Morte, Imortalidade da Alma e Ressurreição 1° Parte


A colocação no título da imortalidade da alma entre a morte e a ressurreição é proposital, pois, é exatamente assim que a cristandade entende a relação entre essas três doutrinas. O estado intermediário é um termo adequado para definir o que acontece entre a morte e a ressurreição. A morte é o resultado nefasto do pecado do primeiro Adão; a ressurreição por sua vez, é o resultado da obra redentora do segundo Adão, Cristo Jesus, (1 Co 15.21-22). Porém, entre esses dois acontecimento, temos o estado intermediário. Para existir um estado intermediário, é condição "sine qua non" que haja um ente que sobreviva a morte biológica. Esse ente chamamos de alma, ou espirito (adoto aqui uma posição dicotômica). Pois bem, essa sobrevivência da alma após a morte do corpo físico, pressupõe que ela,  a alma, tenha uma natureza que lhe permita sobreviver durante o período entre a morte e a ressurreição.  O que gostaria de analisar nesse estudo, portanto, é verificar a luz das escrituras se a alma possui essa natureza imortal que torna possível sua sobrevivência em um  estado  intermediário.  Também, gostaria de relacionar questões como a morte e  ressurreição com a da imortalidade da alma. Perguntas tais como: Se temos uma alma imortal, será que a morte é algo tão ruim assim?  A imortalidade da alma não torna a ressurreição redundante? Se após a morte as pessoas já estão em um estado de bem aventurança ou de punição, por que é necessário um juízo final para dar algo que elas já estão desfrutando ou sofrendo? A imortalidade da alma não seria uma versão disfarçada da mentira da serpente no Éden: "certamente não morrereis"? Vou procurar tratar todas essas questões e outras tantas que existam relacionadas com esse tema. 

O que é morte?

Responder essa pergunta não é uma tarefa tão simples a primeira vista. Um médico dirá que morte é quando o coração para de bater e a circulação sanguínea cessa, porém, ouvimos falar também em morte cerebral, estado vegetativo, falência geral dos órgãos e etc. O nosso corpo físico mesmo antes da morte derradeira passa por varias pequenas mortes ao longo da vida, haja visto, que as nossas células vão morrendo e sendo renovadas de tempos em tempos. O fato a destacar é que, a morte é uma realidade no universo e todos os seres vivos passam por ela. Sendo a inevitabilidade da morte real, a pergunta a ser feita é: por que morremos? A fonte que uso para responder essa questão, são as sagradas escrituras. A morte é um tema recorrente na Palavra de Deus. E a importância do tema é tal que ela refere-se a morte como: o ultimo inimigo a ser derrotado, (1 Co. 15.26). A realidade da  morte, levou Cristo ás lagrimas, (Jo. 11.35). E julgo que o motivo da tristeza de Jesus não foi somente a morte de Lazaro, já que, ele estava ali para ressuscita-lo. Jesus chorou porque ele olhou no corredor da historia e viu você e eu morrendo; viu a morte separar pais de filhos; marido de esposa, crianças que teriam suas vidas abreviadas por causa da morte; o próprio Lazaro que voltaria a morrer. A morte é tratada nas escrituras como algo muito sério e crítico. Agora, voltamos a questão, por que morremos? O texto sagrado afirma categoricamente que a morte é o resultado do pecado,( Rm. 5.12; 1 Co.15.56; Tg. 1.15). A citação de 1 Co. 15.56 afirma que o aguilhão da morte é o pecado; a palavra aguilhão foi traduzida do grego Kentron. Uma outra possibilidade de tradução da palavra grega seria ferrão, como a de escorpiões, por exemplo, que ao picar suas vitimas inoculam veneno, levando-as por fim a morte.

