubra que praticamente todos, (não encontrei nenhuma tradução diferente, mesmo assim vou usar a palavra "praticamente"), vertem o verso com a ideia clássica de: "hoje estarás comigo." Os opositores usam o argumento de que Jesus disse a Maria Madalena que ainda não havia subido para o pai, e que o ladrão não morreu no mesmo dia que Cristo. Todas essas objeções, podem ser respondidas, por exemplo, sobre a declaração de Jesus a Maria; o não ter subido ao pai, pode ser entendido como um tipo especial de subida, como no caso da ascensão, quando ele então, ascendeu ao pai com seu corpo glorificado. Não há nenhum prejuízo em entender assim a frase de Jesus a Maria, pois, temos um caso semelhante, por exemplo, quando Jesus prometeu enviar o consolador, ele disse: "Todavia digo-vos a verdade, que convém que eu vá; porque, se eu não for, o consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei." (Jo 16.7). Agora, alguém pode afirmar que o Espirito Santo não estava na terra antes de Jesus envia-lo no pentecoste? Obviamente não, quando Jesus promete envia-lo, é no sentido especial, como Atos descreve. Portanto, quando Jesus diz a Maria, que ele não tinha subido para o Pai, não significa que ele não tinha já estado lá com o ladrão, mas que ele não tinha ascendido com corpo ressurreto. Quanto ao argumento de que o ladrão não morreu no mesmo dia da promessa de Jesus, "hoje mesmo," podemos afirmar que isso não passa de especulação, pois não há nenhuma informação nos evangelhos que ele tenha morrido dias depois de Cristo. A pernas dos dois homens foram quebradas justamente para acelerar suas mortes e para que os corpos não ficassem pendurados no sábado. (Jo.19.31). Jesus morreu às 3 hrs da tarde, ainda restava 3 hrs para terminar a sexta-feira e iniciar o sábado; o ladrão penitente certamente morreu dentro dessas 3 hrs e foi para o paraíso, onde Cristo, (não ressurreto), que havia morrido antes, o aguardava; para cumprir a promessa feita na cruz: "hoje estarás comigo no paraíso."
- 2 Coríntios 12.2-3. Esse também é um texto interessantíssimo que pode ser usado como prova da imortalidade da alma, ou no mínimo, como ela sendo algo distinto do corpo. Paulo refere-se a si mesmo na terceira pessoa, como alguém que foi ao paraíso e escutou coisas inenarráveis da parte de Deus. A parte interessante do seu relato, é que ele afirma que não sabe de que forma ele foi até o paraíso, se "no corpo" ou "fora do corpo," a expressão "no corpo," indica uma experiência similar a de Enoque, que foi levado vivo para céu, e a expressão, "fora do corpo," indicaria que o espirito ou alma de Paulo foi levado ao paraíso. Alguém pode questionar dizendo que "fora do corpo" seria uma experiência extática, e não uma saída da parte imaterial do corpo. Porém, parece lógico, que Paulo sabia que uma experiência extática ocorre "no corpo,"o próprio Apóstolo já tinha vivenciado uma visão. (At 16.9). Logo, quando ele afirma que seu arrebatamento pode ter ocorrido "fora do corpo," ele sabia que isso seria uma experiência diferente da de um mero arrebatamento de sentidos. Uma outra objeção que pode ser levantada, é de que Paulo estava vivo, e portanto, mesmo que seu espirito tivesse ido ao paraíso, isso ocorreu por causa que seu corpo estava vivo na terra. Ora, se a alma/espirito pode sair do corpo em vida, por que o mesmo não pode acontecer após a morte biológica? A questão importante no ocorrido, é que Paulo abre a possibilidade disso ocorrer, certamente se ele não acreditasse na alma como uma entidade distinta do corpo, ele teria escrito o texto de forma diferente. Os teólogos mortalistas citam 1 Co. 5.3 e Cl. 2.5, textos que usam uma linguagem similar à de 2 Co 12. 2-3. Paulo usa a expressão "ausente do corpo," em Co 5.3, muito parecida com a que ele vai usar em Cl 2.5. De fato o Apóstolo usa uma linguagem muito semelhante nos três textos, porém, uma olhada um pouco mais atenta, mostra que também há diferenças grandes. A primeira delas é o uso que ele faz da palavra arrebatado,(harpazo), a mesma palavra que ele usou em Ts 4.17; quando ensinou sobre o que vai acontecer com os crentes vivos no momento da segunda vinda de Cristo. Essa expressão já mostra a diferença entre os dois textos apresentado pelos mortalistas e o texto do arrebatamento de Paulo ao paraíso. Nas duas menções de Paulo, em 1 Co. 5.3 e Cl. 2.5, em nenhum momento Paulo descreve que foi arrebatado até Coríntios ou Colossos, ele fala que estava lá "espiritualmente" ou seja simbolicamente, a prova disso, é o uso da expressão em 1 Co 5.3 "como se estivesse presente" no caso de 2 Co. 12.2-3 ele fala que foi levado até o paraíso literalmente, apenas deixando em aberto de que maneira ele foi até lá, se "no corpo" ou "fora do corpo." Uma outra questão importante, é que além de Paulo ter ido de fato até o paraíso, ele também ouviu coisas lá, o que mostra que houve interação entre a psique arrebatada dele e DEUS, ou Anjos. Se alguém ainda insistir com a ideia de que Paulo teve um arrebatamento de sentidos e não que sua alma/espirito que foram até o céu, então a pergunta a ser feita seria: Se essa consciência ou sentidos, ou seja lá o nome que se possa dar ao que foi até o paraíso, é capaz de se deslocar além do espaço/tempo, e chegando lá é capaz de ouvir coisas, então, isso não seria exatamente o que nos chamamos de alma ou espírito? Percebam, mudar o nome para outra coisa, não altera o fato de que algo de Paulo foi "arrebatado," e foi até um lugar que ele chama de terceiro céu, e que lá ouviu coisas das quais ele não pode contar. Esse texto de Coríntios 12 parece "inofensivo" no que tange ao debate sobre a imortalidade da alma, porém, é possível ver nele a doutrina da dupla constituição humana bem desenvolvida.
