Morte, Imortalidade da Alma e Ressurreição 2° Parte

Na primeira parte do assunto, procurei abordar o tema de uma forma panorâmica, não me prendendo a exegese especifica deste ou daquele texto. Nesta segunda parte, quero dedicar mais espaço para focar na interpretação dos textos que falam diretamente sobre o assunto da imortalidade da alma. Nas escrituras há diversos textos que podem ser usados como argumentos a favor da imortalidade da alma. Obviamente, que esses textos recebem por parte de interpretes mortalistas, um tratamento diferente do que vou expor aqui. Isso é perfeitamente normal, a medida que os imortalistas, dos quais me enquadro, também lidam de uma forma diferente, a textos que mortalistas usam como prova para sustentar sua doutrina. Todos os cristãos, pelo menos dentro de um perímetro ortodoxo concordam, é no fato, que o texto sagrado não se contradiz. Isso é uma premissa básica, já que admitir uma contradição na bíblia, seria praticamente implodir toda a base que sustém a teologia cristã.  Em assuntos como este, em que há uma polarização muito forte, é comum os lados se armarem com seus textos provas e investirem contra o lado oposto, alegando ter os argumentos mais convincentes e inquestionáveis. Ao fazer isso, inconscientemente, parece que colocamos a bíblia contra  a própria bíblia. Não existe textos melhores do que outros nas escrituras, quando Eclesiastes diz que: " Para o lugar para onde vais não há atividade, trabalho, conhecimento... e nem nada." (Ec 9.10), ele está dizendo uma verdade, mas quando Apocalipse fala de almas sem corpo no céu, e que falam e clamam por justiça, (Ap 6.9); ele também está dizendo uma verdade. Tanto imortalistas, quanto mortalistas, conseguem conciliar esses textos usando seus pressupostos teológicos. Por exemplo, um imortalista entende que o texto de Eclesiastes está tão somente falando do fim da vida biológica, isto é, do corpo, sem considerar a continuidade da existência da alma. Já nos caso dos mortalistas, eles interpretam Apocalipse 6.9, como uma alegorização das almas, representando a vida daqueles que fora martirizados por amor ao evangelho. Acredito que ambas as possibilidades são perfeitamente plausíveis, precisaremos então, de outros textos que nos ajudem a elucidar aqueles, e é isso que vou procurar fazer nesta segunda parte.

 1 Samuel 28 

O livro de Samuel marca a transição entre o período dos juízes e a monarquia em Israel. Samuel foi o homem escolhido por Deus para realizar esse processo. Quase todo o ministério de Samuel, que acumulava os cargos de juiz, sacerdote e profeta, se deu no governo de Saul, o primeiro monarca de Israel. Já no fim do seu ministério, foi orientado por Deus, para ungir aquele que viria a ser o sucessor de Saul, o rei Davi. Pois bem, temos no livro de Samuel a passagem que considero a mais explicita, em relação a sobrevivência da alma/espírito após a morte. Obviamente, que esse texto é interpretado de forma diversa por outros estudiosos. Por exemplo, alguns acreditam que a aparição de Samuel foi a de um demônio, disfarçado, para enganar a Saul; outros, acreditam que houve um embuste, e que na verdade, ninguém apareceu ali. E finalmente outros, como o escritor deste comentário, acreditam que de fato Samuel apareceu ali. O maior argumento em favor da aparição de Samuel, é sem sombra de dúvidas o que o autor do livro de Samuel escreve. Ele repete diversas vezes que era Samuel que falava: versículos, 15, 16, 20. Ora, se o escritor sagrado afirma que era Samuel e na realidade não era, temos um problema seríssimo em relação a inspiração da bíblia.