Podemos, portanto dizer, que a morte e o pecado formam uma especie de simbiose, criando uma relação de dependência entre eles. As escrituras também afirmam que a morte tem vários significados: Um espiritual, um físico e outro eterno. O significado espiritual refere-se ao sentido do rompimento da nossa comunhão com Deus por causa do pecado. A bíblia afirma, dirigindo-se aos crentes que, estávamos mortos em nossos delitos e pecados,( Ef. 2.1,5).  Quando o Eterno, alertou Adão, para que não desobedecesse o mandamento de não comer o fruto, ele avisou que a consequência seria a morte. Adão cedeu a tentação, comeu o fruto; e continuou vivo, pois, ele em um primeiro momento, experimentou a morte espiritual. Jesus mesmo referiu-se a essa morte ao dizer: "Deixe os mortos enterrarem seu mortos"( Lc. 9.60). Em Apocalipse, o Cristo ressurreto repreende a igreja de Sardes dizendo que ela tinha fama de viva, mas estava na verdade morta, (Ap. 3.1). O segundo sentindo de morte é  físico, ou biológico. Essa é a face mais temida da morte, pois, o homem faz de tudo para evitar, ou ao menos protelar sua chegada. A Bíblia, porém afirma, que: "Aos homens esta ordenado morrer uma só vez" (Hb. 9.27). Todos, com exceção dos cristãos que estarão vivos na segunda vinda de Cristo, precisarão enfrentar a morte. O próprio autor da vida enfrentou a face da morte, o que é algo com um profundo significado, já que falamos anteriormente que a morte é resultado do pecado, porém, como Cristo pode ter morrido se ele não tinha pecado?  A natureza humana que Cristo assumiu, apesar de ser isenta de pecado, tinha as fragilidades de um mundo já caído. Dentre as fragilidades, além de sentir fome, sede, tristeza, ele também era mortal, como nós. A razão disso foi, para realizar uma eterna redenção, (Hb. 9.12), e pelo sacrifício de si mesmo comprar todos os eleitos, cujos nomes estão escritos no livro da vida, (Ap 13.8). O fato é que, por não ter pecados, a morte não pode reter Cristo por muito tempo em seu poder, (At.2.24). A morte eterna, é o terceiro aspecto relacionado com o conceito de morte nas escrituras. Ela também é chamada de segunda morte no texto sagrado, (Ap 20.14). Existe solução para a morte espiritual e física, a espiritual por meio do novo nascimento obtido por aqueles que tem fé em Jesus; e a morte física, por meio da ressurreição. No entanto, a morte eterna, ou segunda morte, é irreversível. Ela é a antítese da bem aventurança eterna que os justos vão experimentar na eternidade. Bom, mas quanto  a alma, onde entra nisso tudo?  Pois bem, a alma tem tudo a ver com a questão da morte, pois, uma das duvidas mais recorrentes pelo homem é: o que acontece depois da morte (física)? Essa pergunta, pressupõe evidentemente, que haja algo após a morte biológica, e sobre isso, falaremos no próximo tópico.    

A Alma Morre?                                                                                                                          