- Filipenses 1.23. Novamente um texto Paulino aparece em nosso estudo. Em face de sua prisão, a carta endereçada aos filipenses, mostra uma expectativa por parte de Paulo, de que talvez sua jornada estivesse chegando ao fim. Frases como: "morrer é lucro," "Meu desejo é partir e estar com Cristo," revelam isso. Por hora, nos interessa analisar essa última: "Meu desejo é partir e estar com Cristo," pois, é ela que mostra uma clara ideia de que a morte do corpo, não interrompe a comunhão com Deus. A discussão em torno desse versículo gira no que significa: "partir para estar com Cristo." As três interpretações sobre esse texto são: Paulo estaria se referindo à ressurreição. Segundo os defensores dessa interpretação, quando morremos o instante entre a morte e a ressurreição é tão breve para quem "dormiu," que seria como um abrir e fechar de olhos o momento entre a morte e a ressurreição. Assim sendo, quando Paulo disse que queria partir para estar com Jesus, seria que ele acreditava que logo depois da morte, ele ressuscitaria, e portanto, estaria com Cristo. A segunda possibilidade de interpretação é a que defendemos em nosso estudo, a de que Paulo estava falando de estar com Cristo imediatamente apos a morte física, ou seja, o estar com Cristo seria com sua alma ou espirito. Existe uma terceira possibilidade de entender o "estar com Cristo," que seria uma interpretação hibrida entre a primeira e a segunda. Ela consiste na ideia da ausência do tempo, após a morte, porém, ela conserva a ideia da imortalidade da alma. Seria assim, após a morte do corpo, a alma partiria direto para o juízo final, sem passar pelo estado intermediário, ela então, se uniria ao corpo para receber o que lhe é devido no julgamento final. Vamos começar a analisar as possibilidades, a primeira, a de que Paulo estava falando da ressurreição, tem um problema sério em relação ao contexto imediato. Vejam o que ele diz nos versículos seguinte ao 23: " Todavia, por causa de vos, julgo mais necessário, permanecer na carne. E tendo essa confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vos para vosso progresso e gozo na fé." Esse dois versículos descartam a possibilidade de que o "estar com Cristo" do vers. 23 refira-se a ressurreição. Ora, se Paulo realmente estivesse falando da ressurreição, não faria sentido o que ele diz nos versículos 24 e 25, pois, ele sabia que os filipenses estariam com ele na ressurreição, então, ao dizer que por causa deles, ele gostaria de permanecer na carne, ele claramente fala de algo diferente, e que naquele momento, só ele experimentaria. Colocando de outro jeito, Paulo diz que gostaria de partir e estar com Cristo, isto é, morrer para que sua alma fosse encontrar o salvador, mas, por causa da igreja, ele achava melhor permanecer vivo. Na ressurreição todavia, sabemos que todos vão estar juntos, logo, não haveria a necessidade de Paulo dizer que gostaria de ficar vivo com os irmãos de Filipos, sabendo que na ressurreição eles também estariam com ele, bem como, com Cristo. Essa argumentação de certa forma, também descarta a terceira hipótese, pois se Paulo acredita-se na teoria da ausência do tempo após a morte, ele saberia que após sua morte, os filipenses também estariam chegando junto com ele para encontrar Cristo. Assim sendo, só nos resta entender que o "estar com Cristo," refere-se a um evento diferente, que cada pessoa experimenta ao morrer. O evento é a partida da nossa parte imaterial, a que chamamos de alma, para estar com Cristo antes da ressurreição do corpo.
Obviamente que se fosse provado que a narrativa é baseada em uma historia real. isso resolveria a questão de vez, e nem precisaríamos debater este assunto. Bom, vamos adotar a "pior" hipótese para o imortalismo, e lidar com o texto considerando ele como uma parábola. Algumas informações preliminares precisam ser estabelecidas para analise da passagem. A primeira delas: a narrativa está localizada em um contexto onde há diversas parábolas. Essa informação é importante, uma vez que, podemos comparar ela com as outras parábolas que a cercam. Uma segunda questão, é a do público que ouvia essas parábolas. Sabemos, que além dos discípulos, os fariseus também estavam presentes quando Jesus contou a parábola. Isso é relevante na interpretação, pois, podemos "linkar" o que Jesus ensina na parábola, com as crenças do publico presente. Uma terceira coisa que é preciso dizer, que apesar de tratar a passagem como parábola, acredito que ela é baseada em fatos reais, expressão que lembra a filmes, cujo roteiro é inspirado por acontecimentos verdadeiros, mas, que no cinema, recebe a dramatização característica dos filmes. Tendo essas informações de pano de fundo, vamos à analise da passagem. A parábola do rico e Lazaro é precedida por outras quatro parábolas, a saber pela ordem: Ovelha perdida, dracma, filho pródigo e mordomo infiel. Todas essas, são baseadas em coisas e situações absolutamente reais. Alias, todas as parábolas de Jesus tem essa característica; são baseadas em fatos reais. Isso já nos mostra um norte em relação à parábola que nos interessa, pois, se a história que Jesus contou sobre o mundo do além não for real, então temos uma quebra injustificável no padrão de Cristo. Pense o seguinte, a parábola começa contando a historia de dois homens; que estavam vivos e que tinham padrões de vida totalmente diferentes. Até aqui, todos vão concordar que a historia esta dentro da realidade conhecida. O problema se dá, quando a cena muda do mundo dos vivos para o dos mortos, pois, a partir de então, muitos vão dizer que a historia torna-se alegórica e portanto, não baseada na realidade. Um dos argumentos contra a realidade da narrativa, seria que o além é descrito com uma terminologia muito terrena, tal como: molhar a ponta do dedo para refrescar a língua; Lazaro estar reclinado no peito de Abraão; um conseguindo ver o outro dos lugares onde estavam e etc. Esse raciocínio se baseia na ideia que esses termos usados por Cristo, não fazem sentido quando usados para descrever almas sem corpo.
Bom, concordo que alma não deve ter língua, dedo e peito, e que possivelmente, do inferno não se consegue ver o céu, diante disso, temos duas alternativa: a primeira, é dizer que a descrição do além não é real e que essa parte da parábola é meramente acidental. A segunda, seria entender que Jesus realmente esta dizendo que existe vida após a morte do corpo, mas, que a descrição dessa vida é feita em termos terrenos. A primeira opção, que é a preferida dos mortalistas; mas reconhecendo que existem imortalistas que também pensam assim, é na minha modesta opinião, uma quebra muito grande no padrão de Jesus. Analisem, digamos que almas morrem junto com o corpo e que a inexistência seja a única realidade após a morte, séria pedagógico, contar uma parábola que mostra o oposto? Alguém pode responder que sim, pois o propósito da parábola, não é falar sobre a vida após a morte. Mas, se esse propósito não estava na mente de Cristo, então, por que não dar um outro rumo a história. Se, o que vem após a morte é a ressurreição e o juízo, então, isso poderia ter sido colocado no relato, sem precisar falar de algo que não acontece. Um outro problema com isso, é a questão dos ouvintes, seria muito confuso contar uma historia que menciona detalhes que não faziam parte das crenças deles. Uma detalhe interessante, é que Jesus menciona na parábola a punição e a recompensa do rico e do pobre logo após a morte, vers. 25, fato que dificulta o entendimento mortalista, já que na realidade, para esses, não existe punição nem recompensa após a morte, mas sim, após a ressurreição. Tentar contornar isso apelando para o gênero literário da narrativa, não é uma solução aceitável, pois, mesmo sendo parábola, não faz sentido usar uma linguagem que seria contraditória com a crença verdadeira. Notem um detalhe, segundo os mortalistas, Nem Jesus, nem os fariseus e tampouco os discípulos, acreditavam na imortalidade da alma, portanto, o conceito por traz da historia, era absolutamente estranho a todos os presentes, mesmo assim, Jesus prefere seguir por esse caminho. Certamente um fariseu espertinho, poderia cutucar um discípulo de Jesus e perguntar: " por que o mestre de vocês esta falando de vida após morte se nem nós, nem vocês e nem mesmo ele, acreditam nisso?"