 Praticamente todo o texto sagrado fica sob suspense, caso não tenha sido realmente Samuel que esteve ali. Normalmente os interpretes que afirmam que não foi Samuel que apareceu, alegam  que o escritor somente refletiu o entendimento de Saul, e não a realidade dos fatos. Parafraseando,  segundo o entendimento desses, ficaria assim o texto: Saul pede para a pitonisa invocar Samuel, ela obedece, mas quem acaba aparecendo é um espirito enganador disfarçado de Samuel; Saul iludido, acaba pensando que era realmente Samuel, o escritor do livro então, reflete o que Saul entendeu, e reproduz no livro. Agora vejam o problema de interpretar o texto desse jeito. Vamos usar essa regra em outro texto bíblico, por exemplo, Gênesis 22, a passagem em que Deus pede Isaque em sacrifício. Digamos que o escritor de Gênesis, no caso Moisés, Também, apenas refletiu  o entendimento de Abraão e que na realidade quem pediu para Abraão sacrificar Isaque teria sido Satanás, lembrando, que teríamos até um forte argumento para isso, pois, a bíblia proíbe o sacrifício humano (Dt. 12.31). Alguém pode bradar e dizer, que isso é um absurdo, pois o texto diz que foi Deus quem pediu Isaque em sacrifício, Outro pode usar o argumento de que o Novo Testamento diz quem Deus provou a Abraão, (Hb 11.17). Porém, percebam, que se eu não confiar na informação do escritor de Gênesis, de que de fato foi Deus quem pediu Isaque em sacrifício, os outros argumentos perdem muita força. A citação de Hebreus por exemplo, talvez o autor também só refletiu o entendimento de Abraão, afinal de contas, se um autor pode fazer isso, talvez dois também possam ou três, ou até mesmo, todos possam.

O que deve ficar claro é o seguinte: ou o autor do livro de Samuel retratou a realidade dos fatos, ou então, teremos que pegar todos os outros textos da bíblia, e interpretar não a luz do que o escritor disse, mas sim a luz do entendimento do personagem da historia. Alguém a esta altura dirá: mas as vezes a bíblia reflete o entendimento do personagem, ou da cosmovisão da época, como por exemplo no caso de Josué (Js. 10.12-13), quando lá diz que o sol e a lua pararam; ou quando ela diz que as lebres ou coelhos são animais ruminantes, (Lv. 11.4), ou morcego são aves, (Lv. 11.19). Existem vários equívocos quando comparamos esses textos ao de Samuel. Primeiramente, a bíblia não é um livro de ciência, mas é um livro religioso. Dizer que o sol e a lua pararam, tão somente reflete a opinião de um observador da terra, na realidade nem erro podemos dizer que houve no caso de Josué, já que hoje em dia também usamos expressões como o sol nasce e o sol se põe. Agora, quando dizemos que não foi Samuel que apareceu, sendo que o escritor está dizendo que foi, colocamos em suspeita uma informação que diz respeito a natureza das escrituras que é sobretudo um livro de natureza teológica/religiosa. O que agrava mais a situação é afirmar que foi um demônio que se manifestou ali, se esse fosse o caso, seria necessário um outro texto que mostrasse isso. lembrando que o próprio livro de Samuel identificou um espirito maligno quando foi o caso (1 Sm. 16.14), Por que não o faria de novo, no caso de En-Dor?  Alguém também pode retrucar: mas não há um texto que também confirme que foi Samuel. Para que? se o autor está dizendo que foi Samuel o ônus da prova recai a quem diz que não foi. Quando Paulo, por exemplo, diz que Satanás se transfigura em anjo de luz, (2 Co. 11.14), Paulo certamente conhecia a passagem de Samuel; ele poderia muito bem ter emendado na sequência dizendo: "Satanás se transfigura em anjo de luz, assim como ele fez com Saul, quando se disfarçou de Samuel." Só que essa emenda não existe, porque, certamente, nem Paulo nem qualquer outro escritor sagrado, acreditava que foi um espirito maligno que apareceu lá. Uma coisa é certa, se realmente foi um espirito maligno que apareceu para Saul, esse espirito conseguiu enganar todo mundo, enganou Saul, enganou o escritor do livro, e enganou o próprio Deus que foi quem inspirou o escritor a registrar o episódio.