 A resposta para essa indagação vai depender muito do nosso pressuposto teológico. Este comentário adota a perspectiva ortodoxa que caracteriza o cristianismo ao longo de sua historia. A crença na imortalidade da alma é sem sombra de duvidas, a visão que predomina no meio da cristandade. Porém, sabemos, que há outras correntes teológicas que pensam diferente. Uma crença defendida pela maioria, apesar de ter suas vantagens, pode nos levar a uma zona de conforto perigosa, no que diz respeito ao nosso desenvolvimento teológico. Não é suficiente sustentar uma doutrina apenas alegando que a maioria crê assim, por outro lado, desprezar a opinião da maioria também não é uma atitude inteligente, ainda mais, quando a maioria são de estudiosos. A própria bíblia afirma a importância de uma opinião ser abalizada por muitos, (Pv. 11.14). A respeito disso a imortalidade da alma tem um ponto a favor, já que a maioria dos teólogos são imortalistas. Mas não vamos nos acomodar nessa vantagem, vamos entender os motivos dessa crença majoritária. Primeiramente, vamos dar as razões bíblicas para a crença da sobrevivência da alma, depois que a vida do corpo cessa. Existem textos bíblicos que afirmam a morte da alma, Ez. 18.20 é um exemplo clássico, porém, em outro texto, Jesus, fala que a alma não pode ser morta Mt. 10.28. Certamente Jesus conhecia o texto de Ezequiel e entendia o seu sentido melhor do que qualquer um. Então, por que o mestre disse o que disse? Só pode ser por um motivo, os textos falam de coisas diferentes, apesar dos dois usarem a palavra alma, a  que morre em Ezequiel, não é a mesma alma que não morre em Mateus. Uma analise rápida do texto de Ezequiel, mostra que o texto está tratando sobre responsabilidade pessoal. Durante todo o contexto o profeta fala acerca de que cada pessoa é responsável pelos seus próprios pecados, censurando aqueles que transferem suas culpas a outros. A alma que morre, portanto, em Ezequiel, é o individuo que cometeu o pecado. É fácil perceber uma figura de linguagem em Ezequiel, a sinédoque, que é quando uma parte é tomado pelo todo, no caso, a alma é a parte que é usada para representar o todo, que é o individuo. Tudo bem, mas alguém pode indagar que o texto está falando que o individuo inteiro morre, se a alma faz parte do individuo, logo, ela também morre junto. Bom, acerca dessa indagação, eu posso responder que concordo, a alma morre com o corpo, mas a pergunta que faria a seguir seria:  morrer significa ser reduzido a inexistência?

Mesmo o mais convicto mortalista terá que convir, que é difícil responder sim a essa pergunta. Nem mesmo o corpo deixa de existir com a morte. Ou alguém pensa, que com a morte os átomos do nosso corpo se desintegram e deixam de existir? Obvio que não, eles vão continuar por aí; se reorganizando em outra coisa, fazendo parte de outra coisa ou até mesmo outra pessoa. Uma famosa lei diz que: "Na natureza nada se perde, nada se cria tudo se transforma". Alias, essa lei cria um problema para quem acredita na morte da alma com o corpo, pois, se a alma faz parte do corpo nesse sentido holístico, a ponto de morrer junto com ele, então podemos afirmar que em certo grau a nossa alma continua por ai, junto com os átomos que faziam parte do nosso corpo. Agora veja o paradoxo que isso cria, pois, se a alma morre com o corpo, podemos deduzir que a alma é algo tão material quanto o corpo, porém, por dedução podemos afirmar que essa alma material que pertenceu a um individuo pode pertencer a outro individuo, lembrando a lei de Lavousier que afirma que tudo se transforma, então a conclusão logica, é que no minimo parte da alma de alguém pode se tornar parte de outra alma. Esses são desdobramentos lógicos que precisamos lidar quando interpretamos um texto como o de Ezequiel no sentido de que a morte da alma ali, significa que ela perece com o corpo. Agora vamos tratar do texto de Mateus 10.28, onde Jesus fala que a alma não pode ser morta pelo homem. Esse texto nos ajuda a entender o de Ezequiel, pois nele, Jesus claramente afirma que existe algo em nós que não morre com o corpo. Vamos colocar o versículo completo: "E não temais os que podem matar o corpo mas não podem matar a alma; antes temais aquele que pode fazer perecer a alma e o corpo no inferno. A primeira parte do versículo é clara, O homem pode matar o corpo; mas não pode matar a alma. Ora, se a alma realmente morresse com o corpo, Jesus jamais diria isso. Normalmente os mortalistas para responder esse versículo, dizem que na parte B do mesmo, Jesus estaria dizendo que a alma e o corpo vão morrer no inferno. Em primeiro lugar, a parte B do versículo muda o agente homem para o agente Deus. O homem mata o corpo mas não mata a alma; Deus pode destruir os dois. Ora, é evidente que Deus pode destruir a alma, mas isso não muda a parte A, que afirma que a alma não morre quando o corpo é destruído pelo homem. Essa morte que é causada pelo homem mas que não afeta a alma, por inferência, pode ser usada para outros tipos de morte como, por  exemplos: doença, acidente ou por morte natural. Sim, pois seria estranho acreditar que Jesus estaria afirmando que um homem não pode matar a alma de outro, mas que a doença ou acidente pode. Logo, quando Jesus fala que não temam quem pode matar o corpo, mas não a alma, isso é verdade em relação a qualquer tipo de morte. Agora, em relação a parte do B do versículo, que diz que Deus pode fazer a alma e o corpo perecer no inferno, precisamos entender isso a luz da primeira parte. É importante destacar algumas palavras do texto: corpo e alma, perecer, inferno. O corpo e alma são claramente colocados em contraste no texto por Jesus. Na primeira parte; O corpo morre, mas a alma não, na segunda parte, os dois perecem. Temos dois momentos escatológicos aqui, pois, se Jesus está dizendo que não devemos temer quem mata o corpo, mas não a alma, é completamente lógico deduzir que a alma fica viva. Até quando ela fica viva, é a pergunta a seguir. A resposta é dada na segunda parte, Deus pode fazer perecer a alma e o corpo no inferno. Ora, se na primeira parte Jesus fala que a alma não pode ser morta, na segunda, ele afirma que essa alma junto com o corpo podem ser destruídos.