Bom, se a parábola realmente está descrevendo a realidade da vida além túmulo, como explicar os detalhes tão corpóreos inseridos por Jesus nela? Para responder isso, gostaria de lembrar um texto proferido pelo apóstolo Paulo que pode ser aplicado a parábola de Jesus: "Mas, como está escrito: aquilo que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e nem subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam." (1 Co. 2.9). O principio que pode ser extraído desse texto, é que, o que está reservado para aqueles que vão herdar a vida eterna, está além dos sentidos humanos. Porém, a bíblia descreve esse mundo em termos conhecidos. Lemos no livro de Apocalipse a descrição de ruas de ouro, muros de jaspe, portas de pérolas, arvore que dá fruto para cura das nações e etc. Todas essas coisa já foram vistas pelo olho humano e também ouvidas, porém, o propósito é fazer o desconhecido tornar-se conhecido por meio de analogias. O próprio Jesus quando falava com Nicodemos disse: " Se vos falei das coisas terrestres e não crestes, como crereis se vos falar das celestiais?" (Jo 3.12). Aplicando isso a parábola em questão, a descrição do além, tanto do rico no hades, como de Lázaro no céu, é feita usando a fenomenologia conhecida. Um questionamento que pode surgir com essa interpretação seria a de que: isso não estaria alegorizando a passagem também, já que se os detalhes mencionados por Jesus, tais como, a língua do rico agonizando, o reclinar de Lázaro em Abraão, estariam sendo interpretados figuradamente? Com certeza, na interpretação que estou propondo, os detalhes recebem um tratamento não literal, porém, a realidade deles é mantida. Por exemplo, o rico pedindo para Lázaro molhar a ponta da sua língua, descreve uma agonia real que existe no inferno, desenhada porém, em termos terrenos. Isso pode ser feito com as outras imagens da passagem. Um texto interessante que ilustra isso é Isaías 65.17-25, onde o profeta descreve os novos céus e a nova terra em termos da terra atual. O texto fala em morrer com cem anos; fala em ter filhos e outras situações, que por outros textos, sabemos que não vão existir na nova criação. Isaías fez exatamente, o que segunda a nossa interpretação, Jesus fez na parábola do rico e Lázaro, ele usa a analogia do conhecido para interpretar o desconhecido.
A última questão que vou abordar, é a inserção de nomes no relato parabólico. Dois personagens são chamados pelos nomes na passagem, Abraão e Lázaro. O detalhe significativo é que são os dois personagens que estão no céu. O rico, que foi para o Hades, não tem nome, o tempo todo Jesus refere-se a ele apenas como, o rico. Nomes conferem identidade às pessoas, Jesus faz questão de mostrar que os personagens com nome, são os que são conhecidos por Deus, (1 Co.8.3), O rico não tem nome, porque ele é apenas mais um, de muitos, que estão perdidos para sempre na escuridão eterna.
A relevância dos nomes na parábola, está no fato que isso confere uma singularidade ao relato. Não há outro caso similar nas parábolas de Jesus, e nas outras parábolas das escrituras, uma caso que poderia ser comparado, é a parábola de Ezequiel 23.1-49, onde Samaria e Jerusalém, recebem respectivamente os nomes de Oolá e Oolibá; as duas irmãs meretrizes. Apesar de Ezequiel atribuir nomes na sua parábola, a diferença entre a de Jesus é grande, já que, no caso de Ezequiel temos uma clara alegorização; as duas mulheres representam duas cidades que recebem nomes, Oolá e Oolibá, cujo significado da primeira pode ser "o tabernáculo dela," e o segundo, "o meu tabernáculo está nela." Na parábola do rico e Lázaro, apesar de alguns autores alegorizarem os personagens, em nenhum momento Jesus refere-se a eles como alegorização de algo, como por exemplo ele faz na parábola do trigo e joio de Mateus 13.24-30, onde ele mais tarde, explica aos discípulos, os significados dos elementos da parábola, (Mt 13.36-42).
No caso da parábola de Lucas, além do nome de Lázaro, temos o nome de Abraão citado nela. Isso não é de somenos importância, já que Abraão foi uma figura histórica e real. Se realmente na morte, tudo morre, a parábola torna-se ainda mais estranha por causa de Abraão, pois, seria o mesmo que dizer: "Olha, Abraão morreu a milênios atrás, e o seu corpo se decompôs e neste momento não existe mais nada dele, mas estou contando uma parábola para ensinar vocês a não ter uma vida egoísta como a do rico, mas na parte da vida do além, pulem essa parte, pois ali nada é real nem mesmo Abraão." Parece mais lógico entender, que Abraão ainda existe, no momento que Jesus está contando a parábola, lembrando que em outro momento Jesus faz uma citação muito semelhante a que ele fez na parábola, referindo-se a Lázaro reclinado á mesa com Abraão: "Digo-vos que muitos virão do oriente e ocidente, e tomarão lugares à mesa com Abraão,Isaque e Jacó no reino dos céus." (Mt 8.11). Essa promessa de Mateus fala de eventos após a ressurreição, e nenhum cristão duvida da sua veracidade, agora, se usarmos a mesma regra que se usa no caso da parábola, teremos problemas com esse texto também, pois, se para nos soa estranho ver almas no além reclinadas uma nas outras, como descreve a parábola, então, também poderíamos questionar: qual o tamanho da mesa, para que tantas pessoas possam assentar nela com Abraão e como pode se dizer que alguém que estará tão afastado na mesa realmente está sentado com Abraão? Essa mesa terá que ser maior que a muralha da China e Abraão terá de ser onipresente para estar com todos. Voltamos novamente aquela questão dos pesos e medidas para interpretar um texto e outro, no caso da parábola do rico e Lázaro, como está se tratando de almas, é inadmissível para alguns, a ideia que Jesus apresenta da vida no além. Já no caso de Mateus, como se trata de pessoas ressuscitadas e com corpos, então todas concessões possíveis são feitas para interpretar o texto. O que quero dizer com isso, que é possível interpretar a parábola do rico e Lázaro, usando os mesmos critérios que alguém possa usar para interpretar a passagem de Mateus.
Podemos concluir portanto, que apesar de não se constituir no ensino principal da parábola, a imortalidade da alma está ali como um ensinamento importante, assim como outras doutrinas. Por exemplo a angelologia, pois, no relato, Lazaro foi levado ao seio de Abraão por eles. Tem a doutrina da ressurreição dos mortos, mencionada por Abraão quando o rico pede para enviar alguém falar com seus irmãos. Todas essa doutrinas estão lá junto com a da imortalidade da alma, curiosamente, todas essas doutrinas são as que justamente, os fariseus criam conforme, Atos 23.8.