Agora, vamos lidar com os problemas oriundos da interpretação de que Samuel realmente apareceu em espírito para Saul. A primeira, seria o fato de Deus proibir a invocação de mortos (Dt. 18.9-12). Os críticos dizem: como pode, Deus proibir invocar os mortos e depois permitir que Samuel volte do além, invocado por uma feiticeira?  Respondendo a isso, podemos dizer que o mandamento proibindo a invocação dos mortos é para nós e não para Deus. Clarificado, quando Deus nos proíbe de algo não significa que ele em sua soberania e poder não possa fazer.  Deus nos deu um mandamento para não matar, porém, sabemos, que esse mandamento não proíbe o próprio Deus de matar. Assim sendo, essa contestação não afeta a interpretação que estamos dando. Ainda sobre isso, quem usa o argumento de que o mandamento de não se consultar os mortos invalidaria a aparição de Samuel, precisa lidar com o fato de também havia o mandamento para não se usar encantamento e adivinhações (Dt. 18.10), mas Deus usou Balaão, que segundo o relato praticava tais praticas (Nm. 24.1). O que prova que Deus não está limitado pelo próprio mandamento.

Um outro argumento contra a aparição de Samuel, é aquele que diz que Deus já não falava mais com Saul pelos meios ordinários que o Senhor usava para falar com o rei, que era, ou por sonhos, por Urim ou por profetas, por que então ele falaria através de um método proibido por ele mesmo?  Acho que é bem fácil responder a isso, é dito que Deus não respondeu, mas em nenhum lugar diz que ele nunca mais responderia. Não existe tal declaração, se existisse um texto dizendo que Deus nunca mais falaria com Saul, bom nesse caso, realmente era de se duvidar da presença de Samuel na passagem. O silêncio de Deus foi punitivo, porém, foi temporário, alias, o silêncio de Deus, foi justamente para que Saul pudesse ir até a pitonisa, e para que ele então, enchesse a medida dos seus pecados. A aparição de Samuel foi justamente para dar a sentença final na conturbada história de Saul.