Quando se dará isso? Na ressurreição dos mortos, quando a alma e o corpo vão ser reunidos novamente e ambos receberão o que lhes é devido. Essa conclusão é claramente perceptível no texto, pelo uso que Jesus faz da palavra inferno, na segunda parte. Ela é a tradução do termo geena em grego, que é uma outra palavra usada na língua original para inferno. Essa palavra é usada para referir-se ao destino final dos impenitentes. Quanto a palavra perecer, ela é a tradução da palavra apolummi em grego, que possui uma gama enorme de significados, porém, quase todos dão o sentido de algo que se extraviou ou que já não tem utilidade. O perecer que Jesus fala que Deus pode fazer com o corpo e alma, e a mesma coisa que o livro de Apocalipse menciona no capitulo 20.11-15: "Depois vi um grande trono branco e aquele que nele estava assentado. A terra e o céu fugiram da sua presença, e não se encontrou lugar para eles.Vi também os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feito. Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte. Se o nome de alguém não foi encontrado no livro da vida, este foi lançado no lago de fogo." Nesse sentido, a alma e o corpo dos infiéis irão perecer, pois ambos serão lançados no lago de fogo . Assim sendo, o que Jesus falou pode ser colocado da seguinte forma: na presente era somente nosso corpo morre, nossa alma continua (onde ela fica, falaremos depois); no futuro, após a ressurreição geral dos mortos, a alma e o corpo serão reunidos e se não forem achados no livro da vida, serão lançados (perecerão), no lago de fogo, (geena, inferno).

A Alma Imortal e a Tragédia da Morte

Uma crítica que é feita a imortalidade da alma é que, esse conceito atenuaria o drama da morte apresentado nas escrituras, haja visto, que a continuidade da existência da alma após a morte do corpo tornaria a morte menos morte. Com certeza a morte é retratada na bíblia como algo muito triste. Uma das poucas vezes em que Jesus chorou, foi por causa da morte de alguém, conforme mencionamos anteriormente. Uma das promessas de Apocalipse é a de que a morte não existirá mais na era vindoura, (Ap 21.4). Com certeza a morte é algo muito ruim; acerca disso, todos os cristãos concordam. Agora, o que podemos discutir é, se a sobrevivência da alma após a morte, esvazia o sentindo triste que as escrituras apresentam. Uma pergunta que faria seria: entrar numa inexistência, mesmo que temporária, não ameniza ainda mais a coisa? Se compararmos o conceito da imortalidade com o da morte da alma, vamos perceber que na verdade a crítica muda de lado. Sim porque, o que é pior, morrer e entrar em um estado de inexistência, ou morrer e aguardar o juízo consciente no inferno? E quanto aos justos, se a alma deles vai para o céu, após a morte física, isso não anestesia a coisa? Interessante que a bíblia fala acerca disso, pois, ela diz que: "Precioso aos olhos do senhor a morte dos seus santos"(Sl 116.15). Apocalipse, semelhantemente afirma que: "Bem-aventurados aqueles que desde agora morrem no Senhor..."(Ap 14.13). Esses versículos, claramente respondem a questão. A morte dos crentes de qualquer forma, crendo ou não crendo na imortalidade da alma, é considerada algo benéfico pelas escrituras. Essa crítica realça a diferença de conceito acerca da morte entre imortalistas e mortalistas. Para o mortalista, morte significa ser reduzido à "inexistência", o corpo e a alma morrem juntos. Para o imortalista, morte significa, a separação do corpo da alma. Já falamos que, dos dois conceitos, o da imortalidade da alma torna a morte mais severa, especialmente em relação à dos impios, já que, suas almas ficarão conscientes em tormentos aguardando a ressurreição. Porém, não é isso que torna o conceito da imortalidade, melhor ou pior do que o da morte da alma, e sim, qual desses faz mais jus ao texto bíblico.