Análise de outros textos
Além de todos os textos já abordados, existem ainda muitos outros que amparam a doutrina da imortalidade da alma. Vou fazer uma análise breve de cada um.
- Lucas 23.43. Os mortalistas afirmam que existe uma grande conspiração imortalista que mudou a virgula de lugar, pois o texto deveria ser: "em verdade em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso," ao invés de: "em verdade em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso." Bom, nesse debate sobre qual a posição correta da virgula, fico com a multidão de traduções pelo mundo inteiro, que traduzem o texto com a ideia de que o ladrão estaria naquele mesmo dia com Cristo no céu. Faça uma pesquisa em qualquer idioma, e descubra que praticamente todos, (não encontrei nenhuma tradução diferente, mesmo assim vou usar a palavra "praticamente"), vertem o verso com a ideia clássica de: "hoje estarás comigo." Os opositores usam o argumento de que Jesus disse a Maria Madalena que ainda não havia subido para o pai, e que o ladrão não morreu no mesmo dia que Cristo. Todas essas objeções, podem ser respondidas, por exemplo, sobre a declaração de Jesus a Maria; o não ter subido ao pai, pode ser entendido como um tipo especial de subida, como no caso da ascensão, quando ele então, ascendeu ao pai com seu corpo glorificado. Não há nenhum prejuízo em entender assim a frase de Jesus a Maria, pois, temos um caso semelhante, por exemplo, quando Jesus prometeu enviar o consolador, ele disse: "Todavia digo-vos a verdade, que convém que eu vá; porque, se eu não for, o consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei." (Jo 16.7). Agora, alguém pode afirmar que o Espirito Santo não estava na terra antes de Jesus envia-lo no pentecoste? Obviamente não, quando Jesus promete envia-lo, é no sentido especial, como Atos descreve. Portanto, quando Jesus diz a Maria, que ele não tinha subido para o Pai, não significa que ele não tinha já estado lá com o ladrão, mas que ele não tinha ascendido com corpo ressurreto. Quanto ao argumento de que o ladrão não morreu no mesmo dia da promessa de Jesus, "hoje mesmo," podemos afirmar que isso não passa de especulação, pois não há nenhuma informação nos evangelhos que ele tenha morrido dias depois de Cristo. A pernas dos dois homens foram quebradas justamente para acelerar suas mortes e para que os corpos não ficassem pendurados no sábado. (Jo.19.31). Jesus morreu às 3 hrs da tarde, ainda restava 3 hrs para terminar a sexta-feira e iniciar o sábado; o ladrão penitente certamente morreu dentro dessas 3 hrs e foi para o paraíso, onde Cristo, (não ressurreto), que havia morrido antes, o aguardava; para cumprir a promessa feita na cruz: "hoje estarás comigo no paraíso."
- 2 Coríntios 12.2-3. Esse também é um texto interessantíssimo que pode ser usado como prova da imortalidade da alma, ou no mínimo, como ela sendo algo distinto do corpo. Paulo refere-se a si mesmo na terceira pessoa, como alguém que foi ao paraíso e escutou coisas inenarráveis da parte de Deus. A parte interessante do seu relato, é que ele afirma que não sabe de que forma ele foi até o paraíso, se "no corpo" ou "fora do corpo," a expressão "no corpo," indica uma experiência similar a de Enoque, que foi levado vivo para céu, e a expressão, "fora do corpo," indicaria que o espirito ou alma de Paulo foi levado ao paraíso. Alguém pode questionar dizendo que "fora do corpo" seria uma experiência extática, e não uma saída da parte imaterial do corpo. Porém, parece lógico, que Paulo sabia que uma experiência extática ocorre "no corpo,"o próprio Apóstolo já tinha vivenciado uma visão. (At 16.9). Logo, quando ele afirma que seu arrebatamento pode ter ocorrido "fora do corpo," ele sabia que isso seria uma experiência diferente da de um mero arrebatamento de sentidos. Uma outra objeção que pode ser levantada, é de que Paulo estava vivo, e portanto, mesmo que seu espirito tivesse ido ao paraíso, isso ocorreu por causa que seu corpo estava vivo na terra. Ora, se a alma/espirito pode sair do corpo em vida, por que o mesmo não pode acontecer após a morte biológica? A questão importante no ocorrido, é que Paulo abre a possibilidade disso ocorrer, certamente se ele não acreditasse na alma como uma entidade distinta do corpo, ele teria escrito o texto de forma diferente. Os teólogos mortalistas citam 1 Co. 5.3 e Cl. 2.5, textos que usam uma linguagem similar à de 2 Co 12. 2-3. Paulo usa a expressão "ausente do corpo," em Co 5.3, muito parecida com a que ele vai usar em Cl 2.5. De fato o Apóstolo usa uma linguagem muito semelhante nos três textos, porém, uma olhada um pouco mais atenta, mostra que também há diferenças grandes. A primeira delas é o uso que ele faz da palavra arrebatado,(harpazo), a mesma palavra que ele usou em Ts 4.17; quando ensinou sobre o que vai acontecer com os crentes vivos no momento da segunda vinda de Cristo. Essa expressão já mostra a diferença entre os dois textos apresentado pelos mortalistas e o texto do arrebatamento de Paulo ao paraíso. Nas duas menções de Paulo, em 1 Co. 5.3 e Cl. 2.5, em nenhum momento Paulo descreve que foi arrebatado até Coríntios ou Colossos, ele fala que estava lá "espiritualmente" ou seja simbolicamente, a prova disso, é o uso da expressão em 1 Co 5.3 "como se estivesse presente" no caso de 2 Co. 12.2-3 ele fala que foi levado até o paraíso literalmente, apenas deixando em aberto de que maneira ele foi até lá, se "no corpo" ou "fora do corpo." Uma outra questão importante, é que além de Paulo ter ido de fato até o paraíso, ele também ouviu coisas lá, o que mostra que houve interação entre a psique arrebatada dele e DEUS, ou Anjos. Se alguém ainda insistir com a ideia de que Paulo teve um arrebatamento de sentidos e não que sua alma/espirito que foram até o céu, então a pergunta a ser feita seria: Se essa consciência ou sentidos, ou seja lá o nome que se possa dar ao que foi até o paraíso, é capaz de se deslocar além do espaço/tempo, e chegando lá é capaz de ouvir coisas, então, isso não seria exatamente o que nos chamamos de alma ou espírito? Percebam, mudar o nome para outra coisa, não altera o fato de que algo de Paulo foi "arrebatado," e foi até um lugar que ele chama de terceiro céu, e que lá ouviu coisas das quais ele não pode contar. Esse texto de Coríntios 12 parece "inofensivo" no que tange ao debate sobre a imortalidade da alma, porém, é possível ver nele a doutrina da dupla constituição humana bem desenvolvida.