Mais uma questão levantada, seria sobre o conteúdo da profecia proferida  por Samuel. O profeta diz que Saul seria morto pelos filisteus, porém, afirmam os críticos, que na verdade Saul se matou, tornando assim a mensagem de Samuel falsa. Esse argumento pode ser resolvido de varias maneiras, primeiro a mensagem de Samuel diz: "O Senhor entregará também a Israel contigo nas mãos dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; e o arraial de Israel será entregue nas mãos dos filisteus." (1 Sm 28.19).  Bom, primeiramente o texto está dizendo que Saul e seu exercito seria derrotado pelos filisteus, o que se cumpriu perfeitamente, basta ler o capitulo 31 de 1 Samuel. A profecia ainda afirma, que os filisteus tomariam o arraial de Israel, o que também se cumpriu, basta ler 1 Sm. 31.7.  Sobre a morte de Saul, a profecia de Samuel não diz quem realmente mataria a Saul, apenas diz que ele morreria, o que também se cumpriu. E mesmo que dissesse, o suicídio de Saul foi por causa dos filisteus. Inclusive, o relato de 1 Crônicas 10.3, (Nova Almeida Atualizada), que também narra a morte de Saul, diz que ele foi ferido gravemente pelos flecheiros filisteus. Assim sendo, até aqui, a profecia de Samuel cumpriu-se perfeitamente. Outra suposta falha na profecia, seria a de que Saul morreria no dia seguinte, porem, alguns alegam que ele morreu alguns dias depois. Interessante que quem faz tal alegação, não tem nenhum problema em dizer, que o três dias da ressurreição de Jesus não precisava ser de 72 horas para que tivéssemos a profecia se cumprindo precisamente, já que, sabemos que no total, entre a morte que se deu na tarde da sexta e a ressurreição na manhã de domingo, teríamos menos de três dias. Eu aceito a explicação da ressurreição de Jesus perfeitamente, mas apenas quero dizer que se fossemos usar a mesma regra, usada para a profecia de Samuel, teríamos que admitir que a profecia da ressurreição também falhou. Alguém pode dizer: mas no caso da ressurreição foi uma diferença de horas e no caso de Samuel foi de dias. Se a profecia precisa ser exata, então, não faz diferença se o erro foi de dias ou de horas.  Bom, eu coloquei isso, apenas para mostrar que nós as vezes usamos uma regra quando um texto nos convém e outra quando não nos convém. No caso da profecia de Samuel, será que a expressão "amanhã" não pode ser entendida de outro jeito, assim como entendemos os três dias da ressurreição? Um jeito de entender a expressão amanhã, que no hebraico é Mahar, e que segundo o Novo Dicionário Internacional de Teologia, a palavra além de significar, amanhã, como o dia depois de hoje, também é usado como amanhã, no sentido de futuro, como por exemplo em Dt. 6.20; Js. 4.6,21. Acho que só isso resolveria a questão, pois, se a palavra pode ser usada no sentido de futuro, e não necessariamente o dia depois de hoje, então, é só aplicar isso ao texto, e pronto. Mas se essa resposta não satisfazer você, existe uma outra alternativa ainda melhor para entender o texto acerca da profecia de Samuel. A questão pode ser resolvida também se entendermos que os capítulos 29 e 30 de 1 Samuel não estão em ordem cronológica aos capítulos 28 e 31, ou seja, o capitulo 31 é a continuação direta do 28, enquanto que o 29 e 30, contariam um outro momento. Entendendo assim, a profecia teria a precisão que os críticos pedem, pois, o dia seguinte que Samuel anunciou a Saul, estaria relatado no capitulo 31. Essa possibilidade não é invenção, ela acontece normalmente em textos narrativos como o de Samuel.

Muitos também falam, que e espirito teria errado quando falou, "tu e teus filhos." já que segundo eles, apenas três filhos morreram, e não todos os filhos, lembrando que Saul tinha seis filhos no total, sem contar as filhas. Esse argumento é bem parecido com a questão anterior sobre a quantidade de dias, agora muda para quantidade de filhos. Novamente surge a questão dos critérios que usamos a um texto em relação a outro. Tenho certeza absoluta, se a profecia de Samuel tivesse sido feita em vida, aqueles que apontam as supostas falhas na profecia, estariam dando os argumentos devidos, e possivelmente dando as mesmas explicações que damos sobre o texto. Permitam-me colocar uma outra profecia bíblica para ilustrar isso. Quando Jesus Cristo profetizou acerca da destruição do templo, ele disse literalmente: "Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada" (Lc. 21.6). Agora, sabemos, que uma parte do templo ainda está de pé, chamado hoje de muro das lamentações. Se usarmos a mesma régua, a profecia do Senhor não se cumpriu precisamente. Agora, algum cristão ousa dizer que Jesus errou na profecia? Absolutamente que não, pois a explicação que damos, e que nos satisfaz, é que o muro seria destruído a ponto de perder sua função original, e aquelas pedras que sobraram, ficaram apenas como memorial do que foi o templo. Voltando a questão dos filhos de Saul, temos aqui algo muito parecido, pois, a profecia anuncia que filhos morreriam, e filhos morreram, não há indicação de quantidade de filho que morreriam. Interessante que no relato de 1 Crônicas 10.6, o autor afirma que toda a casa de Saul morreu. Possivelmente, o autor de Crônicas considerou todos, no sentido dos que estavam alistados para a batalha. Pois bem, agora isso, levanta um problema para quem diz que a profecia de Samuel falhou, pois o autor de Crônicas diz que toda a família morreu, se a profecia de Samuel falhou, então o autor de Crônicas também errou ao escrever o que escreveu. Seja qual for o motivo do autor de Crônicas ter desconsiderado os outros filhos de Saul, somos obrigados a também aplica-la ao texto de Samuel 28.