Inexistência ou separação? 

Vamos ao texto sagrado então, e ver, o que ele fala acerca da relação da alma com o corpo em vida e na morte. Uma coisa que é obvia, mas, que precisa ser entendida , é que a bíblia foi escrita para os  vivos e não para os mortos. Isso é relevante, pelo fato de que há muito mais informação acerca do mundo dos vivos do que dos mortos. A alma portanto, aparece muito mais em conexão com o corpo do que fora dele. A criação do homem, apresentada em Gênesis, mostra a alma em cena pela primeira vez. Gênesis 2.7 declara, que Deus soprou o folego de vida, e o homem tornou-se alma vivente. O sopro divino foi o "start" para que o homem recebe-se o dom da vida. O famoso quadro de Michelangelo descreve essa cena de uma maneira diferente, nele, Deus não sopra, mas, sim estende sua mão para tocar a de Adão. A criação do primeiro homem é algo único, e que não voltará a se repetir. A partir dele, todos os outros homens viriam ao mundo pelo relacionamento entre o homem e mulher, cumprindo a ordenança de Deus para crescer e multiplicar. O texto de Gn. 2.7 é muito usado por aqueles que não acreditam na imortalidade da alma, sob a afirmação de que a expressão: "tornou-se alma vivente", seria uma prova de que a alma é mortal, e portanto, a mesma se desfaz na morte do corpo. Acredito que esse versículo não prova absolutamente nada, nem a favor, nem contra a imortalidade da alma. Os mortalistas afirmam que o texto diz que somos uma alma, e não, que temos uma alma. Em relação ao texto de Gênesis ele realmente diz isso,  porém, Gênesis não é o único livro da Bíblia. Outros textos, já usam expressões diferentes; por exemplo, Zacarias 12.1 fala que Deus formou o espirito dentro de nós. Notem, que em Zacarias, a ideia é de que temos uma alma/espirito. Alguém pode argumentar que Zacarias também não provaria a imortalidade da alma. Sim, isso é verdade, porém, o que estou querendo dizer é que, não se pode usar Gênesis para provar a mortalidade da alma, apenas porque ali o texto o texto usa a expressão: "tornou-se alma vivente."