- Filipenses 1.23. Novamente um texto Paulino aparece em nosso estudo. Em face de sua prisão, a carta endereçada aos filipenses, mostra uma expectativa por parte de Paulo, de que talvez sua jornada estivesse chegando ao fim. Frases como: "morrer é lucro," "Meu desejo é partir e estar com Cristo," revelam isso. Por hora, nos interessa analisar essa última: "Meu desejo é partir e estar com Cristo," pois, é ela que mostra uma clara ideia de que a morte do corpo, não interrompe a comunhão com Deus. A discussão em torno desse versículo gira no que significa: "partir para estar com Cristo." As três interpretações sobre esse texto são: Paulo estaria se referindo à ressurreição. Segundo os defensores dessa interpretação, quando morremos o instante entre a morte e a ressurreição é tão breve para quem "dormiu," que seria como um abrir e fechar de olhos o momento entre a morte e a ressurreição. Assim sendo, quando Paulo disse que queria partir para estar com Jesus, seria que ele acreditava que logo depois da morte, ele ressuscitaria, e portanto, estaria com Cristo. A segunda possibilidade de interpretação é a que defendemos em nosso estudo, a de que Paulo estava falando de estar com Cristo imediatamente apos a morte física, ou seja, o estar com Cristo seria com sua alma ou espirito. Existe uma terceira possibilidade de entender o "estar com Cristo," que seria uma interpretação hibrida entre a primeira e a segunda. Ela consiste na ideia da ausência do tempo, após a morte, porém, ela conserva a ideia da imortalidade da alma. Seria assim, após a morte do corpo, a alma partiria direto para o juízo final, sem passar pelo estado intermediário, ela então, se uniria ao corpo para receber o que lhe é devido no julgamento final. Vamos começar a analisar as possibilidades, a primeira, a de que Paulo estava falando da ressurreição, tem um problema sério em relação ao contexto imediato. Vejam o que ele diz nos versículos seguinte ao 23: " Todavia, por causa de vos, julgo mais necessário, permanecer na carne. E tendo essa confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vos para vosso progresso e gozo na fé." Esse dois versículos descartam a possibilidade de que o "estar com Cristo" do vers. 23 refira-se a ressurreição. Ora, se Paulo realmente estivesse falando da ressurreição, não faria sentido o que ele diz nos versículos 24 e 25, pois, ele sabia que os filipenses estariam com ele na ressurreição, então, ao dizer que por causa deles, ele gostaria de permanecer na carne, ele claramente fala de algo diferente, e que naquele momento, só ele experimentaria. Colocando de outro jeito, Paulo diz que gostaria de partir e estar com Cristo, isto é, morrer para que sua alma fosse encontrar o salvador, mas, por causa da igreja, ele achava melhor permanecer vivo. Na ressurreição todavia, sabemos que todos vão estar juntos, logo, não haveria a necessidade de Paulo dizer que gostaria de ficar vivo com os irmãos de Filipos, sabendo que na ressurreição eles também estariam com ele, bem como, com Cristo. Essa argumentação de certa forma, também descarta a terceira hipótese, pois se Paulo acredita-se na teoria da ausência do tempo após a morte, ele saberia que após sua morte, os filipenses também estariam chegando junto com ele para encontrar Cristo. Assim sendo, só nos resta entender que o "estar com Cristo," refere-se a um evento diferente, que cada pessoa experimenta ao morrer. O evento é a partida da nossa parte imaterial, a que chamamos de alma, para estar com Cristo antes da ressurreição do corpo.
- 2 Corintios 5. 1-10. Esse texto paulino é muito parecido como o de Filipenses 1.23, porém, mais elaborado devido a sua maior extensão. O texto deve ser entendido à luz do que Paulo falou antes: " Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova a cada dia" (2 Co. 4. 16). O homem exterior certamente refere-se ao corpo que se corrompe no sentido do mesmo envelhecer e por fim morrer. O homem interior, no entanto, é colocado em contraste ao homem exterior, ele não se degrada, ao contrário, ele se renova continuamente. Muitos comentaristas, acreditam que o termo, homem interior, refira-se ao coração, como sede das emoções do intelecto e vontade, todavia, mesmo que isso seja verdade, é inegável que o apóstolo está dizendo que esse homem interior não se deteriora como o exterior; o que mostra que uma "imortalidade" está em questão. Neste ponto, podemos entrar no capitulo 5, onde Paulo amplia o assunto. Na opinião deste comentário, é inegável que a ressurreição dos mortos, especificamente à dos crentes, está em destaque na passagem, porém, o texto da margem para a doutrina da imortalidade da alma. Primeiramente, retomando o que falei antes, se o homem interior se renova, ao contrário do exterior, que se corrompe, significa que esse homem interior não morre, pois, não faz sentido Paulo estabelecer um contraste entre dois elementos, um que que se corrompe; o corpo, e outro que se renova continuamente, mas, que acaba tendo o mesmo destino do corpo. Em segundo lugar, as expressões que Paulo usa, vestido (vs.3), revestido (vs.2,4), ausentes do corpo (vs.8), mostram que, mesmo que Paulo esteja expressando um anelo pela ressurreição do corpo, ao mesmo tempo, essas expressões mostram que existe uma transição entre o corpo atual (o homem exterior) e o corpo futuro, que receberemos por ocasião da segunda vinda de Cristo. O homem interior é o elemento que liga o corpo atual ao corpo da ressurreição, porém, é obvio que existe um estado intermediário, já que, a ressurreição acontecerá no fim dos tempos, mas antes dela, a morte física que todos experimentam, fará com que o homem interior experimente um estado de "nudez" temporária (Vs. 3), até que o mesmo seja revestido através do corpo que receberá na ressurreição. Paulo mostra que seu desejo é não ficar no estado de "nudez" (vs.2), o que mostra que o estado intermediário, mesmo que sendo real, não é nosso destino final. As almas de Apocalipse 6. 9-11, ilustram bem isso, pois elas estão "despidas" do corpo, porém, é dito a elas que aguardassem um tempo até que outras almas se juntassem a elas, o que mostra que o estado atual delas não é o definitivo.
- 1 Pedro 3.19-21; 1 Pedro 4.6. Considero esses dois textos de Pedro, como os mais difíceis dos que já analisamos aqui, dado sua complexidade, tanto exegética, quanto teológica e até mesmo histórico, haja visto, que a igreja tem interpretado esses textos das mais variadas formas ao longo da sua historia. Não é o objetivo deste comentário entrar nos meandros do texto, como por exemplo: a quem foi dirigida a pregação de Cristo no Hades? Ou se essa pregação redundou em salvação para as almas lá. O que nos interessa por agora, é se esses textos trazem alguma luz para a questão da imortalidade da alma. Obviamente por estar presente neste comentário a reposta é sim, esses textos são fortes argumentos em favor da imortalidade da alma. E para provar isso, vou colocar todas as possibilidades de interpretação que encontrei em pesquisas e os leitores vão perceber que, mesmo que essas interpretações difiram nos detalhes, a maioria é favorável a questão da imortalidade da alma. Vamos então à elas:
1- Cristo foi literalmente ao Hades pregar aos espíritos humanos aprisionados;
2- Cristo foi ao Hades pregar somente aos santos do A.T. que estavam em uma lugar separado dos ímpios, (Limbus Patrum);
3- Cristo não foi ao Hades, a pregação foi feita através de Noé aos seu contemporâneos, que no momento que Pedro escreveu, estavam aprisionados no Hades;
4- Cristo pregou aos Anjos caídos que estavam aprisionados;
5- Cristo não foi ao Hades, os espíritos aprisionados que Pedro refere-se, são pessoas presas pelo pecado, tanto nos dias de Noé, quanto nos dias de Pedro.