Um argumento adicional que poderia dar em favor da autenticidade de Samuel no relato, esta no fato de que é muito improvável que Deus permiti-se que um demônio usa-se o nome e a identidade de um dos seus servos. Lembrando que o nome de Samuel contém a partícula El, que é um sufixo muito usado em nomes hebraicos para demostrar alguma característica relacionado a Deus; Samuel por exemplo, um dos possíveis significados do  nome seria, Deus ouve. A questão grave disso estaria no fato de  Deus conceder essa permissão a espíritos malignos e não nos mostrar isso claramente. Uma coisa é Saul ser enganado pelo suposto demônio, outra coisa seria, esse engano não ser revelado a nós através de outro texto.


Para finalizar o breve comentário acerca de 1 Samuel 28, existem testemunhos interessantes, confirmando que foi realmente o espirito de Samuel que esteve presente em En-Dor. Um desses testemunhos vem da LXX a famosa versão grega do texto hebraico, pois bem, a tradução grega acrescenta as seguintes palavras no texto de 1 Cr. 10.13  "... e Samuel o profeta o respondeu." Esse acréscimo não existe em nossas bíblias, não vamos discutir os motivos para não estar, porém, o importante é que ele mostra que os judeus da época acreditavam que o espírito era mesmo o de Samuel.  A passagem de Samuel 28 portanto, aniquila a teoria da morte da alma, o "fantasma" de Samuel assombra aqueles que dizem que a alma/espirito morre com o corpo, porém, para os imortalistas, ela lança luz a muitas outras passagens que falam sobre o assunto.


A Transfiguração 

O relato da transfiguração de Jesus Cristo registrada pelos evangelhos sinóticos (Mt 17.1-9; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36), mostram, além de todas as outras implicações teológicas, como a natureza divina de Jesus, a relação entre  a velha e a nova aliança, um forte argumento em favor da imortalidade da alma. O fato que nos interessa no texto, é que junto de Cristo na transfiguração, estão, Moisés e Elias, os dois personagens históricos do V.T. que reaparecem milênios depois de suas vidas na terra, conversando com o Filho de Deus. Algumas polêmicas surgem do relato, a primeira, é se a cena descreve uma situação real ou uma visão, semelhante a um sonho. Uma outra controvérsia, seria a da presença de Moisés e Elias. Estariam ali os seus espíritos ou estariam em corpos ressurretos e glorificados? Acerca da primeira questão, de ser visão ou real, julgo que a segunda possibilidade é a mais provável. O acontecimento foi real, Moisés e Elias estavam ali, se em corpos, ou não, vamos analisar depois. Algumas razões do porquê considero o episódio real:

1- Os textos afirmam que Jesus levou os três apóstolos em particular para um alto monte; o que parece fortalecer a ideia de um acontecimento real, já que, se fosse o caso de uma visão extática, não haveria necessidade de leva-los até um monte. Jesus desejava que apenas os três presenciassem a cena. Interessante que o ministério de Moisés e Elias foram marcados por acontecimentos importantes em montes. Moisés simplesmente recebeu as leis de Deus no monte Horebe, mesmo lugar onde Elias presenciaria uma teofania. Agora, lá  estavam os dois novamente, em um monte; vendo Deus vivendo como um homem.

2- A realidade de Jesus e dos apóstolos parece também indicar que todo o resto da cena é real, não faz muito sentido, Jesus conversando com pessoas que não estavam ali de verdade.

3- Uma visão apenas, não daria aos discípulos o consolo e a certeza de que Moisés e Elias ainda existiam, e que naquele momento, estavam ali próximo a eles. Certamente se Jesus contasse a eles posteriormente, que Moisés e Elias não estiveram ali de fato, e sim virtualmente,  não produziria neles a mesma fé que uma cena real. Lembrando que os três discípulos presentes, viriam a ter um papel fundamental na historia da igreja, (Gl. 2.9). (Obs: O Tiago do texto de Gálatas não é o mesmo da transfiguração, pois, o Tiago da transfiguração morreu martirizado no inicio da historia da igreja conforme Atos 12.2).