Vamos ver outros textos que estabelecem uma distinção entre corpo, e alma/espirito, apenas para refutar a questão levantada pelos mortalistas acerca de sermos almas ao contrário de termos alma. Há muitos textos nesse sentido que podemos usar, porém, gostaria de citar os meus preferidos. Por exemplo 1 Co. 2. 10-11, que diz: " Deus o revelou a nós por meio do Espírito. O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais profundas de Deus. Pois, quem dentre os homens conhece as coisas do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus". Nesse texto, Paulo estabelece uma clara relação, entre o ESPIRITO SANTO e o nosso espirito. Mesmo as variantes textuais que traduzem espirito do homem, deixam clara a ideia de que há algo em nós distinto do corpo. Acredito que esse texto seja um problema para mortalistas trinitarianos, pois, se afirmarmos que o espirito do homem é simplesmente sua mente ou consciência, teríamos que também dizer que o Espirito de Deus é também só a mente de Deus, e não a terceira pessoa da trindade. Obviamente, que o texto de 1 Co. 2.10-11, não prova a imortalidade da alma, ou sua sobrevivência após a morte física, porém prova, que temos uma alma/espirito. Na continuação do texto de 1 Co. 2. Paulo vai descrever a relação entre o Espirito de Deus e o nosso espirito, (2 Co. 2.12-16), essa relação, nós chamamos comumente de: espiritualidade cristã, um tema muito recorrente na teologia paulina, por exemplo, em 2 Co. 4.16, Paulo usa a expressão homem interior, expressão que ele repete em Ef. 3.16. Essa comunhão entre o Espirito de Deus e o nosso espirito/alma, se dá após o novo nascimento, também chamado de ressurreição espiritual (Cl 3.1). Pois bem, a questão que gostaria de mostra é que, esse relacionamento entre o Espirito de Deus e o nosso espirito/alma, é descrito nas escrituras como algo que transcende uma questão puramente material ou intelectual. Paulo, quando fala acerca dos dons espirituais, estabelece uma distinção  entre, orar com a mente e orar com espirito; cantar com a mente e cantar com o espírito. (1Co. 14.14). Essa distinção mostra de forma muito clara que existe em nós uma nítida diferença entre mente e espirito, o que por sua vez, é muito mais fácil ser entendido a luz do conceito da imortalidade da alma do que da mortalidade. Neste ponto, alguém pode perguntar: Ok! Posso perceber uma distinção entre corpo e alma/espirito, porém isso não provaria a imortalidade da alma. Quando chegamos ao ponto de perceber que corpo e espirito/alma são coisas distintas, podemos deduzir disso algumas coisas:

1- A distinção que as escrituras fazem entre corpo e espirito/alma, mostram que eles são elementos que fazem parte de naturezas diferentes. Sabemos pela ciência que nosso corpo faz parte da ordem material, e que portanto, o mesmo está sujeito as leis da natureza, como por exemplo, a lei da entropia, que é aquela lei que fala sobre a questão da desordem das coisas e que explica porque envelhecemos. Agora em relação a nossa parte espiritual, para entendermos a natureza dela, temos que olhar para as escrituras. A maior definição do que é espirito, é dada por Jesus quando ele fala sobre Deus: "Deus é espirito" (Jo.4.24), A expressão, espirito, mostra que ele é distinto da ordem material, e que portanto, as leis que afetam todo o resto da matéria não afetam o ser de Deus. Essa natureza espiritual de Deus é o padrão para entendermos os outros seres espirituais. Os anjos por exemplo,  são chamados de espíritos ministradores, (Hb 1.14), em outra parte fala que eles são imortais, (Lc 20.36). Os próprios demônios, que são chamados de espíritos imundos, em virtude de sua natureza extremamente corrompida, por serem espirituais, também acabam destrunfando de imortalidade, isto é visto no episódio do endemoninhado gadareno (Mc 5.1-20), quando os demônios pedem para Jesus para possuírem uma manada de porcos, ao invés de serem lançados no abismo. A manada de porcos pereceu na águas, mas certamente aquela legião de demônios continuou existindo. Essa passagem inclusive mostra, que o que é espiritual, não pertence a ordem material, haja visto, que milhares de demônios habitavam dentro de uma única pessoa. Parece muito lógico concluir que quando a bíblia trata com a palavra espirito, sendo ela aplicada a Deus, anjos ou até mesmo os demônios, o conceito é de algo que é diferente do material e que portanto não estão sujeitos as mesmas regras que a matéria está sujeita. Podemos,então, inferir disso, que quando a bíblia fala do espirito humano, ele também faz parte da mesma natureza dos outros seres espirituais, e uma das características dessa natureza que vimos, é a imortalidade. 