Notem, que das cinco posições, quatro favorecem a da imortalidade da alma e apenas uma ao mortalismo. Sim, mesmo a posição que defende que a ida de Cristo ao Hades foi para pregar aos Anjos caídos, favorece a doutrina da imortalidade da alma, pois, mesmo que os espíritos em prisão não se refiram a pessoas, no entanto, é preciso considerar que Cristo que foi o portador da mensagem foi lá antes de ressuscitar, ou seja, teria sido o espirito (humano) de Cristo que foi até o inferno. Assim sendo, 80% das interpretações são favoráveis ao da imortalidade da alma, e apenas 20% favorecem ao mortalismo. Dessa maneira, para o foco deste comentário, se conseguirmos provar que a única opção que favorece a doutrina mortalista estiver errada, então os textos de Pedro seriam mais uma prova em favor da imortalidade da alma. A única interpretação, das mais conhecidas, que favorecem a doutrina da morte da alma, é aquela que colocamos acima como a posição 5. Ela afirma que Cristo não foi ao Hades em momento algum, os espíritos em prisão, do Capitulo 3.19, e os mortos do capitulo 4.6, são alegorizados como significando presos e mortos no pecado, ou seja, são pessoas vivas que ouviram a pregação através de Noé ou pelos Apóstolos, no caso da passagem de 1 Pe 4.6. O que precisamos saber é se os espíritos em prisão podem ser interpretados figuradamente como fazem os defensores da posição. O mesmo vale para os mortos do capitulo 4.6. A primeira coisa que se percebe no texto de Pe 3.19-21, é que existe um lapso de tempo entre o versículo 19 e 20, sim, pois Pedro diz que Cristo: "foi e pregou aos espíritos em prisão," depois diz: " Os quais noutro tempo foram desobedientes." Percebam que entre ir pregar, e noutro tempo foram desobedientes, temos dois períodos diferentes. Segundo os mortalistas, Cristo foi pregar (através de Noé) aos espíritos presos (espiritualmente presos) no mesmo tempo, mas Pedro esta dizendo que as duas coisas são momentos diferentes. Se Noé pregou no tempo que os espíritos estavam presos, não faz sentido Pedro usar a expressão "noutro tempo," já que as duas coisas seriam simultâneas. O texto teria que ser escrito assim, caso a teoria mortalista estivesse correta: "Cristo pregou através de Noé aos espíritos presos no pecado por serem desobedientes," porém, para infelicidade dos mortalistas Pedro disse que: "foi e pregou (Noé nem é citado) aos espíritos em prisão que noutro tempo..." o momento da pregação é diferente do momento que eles foram desobedientes. No caso de 1 Pedro 4.6, quando diz que o evangelho foi pregado aos mortos, os mortalistas dizem que mortos esta sendo usado figuradamente, no sentido de mortos em delitos e pecados. Porém, um versículo antes Pedro diz que Jesus há de julgar os vivos e os mortos, por que Pedro no versículo seguinte usaria mortos no sentido espiritual abruptamente , e pior, sem deixar claro que no versículo 6, mortos teria um sentido diferente do versículo 5. Outro problema com a alegorização da palavra mortos em 1 Pe 4.6, é que se a palavra tem esse sentido, Pedro falou uma obviedade, pois, todos sabem que os mortos espiritualmente ouviram o evangelho. No caso do uso literal por parte de Pedro da palavra "mortos," daria ao texto a relevância que ele parece ter, pois, seria uma informação incrível, para os leitores, o fato do evangelho ter sido pregado aos mortos literalmente. Como diz o grande teólogo do seculo 19, Henry Alford: "Se as palavras usadas por Pedro não tem o sentido literal, então podemos dar o sentido que quisermos a qualquer outro texto das escrituras." Alford certamente tem razão e as expressões "espíritos em prisão" e "mortos," são usadas por Pedro no sentido natural que elas possuem.
- Apocalipse 6.9-12; 20.4. Os últimos textos que vamos analisar, são esse dois de Apocalipse. Se Deus permitir pretendo, em outro momento, tratar sobre Apocalipse 20, especialmente a questão do milênio. Por hora, vou lidar apenas com os dois textos citados. Apocalipse é conhecido por todos como um livro repleto de símbolos e alegorias. Sei que dizer isso, é como dar armas para o inimigo, pois é justamente a saída que os mortalistas usam para explicar as almas debaixo do altar de Apocalipse 6. Porém, O capítulo 6 não é o único que fala de almas em Apocalipse, temos também o texto do capítulo 20.4. É impossível negar que Apocalipse "surfa" na linguagem figurada, o grande uso, que por exemplo, o livro faz dos números comprova isso. A questão que se levanta é: qual a profundidade do simbolismo que podemos conferir ao texto? Por exemplo, com respeito as almas do capitulo 6.9, os mortalistas normalmente pegam os detalhes que circundam o texto e usam como prova de que elas (as almas), não são reais. O texto diz que elas estavam debaixo do altar clamando; segundo os mortalistas, seria uma imagem estranha, almas debaixo do altar apertadas, tal qual metrô de São Paulo na hora do pique. Outra observação mortalista, seria os fato delas receberem vestes brancas, almas não precisariam de vestes, argumentam eles. Essa forma de interpretar os textos de Apocalipse, é muito parecida com a que os interpretes do sono da alma fazem na passagem do rico e Lázaro, que analisamos anteriormente. Segundo a lógica mortalista, as almas debaixo do altar e as vestes brancas, eliminam qualquer possibilidade delas serem reais. Obviamente, que o pressuposto deles, que almas não sobrevivem à morte física, dirige a leitura por esse caminho. Se alguém retrucar dizendo, que nós imortalistas também interpretamos à luz do pressuposto da imortalidade da alma, a resposta seria, que nos estamos apenas lendo o texto naturalmente, pois, é ele que diz que João viu almas de pessoas que haviam morrido, logo, quem reinterpreta o sentido natural, são os que dizem que as almas em Apocalipse não são reais. Com certeza, a visão de João quer comunicar algo com as imagens das almas debaixo do altar e recebendo vestes brancas. Se olharmos por exemplo, para o capitulo 5, onde João vê Cristo como um cordeiro, que tinha sete chifres e sete olhos, (Ap. 5.6), certamente essa imagem, não anula a realidade da pessoa de Jesus. João vê Cristo no seu aspecto sacrificial e redentivo; na sequência da cena, Cristo por causa desses aspectos, é o único que é digno de abrir o livro. As almas debaixo do altar revelam que elas não amaram a própria vida (Ap 12.11), e foram vitimas do ódio que sofre todo o seguidor de Jesus. As longas vestes brancas, chancelam a pureza moral que elas tem diante de Deus. O detalhe interessante é que o texto usa a expressão "A alma dos que foram mortos" muito parecida com que João vai usar no capitulo 20.4: "A alma daqueles..." ou seja, a expressão revela algo que foi de alguém, e que naquele momento estava numa condição diferente da que possuía em vida. Essa passagem de Apocalipse confirma o que Jesus havia dito nos evangelhos "Não temam os que matam o corpo mas não podem matar a alma."