Partindo então, do pressuposto de que a visão foi real e não alegórica, vamos abordar a questão relacionada a Moisés e Elias se eles estavam  ali em corpos ou só espiritualmente. Normalmente a questão gira mais em relação a Moisés, haja visto, que Elias teria sido arrebatado vivo, enquanto que Moisés, morreu e foi sepultado. Primeiramente, quanto a Elias, sou da opinião de que não existe provas suficientes para afirmar que ele realmente não morreu. O texto que descreve seu arrebatamento afirma que ele foi elevado ao céu num redemoinho. (2 Rs 2.11). A questão que precisamos considerar, é se o céu que Elias subiu refere-se ao céu morada de Deus, ou ao céu atmosférico. O texto não dá muitas indicações disso, porém acredito que o texto refira-se ao céu atmosférico, vou dar minhas razões: a primeira delas é que não há nenhum outro texto que confirme a ida de Elias para o céu, morada de Deus. Quando, por exemplo, o autor de Hebreus cita Enoque, ele claramente fala que Deus o tomou para si, para não ver a morte, (Hb. 11.5). Não há, todavia, nenhum testemunho semelhante relacionado a Elias, o que é muito estranho, caso ele realmente tivesse ido para o céu sem morrer. O silêncio do texto canônico em relação ao paradeiro de Elias, gerou uma infinidade de relatos folclóricos em torno do profeta de Deus. Portanto, o translado de Elias para o paraíso, fundamenta-se mais em especulações do que em provas bíblicas. Além da questão da inexistência de outros textos bíblicos que confirmem que Elias ainda esta vivo corporalmente, existe ainda um outro fato que parece indicar que que o arrebatamento de Elias foi tão somente de um lugar de outro da terra. A carta que Elias enviou depois da narração do seu arrebatamento, (2 Cr. 21.12), para o rei Jeorão, indica que Elias estava em algum lugar da terra, e não no céu. Alguns tentam explicar essa carta dizendo que ela foi escrita por Elias enquanto ele estava na terra, mas entregue após sua ida para o céu, porém, se observarmos o conteúdo da carta, ela contém uma profecia de Elias para o rei falando dos pecados dele no passado e anunciando a punição no futuro, o que não faria sentido se ele tivesse escrito a carta antes dos eventos, pois, no caso tudo seria futuro.  Na minha opinião portanto, Elias morreu como todos morrem, somente Enoque foi a unica exceção a regra.