2- Uma outra questão importante, está no fato de que, se temos uma alma/espirito em nós, toda a obra que o Espirito Santo de Deus está fazendo e construindo dentro do nosso homem interior, não será interrompida  com a morte.O texto de 2 Co. 4.16 mostra bem isso: "Ainda que o nosso homem exterior (corpo) se corrompa, o interior (alma), contudo, se renova dia a dia". Agora pensem comigo, qual seria o sentido de Paulo dizer que o corpo se corrompe (envelhece), e a alma se renova, se tudo desaparece na morte? O que quero dizer, é que nosso espirito que foi vivificado na conversão e que está recebendo a santíssima influência do Espirito Santo, influência que vai aparecer na forma de fruto do Espirito, (Gl 5.23), será conservada após nossa morte, por causa da sobrevivência da nossa parte imaterial. Apocalipse 14.13 inclusive diz, que as nossas obras nos acompanham após a morte, o que faz mais sentido quando visto a luz da sobrevivência da alma. Para ilustrar isso podemos usar o conceito da informática do backup. O backup é toda a informação que você guardou previamente, para que no momento que seu computador "morra" você possa restaurar todos os dados em uma nova maquina. Aplicado a nós, o backup está em nossa alma que com a morte do corpo ainda existe, e que na ressurreição, será restaurada em um novo corpo. A nossa existência, após a morte, mantem uma ligação ontológica entre o que somos agora e o que seremos após a ressurreição. Acreditar que a alma morre com o corpo, cria um dilema ontológico, haja visto, que na ressurreição, o ser que será ressuscitado, é totalmente novo, pois, nada restou do que éramos. Nesse sentido, podemos entender o que Jesus diz em Lc 20.38, que Deus é Deus de vivos e não de mortos, pois a essência de Abraão de Isaque e de Jacó ainda existiam.


Ressurreição e imortalidade da alma

A ressurreição futura aparentemente coloca em xeque a questão da imortalidade da alma, já que, se nossa alma continua existindo após a morte do corpo, isso tornaria a ressurreição redundante ou até  mesmo desnecessária. Já vimos, que morte não precisa significar necessariamente entrar em uma inexistência temporária, morte, segundo nosso conceito, é o rompimento da ligação que há entre o corpo e a alma, Tiago, por exemplo diz, que é o corpo que está morto sem o espirito e não o contrário (Tg. 2.26). Esse estado de separação é uma situação temporária, que vai durar até a ressurreição do último dia. O fato de ser temporária, já mostra que isso é uma condição imperfeita. O destino final dos salvos, será viver em um novo mundo com um novo corpo, onde nunca mais haverá o rompimento da ligação entre corpo e alma. O maior tratado acerca da ressurreição das escrituras é com certeza 1 Co. 15. A algumas coisas que Paulo fala ali, que podem parecer colocar em suspense a imortalidade da alma, por exemplo, quando ele diz que: "E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos." (1 Co.15.13-14)  Esse texto é muito usado por quem não acredita na imortalidade da alma sob a seguinte ideia, Paulo não diria que os mortos estavam perdidos, caso tivéssemos uma alma imortal.  Essa lógica porém, não faz justiça ao texto, pois, fica claro que Paulo está falando de uma caso hipotético: "Se Cristo não ressuscitou." Ora, caso Cristo não tivesse ressuscitado, haveriam consequências lógicas disso. Uma delas é que os mortos em Cristo estariam perdidos.