( Mt 10.28). Aquelas almas resistirem até a morte, porém, seus algozes puderam apenas matar seus corpos, pois as almas continuavam existindo no céu. Na passagem de Apocalipse 20.4, novamente almas são introduzidas na cenas cósmica, desta vez, para participarem do reino milenial de Jesus Cristo. Mesmo que a palavra "viveram" signifique ressuscitaram, isso não muda o fato que João viu elas antes, ou seja, elas viveram para reinar, porém, antes disso, elas existiam como almas que haviam sido mortas, tal qual seus irmãos do capitulo 6. O detalhe que confirma isso, é o uso da palavra "Kai" que equivale a nossa conjunção "e" que aparece no texto do capitulo 20.4 " "E"(KAI) vi a alma daqueles que foram degolados... "e" (KAI) viveram..." Notem que a expressão: "e viveram" sinaliza o que acontece com as almas depois, mas antes elas são vistas por João, alguém pode argumentar que, se elas viveram depois, significa que elas estavam mortas antes, mas lembrem-se do que já falamos em estudos anteriores, que o conceito de morte que adotamos, é aquele que diz, que o estado desincorporado das almas é considerado "morte," pois, elas estão separadas do corpo, porém, elas não deixaram de existir. Nesse ponto, é que talvez resida a maior diferença entre o mortalismo e o imortalismo, pois, para o mortalista a morte significa desaparecimento total, enquanto que para o imortalista, a morte significa a separação da alma do corpo. As almas vista por João, tanto em Ap. 6 quanto em Ap. 20, estão em um "estado de morte," pois elas ainda estão numa condição temporária, que só será alterada quando houver a ressurreição, que é no nosso conceito, a reunião da alma e do corpo novamente. Esse estado de morte não é, conforme temos vistos ao longo do nosso estudo, um desaparecimento completo e absoluto de todo o ser humano, mas antes, um estado de separação.
Esses textos que abordei, são suficientes para respaldar a imortalidade da alma biblicamente, que é o fundamento principal, na última parte, vou fazer um apanhado de tudo que analisamos e verificar alguma implicações que a doutrina da imortalidade da alma tem em relação a outras doutrinas teológicas, como por exemplo, a doutrina do pecado, da salvação, da Cristologia e outras. Por hora. "A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espirito Santo sejam com todos vocês!" (2 Co 13.14).
- 1 Pedro 3.19-21; 1 Pedro 4.6. Considero esses dois textos de Pedro, como os mais difíceis dos que já analisamos aqui, dado sua complexidade, tanto exegética, quanto teológica e até mesmo histórico, haja visto, que a igreja tem interpretado esses textos das mais variadas formas ao longo da sua historia. Não é o objetivo deste comentário entrar nos meandros do texto, como por exemplo: a quem foi dirigida a pregação de Cristo no Hades? Ou se essa pregação redundou em salvação para as almas lá. O que nos interessa por agora, é se esses textos trazem alguma luz para a questão da imortalidade da alma. Obviamente por estar presente neste comentário a reposta é sim, esses textos são fortes argumentos em favor da imortalidade da alma. E para provar isso, vou colocar todas as possibilidades de interpretação que encontrei em pesquisas e os leitores vão perceber que, mesmo que essas interpretações difiram nos detalhes, a maioria é favorável a questão da imortalidade da alma. Vamos então à elas:
1- Cristo foi literalmente ao Hades pregar aos espíritos humanos aprisionados;
2- Cristo foi ao Hades pregar somente aos santos do A.T. que estavam em uma lugar separado dos ímpios, (Limbus Patrum);
3- Cristo não foi ao Hades, a pregação foi feita através de Noé aos seu contemporâneos, que no momento que Pedro escreveu, estavam aprisionados no Hades;
4- Cristo pregou aos Anjos caídos que estavam aprisionados;
5- Cristo não foi ao Hades, os espíritos aprisionados que Pedro refere-se, são pessoas presas pelo pecado, tanto nos dias de Noé, quanto nos dias de Pedro.
Notem, que das cinco posições, quatro favorecem a da imortalidade da alma e apenas uma ao mortalismo. Sim, mesmo a posição que defende que a ida de Cristo ao Hades foi para pregar aos Anjos caídos, favorece a doutrina da imortalidade da alma, pois, mesmo que os espíritos em prisão não se refiram a pessoas, no entanto, é preciso considerar que Cristo que foi o portador da mensagem foi lá antes de ressuscitar, ou seja, teria sido o espirito (humano) de Cristo que foi até o inferno. Assim sendo, 80% das interpretações são favoráveis ao da imortalidade da alma, e apenas 20% favorecem ao mortalismo. Dessa maneira, para o foco deste comentário, se conseguirmos provar que a única opção que favorece a doutrina mortalista estiver errada, então os textos de Pedro seriam mais uma prova em favor da imortalidade da alma. A única interpretação, das mais conhecidas, que favorecem a doutrina da morte da alma, é aquela que colocamos acima como a posição 5. Ela afirma que Cristo não foi ao Hades em momento algum, os espíritos em prisão, do Capitulo 3.19, e os mortos do capitulo 4.6, são alegorizados como significando presos e mortos no pecado, ou seja, são pessoas vivas que ouviram a pregação através de Noé ou pelos Apóstolos, no caso da passagem de 1 Pe 4.6. O que precisamos saber é se os espíritos em prisão podem ser interpretados figuradamente como fazem os defensores da posição. O mesmo vale para os mortos do capitulo 4.6. A primeira coisa que se percebe no texto de Pe 3.19-21, é que existe um lapso de tempo entre o versículo 19 e 20, sim, pois Pedro diz que Cristo: "foi e pregou aos espíritos em prisão," depois diz: " Os quais noutro tempo foram desobedientes." Percebam que entre ir pregar, e noutro tempo foram desobedientes, temos dois períodos diferentes. Segundo os mortalistas, Cristo foi pregar (através de Noé) aos espíritos presos (espiritualmente presos) no mesmo tempo, mas Pedro esta dizendo que as duas coisas são momentos diferentes. Se Noé pregou no tempo que os espíritos estavam presos, não faz sentido Pedro usar a expressão "noutro tempo," já que as duas coisas seriam simultâneas. O texto teria que ser escrito assim, caso a teoria mortalista estivesse correta: "Cristo pregou através de Noé aos espíritos presos no pecado por serem desobedientes," porém, para infelicidade dos mortalistas Pedro disse que: "foi e pregou (Noé nem é citado) aos espíritos em prisão que noutro tempo..." o momento da pregação é diferente do momento que eles foram desobedientes. No caso de 1 Pedro 4.6, quando diz que o evangelho foi pregado aos mortos, os mortalistas dizem que mortos esta sendo usado figuradamente, no sentido de mortos em delitos e pecados. Porém, um versículo antes Pedro diz que Jesus há de julgar os vivos e os mortos, por que Pedro no versículo seguinte usaria mortos no sentido espiritual abruptamente , e pior, sem deixar claro que no versículo 6, mortos teria um sentido diferente do versículo 5. Outro problema com a alegorização da palavra mortos em 1 Pe 4.6, é que se a palavra tem esse sentido, Pedro falou uma obviedade, pois, todos sabem que os mortos espiritualmente ouviram o evangelho. No caso do uso literal por parte de Pedro da palavra "mortos," daria ao texto a relevância que ele parece ter, pois, seria uma informação incrível, para os leitores, o fato do evangelho ter sido pregado aos mortos literalmente. Como diz o grande teólogo do seculo 19, Henry Alford: "Se as palavras usadas por Pedro não tem o sentido literal, então podemos dar o sentido que quisermos a qualquer outro texto das escrituras." Alford certamente tem razão e as expressões "espíritos em prisão" e "mortos," são usadas por Pedro no sentido natural que elas possuem.