O outro personagem do relato da transfiguração é Moisés. Segundo o relato de Deuteronômio 34.5. Moisés morreu e foi sepultado em algum lugar em Moabe. Ninguém sabe o lugar do seu tumulo. O caso de Moisés é bem parecido com o de Elias, no caso de Elias, o silêncio em torno do seu paradeiro, produziu muitas historias fictícias. No caso de Moisés, as mesmas historias apareceram por causa do desconhecimento da sua sepultura, bem como do seu corpo. Uma dessas historias seria a suposta ressurreição de Moisés. O único texto que poderia apoiar essa ideia, seria a passagem registrada na epístola de Judas, (Jd. 1.9). Onde se fala de uma disputa entre o Arcanjo Miguel e o diabo em torno do corpo de Moisés. Essa citação de Judas é tirada de uma obra apócrifa chamada a assunção de Moisés. A parte do texto do livro apócrifo em que registra a disputa entre o Arcanjo e Satanás, não aparece nas copias que temos desse livro. Todavia, sabemos por uma citação de Orígenes, que o verdadeiro motivo da discussão, teria sido que Satanás queria impedir que o Arcanjo sepultasse Moisés, por causa do homicídio que ele cometeu (Ex 2.12). Não há nada, tanto no texto apócrifo, bem como no texto canônico de Judas, acerca de ressurreição de Moisés. Portanto, o que temos de fato é que Deuteronômio fala da morte e do sepultamento de Moisés, e que Judas fala da disputa entre Miguel e Satanás pelo corpo. Não há  absolutamente nada em relação a uma ressurreição, alias, essa teoria é baseada nas seguintes suposições: Deuteronômio fala que a sepultura de Moisés é desconhecida; Judas, fala de uma disputa entre o Arcanjo e o diabo; os evangelhos mostram Moisés falando com Jesus no monte da transfiguração, logo, Moisés ressuscitou. Percebam, que esse tipo de hermenêutica nos permite fazer qualquer coisa com o texto. Por causa de um pressuposto mortalista, de que a alma morre com o corpo, é acrescentado informação aos textos, para que eles digam aquilo que se encaixe com minha doutrina. Agora, não é muito mais lógico juntar as informações que os textos nos fornece, de que Moisés foi sepultado, e a disputa entre o Arcanjo e o diabo foi simplesmente pela posse do corpo, e não por uma suposta ressurreição, fato que certamente seria informado, caso realmente tivesse acontecido. Lembrando, que a bíblia fez questão, de por exemplo, contar sobre a ressurreição de um homem que caiu na sepultura de Eliseu (2 Rs.13.21), será que se fosse o caso de Moisés ter ressuscitado, ela não teria mostrado isso de forma clara? Portanto, é muito mais coerente entender que Moisés apareceu no monte da transfiguração em espírito e não ressuscitado.

Temos, então, no relato da transfiguração, mais uma prova forte em favor da sobrevivência da alma após a morte. A presença de Moisés e Elias junto com Jesus, demostram de forma clara a continuidade da essência humana após a morte biológica. Mesmo que a morte de Elias seja algo discutível, no caso de Moisés, é indiscutível que ele morreu e foi sepultado. Não existe qualquer fundamento para sustentar a suposta ressurreição de Moisés. Alias, se Deus quisesse realmente ressuscitar Moisés ele não o teria sepultado, ou talvez nem sequer permitisse que ele morresse, como aconteceu com Enoque. Alguém poderia contestar isso dizendo: Mas Jesus morreu e também foi sepultado, porém, notem a diferença absurda entre um e outro. No caso do Salvador, quem sepultou ele foram pessoas que viram ele morrer e que sabiam onde ficava sua sepultura, no caso de Moisés o texto de Deuteronômio indica que ele morreu em um lugar isolado, e quem o sepultou foi  Deus. No caso de Jesus, o sepultamento foi para que quando ele ressuscitasse, as pessoas pudessem encontrar o tumulo vazio e verificar o cumprimento da suas palavras. No caso de Moisés, qual a lógica de enterra-lo e depois de algum tempo (não se sabe quando), ressuscita-lo?  Um detalhe importante é que se Moisés estivesse na cena da transfiguração ressuscitado, isso colocaria ele em uma posição de superioridade sobre Jesus, já que ele teria então vencido a morte e  estaria com um corpo glorificado antes de Jesus. Um do méritos que o livro de Apocalipse atribuem a Cristo, é o fato Dele ter vencido a morte: " E o que vivo; estive morto, mas ei aqui estou vivo pelos séculos dos séculos; e tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap 1.18). Se Moisés ressuscitou antes de Jesus, isso diminui a vitoria de Cristo sobre a morte, pois alguém já teria alcançado isso antes Dele.

Podemos dizer portanto, que Jesus Cristo é o único ser do universo que conseguiu vencer a morte; e que Moisés, além de estar na cena da transfiguração em espirito, alcançará a ressurreição somente no final dos tempos, quando o mesmo Cristo retornar para julgar os vivos e os mortos. Na parte 3 vou continuar abordando textos que tratam da imortalidade da alma.

Leia a primeira parte aqui: Primeira Parte
Leia a terceira a parte aqui: Terceira Parte
Leia a quarta parte aqui: Quarte Parte
















































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