O "estar perdido" pode ser entendido da seguinte forma: se Cristo não ressuscitou as almas do crentes não estariam  no céu, mas, sim perdidas, pois é a ressurreição de Jesus que garante que elas estejam junto a Deus, aguardando a ressurreição do corpo. A hipotética não ressurreição de Jesus faria com que todos estivessem perdidos, vivos e mortos. Interessante que toda a dialética paulina era para corrigir a crença presente em Corinto, de que não existe ressurreição dos mortos. Isso é claramente visto no versículo 13 onde ele diz: "E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou." A lógica de Paulo é simples neste caso, para refutar a descrença na ressurreição, ele estabelece as seguintes ideias: se não há ressurreição, Cristo também não ressuscitou, se Cristo não ressuscitou é vã a vossa fé e os mortos em Cristo estão perdidos. Porém, sabemos que os gregos, o que inclui os corintos, acreditavam na imortalidade da alma, todavia, eles acreditavam de uma maneira errada, pois, a alma além de ser imortal, era superior ao corpo em natureza, o que para eles tornava a ressurreição como algo quase irracional. Agora, observem que Paulo sabia da crença deles sobre a imortalidade da alma, mas, não é isso que o apostolo corrige, e sim, a crença errada de que a alma é superior ao corpo e de que os mortos em Cristo já haviam alcançado a perfeição em estado desencarnado. Paulo, então, alerta dizendo, que na verdade se Jesus não ressuscitou, aquelas almas estariam na verdade perdidas, pois, a redenção não teria sido realizada. Se fosse o caso do apostolo rejeitar a crença na imortalidade da alma, este seria o momento para ele falar a respeito.

O silencio de Paulo em 1 Co.15 acerca da alma/espirito, é ponto a favor da imortalidade e não da mortalidade, pois a crença na imortalidade está no pano de fundo do texto, e Paulo não a critica, o que nos faz crer que ele a endossou. Lembrando que Paulo como fariseu que foi, partilhou das mesma crenças que estes, as crenças segundo Lucas nos informa em Atos 23.8, incluía,  ressurreição,  anjos e espíritos. Alguns entendem, que a palavra espíritos usada por Lucas, não se refere a espíritos humanos, mas sim, que isso seria referência a forças malignas ou coisas do tipo.  Obvio, que para um mortalista admitir que espíritos em At 23.8 são de pessoas, seria o mesmo que jogar a toalha, e admitir que os fariseus criam na imortalidade da alma e consequentemente lidar com as implicações disso. O caso que é muito difícil conseguir sustentar que espíritos em Atos, não inclua espírito de pessoas. Grandes estudiosos, alguns até neutros em relação a este debate interno no cristianismo, afirmam que os fariseus criam sim em espíritos humanos sobrevivendo após a morte do corpo. Na enciclopédia judaica, uma obra magnífica, escrita por especialistas em historia judaica, no verbete sobre os Fariseus, o escritor diz o seguinte: "As doutrinas farisaicas têm mais em comum com o cristianismo do que se supõe, tendo preparado a base para o cristianismo, com conceitos como: o messianismo, a popularização do monoteísmo e literatura apocalíptica, e com crenças como: vida após a morte, ressurreição dos mortos, imortalidade e anjos." (Enciclopédia Judaica Vol. 16 Pg. 30). Essa grande obra de referência, claramente fala que os Fariseus criam na vida após a morte, bem como na imortalidade.

Uma questionamento que também é preciso tratar, é acerca da questão do estado intermediário. Se as almas já estão no inferno sofrendo, por que haveria necessidade de um juízo final? Essa pergunta desconsidera um outro fato descrito nas escrituras, sobre os anjos que pecaram. 2 Pedro 2.4 diz que esses anjos estão presos em cadeias escuras reservados para o dia do juízo. Ora, poderíamos fazer a mesma pergunta, por que esses anjos não foram exterminados quando pecaram? Por que eles foram presos até o dia do juízo? Podemos portanto, entender que existe um estado intermediário para os anjos pecadores, logo, a razão para esses anjos estarem em um estado de pré-condenação, explicaria o estado intermediário das almas humanas no inferno antes do juízo final. 

Na segunda parte deste estudo, vou abordar textos polêmicos relacionado ao tema, como por exemplo, Lc 16, a parábola do rico e do pobre;  Apocalipse 6, as almas debaixo do altar; 1 Samuel 28, a aparição de Samuel a Saul; 1 Pe 3.18 os espíritos em prisão, bem como muitos outros que estão diretamente relacionados com a questão da imortalidade da alma.


Leia a segunda parte aqui: Segunda Parte
Leia a terceira parte aqui: Terceira Parte
Leia a quarta parte aqui: Quarta Parte

















  

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