- Apocalipse 6.9-12; 20.4. Os últimos textos que vamos analisar, são esse dois de Apocalipse. Se Deus permitir pretendo, em outro momento, tratar sobre Apocalipse 20, especialmente a questão do milênio. Por hora, vou lidar apenas com os dois textos citados. Apocalipse é conhecido por todos como um livro repleto de símbolos e alegorias. Sei que dizer isso, é como dar armas para o inimigo, pois é justamente a saída que os mortalistas usam para explicar as almas debaixo do altar de Apocalipse 6. Porém, O capítulo 6 não é o único que fala de almas em Apocalipse, temos também o texto do capítulo 20.4. É impossível negar que Apocalipse "surfa" na linguagem figurada, o grande uso, que por exemplo, o livro faz dos números comprova isso. A questão que se levanta é: qual a profundidade do simbolismo que podemos conferir ao texto? Por exemplo, com respeito as almas do capitulo 6.9, os mortalistas normalmente pegam os detalhes que circundam o texto e usam como prova de que elas (as almas), não são reais. O texto diz que elas estavam debaixo do altar clamando; segundo os mortalistas, seria uma imagem estranha, almas debaixo do altar apertadas, tal qual metrô de São Paulo na hora do pique. Outra observação mortalista, seria os fato delas receberem vestes brancas, almas não precisariam de vestes, argumentam eles. Essa forma de interpretar os textos de Apocalipse, é muito parecida com a que os interpretes do sono da alma fazem na passagem do rico e Lázaro, que analisamos anteriormente. Segundo a lógica mortalista, as almas debaixo do altar e as vestes brancas, eliminam qualquer possibilidade delas serem reais. Obviamente, que o pressuposto deles, que almas não sobrevivem à morte física, dirige a leitura por esse caminho. Se alguém retrucar dizendo, que nós imortalistas também interpretamos à luz do pressuposto da imortalidade da alma, a resposta seria, que nos estamos apenas lendo o texto naturalmente, pois, é ele que diz que João viu almas de pessoas que haviam morrido, logo, quem reinterpreta o sentido natural, são os que dizem que as almas em Apocalipse não são reais. Com certeza, a visão de João quer comunicar algo com as imagens das almas debaixo do altar e recebendo vestes brancas. Se olharmos por exemplo, para o capitulo 5, onde João vê Cristo como um cordeiro, que tinha sete chifres e sete olhos, (Ap. 5.6), certamente essa imagem, não anula a realidade da pessoa de Jesus. João vê Cristo no seu aspecto sacrificial e redentivo; na sequência da cena, Cristo por causa desses aspectos, é o único que é digno de abrir o livro. As almas debaixo do altar revelam que elas não amaram a própria vida (Ap 12.11), e foram vitimas do ódio que sofre todo o seguidor de Jesus. As longas vestes brancas, chancelam a pureza moral que elas tem diante de Deus. O detalhe interessante é que o texto usa a expressão "A alma dos que foram mortos" muito parecida com que João vai usar no capitulo 20.4: "A alma daqueles..." ou seja, a expressão revela algo que foi de alguém, e que naquele momento estava numa condição diferente da que possuía em vida. Essa passagem de Apocalipse confirma o que Jesus havia dito nos evangelhos "Não temam os que matam o corpo mas não podem matar a alma."( Mt 10.28). Aquelas almas resistirem até a morte, porém, seus algozes puderam apenas matar seus corpos, pois as almas continuavam existindo no céu. Na passagem de Apocalipse 20.4, novamente almas são introduzidas na cenas cósmica, desta vez, para participarem do reino milenial de Jesus Cristo. Mesmo que a palavra "viveram" signifique ressuscitaram, isso não muda o fato que João viu elas antes, ou seja, elas viveram para reinar, porém, antes disso, elas existiam como almas que haviam sido mortas, tal qual seus irmãos do capitulo 6. O detalhe que confirma isso, é o uso da palavra "Kai" que equivale a nossa conjunção "e" que aparece no texto do capitulo 20.4 " "E"(KAI) vi a alma daqueles que foram degolados... "e" (KAI) viveram..." Notem que a expressão: "e viveram" sinaliza o que acontece com as almas depois, mas antes elas são vistas por João, alguém pode argumentar que, se elas viveram depois, significa que elas estavam mortas antes, mas lembrem-se do que já falamos em estudos anteriores, que o conceito de morte que adotamos, é aquele que diz, que o estado desincorporado das almas é considerado "morte," pois, elas estão separadas do corpo, porém, elas não deixaram de existir. Nesse ponto, é que talvez resida a maior diferença entre o mortalismo e o imortalismo, pois, para o mortalista a morte significa desaparecimento total, enquanto que para o imortalista, a morte significa a separação da alma do corpo. As almas vista por João, tanto em Ap. 6 quanto em Ap. 20, estão em um "estado de morte," pois elas ainda estão numa condição temporária, que só será alterada quando houver a ressurreição, que é no nosso conceito, a reunião da alma e do corpo novamente. Esse estado de morte não é, conforme temos vistos ao longo do nosso estudo, um desaparecimento completo e absoluto de todo o ser humano, mas antes, um estado de separação.
Esses textos que abordei, são suficientes para respaldar a imortalidade da alma biblicamente, que é o fundamento principal, na última parte, vou fazer um apanhado de tudo que analisamos e verificar alguma implicações que a doutrina da imortalidade da alma tem em relação a outras doutrinas teológicas, como por exemplo, a doutrina do pecado, da salvação, da Cristologia e outras. Por hora. "A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espirito Santo sejam com todos vocês!" (2 Co 13.14).
Leia a primeira parte aqui: Primeira Parte
Leia a segunda parte aqui: Segunda Parte
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